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janeiro 28, 2005
Vinganças Uma conspiração sórdida faz
Vinganças
Uma conspiração sórdida faz com que um nobre inocente seja condenado e enviado a uma prisão distante. Estamos no século XVII e, embora essa prisão seja francesa, direitos humanos ainda não freqüentam o discurso de ninguém – estar preso ali significa ficar isolado do mundo em uma cela de pedras enormes, sem latrina e sem mais que um retalho de luz solar entrando por uma minúscula janela. Em sua cidade, seu ex-melhor amigo dorme em sua cama, gasta seu dinheiro e diverte-se com aquela que teria sido sua esposa. O conde de Monte Cristo, no clássico de Alexandre Dumas, protagoniza uma fuga espetacular e dá início a uma vingança ainda mais impressionante. Enredo parecido com a história de Próspero, de A Tempestade, de Shakespeare, com os roteiros de metade dos filmes de Schwarzenegger e com o recente Kill Bill, de Quentin Tarantino.
Vinganças mirabolantes são garantia de sucesso. Especialmente, hoje em dia, é imprescindível que o sofrimento do mocinho seja exacerbado, que sua força de vontade e argúcia sejam elevados à enésima potência, mas, sobretudo, que o vilão morra com requintes de crueldade ao final.
O vilão tem que morrer. Mais que isso: ele tem que sofrer. Se não for assim, nosso senso de justiça ficará ofendido. Da mesma forma o marido canalha ou simplesmente distraído tem que ser passado para trás, o valentão da escola tem que ser desmoralizado em público e aí por diante. Faz parte da cultura pop.
A Bíblia, entretanto, tem duas histórias de vingança espetacular, mas às avessas. Uma, em larga, outra em pequena escala. Esta última é a história de José. Como os mocinhos vingadores dos filmes, ele sofreu demais: foi, ainda adolescente, vendido a mercadores de escravos (pessoas que também nunca haviam ouvido falar de direitos humanos, suponho), acabou numa masmorra egípcia, mas de lá, com força de vontade, argúcia e “algo mais”, chegou à situação em que podia vingar-se exemplarmente dos vilões da história. Mas, em pleno “gran finale”, ele chora e os abraça.
A outra história mostra – absurdo dos absurdos para a mente natural - um Deus Se deixando matar. Os vilões somos nós. Mel Gibson, que filmou a Paixão de Cristo, só aparece na tela uma única vez no filme. Aliás, ele não aparece, quem aparece são suas mãos: elas é que martelam o prego na mão de Jesus. Em meio à polêmica sobre o filme ser ou não ser antisemita, quando perguntado sobre quem havia matado a Cristo, ele repetiu sempre a mesma resposta, sem titubear: “fui eu”. Os vilões somos nós. Nós matamos o Mocinho dos mocinhos. Nós o fizemos com requintes de crueldade e a cada escolha que fazemos, enterramos mais fundo os cravos em Suas mãos.
Sua vingança, entretanto, é dizer: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Sua vingança é beber o cálice até o final. Sua vingança é amar. Eu não consigo entender, mas o meu Salvador decide deliberadamente alterar o final lógico da história.
Adoro finais inesperados! Alguém mais aí gostou do último Matrix?
Posted by marcol at 9:27 AM | Comments (5)
janeiro 24, 2005
Tarantinadas Até sábado à noite
Tarantinadas
Até sábado à noite eu dizia com um misto de orgulho e vergonha (pode?) que jamais havia visto um Tarantino. Aí os caras trancaram as mulheres no quarto e fizeram questão de tascar Kill Bill na tela. Achei bacana, descobri uma série de referências a quadrinhos do Frank Miller e outros subprodutos da poparte, sem falar que o negócio é divertido mesmo, bem fake e tals. Aí eles me emprestaram o DVD de Pulp Fiction, que vi no dia seguinte. Mas é o tipo de filme que se você não vê na época certa, perde o efeito, especialmente porque eu já havia ouvido tanto a respeito que conhecia tudo dele de antemão. E, na comparação com os filmes de Guy Ritchie, ouso dizer que prefiro o inglês, especialmente Snatch. Mas na verdade não é lá meu gênero cinematográfico predileto.
Inspirado nessa overdose de Tarantino, então, decidi retomar aqui o...
Museu de criminalística dadaísta É por aqui que vai pra lá?
O crime da rua Kubanakan
A despeito de clamoroso e repugnante, a mídia quase não tocou no assunto, com a exceção desonrosa de uma ou outra publicação especializada em folhetins. No mais, contudo, apenas comparações entre este crime contra o bom gosto e outro do mesmo quilate: Pedro, o Escamoso, decerto algum primo de Carlos, o Chacal.
O assassinato de John Kenny G.
Aconteceu em Dallas. Ou melhor, em um intervalo da interminável novela Dallas. Depois de uma cena em que J.R Ewing faz mais alguma malvadeza inominável, Lee Oswald, já sob os efeitos desconstrutores de cérebro da atração televisiva norte-americana, pegou seu rifle predileto, abriu a janela e a apontou para o prédio ao lado, colocando na mira a cabeça do saxofonista gay que, com um agudo de 16 minutos sem respirar não lhe permitia concentrar-se nas inflexões sensuais da voz de Pamela Ewing.
O crime do amá-la
Réu confesso, ele foi condenado a vagar eternamente a sós por tamanha audácia. Aconselharam-no a fatiar aquele sentimento e despachar numa mala perfumada para Helsinque, mas em lágrimas ele atraiu sobre si o agravamento da pena: pediu para vê-la mais uma vez.
O creme não com pinça
Na sorveteria, deliciava-se comendo todo tipo de sabor diferente com uma pinça. Mas para o de creme pediu uma pazinha.
Posted by marcol at 2:16 PM | Comments (6)
janeiro 20, 2005
Poesia cotidiana Por exemplo: o
Poesia cotidiana
Por exemplo: o cachorro se espreguiçando quando eu saio com a tigela de comida.
Ou meu filho, grogue de sono, dizendo tchau papai.
Ou a nuvem de perfume me engolfando quando as meninas apressadas passam por mim na passarela do trem, seguindo em seu rebolado musical.
Ou o fresco do ar matinal e a Berrini acordando e eu com as páginas do livro viradas na viagem ainda dançando na cabeça.
Ou ver o amigo chegando lá na esquina pra gente almoçar junto trocando figurinhas sobre filmes e livros e fé.
Ou o riso do filho - ele de novo, baita fonte de rima! - com a guitarra de plástico na mão, tocando e cantando enquanto o DVD do Michael W. Smith rola na tv.
Ou o brilho dos olhos da esposa me contando as coisas mínimas do dia.
Ou o som quase inaudível da folha do livro virando.
Ou a lombada vermelha da Bíblia querendo pular na minha mão.
Não, não. Tudo junto. Vejo um Deus poeta, sorrindo a cada verso que escreve.
Posted by marcol at 8:27 AM | Comments (7)
janeiro 17, 2005
Enquanto isso, no salloon de
Enquanto isso, no salloon de Jack, Cabeça de Jabuti...
O xerife Bill "Murros" Wilkinson admira com lânguidos olhos vermelhos o fundo de seu copo. Batendo-o à mesa com um profundo suspiro, vocifera:
- Jack, mais um rabo de galo extra forte com groselha!
Silêncio.
- Jack!
...
- Jack!?
...
- Jack, seu protozoário maneta sem pâncreas, me traz mais um rabo de galo extra-forte com groselha!!!!
Jimmy Mãos de Borboleta interrompe um pouco a execução de "Dear Mary, take my sproket and sing" para ver o que acontecia. Juanito Manos Leves trepou no balcão, olhou pra baixo e gritou:
- DESFIBRILADOR! ALGUÉM TRAGA UM DESFIBRILADOR!!!!!
- Oh, Jack - murmurou Rosa, a Rumorosa, antes de desmaiar com estrondo. Todos acorreram a ver se ela estava bem enquanto Jimmy Mãos de Borboleta fez uma ponte para "Winky Pinky Goes Away" sem perceber que, um tanto nervoso que estava, acabou imprimindo involuntariamente uma levada meio soul na canção.
Posted by marcol at 5:07 PM | Comments (4)
janeiro 11, 2005
Revista Época - uma aula
Revista Época - uma aula de jornalismo tupiniquim
Nos últimos dias me diverti vendo, em um forum de que participo, cartas abertas à revista Época criticando uma matéria sobre criacionismo publicada em sua primeira edição do ano. Foram quatro cartas ao todo, todas indignadas e muito bem escritas. Duas delas eram assinadas por pessoas citadas na matéria, apontando distorções e extrema parcialidade no texto da jornalista Eliane Brum.
Só pra exemplificar, Eliane Brum opõe criacionistas a cientistas. Ou seja, ela diz que os criacionistas não são levados a sério pelos cientistas. Diz isso, embora os entrevistados por ela sejam, para todos os efeitos, cientistas! Um deles, por sinal, Dr. Ruy Vieira, foi diretor-científico da FAPESP e é fundador da Academia de Ciências de São Paulo. A jornalista ouviu três criacionistas e dois evolucionistas (Marcelo Gleiser foi um deles, figurinha fácil), mas o que esses últimos disseram foi reproduzido na íntegra, com fotinhos e tudo mais. Nomes de respeitados geólogos e biólogos criacionistas, oferecidos à jornalista, foram desprezados. O que os outros três disseram, contudo, foi só citado no corpo da matéria em excertos descontextualizados. Ainda: a matéria dá a entender que no evolucionismo todo mundo é bom e não há controvérsias, ao passo que o criacionismo é rachado. Enfim, pinta o criacionismo como estúpido, retrógrado e sem bases científicas.
Independetemente de tuas convicções a respeito, a questão aqui não é criacionismo, mas jornalismo. A impressão que a jornalista indubitavelmente quer deixar é a de bem contra o mal, de idade da razão contra idade média, e para isso assassina a boa técnica jornalística e presta um desserviço a seus leitores, ao invés de elencar os argumentos de ambos os lados (coisa que, nesse caso específico, tem sido feito cada vez mais nos EUA, por exemplo) e deixar que cada um tire suas conclusões, faça suas escolhas. A matéria parece ter sido comprada por rincões incomodados com o debate ou a jornalista se arroga as prerrogativas de última defensora do bom senso.
A edição desta semana da Época traz, na seção de cartas, quatro manifestações sobre essa matéria, todas elogiosas e reforçando o tom da matéria. O curioso é que diz embaixo que a matéria mais comentada da semana foi justamente esta. Só 4, entrentanto, mereceram publicação. Ora, então todas as cartas a respeito do assunto foram no mesmo tom? Onde foram parar as manifestações dos entrevistados criacionistas? Nenhuma palavra, nenhum espaço.
Congratulações efusivas a todos que assinam esse lixo. Aos que assinam outras, boa sorte. It`s all true, mon ami, este é nosso mundo.
Se quiser as cartas de Ruy Vieira e outros entrevistados, peça nos comentários. Porque na Época você nunca lerá, nem que gaste seu precioso dinheiro comprando esse ícone do vetusto jornalismo tupiniquim.
Posted by marcol at 9:03 AM | Comments (11)
janeiro 10, 2005
Fé
Onde estava Deus?
Toda sexta-feira, com parcas interrupções, desde 1998, eu me assento na frente da tela do computador e entre uma piscadela e outra do cursor sobre uma página em branco do Word eu respiro fundo e faço uma breve prece. É possivelmente um dos momentos mais solenes da minha semana: a hora de escrever sobre fé. Solenes, porque valorizando, como valorizo, a fé, não posso pisar seu território sem o temor de o fazer levianamente.
Mando esses textos para meus amigos e alguns conhecidos virtuais e às vezes algum deles gera alguma discussão ou troca de idéias edificantes. Nesses textos os acontecimentos cotidianos, as últimas leituras, o curso enviesado de minhas reflexões, tudo se reflete.
Na última sexta-feira escrevi algo chamado "Onde estava Deus?" Percebi que a idéia foi partilhada por trocentas outras pessoas, a começar pelo Inagaki. De fato, a pergunta, ante as cenas horríveis que nos chegaram da Ásia, é quase trivial. Óbvia. Mas nem por isso superficial ou digna de ser ignorada.
Talvez eu divida aqui o que escrevi na sexta, não sei. Não costumo falar de fé aqui, embora não ache que deva fazer uma separação entre fé e outras coisas, sendo que minhas "outras coisas" são todas pintadas sobre o pano de fundo da fé. Ela perpassa tudo. Não sei, mas eu queria agora dividir uma outra coisa. Um outro texto com a mesma temática e título, publicado no New York Times hoje. Quem mo mandou foi o compadre Helio Serafino, sempre alerta.
Vale a pena a leitura, nem que seja necessário usar o bom e velho tradutor automático:
Where Was God?
By William Safire
Published: January 10, 2005
In the aftermath of a cataclysm, with pictures of parents sobbing over dead infants driven into human consciousness around the globe, faith-shaking questions arise: Where was God? Why does a good and all-powerful deity permit such evil and grief to fall on so many thousands of innocents? What did these people do to deserve such suffering?
After a similar natural disaster wiped out tens of thousands of lives in Lisbon in the 18th century, the philosopher Voltaire wrote "Candide," savagely satirizing optimists who still found comfort and hope in God. After last month's Indian Ocean tsunami, the same anguished questioning is in the minds of millions of religious believers.
Turn to the Book of Job in the Hebrew Bible. It was written some 2,500 years ago during what must have been a crisis of faith. The covenant with Abraham - worship the one God, and his people would be protected - didn't seem to be working. The good died young, the wicked prospered; where was the promised justice?
The poet-priest who wrote this book began with a dialogue between God and the Satan, then a kind of prosecuting angel. When God pointed to "my servant Job" as most upright and devout, the Satan suggested Job worshipped God only because he had been given power and riches. On a bet that Job would stay faithful, God let the angel take the good man's possessions, kill his children and afflict him with loathsome boils.
The first point the Book of Job made was that suffering is not evidence of sin. When Job's friends said that he must have done something awful to deserve such misery, the reader knows that is false. Job's suffering was a test of his faith: even as he grew angry with God for being unjust - wishing he could sue him in a court of law - he never abandoned his belief.
And did this righteous Gentile get furious: "Damn the day that I was born!" Forget the so-called "patience of Job"; that legend is blown away by the shockingly irreverent biblical narrative. Job's famous expression of meek acceptance in the 1611 King James Version - "though he slay me, yet will I trust in him" - was a blatant misreading by nervous translators. Modern scholarship offers a much different translation: "He may slay me, I'll not quaver."
The point of Job's gutsy defiance of God's injustice - right there in the Bible - is that it is not blasphemous to challenge the highest authority when it inflicts a moral wrong. (I titled a book on this "The First Dissident.") Indeed, Job's demand that his unseen adversary show up at a trial with a written indictment gets an unexpected reaction: in a thunderous theophany, God appears before the startled man with the longest and most beautifully poetic speech attributed directly to him in Scripture.
Frankly, God's voice "out of the whirlwind" carries a message not all that satisfying to those wondering about moral mismanagement. Virginia Woolf wrote in her journal "I read the Book of Job last night - I don't think God comes well out of it."
The powerful voice demands of puny Man: "Where were you when I laid the Earth's foundations?" Summoning an image of the mythic sea-monster symbolizing Chaos, God asks, "Canst thou draw out Leviathan with a hook?" The poet-priest's point, I think, is that God is occupied bringing light to darkness, imposing physical order on chaos, and leaves his human creations free to work out moral justice on their own.
Job's moral outrage caused God to appear, thereby demonstrating that the sufferer who believes is never alone. Job abruptly stops complaining, and - in a prosaic happy ending that strikes me as tacked on by other sages so as to get the troublesome book accepted in the Hebrew canon - he is rewarded. (Christianity promises to rectify earthly injustice in an afterlife.)
Job's lessons for today:
(1) Victims of this cataclysm in no way "deserved" a fate inflicted by the Leviathanic force of nature.
(2) Questioning God's inscrutable ways has its exemplar in the Bible and need not undermine faith.
(3) Humanity's obligation to ameliorate injustice on earth is being expressed in a surge of generosity that refutes Voltaire's cynicism.
E-mail: safire@nytimes.com
Posted by marcol at 1:29 PM | Comments (2)
janeiro 6, 2005
Ásia, Eisner, Linklatter
Ásia
O Jornaleco publica na sua capa, sob uma excelente citação de John Donne, diretrizes para quem se sente movido a ajudar os países atingidos pelos desastres dessa virada de ano.
Grande iniciativa da Mécia e Cia..
Eisner
Morreu um pequeno gênio do século XX. Will Eisner, conhecido como o criador do Spirit, foi um dos cartunistas que melhor entendeu as potencialidades da história em quadrinhos, uma forma de expressão artística tipicamente século XX, embora os primeiros rabiscos datem do final do século XIX. Cada quadrinho seu era um estudo de expressividade gráfica. Eisner é autor também de diversos livros sobre a arte, mas sobretudo de crônicas sobre sua infância em Nova Yorke e sobre a realidade que o cercava. O trabalho mais belo que conheço dele saiu no Brasil com o nome de O Edifício, pela Editora Abril, uma sinfonia urbana sobre personagens ligados de uma forma ou de outra a um Edifício de NY que vive apogeu e declínio ao logo das décadas. Fantastique, mon ami.
Linklatter

Como fantastique é Antes do Por-do-sol, a continuação de Antes do Amanhecer, sobre o qual falei ontem. Fui ver com a patroa e saímos ambos em estado de graça.
Li por aí depoimentos de pessoas frustradas. Diziam, a maioria, que este segundo filme não repete os diálogos profundos do primeiro, e que desperdiça a fotografia de Paris focando demais nos personagens.
Ora, eu apartearia que, primeiramente, o diálogo de pessoas de 32 anos (o filme se passa 9 anos depois do primeiro)é fatalmente diferente do de pessoas de 23. É absolutamente natural que Jesse e Celine abandonem preocupações com "as verdades profundas" da vida e se concentrem no que elas mesmas fizeram de suas vidas, sobretudo em como o decurso do tempo frustrou expecativas e demonstrou que alguns sonhos eram inviáveis. Linklatter, o diretor e autor, opta pela verossimilhança, pela possibilidade. Acaba pagando esse preço, de frustrar pessoas que esperavam o mesmíssimo tipo de filme. Há muitas conexões, entretanto: são as mesmas personagens, mas amadurecidas. Lutando para esconder um certo amargor (essa pontinha de melancolia fica na boca da gente e não me deixa parar de pensar em galhos sendo carregados pela correnteza - gente que insiste em manter-se longe de Deus por extremo amor à imagem do que convém a pessoas adultas e cultas do século XXI).
Quanto à segunda crítica, bá, nem merece muito latim. A opção por enquadrar Julie Delpy em lugar de esquinas velhuscas me parece razoável, e quem há de dizer que a atriz francesa não é uma parte considerável do brilho da cidade? Não por ser maravilhosa, mas porque Paris é feito desse tipo de fulgor.
Claro, opinião de quem nunca esteve lá.
O clímax do filme acontece dentro do carro, enquanto Jesse dá uma carona a Celine. Nessa seqüência, longa como todas nesse filme-diálogo, o coração quase me sai pela boca. Arremate-se com um final perfeito e, voilá, mais um filme pra pequena lista de prediletos.
Não assista sem ver ou rever Antes do Amanhecer. Ter assistido aos dois na mesma semana foi. Hã. Sublime. Isso.
Posted by marcol at 9:43 AM | Comments (9)
janeiro 5, 2005
Julie Delpy se ajeita na
Julie Delpy se ajeita na grama e diz baixinho:
- Do yoy know what I want?
- What? Ethan Hawke.
- To be kissed.
- That I can do.
Cena trivial, não fosse Julie Delpy com um sotaquezinho francês bem sutil, numa praça de Viena.
Queria botar aqui uma fotinha dos dois, mas o Tiagón ainda não me ensinou como se faz isso. Fica pra próxima.
Ontem levantei no horário normal e segui o percurso habitual me sentindo um caroço de jaca. Quando a Tatiana viu o estado e ouviu minha voz oito oitavas abaixo, mandou voltar pra cama. Obedeci. Dormi até as onze, trabalhei um pouco no computador, comi vendo o inútil Globo Esporte (o que esperar dum programa esportivo duma terça-feira do começo de janeiro?), dormi de novo até as duas e meia e então levantei melhor, já me sentindo a polpa da jaca. Mas meio verde, ainda, manja?
Aí refestelei-me no sofá e tasquei o Antes do Amanhecer, de onde saiu a cena retro descrita, cujo DVD me foi gentilmente emprestado por Helio Serafino. A desculpa para rever o filme era treinar o ingrêis. Botei lá as legendas no idioma bretão e sorvi a película sem pressa.
É um filme diferente. Tem uma premissa maluca, mas o desencadeamento dos fatos e a estrutura dos diálogo me pareceram extremamente verossímeis. Dois garotos de 23 anos, perdidos num mundo laico, entre as expectativas externas para suas vidas e sua própria indecisão e, sobretudo, aquele pasmo ainda juvenil com as coisas grandes, as questões sem respostas convicentes, essa coisa de morte, o que existe depois, conflitos entre homens e mulheres, amor e sexo, medos e angústias. Igual ouvir um disco da Legião Urbana aos 20 anos.
Os atores parecem ter um texto básico mas não se limitam muito a ele, vão interagindo com a paisagem, sem pressa, mas também sem perder muito tempo com trivialidades, falando do que lhes parece mais importante, mais essencial, porque só têm aquela noite e sua história em tese precisa se resumir a ela.
Tem gente que adora esse filme, outros que o odeiam, acham cheio de blábláblá sem ação. Pra eu ver duas vezes numa semana percebe-se que me enquadro no primeiro grupo, embora o impacto seguramente tivesse sido mais profundo se o tivesse assistido em seu ano de lançamento, 1995.
Há uma continuação nos cinemas, mostrando o que acontece ao inusitado casal 9 anos depois. A idéia é ir ver logo, com a patroa.
Uma das últimas falas de Delpy é algo mais ou menos assim:
- You said about couples that can't bear living together because they could foressee each maneirism of the other. Don't know. I think I just could love someone I know interely.
Apesar de achar que ela vai então ficar sem amar o resto da vida, essa observação desesperada em prol do amor foi uma coisa bela, hermano, bela.
Posted by marcol at 9:02 AM | Comments (4)
janeiro 3, 2005
Tive uma reunião hoje às
Tive uma reunião hoje às 10 da matina para discutir a reorganização societária da empresa. Hoje, 03 de janeiro. A próxima vez que alguém disser que no Brasil o ano começa depois do carnaval vai levar uma chave de orelha bem dada.
* * * * *
O André passou por aqui e me salvou. Disse que pra eu visualizar as páginas do blogger.com.br basta acrescentar ao link /index/html. Deu certo e já pude acessar Milton Ribeiro, por exemplo.
Valeu, André!
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Tendo acesso de novo ao blogger, constatei que o especial de natal de Persela, a Vesga, não mereceu atenção de ninguém, nem de algum insone internauta solitário e de saco cheio de reveillon e quejandos.
O que me fez lançar-me a blogar foi a possibilidade de falar asneiras, hábito saudável do qual tive que abrir mão por contingências profissionais. Com o tempo, veio a vontade de falar outras coisas e aí surgiu Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas, para onde direcionei a verve besteirólica. Chamei a compor o time os notáveis Helio Serafino e Alexandre Spissoto, com quem vivi dias de glória inefável. Ernestinho foi blogs of notes e what`s up algumas vezes e recebemos centenas de comentários mentecaptos.
Meus colegas, contudo, tiveram de parar de blogar por circunstâncias pessoais (o primeiro pegou uma doença estranha e não catalogada, e o segundo está com dificuldades com seu marca-passo, que foi comprado no Paraguay). Assim, fiquei solo e decidi transportar para Ernestinho um antigo sucesso aqui de É por aqui..., Persela, a Vesga, novela surgida na esteira de Betty, a Feia e Pedro, o Escamoso e que na primeira versão havia terminado um tanto abruptamente.
Nessa segunda versão, capítulos inéditos foram acrescentados. Estou estudando as propostas para lançar a segunda temporada em DVD.
A verdade é essa blog novela só não foi ainda tirada do ar por ausência de ibope porque ninguém mais que eu está interessado em saber como vai terminar. Confesso que não faço idéia.
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Lendo Milton Ribeiro descobri que este ano Erico Verissimo completaria 100 anos. Não é uma data pra se ignorar. O cara me apresentou à literatura, já que até então eu só lia livros de aventura. Minha mãe deixou sobre o criado mudo OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, que comecei a ler a contragosto. Aquilo logo me varou, partiu ao meio, engasgou minha garganta. O impacto do primeiro livro de verdade foi avassalador e me marcou pra sempre.
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Nesses dias mais sossegados tornei a pisar o Orkut, que é um amontoado de inutilidades no geral. Revisitei, contudo, a excelente comunidade "Autistas sim, e... o que mesmo?", um troço absolutamente nonsense povoado de gente brilhante e hilária. Tome uma vez ao dia, via olhal, você vai curar, meu filho.
Posted by marcol at 3:35 PM | Comments (5)