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dezembro 28, 2004

Contemporâneos Manjo nada deles. Nada.

Contemporâneos

Manjo nada deles. Nada. Considerando que se eu ler sem parar até o fim da vida e se o fim da vida for lá pelos 70 eu terei talvez lido quase 1% do que se publica, bom, acho que tenho que aproveitar bem o meu tempo e daí considero um tanto arriscado ler alguém que não tenha sobrevivido ao crivo do tempo.

Claro, é uma manezice sem tamanho minha.

Esses dias, contudo, comprei Falando com o Anjo. Eu precisava dar um presente de amigo secreto pra minha prima, que adora Nick Hornby e achei que essa era uma boa pedida. Como comprei com alguma antecedência o livro, aproveitei pra ler, tomando o cuidado pra não deixar marcas de baba, cílios perdidos, manchas de suco de gabiroba e nem orelhas de manuseio. Você acha que desvirginar um livro que se vai dar de presente é antiético, anticármico, ou antiqualquercoisa? Entre em contato com nosso atendimento ao leitor e aguarde uma resposta. Sentado(a).

Pois bem, Falando com o Anjo é uma coletânea de contos de autores badaladinhos contemporâneos, organizada pelo Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola), que tem renda revertida para uma escola especializada em crianças autistas de Londres, onde seu filho estuda. O relato que ele faz do descaso do governo inglês para com os autistas teria me deixado com pena, não estivesse eu lendo o livro no ônibus e, levantando a cabeça, não visse uma das muitas favelas do caminho pra casa.

Tirando os contos metidos a Trainspotting (o autor de Trainpotting escreve um, aliás), a coletânea é bem divertida, inventiva e bem escrita. Conta, por exemplo, com Helen Fielding, de O Diário de Bridget Jones, mas a maior surpresa foi ter me deliciado com um conto do ator Colin Firth (dos filmes O diário de Bridget Jones, por exemplo). O título de melhor conto, contudo, eu creio que deva ir para O Escravo, de Roddy Doyle, uma radiografia da crise da meia idade que seria perfeita não tivesse terminado à la filme americano.

Depois desse superficial e rápido demais mergulho nos tais dos contemporâneos gringos, comecei a pensar nos contemporâneos tupiniquins que eu conheço. Sim, porque conheço alguns. O fato de, quiçá, sua literatura não ter sido impressa em tinta sobre papel não muda nada. Estou me referindo a blogueiros de verve sarada e a verdade é que não temos nada menos que esses caras que vendem milhões de livros. Confira a estréia da Fal no Blog de Papel, por exemplo. Tiagón, Milton Ribeiro, Nelson Moraes, os demais participantes do Blog de Papel e uma penca de outros que eu talvez não conheça muito bem ainda, é gente que tem muito a dizer e sabe a forma de o fazer.

Só tiveram a desgraça de nascer num país que não lê.

Posted by marcol at dezembro 28, 2004 8:58 AM

Comments

Viu? É por isso que eu não citei esse japonês. Vive achando furo dos outros, esse mala.

Posted by: tiagón at dezembro 29, 2004 8:50 AM

Só uma correção no comentário do grande Tiagón: o matogrossense Joca Terron e a campineira Índigo vestem na verdade a camiseta da gloriosa Vila Madalena nesse cenário contemporâneo. Ademais, a prosa carioca já está mais do que bem representada com a Ciça Giannetti, o JP Cuenca, a Mara Coradello, o Gustavo de Almeida, a Crib Tanaka e outros nomes recém-publicados no livro-site Paralelos.

De minha parte, só me resta dizer que tenho orgulho em ter "publicado" boa parte desse pessoal no finado Spam Zine. E-zine do qual você, Marco, também fez parte. Estamos apenas começando. =)

Posted by: Inagaki at dezembro 28, 2004 9:50 PM

Blog de Papel que conta contigo, é bom lembrar - o que te coloca no mesmo balaio dos outros que citastes, e agradeço a citação, honrado :)

Ainda engrossaria tua lista com a nova prosa carioca, que traz nomes como JP Cuenca, Cecilia Gianetti, Joca Terron e Indigo; com os reminiscentes do "portoalegrense brasileiro" Cardosonline, como o próprio Cardoso, Daniel "Mojo" Pelizzari e Daniel Galera; os inquietos das Edições K - o bugre Delfin e o botequeiro-mor Marcelo Benvenutti; e o cangaceiro sem pudor Marcelino Freire.

(tem um entrevistão com alguns deles em http://www.paralelos.org/out03/000025.html).

Também se deve notar o trabalho de cabeças como Augusto Sales, do paralelos;, Jorge Rocha, no paralelos; e no Patife; e Nelson Provazi, da editora Baleia, que têm trabalhado com muito amor e atenção em prol da disseminação dessa literatura contemporânea.

Mas o que me fez sorrir aberto foi a frase "O fato de, quiçá, sua literatura não ter sido impressa em tinta sobre papel não muda nada", porque vem de encontro a uma série de idéias malucas que eu e o compadre Gejfin estamos redemoinhando. Não é só a literatura que é contemporânea, mas as maneiras de lidar com ela, de abraça-la e de processa-la.

Por enquanto é só palpite, mas acho que estamos fazendo História. Mesmo sem querer. Abraço.

Posted by: tiagón at dezembro 28, 2004 1:28 PM

E apois. Alguns conseguem oreconhecimento depois que morrem, mas aí já viraram antigos. Difícil essa cultura de literatura de museu, né?
Que 2005 traga felicidades inenarráveis e descobertas narráveis - afinal a gente ainda precisa de seu blog. Beijão!

Posted by: Luciana at dezembro 28, 2004 11:17 AM

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