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dezembro 30, 2004
O ano morreu. Quem matou
O ano morreu.
Quem matou 2004?
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É difícil falar de outra coisa qualquer quando 100.000 pessoas foram surpreendidas por ondas enormes e acabaram mortas. Que tom grave e mórbido o do fim deste ano. O Inagaki já fez isso, mas não dá pra deixar de citar Tiagón: como se sentiria um de nós, sentadinho na areia ali de Xangri-lá, tomando uma caipira do Maninho, olhando pro marrr, um Caymmizinho rolando ao fundo, então láááá do fundo vem uma onda, que vai crescendo, olha que bonito amor que onda grandona, levantando, empinando e quando se vê é uma parede de água, e não se faz nada, não se corre, não se reza, não acontece nada, porque não adianta. Neguinho se sente partícula, não mais protagonista. Isso é colocar as coisas numa escala mais verdadeira.
E no entanto Paulo, o apóstolo, diz que a Terra geme, como quem está para dar à luz.
Eu oro.
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Enquanto isso, baixaram um firewall aqui que proíbe o acesso a algumas páginas, entre elas todas as que terminam com blogger.com.br. Sabe o que é ficar sem poder ler Milton Ribeiro??? Sorte que meu próprio blog foi salvo de lá pelos verbeatboys, mas Ernestinho, uma parte de mim, ficou lá. Oh, oh, oh!
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Eu espero que você entre bem. E que tome decisões saudáveis, oportunas e construtivas. Porque é bom construir.
Posted by marcol at 2:29 PM | Comments (5)
dezembro 28, 2004
Contemporâneos Manjo nada deles. Nada.
Contemporâneos
Manjo nada deles. Nada. Considerando que se eu ler sem parar até o fim da vida e se o fim da vida for lá pelos 70 eu terei talvez lido quase 1% do que se publica, bom, acho que tenho que aproveitar bem o meu tempo e daí considero um tanto arriscado ler alguém que não tenha sobrevivido ao crivo do tempo.
Claro, é uma manezice sem tamanho minha.
Esses dias, contudo, comprei Falando com o Anjo. Eu precisava dar um presente de amigo secreto pra minha prima, que adora Nick Hornby e achei que essa era uma boa pedida. Como comprei com alguma antecedência o livro, aproveitei pra ler, tomando o cuidado pra não deixar marcas de baba, cílios perdidos, manchas de suco de gabiroba e nem orelhas de manuseio. Você acha que desvirginar um livro que se vai dar de presente é antiético, anticármico, ou antiqualquercoisa? Entre em contato com nosso atendimento ao leitor e aguarde uma resposta. Sentado(a).
Pois bem, Falando com o Anjo é uma coletânea de contos de autores badaladinhos contemporâneos, organizada pelo Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola), que tem renda revertida para uma escola especializada em crianças autistas de Londres, onde seu filho estuda. O relato que ele faz do descaso do governo inglês para com os autistas teria me deixado com pena, não estivesse eu lendo o livro no ônibus e, levantando a cabeça, não visse uma das muitas favelas do caminho pra casa.
Tirando os contos metidos a Trainspotting (o autor de Trainpotting escreve um, aliás), a coletânea é bem divertida, inventiva e bem escrita. Conta, por exemplo, com Helen Fielding, de O Diário de Bridget Jones, mas a maior surpresa foi ter me deliciado com um conto do ator Colin Firth (dos filmes O diário de Bridget Jones, por exemplo). O título de melhor conto, contudo, eu creio que deva ir para O Escravo, de Roddy Doyle, uma radiografia da crise da meia idade que seria perfeita não tivesse terminado à la filme americano.
Depois desse superficial e rápido demais mergulho nos tais dos contemporâneos gringos, comecei a pensar nos contemporâneos tupiniquins que eu conheço. Sim, porque conheço alguns. O fato de, quiçá, sua literatura não ter sido impressa em tinta sobre papel não muda nada. Estou me referindo a blogueiros de verve sarada e a verdade é que não temos nada menos que esses caras que vendem milhões de livros. Confira a estréia da Fal no Blog de Papel, por exemplo. Tiagón, Milton Ribeiro, Nelson Moraes, os demais participantes do Blog de Papel e uma penca de outros que eu talvez não conheça muito bem ainda, é gente que tem muito a dizer e sabe a forma de o fazer.
Só tiveram a desgraça de nascer num país que não lê.
Posted by marcol at 8:58 AM | Comments (4)
dezembro 23, 2004
Pra dizer feliz natal Filmes
Pra dizer feliz natal
Filmes bíblicos na TV (a qualidade lá embaixo, pena), pessoas falando em paz e luz e outras idéias igualmente vagas, empresas veiculando comerciais bonitinhos com mensagens bonitinhas, jogadores de futebol visitando orfanatos vestidos de papai Noel, e-mails enternecedores circulando insistentemente (sempre os mesmos, indo e voltando), ruas efeitadas, os shoppings e edifícios de escritórios cheios de luzinhas piscantes, enfim, essa predisposição coletiva ao campo dos sentimentos acaba criando bizarrices que ao desatento passam ignoradas.
Por exemplo, amigo secreto na empresa. Engraçado como as pessoas se sentem obrigadas a “confraternizar”. A comprar um presente para alguém a quem não daria, em outra situação, nem um bombom. Na hora da revelação é um desfilar de elogios e protestos de admiração. Isso é bizarro, porque tendo 365 dias em um ano, acontece num só. As pessoas de repente se desarmam. Se juntam ao redor duma mesa com pãezinhos, panetone, docinhos e suquinhos e se permitem fazer piadas, rir alto. Isso tudo é bizarro, porque acontece só no natal, só no bojo do clima criado por esse inconsciente coletivo.
É como se a civilização ocidental dissesse: eu tenho que ser boazinha durante uns dias. É como se estivéssemos falando que não há alternativa para o atual estado de coisas, ou seja: uma média de 360 dias no ano em torno do meu próprio umbigo, do meu próprio cansaço, da minha própria cobiça, do meu próprio fel acumulado e cinco dias, quando muito (para muitos, uma única hora, enquanto dura a tal “confraternização”) para ser sorridente e dizer afabilidades.
Em suma, o natal descobre, pelo excesso de meiguice, os podres que guardamos sob o tapete. O contraste entre o habitual e o natal joga luzes sobre o essencial, e o que vemos deprime.
Pra dizer feliz natal vale tocar nessa bizarrice. Vale citar Paulo: “Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.”
Pra dizer feliz natal vale lembrar que Jesus Cristo nasceu para resolver o problema de uma vez por todas, não para nos abraçar uma vez por ano e nos sorrir passageiramente. Vale lembrar que, quando eu digo “feliz natal”, estou dizendo: que bom que Cristo nasceu para você e isso te exime de viver no cansaço, no rancor, na mágoa, na cobiça e no fel, isso te permite viver na esperança eficaz, sempre! Céu. Pra dizer feliz natal eu quero te desejar o Aniversariante do dia pelo resto do tempo e da vida.
Feliz natal, ora pois.
Posted by marcol at 6:32 PM | Comments (8)
dezembro 22, 2004
Chico Buarque termina este ano
Chico Buarque termina este ano da graça de Nosso Senhor de 2.004 com mais um trofeuzinho na prateleira: o de livro de ficção do ano para o seu Budapeste, segundo o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Acabei de comprar o livro e nem abri, então não me perguntem se concordo ou discordo do prêmio, o que ma chama a atenção nesse apagar das luzes do ano é a repercussão que isso teve.
Estou longe de manjar dos meandros literários desse país de não-leitores, mas quero crer que o Prêmio Jabuti é o mais importante que temos. Quem o arrepanhou no ano passado, contudo? Você sabe?
Ora, o célebre Arthur Nestrovsky, com seu popularíssimo "Bichos que existe & Bichos que não existem". Esse bicho, eu confesso, eu desconhecia a existência até que fui fuçar no sai-te da Câmara Brasileira do Livro.
Repare, portanto, que não estou apontando as mazelas dos outros, mas a nossa. Você pode até me vir com essa de que que prêmios são desimportantes, mas não é desse mérito que trato: é da desinformação geral sobre o que acontece em nossas letras, bom ou mau.
Té desanima. Mas que papo caquento pra um final de ano, hein?
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Só que hoje eu tou metido a bechta e a espirituoso:
Se o tempo é o melhor remédio, devo dizer que essa droga de remédio tem efeitos colaterias terríveis sobre a nossa pele.
Posted by marcol at 3:59 PM | Comments (3)
dezembro 20, 2004
O inerte - O ano
O inerte
- O ano acabou.
- Hein? Já tinha começado?
O fatalista
- O ano acabou!
- Eu sabia desde o princípio que isso ia acontecer!
O leitor de Persela, a Vesga
- O ano acabou.
Levando as costas da mão direita à testa, o outro responde:
- Oh! Oh!
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Subconto 2
A angústia era extrema. O barulho de copos e risadas disputava com a música eletrônica e por vezes ganhava. A iluminação apenas contornava os corpos claros que polvilhavam o ambiente e tornava os movimentos algo inebriante. Os olhos percorriam lépidos e era frequente encontrarem-se. Os lábios se abriam. Para serem ouvidos aproximavam-se dos ouvidos. Dentes luzidios. Muita gente. O mundo lá fora tirado da tomada. E a angústia, meu amigo, era extrema.
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Navegar é preciso, mas o ponto alto desse negócio é poder gritar "terra à vista!"
Posted by marcol at 9:28 AM | Comments (6)
dezembro 14, 2004
Prêmio Turbaína Baré dos Melhores
Prêmio Turbaína Baré dos Melhores do Ano (PBCMA)
Da redassão escolar
O já tradicional Prêmio Turbaína Baré dos Melhores do Ano divulgou ontem seus laureados de 2004. O evento reuniu dúzias de desocupados e figurinhas fáceis das colunas sociais dos jornais de bairro no Auditório "Mestre Marco Aurelio Brasil", que fica na Sede Mundial de É por Aqui Que Vai Pra Lá?, Inc., em São Paulo-SP. Nelson Ned e Virginie (do Metrô, tá ligado?) apresentaram a cerimônia vestidos de Pernalonga e Darth Vader, respectivamente.
Confira alguns dos premiados nas mais de 60 categorias do prêmio, que se repete todo ano desde 1843:
Melhor Penteado: Nesse esquisito, Marta Suplicy desbancou José Serra. Já deve ser um consolo.
Pior imitação do Clodovil: William Bonner. Claro.
Melhor imitação do Dr. Gori: Roberto Justus. Muito justus esse prêmio hahahahaha, entendeu? Justus ahahahahahahaahHAhahaHA
Melhor performance como ex-famoso: Marcelinho Carioca. Quem?
Prêmio "Vocês vão ter que me engolir": George W. Bush.
Melhor ausência: Carla Perez.
Prêmio "Uy, que nabón!": time do Grêmio (foi mal aí, Tiagón. Mas que foi, foi)
Os demais prêmios não puderam ser ouvidos porque o som estava muito ruim. Bom, confesso que eu tinha que estudar pra prova de origami e saí mais cedo. Se você estava lá e ouviu algum prêmio, favor colaborar informando-nos nos comentários.
Posted by marcol at 9:01 AM | Comments (11)
dezembro 10, 2004
Vamos tentar isto aqui. Lá
Vamos tentar isto aqui. Lá no Blog de Papel não rendeu nenhunzinho comentário.
Subconto número H
Jamílson levantou no meio do expediente, deu uma espreguiçada e foi até o minúsculo banheiro, fechando - claro, dãr - a porta atrás de si. Imediatamente todos ouviram um grito desumano, lacerado. Levantaram-se em uníssono e acorreram para a porta do banheiro, passando a esmurrá-la e chamando por Jamílson, que entretanto não respondia. Após um breve impasse, decidiram-se por forçar a porta. Foi só depois de dezesseis longos minutos tentando (e alguns ombros deslocados) que conseguiram entrar e encontraram Jamílson com as feições desfiguradas, os olhos esbugalhados fixos no nada e todos os cabelos de sua cabeça completamente brancos. Olharam em volta e nada de anormal. Azulejos brancos, o espelho, o vaso. Nada.
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Vaticínios Millorfernandianos (recomendados para sextas-feiras de final de ano):
"O que os olhos não vêem, a língua inventa".
"O sujeito pode cair de um edifício de trinta andares e nem se machucar, dependendo do andar que cai".
"Se não está todo mundo meio doido, eu estou completamente".
Posted by marcol at 4:20 PM | Comments (10)
dezembro 8, 2004
Tem gente que não gosta
Tem gente que não gosta de natal. Quando penso na enxurrada de adereços polonórticos, velhos barbudos e gordos e outros motivos quejandos, até entendo. Sobretudo quando entro num supermercado, numa loja ou no que quer que seja e ouço aquelas odientas músicas natalinas.
Odientas, sim. Especialmente porque existe música de natal de primeiríssima qualidade. Não precisamos ficar ouvindo tecladinhos mequetrefes. Nos EUA é normal artistas de ponta, especialmente cristãos, gravarem CDs natalinos com produções grandiosas, como eles sabem fazer melhor que ninguém. Arranjos jazzísticos, orquestras disneylândicas ou pops alvissareiros, qualquer coisa é infinitamente melhor do que esse negócio que nos enfiam guela abaixo.
A quase veterana Amy Grant gravou dois títulos natalinos excelentes. Se teu negócio é pop, tente Avalon. Mas o melhor trabalho é sem dúvida nenhuma das meninas do Point of Grace. São quatro mujeres de gogós privilegiadíssimos e que gastaram tudo no álbum "A Christmas Story". Tente baixar O holy night, ou então When Love Came Down e prepare-se para ter ímpetos destrutivos e anti-espírito-natalinos ao entrar no supermercado a próxima vez.
Posted by marcol at 6:15 PM | Comments (6)
dezembro 6, 2004
cinematográficas
Martin Luther Monk
Está passando silenciosamente, quase completamente ignorado, um filmaço chamado Lutero, que se propõe a contar a história do nome central da Reforma Protestante.
Interpretado - e bem - pelo Joseph Fiennes, o filme tem diversas virtudes: a primeira é focar um período determinante da História e que, contudo, é raramente tocado. Mesmo quem não tem qualquer afinidade com temas religiosos ou é católico roxo pode tirar proveito do relato daquele tempo específico pelo interesse histórico. O filme é bastante fiel. Fica a impressão remarcada de que ou Lutero foi beneficiado por uma felicíssima sucessão de acasos, que o pouparam da fogueira e permitiram-lhe completar sua tradução da Bíblia para o alemão e sua fulcral obra sobre o livro bíblico de Romanos, ou o dedo de Deus estava na coisa.
A segunda virtude é não contemporizar com o gosto contemporâneo pela racionalidade estrita, caminho trilhado por Tróia, por exemplo, que relegou o aspecto mitológico-religioso da Ilíada a uma notinha de rodapé às falas do Max Von Sidow. Lutero, ao contrário, não foge do embate teológico que se desenvolveu naqueles dias e mostra com muita propriedade a revolução que a pregação do monge alemão fez no modo como as pessoas entendem e se relacionam com Deus.
Fica uma advertência: para qualquer um que não tenha passado os olhos pelos livros de História a respeito do período, a descrição das barbaridades cometidas pela Igreja através da venda de indulgências e da exposição de relíquias pode parecer exagerada. Longe disso. O homem é o lobo do homem e é plenamente capaz de tais atrocidades. Mormente se sob a "chancela" de Deus.
Vale a pena.
Posted by marcol at 3:31 PM | Comments (9)
dezembro 3, 2004
"Dezembro. E o que perdido
"Dezembro.
E o que perdido
foi, volta, iluminado
pelo claro pensar
e reanima-se o jogo
eterno (e vão?)
o jogo da vida
renascendo de si mesma"
Carlos Drummond de Andrade
Aliás, essa estrofe de seu poema "Dezembro" já virou figurinha fácil de meus postes e textos dezembrinos. É o mês de olhar pra trás, ver o que foi, o que deveria ter sido e especialmente o que não foi e nem seria. Mas parecia que. O jogo não é vão, pressentia o poeta, embora no ato de botar no papel, duvidasse um pouco.
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Meu miniconto número c, do poste abaixo, parece ter sido um tanto não compreendido. Embora explicar conto seja como explicar piada, arrisco: a idéia era falar que as verdades absolutas da ciência sempre encerram uma empáfia absoluta. Aqui, verdade é uma coisa muito relativa e cambiável. Foi assim antes, é agora e vai ser no século XXIIIVSIID. Certo, mano?
Posted by marcol at 10:02 AM | Comments (7)