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outubro 29, 2004

Troféu poste da semana O

Troféu poste da semana
O prestigiado e já tradicional Troféu Poste da Semana, concedido pelo Comitê Gestor da É por Aqui Que Vai Pra Lá? Inc., criado agora mesmo, escolheu esta semana dois excelentes postes dos mestres da blogosfera empatados, cada um com 259 votos. Confiram:

From Nelson Morais, que era da praia e agora é Almirante:

Ensaios Almirânticos

OS MACACOS DO MUSEU BRITÂNICO

Aquela conhecida tese proposta por Rutheford, para ilustrar a gratuidade na combinação das idéias que compõem as grandes obras (milhares de macacos, no saguão do Museu Britânico, datilografando ao acaso, acabariam por compor ao longo do tempo a obra completa de Shakespeare), ganha neste blog uma rica exemplificação, com o detalhamento do conteúdo de alguns trabalhos que brotariam desta instigante metáfora simiesca. Sente-se no primeiro galho e aprecie, leitor.

Teríamos, portanto, a peça "MacacBeth", onde o protagonista, ao ficar com a macaca (no caso, Lady MacacBeth), elimina brutalmente quem se puser em seu caminho rumo ao trono da Escócia. Outro destaque seria "Muito Barulho por Bananada", onde, farto de descascar a banana sozinho, Benedict ousadamente convida sua desafeta Beatrice a provar do longilíneo fruto. Teríamos também "A Megera Domesticada", onde Katharina, uma histérica macaca de auditório, é estudada pelo antropólogo Desmond Morris, que acaba se apaixonando e tempos depois publica a erótica obra memorialista "A Macaca Nua". Não podemos nos esquecer também de "Macaco Antônio e Cleópatra" e "Mico Andrônico", entre outras.

Mas não apenas o teatro shakespeariano seria reproduzido pelo staff de símios datilógrafos. A lei das probabilidades mostra que dali poderiam sair também clássicos da literatura ("A Montanha Mágica dos Gorilas", narrando a estadia da primatologista tuberculosa Diane Fossey num jardim zoológico suíço) e roteiros de sucessos do cinema ( "O Último Orangotango em Paris", onde um velho macaco em crise existencial empurra na jovem Maria Schneider uma média de pau com manteiga) e mais, muito mais. São, como o leitor pode ver, exemplos em penca.

Ah, certo. Não procede a insinuação de que o conteúdo deste blog poderia ser reproduzido na experiência do museu britânico. Na verdade ele é já é originariamente redigido lá.

From Tiagón Casagrande, Lorde do Bereteando:


Resposta #322
(Porque fiquei com vontade de escrever depois que li o conto do Milton)

Sobem na moto e voam baixo pela estrada. Vêem pessoas, depois indústrias, depois só mato, então pequenas casas, logo depois fazendas. Passam por um posto de gasolina abandonado. Surge um homem com seus três bois, a lavadeira de bacia na cabeça. Aceleram ainda mais e não vêem mais nada, apenas borrões que passam pelos olhos, incontroláveis manchas cheias de humanidade, ou o espaço vazio que ganha desenhos irreais e sombras falsas. A reta da estrada acaba, começam as curvas e como um trem sobre trilhos deslizam sobre uma onda sinuosa imaginária, levando em seu rastro as folhas caídas das árvores que já estão no passado, levantando torvelinhos de poeira, criando micro-furacões de areia e pequenos insetos. Finalmente desenha-se a lagoa as suas frentes. E não desviam, seguem em direção à água. Manopla girada até o seu final, máxima velocidade atingida e prendendo a respiração guiam por cima do leito aquático, deixando um spray de água e vapor para trás, como a cauda de um golfinho ancestral. As nuvens no céu já não passam rápido por suas cabeças; encontram-se estáticas, emparelhadas que estão as velocidades do ar e do veículo, e assim oferecem-se para a contemplação perfeita de seus desenhos: garotas deitadas e senhores de guarda-chuva, prédios suaves e aves míticas, canetas e pães e xícaras de café ¿ o magnífico presente aleatório do caos, que desfia-se pouco a pouco, imperceptivelmente. No centro da lagoa, uma onda impossível levanta-se imponente, monstruoso arranha-céus instantâneo como barreira à continuidade daquele caminho, então abaixam suas cabeças para melhor aerodinâmica e atravessam o tsunami, deixando um rasgo aberto no ventre da água, numa onda que não quebrou, mas desfez-se delicadamente em morte poética e tranqüila. Voltam breve ao solo, na outra margem do lago. E que não é terra e sim pântano movediço de vida silvestre. Vencem corridas contra felinos potentes. Cores de flores e pássaros tropicais geram arco-íris em suas retinas, a trilha sulcada pelos pneus apagando-se no terreno lodoso ¿ uma viagem sem testemunhas, sem rastros, sem migalhas de pão para mostrar o caminho de volta. Alcançam uma pradaria rapidamente atravessada, percebem a maciez dar lugar à rocha, vales e montanhas desenham-se num horizonte nevado e inóspito. A velocidade decresce por causa da subida, mas ainda assim são rápidos o suficiente para escalar até mesmo íngremes paredões escarpados. Alguns bodes balem inquietos com os intrusos. Tulipas voadoras abrem nesgas de céu em meio as nuvens. A neve dá lugar à rocha quente e os pneus seguem sua sina em direção a cratera do vulcão. Há a fumaça e o calor e uma trilha na lava endurecida, o caminho da anti-matéria. Um infinito incadescente aguarda pelos corpos, que não tardam a tombar. Alçando o vôo em que se perde todos os medos. Vapor desprende a carne como se fosse o suor da pele, e os ossos desmancham-se antes de tocar o magma.

E foram felizes para sempre.


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Posted by marcol at outubro 29, 2004 12:07 PM