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outubro 27, 2004

Classe média - uma tragédia

Classe média - uma tragédia num ato só
Da série postes autobiográficos

Meu pai experimentou uma ascensão meteórica no seu padrão de vida durante o milagre brasileiro. Começo dos anos 80 e tudo andava bem. Carro do ano. Uma viagem aqui outra acolá. Construiu uma casa num bairro afastado do centro de São Paulo. Era um bairro que prometia muito, no Banco Imobiliário só perdia para o Morumbi. E o melhor, ficava pertinho do trabalho dele.

Com uma hora de almoço dava pra ir em casa, comer, pegar os dois rebentos mais velhos, levar na escola e depois pegá-los à tarde também. Não tenho informações precisas se naquela época ele tinha noção de que era feliz. Mas com o tempo o caminho trabalho-casa-escola-trabalho começou a ficar entulhado de semáforos. O trânsito também piorou, e aí ele não conseguia mais dar conta de tudo. A gurizada começou a ter que ir pra escola de ônibus, o que foi pra mim não sei se fonte de traumas ou de inspiração, já que boa parte dos contícolos que escrevi se passam em ônibus.

Um belo dia, o amplo terreno que havia na frente de nossa casa e onde eu exercitava guerras de mamona e outros passatempos igualmente saudáveis amanheceu tomado de barracos. Yes, uma favela tomou conta do pedaço. Meu pai buscou a prefeitura, mas percebeu que a coisa não ia dar em nada. O jeito foi vender a casa a preço de banana, dizer bai bai pro ipê amarelo que tínhamos no jardim e aboletar-nos em outro canto.

Meu pai juntou uns trocos e comprou uma casa num bairro mais central. A casa era muito boa, mas o ponto não tanto. Atrás de nós uma fábrica de vidro abandonada para onde a janela do meu quarto apontava e de onde eu ouvia barulhos e sentia cheiros muito do esquisitos.

Um dia o vizinho viu um sujeito pular o muro da fábrica pra nossa casa e começar a forçar a janela. Nós não estávamos, ele deu um grito e o pelintra sumiu. Mais ou menos na mesma época minha avó paterna foi assassinada por ladrões dentro de casa. Pânico. Botamos a casa à venda e demos entrada num apartamento ótimo.

A casa só foi vendida dois anos depois. O japonês chegou e pagou à vista. Que beleza, o dinheiro dava pra fazer a casa que meu pai queria fazer em Itapecerica da Serra. O terreno já tinha. Dois meses depois ele ouviu ressabiado o senhor presidente falando em cadeia nacional que havia instituído um certo Plano Cruzado. Brasileiros e Brasileiras tinham razão em estar ressabiados, o dinheiro sumiu. A inflação disparou. A prestação do apartamento que consumia até então 20% do ordenado do velho chegou a comer 90%. O dinheiro da casa vendida foi pro espaço e a gente se viu tendo que alugar uma casa menorzinha.

Meu pai era o tipo de cara que tinha horror a ser inadimplente do que quer que seja, então chegou lá na financeira do apartamento e devolveu o imóvel. Perdeu tudo, em suma. Quem simplesmente deixou de pagar beneficiou-se de anistias e fez acordos mais pra frente.

A casa de Itapecerica da Serra só pôde começar a ser habitada há coisa de uns quatro anos e ainda não está pronta. Até lá, a família teve que se contentar em ocupar uma casa muito simples no mítico Capão Redondo. O velho, cansado, não pode se dar ao luxo de deixar de trabalhar, com a aposentadoria que ganha.

Well, esta é uma obra incompleta. A tragédia tem tudo pra continuar.
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Posted by marcol at outubro 27, 2004 10:27 AM