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agosto 3, 2004
Trip drops I. Mais milhas
Trip drops
I.
Mais milhas sobrando, mais coincidência de compromissos, e dessa vez levo a patroa, minha costela amada, dessa vez a Recife. Chuva a semana inteira, Tatiana pisa o solo e o tempo abre. Ô estrela!
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Sexta-feira, praia de Boa Viagem, depois da minha audiência. A água estava fria, acredite. Contentamo-nos com simplesmente botar os pés na areia e, eventualmente, molhá-los um pouco. Já vale por uma semana de retiro espiritual.
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Recife estava tomada por turistas. Alemães? Italianos? Americanos? Samoanos? Nada: portugueses. Invasão mesmo, pra onde vc virava, batia o olho num.
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Aí a cunhada lembrou que precisava dumas redes. Foi ótimo ir até o Mercado São José pechinchar pelas ditas, comprar tudo o que ela pediu, até a hora de botar aquilo tudo no ombro pra andar. Costuma ser nessa hora que ocorre a pergunta: mas... como é que eu vou levar isso tudo de volta? Too late.
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Sábado, igreja pela manhã. Vi a velhamiga blogueira Lux e seu costelo Tibério. À tarde, fomos bater perna pelo centro histórico de Olinda, visitando aquelas igrejas barrocas cheias de história. Linda cidade, com efeito. O filme da máquina que se foi está ali (revelando) e não me deixa mentir.
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Domingo, Porto de Galinhas. Chovendo. Tatiana bota o pé na praia e o sol empurra as nuvens, sopra um ventão e temos um dia mavioso pra curtir aquela que sem dúvida alguma é a praia mais bela na qual já descansei meu esqueleto. Piscinas naturais por entre arrecifes aos quais vc pode chegar andando, nadando ou de jangada, o que é muito mais charmoso. E peixes, muitos peixes, que vêm pegar a ração que os jangadeiros te dão na tua mão. O tipo de dia pra olhar de repente pra sua companhia e começar a rir à toa.
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Segunda, dia de ir a Belém do Pará, certo? Errado. Aparece um time de futebol, a Varig o bota inteirinho no lugar que seria teu no avião, te explica que houve um over booking, que seria uma venda de passagens superior à oferta de assentos, te dá um crédito de R$ 500,00 para futuras viagens e te faz assinar um Termo de Quitação. Tá bom ou você quer mais?
Perdendo minha audiência em Belém, o jeito foi voltar a São Paulo, pra apertar muito meu filho outra vez.
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II
Aí eu venho a Porto Alegre hoje, terça-feira. Horas sobrando, cato um jornal local e procuro a oferta de filmes, torcendo pra ter o Farenheit 11/09 passando em algum canto. Tem e descubro que é o lugar que eu sonhei: um shopping só com cinemas, livrarias e lanchonetes, tudo muito bonito, com uma grande área ao ar livre, térreo, abarratado de gente bonita, muitos lendo pelas mesinhas. Chama-se, se a memória já me não trai: Centro Comercial Nova Olaria. Fiquei olhando em volta e pensando que qualquer um ali poderia ser o Milton Ribeiro, que o cara do meu lado no cinema podia até ser o Tiagón (embora na foto do blogue dele ele pareça ser verde e ter parentesco com dinossauros). Pena estar sozinho dessa vez, mas a noite está ganha.
O filme? Isso merece tópico à parte.
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III
Farenheit 11/09 foi minha estréia de Michael Moore. O filme, de tão empolgante, me traz ao Guest Office do hotel antes de deitar.
A argumentação de Moore é ferina, a montagem é hilária e emocionante e o material... quem tem falta de conteúdo tendo um Bush sobre quem falar? Em alguns momentos você se sente desconfortável, já que desde o primeiro minuto do filme fica muito claro que não se trata de um relato isento e imparcial sobre os fatos, que o diretor tem uma posição muito radical a respeito e que, enfim, o filme tem um recado.
Mas, catzo, por que não se pode mais ter recados? É excelente que alguém tenha uma opinião, especialmente se calcada em fatos e documentos e se ela vai na contramão do que um mundo inteiro quer acreditar, por conveniência! Às favas com a imparcialidade jornalística, não é disso que estamos falando.
Também se pode objetar que Moore faça sensacionalismo com a dor da mãe que perdeu o filho, servindo o exército no Iraque, mas gostei muito de ver a história por trás da frieza do relato jornalístico. Lembro perfeitamente quando li no jornal sobre o helicóptero que foi abatido. Agora conheço o rosto de um dos seis mortos, sei como é sua família, sei o que estão sentindo. Só tenho a agradecer.
Durante o filme recordei um texto que escrevi uma ou duas semanas após o ataque do 11/09, no qual relembrei os quadrinhos de um parente lá Michael Moore, o Alan Moore. Watchmen conta a história de alguém que, para evitar uma guerra nuclear iminente, simula um ataque alienígena em plena Nova York matando milhares de pessoas. Frente à ameaça de uma invasão de ETs, as potências em conflito se solidarizam. Fim da guerra fria, embora ela tenha custado milhares de vidas inocentes.
Michael Moore mostra que ter o mundo todo cooperando para fins espúreos e indefensáveis não é difícil: basta conhecer as pessoas certas e fazer com que todas as outras tenham medo, muito medo. O medo foi capaz de calar uma nação inteira, de fazer com que a imprensa praticamente inteira dos EUA, bem como até mesmo a oposição política, dissessem amém para a barbaridade da invasão do Iraque.
O medo estimulado pelo discurso certo é capaz de qualquer coisa. Qualquer minoria pode virar o vilão da vez em pouco tempo e com pouca ou nenhuma evidência concreta a endossar esse discurso. Este é, senhores, o homem evoluído do século XXI, e nós somos parte disso.
Fazia muito tempo que não via um cinema lotado em plena terça-feira, e também fazia muito tempo que eu não ouvia aplausos ao fim de uma sessão de cinema. Lotação e aplausos, tudo muito merecido.
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IV
Amanhã vou a Pelotas. Evite piadinhas óbvias a respeito, ok?
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V
Cumpadre Tiago Jokura conseguiu de novo. Participou duma promoção do diário Lance, mandou um texto sobre o bordão chavão "o importante é competir, e com dignidade", foi um dos dois escolhidos e agora vai ser correspondente do Lance lá em Atenas. É mole?
O texto dele era delicioso, mas eu, que o havia lido antes de saber o resultado, achei que era bom demais para ser premiado. Não é que foi? Geralmente esses concursos premiam coisas mais bobocas, não uma história toda estilosa e de final reticêntico (perdão pelo neologismo) como a que o Tiago mandou. Eu, que havia mandado um desses textos mais bobocas pra promoção, só posso bater palmas e me vigiar pra não morrer de inveja.
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Posted by marcol at agosto 3, 2004 11:28 PM