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agosto 31, 2004

Tornei a pisar a belíssima

Tornei a pisar a belíssima Campo Grande. É uma cidade deliciosa, provinciana, verde e ampla. Os críticos aparteariam que é uma cidade sem nada pra fazer, mas a eles eu replicaria que vivo na cidade que mais tem coisas pra se fazer, mas que eu não faço nada porque tudo demora 2 horas pra chegar, custa os olhos da cara (que já estão, infelizmente, empenhados para sobreviver) e periga ser assaltado, como foi, por exemplo, meu colega aqui de escritório, anteontem.

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O aeroporto de Campo Grande está numa fenda mística universal. Só pode ser porque lá presenciei duas cenas absolutamente surreais:

I.

Um padre franciscano, de batina marrom, havaianas e com a cabeça raspada à moda, parou no box da Kopenhagen e torrou uma grana.

II.
Uma excursão escolar. Criaturas de, creio eu, doze anos. E, no entanto, nada de muito barulho, nada de amontoamentos para tirar fotos, gritos, neguinho querendo aparecer. Em lugar disso, criaturas muito urbanas e civilizadas, muitas delas com apostilas abertas, escrevendo, algumas conversando em tom baixo. Nada de professores esbravejando, a garotada parecia que viajava toda semana, porque à chamada para o vôo compuseram fila naturalmente, cada um com sua passagem em mãos, e assentaram-se com o mesmo ar adulto. Perguntei para um se estavam indo visitar São Paulo, ele disse que não, que eram de São Paulo e estavam voltando. Decerto foram visitar o Pantanal, sei lá.

Descobri que comparando os meus doze anos com os deles, não apenas os cabelos mudaram radicalmente. Essas novas gerações me metem medo. Quando eu era "nova geração" só punha medo nos sessentões. Credo.

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Todo mundo que já jogou vôlei minimamente a sério sabe como esse esporte é dificílimo. Requer uma coordenação motora finíssima, uma atenção constante, uma agilidade incomum. Ver um time como o do Brasil jogando só pode, então, inspirar uma profunda admiração.

Apesar de Giba ser o protagonista maior, não creio que haja esporte mais radicalmente coletivo que o vôlei. Se um cidadão ali não domina um dos fundamentos, a falha será explorada à exaustão pelo adversário, isso pode ser fatal e certamente é quando se fala de seleções nacionais em nível de Olimpíada. Assim, a glória é dos doze. Treze, aliás, incluamos aí o Bernardinho.

Entretanto, o jogador que maior admiração me provocou foi o líbero Serginho. Qualquer um que tenha tentado defender uma batida dum grande atacante sabe como é difícil. Ele faz isso, mas não só: bota a bola na mão do levantador. Catzo! Esse cara não é deste mundo.

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Ao fim da Olimpíada, ouvi em mais de um lugar comentaristas esportivos compulsando o quadro de medalhas e, descontente com nossa 18ª posição, atrás de Noruega, Coréia e outros países um tantinho menores e menos populosos que o nosso, se perguntando o que precisamos fazer pra mudar a história em futuras olimpíadas. Todos eles dizem que o esporte tem que ser política de Estado, que temos que gastar mais dinheiro pra ter mais campeões olímpicos.

Perguntar não ofende: medalha enche barriga de alguém (tirando o próprio laureado, que faz comercial de casa de móveis, depois)? Isso é realmente importante? Não é complexo de inferioridade típico de subdesenvolvido?

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Vai aí um Millor pra terminar:

O coração tem imbecilidades que a estupidez desconhece.
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Posted by marcol at 8:54 AM

agosto 27, 2004

Quero ver todo mundo cantando

Quero ver todo mundo cantando comigo - We are the champions, my friend...

Atingir a marca cabalística das 29.000 visitas é algo assim como tomar um sorvete de tapioca às margens do Reno. A diferença é que atingir a tal marca eu já experimentei.

A grande vantagem de se comemorar cada marca milenal de visitas é que te poupa a obrigação de ter que pensar num assunto pra postear. É só tascar uma biscoituda e fica todo mundo muito feliz. Para toda essa torcida maravilhosa, portanto, vai aí a biscoituda Faith Hill, que deu o ar da (sua abundante) graça em "Mulheres Perfeitas", que anda em cartaz. Enjoy it.

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Posted by marcol at 1:43 PM

agosto 26, 2004

Uma autobiografia Dá pra contar

Uma autobiografia

Dá pra contar uma história olhando os diários de alguém, olhando as fotos de alguém, olhando o guarda-roupa de alguém e sua evolução (ou involução, claro) ao longo do tempo, olhando as pessoas ao seu redor, o tipo de comida, o jeito de andar. E dá pra contar minha história, por exemplo, partindo das coleções de livros sobre as quais me debrucei.

Ela começaria por uma série de livros que tinha como personagem principal um certo Cachorrinho Samba (Cachorrinho Samba, Cachorrinho Samba na Floresta, Cachorrinho Samba na Fazenda e Cachorrinho Samba em algum outro buraco que eu não lembro). Mr. Google me lembra aqui que eram editados pela Ática e escritos pela Maria José Dupré, responsável por muitos dos bons momentos da molecada dos anos 80.

Depois comecei a ler uma coleção de livros de capa dura, cada uma de uma cor, com uma gravura na frente. Não lembro a editora e sequer o título da coleção exato, que seria algo como "Grandes Aventuras". Foi dali que tirei, por exemplo, "Rei Artur e Seus Cavaleiros", "Simbad, o marujo" e "Capitão Tormenta". Mais ou menos contemporânea a esta coleção havia uma outra, também com livros desse estilão mas de capa mole e, salvo engano, editada pela Ediouro. Foi dessa coleção que tirei o primeiro grande impacto de minha vida de leitor: "Os três mosqueteiros", de Alexandre Dumas, título que levei por muito tempo como "o melhor livro que eu já li".

Na seqüência comecei a me encantar com aquela que talvez seja a coleção clássica da minha geração, a Coleção Vaga Lume, também editada pela Ática, que tem mesmo um faro apuradíssimo para literatura brasileira infanto-juvenil de alta qualidade. Difícil destacar o melhor título da Vaga-Lume 80's, mas eu apontaria os clássicos "O mistério do 5 estrelas" (Marcos Rey em grande forma), "Um cadáver ouve rádio" (idem), "O escaravelho do diabo" (Lúcia Machado de Almeida) e "Coração de onça" (Narbal e Ofélia Fontes). Mas a coleção também tem uns títulos deprê, tipo o desenho do Pinóquio que passava então, como "Menino de Asas", "Spharion" e "O feijão e o sonho".

Depois da Vaga-lume foi a vez de eu começar a pegar livros de Agatha Christie pra ler. Sem dúvida alguma, o melhor deles é "O assassinato de Dan Ayckroid", um clássico absoluto da literatura policial.

Pouco a pouco foram-se insinuando por sobre meu criado mudo uns livros de capa dura vermelha com caracteres em dourado. Eram os Grandes Clássicos da Literatura Universal, recentemente reeditados. Foi por ali que travei contato com tipos como Balzac, Victor Hugo, Nikos Kazantzakis, Tolstoi, Dostoievski, Oscar Wilde, Somerset Maugham e Charles Dickens. Até hoje chamo esses caras por apelidos, mó intimidade. Destaques para "Ana Karenina", do camarada Tolstoi, "O retrato de Dorian Grey", de sir Wilde, e "Os trabalhadores do mar", de micieur Hugo.

Coleções coleções mesmo acho que eu só vim a pegar nas mãos de novo muito recentemente, nos bons tempos do dólar 1 por 1 em que um leitor proletário como eu podia encontrar edições de bolso da Penguin Colection por R$ 3,00 na Martins Fontes da Paulista. Foi assim que li "Judas, o Obscuro", de Thomas Hardy e "A woman of no importance", do Oscar Wilde.

Atualmente tenho feito a festa é com a coleção de títulos populares da L&PM. Essa editora gaúcha tem uma trajetória bem interessante. Por muito tempo era a única a trazer pra cá uns títulos descolados de quadrinhos não americanos. Isso, contudo, não era pro meu bico, caros que eram. Nessa minha vida de sobe e desce por aeroportos, contudo, descobri sua coleção de edições de bolso recheada de títulos que já caíram no domínio público e de autores gaúchos, mostrando que dá pra levar literatura de qualidade sem cobrar os olhos da cara. Suas iniciativas têm sido imitadas por outras editoras, pra meu deleite. São da L&PM, por exemplo, títulos citados aqui nos últimos tempos como "Elogio da Loucura", de Erasmo de Roterdam, e "Nada de novo no front", de Erich Maria Remarque.

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Minha última aquisição da L&PM foi um tal de "A Bíblia do Caos". Nada menos que 5.000 e tantas frases extraídas da obra do geinal Millor Fernandes. Ideal para blogueiros sem imaginação, quer ver um exemplo? Você chega aqui no meio da semana, sem uma mísera idéia, e tasca tão somente o seguinte:

Nada é menor do que a medida com a qual avaliamos nossa própria insignificância- Millor Fernandes.

Dá ou não dá o maior cartaz?

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Senhores e senhoras, esta é (uma das) minha(s) história(s).

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Posted by marcol at 9:19 AM

agosto 23, 2004

Segundo minha agenda, que traz

Segundo minha agenda, que traz em cada folha as sempre muito edificantes informações sobre o que se comemora a cada dia, ontem, 23, foi do famoso Dia da injustiça. Tá lá, aparentemente sem qualquer erro de revisão. Dia da injustiça.

Quem, raios, perdeu tempo e esforços preciosos para consagrar um dia em homenagem à injustiça? Desconfio seriamente de um conluio de desembargadores.

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O Brasil já conseguiu empatar com a Bélgica no quadro de medalhas. Uhu. Grande glória nacional.

Mas pense um pouco, deve ser monótono ser medalhista de ouro pelos EUA ou pela China, não? Você deve tropeçar em medalhistas olímpicos em qualquer esquina lá, coisa mais sem graça. Até aquele monte de obeso americano; correm o sério risco de serem campeões de arremesso de peso. Aqui não, aqui é outra coisa. O judoca Aurélio Miguel, por exemplo, 12 anos depois de receber a sua medalhinha, ainda usa o prestígio do fato para candidatar-se a vereador em São Paulo. Imagina um judoca americano tentando algo assim, rá.

Em terra de cego, tanto bate até que fura.

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Conto sem título nâmber um

A menina ia distraída no metrô, com a testa encostada no vidro da porta, a cabeça viajando por campos distantes enquanto aguardava o trem partir. Quando o movimento começou, olhou para cima e deu com um cara lindo de morrer apoiado à mureta da estação, olhando para baixo com um meio sorriso. Ele a olhava. E lhe mandou um beijo.

Ela sentiu o coração disparar e o suor espoucou nas palmas das mãos, na testa. Na estação seguinte desceu correndo, pulou pro lado de lá da plataforma, pegou o trem que voltava. Nervosa. Chegou, a porta abriu, subiu desabaladamente a escada e chorou de emoção ao ver que o tal cara lindo ainda estava lá, olhando o movimento lá embaixo. Atirou-se aos pés dele e falou que ela estava ali, pronto. Ele não entendeu, ela repetiu e perguntou se ele não a amava. O cara lindo ficou triste, a levantou tomando-a pelos ombros e lhe disse, com ar grave, que não havia amor à primeira vista. Pensou melhor e disse que possivelmente não existisse amor nem à milésima vista. E, com uma ponta de crueldade, afirmou que as revistas que ela lia estavam erradas.

Anos mais tarde, ao ser abordada no aeroporto por um tipo tentando vender assinatura de revista, desferiu-lhe um murro no olho esquerdo e sorriu.

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Posted by marcol at 2:24 PM

agosto 18, 2004

Postais Breve incusão ao Centro

Postais

Breve incusão ao Centro Oeste, começando pelo paraíso verde e plano do Brasil (qualquer crítica ao epíteto deverá ser dirigida ao senhor Milton Neves. Tenho nada com isso).
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Ah, o que se pode dizer de Goiânia? Bom, eu nada, já que fui do aeroporto ao local da audiência (prõximo ao aeroporto) e de lá para o shopping da cidade, via BR-alguma coisa, logo, não vi picas da cidade em si.

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Mas num dado momento, enfadado com o curso que seguia a audiência, olhei pela janela e vi sobre a laje do prédio dois enormes pássaros negros parados. De quando em quando eles esticavam o pescoço para coçá-lo junto ao parapeito. Disfarçadamente cutuqei a advogada, que é nativa, e perguntei-lhe se se tratava de algum pássaro típico do cerrado ou coisa assim, mas ela levou um susto: - credo! Urubus!

Bá, não passavam de urubus ordinários. Sentiriam eles algum cheiro de carniça ali dentro? Na dúvida, verifiquei se o desodorante estava dentro da validade, ainda.
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O que fazer quando se está livre, leve e solto às 12h30 e o seu vôo sai ás 21h00? Você tem 8 horas e meia e está numa cidade estranha. Eu aproveitei uma feliz coincidência de horários e, depois de comer lautamente, peguei uma matinê de Homem Aranha 2 - dublado, seguido de uma sessão de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Com isso comi umas cinco horas e saí para o aeroporto lambendo os beiços.
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Eu fui um leitor voraz de Homem Aranha e por isso mesmo diverti-me muito com o filme. À parte clichês e americanices, vi muito mais virtudes que defeitos no filme. Começa pela interpretação fantástica de Tobey Maguire, valeu a pena esperar tanto tempo para ver um filme do HA se é para vê-lo na pele de um cara tão talentoso. O roteiro também tem umas coisas muito bacanas, e a seqüência da luta sobre o metrô é excelente. Gostei, sobretudo, da cena do homem aranha sem máscara sendo carregado sobre as cabeças do povo que ele salvou. Senti este Homem Aranha mais Homem Aranha que o primeiro, onde não se viu o herói fazer uma única piadinha sequer e onde se vê Peter Parker tomando na cabeça o tempo todo, exatamente como acontecia com o personagem de quadrinhos pensado por Stan Lee. Bacana também o fato de o filme não ceder a algumas tentações fáceis, como fazer o herói resolver o problema financeiro da tia despejada. Sam Raimi demonstra alguma virtuose, que me perdoem os puristas.
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Mas o filé mignon da tarde foi mesmo Brilho Eterno. Não gostei de Quero Ser John Malkovich, por isso entrei ressabiado para ver este outro filme do mesmo roteirista, mas tomei um banho de ótimo cinema. Jim Carrey se mostra aí ator como acho que em nenhum outro filme, e Kate Winslet simplesmente arrasa. No entanto, o astro da coisa é realmente o roteiro. Ah, como é bom assistir a um filme com roteiro. No caso ele é inteligente, requintado, inovador, inventivo. Aplausos. Meu tempo de internet aqui no hotel está acabando, mas antes, uma última observação: uma tarde com dois filmes com Kirsten Dunst não pode ser ruim. Pode?

Aloha!
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Posted by marcol at 10:52 AM

agosto 12, 2004

Empirismo Catão recebeu a bola

Empirismo

Catão recebeu a bola na intermediária e viu que tinha condições de avançar. Fê-lo e no meio do avanço ocorreu-lhe uma dúvida atroz:

- As coisas existem anteriormente à nossa percepção delas mesmas através dos sentidos ou elas passam a existir na medida em que nossos sentidos são acionados? Se suprimidos os cinco sentidos de alguém o plano material continuará existindo?

Empregar o método socrático com a ajuda do enfurecido zagueiro que lhe buscava as pernas pareceu má idéia. Drible da vaca, tentou desenvolver o raciocínio. A torcida ovacionava e ele avançava, avançava. As idéias iam ficando mais claras e prós e contras de cada hipótese apareciam-lhe com contornos muito precisos, enquanto a fila de adversários ia sendo ziguezagueada. Grande área, pequena área, uma conclusão! Enquanto chapelava o último zagueiro, disse-lhe alegremente:

- É mais razoável pensar que não somos medida para todas as coisas e que elas existem independentemente de nossa apreensão das mesmas.

Mas havia o goleiro, que não estava para leroleros e mirou no meio do corpo de Catão.

Ele perdeu os sentidos e, caso pudesse raciocionar, veria que lhe faltava uma conclusão de fato.
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Posted by marcol at 2:51 PM

agosto 10, 2004

Contagem regressiva Pra ouvir pela

Contagem regressiva

Pra ouvir pela primeira vez algum repórter esportivo fazer trocadilhos metidos a espirituosos com:

1. Mulheres de Atenas (do Chico, mas então significando nossas atletas por lá);
2. Presente de grego;
3. Estar "falando grego".

Para ouvir editoriais metidos a emocionantezinhos enaltecendo:

1. A comunhão entre os povos;
2. A beleza do assim chamado "espírito olímpico";
3. A glória do "importante é competir".

Para ver o primeiro quadro de medalhas com o Brasil atrás de qualquer país com menos de um terço de nossa população. Para ver matérias aborrecidas sobre modalidades obscuras dos jogos. Para ver entrevistas vazias com nossas esperanças de medalha.
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Posted by marcol at 5:45 PM

agosto 5, 2004

Guerra e paz Outro dia

Guerra e paz

Outro dia eu escrevi que a supressão da violência nossa de cada dia poderia ser opressiva. Teve gente que comentou dizendo que o ideal é equilíbrio, nem muita paz e nem muita violência. Uéu, a idéia não era dizer que um pouco de violência faz bem, mas era mostrar o quanto estamos distantes dela como indivíduos, a ponto de não estarmos prontos para viver em paz. O mastigar cotidiano da violência e a indiferença que isso produziu pode nos ter feito seres inapetentes à paz, o que só se pode lamentar.

Acho que a idéia poderia ser melhor desenvolvida assim:

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A experiência de servir no exército alemão durante a primeira guerra mundial deixou cicatrizes profundas em Erich Maria Remarque. Muitos anos depois do último estampido de granada nos ouvidos, ele ainda lutava com a insônia e com fantasmas. Foi para exorcizá-los que começou a anotar memórias do que viria a ser mais tarde o mais importante romance pacifista do século XX, Nada de novo no front, que lhe valeu a perseguição pelo regime nazista e o fez fugir para os Estados Unidos.

Entre as muitas cenas impressionantes descritas pelo autor, ele, dado momento, narra o grupo de soldados recém chegados da frente de batalha, após haverem vivenciado os mais repulsivos acontecimentos e haverem assistido à morte de dezenas de companheiros, parando frente a um cartaz de uma companhia teatral que havia passado por ali há muito tempo e que mostra uma garota bonita num vestido simples com um mar azul atrás.

Ele escreve: ¿a garota do cartaz constitui, para nós, um milagre. Havíamos esquecido totalmente que no mundo existem coisas assim, e, mesmo agora, quase não acreditamos em nossos olhos. Há anos que não vemos nada parecido, nem qualquer coisa que de longe mostre tanta beleza, tanta felicidade e tanta calma.¿

Ao deixarem a paz e mergulharem na lama, cercados pela violência e pela dor; ao acostumarem-se à aparente morte da esperança e ao considerarem o viver ou morrer como obra do acaso, dar de cara com um pedaço de mar azul e uma bela mulher a sorrir estampados no papel lhes parece inverossímil. O mundo não é aquilo, pelo menos não mais. É preciso uma longa contemplação até resgatarem dentre de si o conceito de paz, de tranqüilidade, de segurança.

Creio que seja por uma razão análoga que ao encontrarmos um desvão do Céu, uma imagem de ruas de ouro com pessoas vivendo em paz perfeita, custamos a acreditar. A primeira reação é achar tolice, pois nós também estamos imersos na violência, na falta de caráter, desviando de bombas e vendo os queridos despedaçados há muito tempo.

Mas o fato é que existe o mar azul, como existe um mar de vidro misturado com fogo. E para tornar à trincheira tendo dentro do peito o mais valioso que um soldado pode ter, a esperança, é preciso contemplar o desvão do Céu que nos é dado com avidez, longamente, sem pressa, buscando respirar aquela atmosfera. É preciso familiarizar-nos com a paz para que ela não nos machuque quando o último tiro houver sido dado e ecoar pelo Universo o ¿está consumado¿.

Graças a Deus, que fez questão de nos mostrar os desvãos do Céu e de garantir que eles nos fossem mostrados de tempos em tempos. Olhe em volta. Não há nenhum aí, agora?

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Isso é fruto dumas pensações recentes. Como ando desovando meu conteúdo abobral em Ernestinho, acho que tais tergiversações cabem por aqui. Se não, desculpe, desculpe.

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Posted by marcol at 3:40 PM

agosto 3, 2004

Trip drops I. Mais milhas

Trip drops

I.

Mais milhas sobrando, mais coincidência de compromissos, e dessa vez levo a patroa, minha costela amada, dessa vez a Recife. Chuva a semana inteira, Tatiana pisa o solo e o tempo abre. Ô estrela!

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Sexta-feira, praia de Boa Viagem, depois da minha audiência. A água estava fria, acredite. Contentamo-nos com simplesmente botar os pés na areia e, eventualmente, molhá-los um pouco. Já vale por uma semana de retiro espiritual.
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Recife estava tomada por turistas. Alemães? Italianos? Americanos? Samoanos? Nada: portugueses. Invasão mesmo, pra onde vc virava, batia o olho num.
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Aí a cunhada lembrou que precisava dumas redes. Foi ótimo ir até o Mercado São José pechinchar pelas ditas, comprar tudo o que ela pediu, até a hora de botar aquilo tudo no ombro pra andar. Costuma ser nessa hora que ocorre a pergunta: mas... como é que eu vou levar isso tudo de volta? Too late.
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Sábado, igreja pela manhã. Vi a velhamiga blogueira Lux e seu costelo Tibério. À tarde, fomos bater perna pelo centro histórico de Olinda, visitando aquelas igrejas barrocas cheias de história. Linda cidade, com efeito. O filme da máquina que se foi está ali (revelando) e não me deixa mentir.
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Domingo, Porto de Galinhas. Chovendo. Tatiana bota o pé na praia e o sol empurra as nuvens, sopra um ventão e temos um dia mavioso pra curtir aquela que sem dúvida alguma é a praia mais bela na qual já descansei meu esqueleto. Piscinas naturais por entre arrecifes aos quais vc pode chegar andando, nadando ou de jangada, o que é muito mais charmoso. E peixes, muitos peixes, que vêm pegar a ração que os jangadeiros te dão na tua mão. O tipo de dia pra olhar de repente pra sua companhia e começar a rir à toa.
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Segunda, dia de ir a Belém do Pará, certo? Errado. Aparece um time de futebol, a Varig o bota inteirinho no lugar que seria teu no avião, te explica que houve um over booking, que seria uma venda de passagens superior à oferta de assentos, te dá um crédito de R$ 500,00 para futuras viagens e te faz assinar um Termo de Quitação. Tá bom ou você quer mais?

Perdendo minha audiência em Belém, o jeito foi voltar a São Paulo, pra apertar muito meu filho outra vez.
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II
Aí eu venho a Porto Alegre hoje, terça-feira. Horas sobrando, cato um jornal local e procuro a oferta de filmes, torcendo pra ter o Farenheit 11/09 passando em algum canto. Tem e descubro que é o lugar que eu sonhei: um shopping só com cinemas, livrarias e lanchonetes, tudo muito bonito, com uma grande área ao ar livre, térreo, abarratado de gente bonita, muitos lendo pelas mesinhas. Chama-se, se a memória já me não trai: Centro Comercial Nova Olaria. Fiquei olhando em volta e pensando que qualquer um ali poderia ser o Milton Ribeiro, que o cara do meu lado no cinema podia até ser o Tiagón (embora na foto do blogue dele ele pareça ser verde e ter parentesco com dinossauros). Pena estar sozinho dessa vez, mas a noite está ganha.

O filme? Isso merece tópico à parte.
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III

Farenheit 11/09 foi minha estréia de Michael Moore. O filme, de tão empolgante, me traz ao Guest Office do hotel antes de deitar.

A argumentação de Moore é ferina, a montagem é hilária e emocionante e o material... quem tem falta de conteúdo tendo um Bush sobre quem falar? Em alguns momentos você se sente desconfortável, já que desde o primeiro minuto do filme fica muito claro que não se trata de um relato isento e imparcial sobre os fatos, que o diretor tem uma posição muito radical a respeito e que, enfim, o filme tem um recado.

Mas, catzo, por que não se pode mais ter recados? É excelente que alguém tenha uma opinião, especialmente se calcada em fatos e documentos e se ela vai na contramão do que um mundo inteiro quer acreditar, por conveniência! Às favas com a imparcialidade jornalística, não é disso que estamos falando.

Também se pode objetar que Moore faça sensacionalismo com a dor da mãe que perdeu o filho, servindo o exército no Iraque, mas gostei muito de ver a história por trás da frieza do relato jornalístico. Lembro perfeitamente quando li no jornal sobre o helicóptero que foi abatido. Agora conheço o rosto de um dos seis mortos, sei como é sua família, sei o que estão sentindo. Só tenho a agradecer.

Durante o filme recordei um texto que escrevi uma ou duas semanas após o ataque do 11/09, no qual relembrei os quadrinhos de um parente lá Michael Moore, o Alan Moore. Watchmen conta a história de alguém que, para evitar uma guerra nuclear iminente, simula um ataque alienígena em plena Nova York matando milhares de pessoas. Frente à ameaça de uma invasão de ETs, as potências em conflito se solidarizam. Fim da guerra fria, embora ela tenha custado milhares de vidas inocentes.

Michael Moore mostra que ter o mundo todo cooperando para fins espúreos e indefensáveis não é difícil: basta conhecer as pessoas certas e fazer com que todas as outras tenham medo, muito medo. O medo foi capaz de calar uma nação inteira, de fazer com que a imprensa praticamente inteira dos EUA, bem como até mesmo a oposição política, dissessem amém para a barbaridade da invasão do Iraque.

O medo estimulado pelo discurso certo é capaz de qualquer coisa. Qualquer minoria pode virar o vilão da vez em pouco tempo e com pouca ou nenhuma evidência concreta a endossar esse discurso. Este é, senhores, o homem evoluído do século XXI, e nós somos parte disso.

Fazia muito tempo que não via um cinema lotado em plena terça-feira, e também fazia muito tempo que eu não ouvia aplausos ao fim de uma sessão de cinema. Lotação e aplausos, tudo muito merecido.
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IV
Amanhã vou a Pelotas. Evite piadinhas óbvias a respeito, ok?
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V
Cumpadre Tiago Jokura conseguiu de novo. Participou duma promoção do diário Lance, mandou um texto sobre o bordão chavão "o importante é competir, e com dignidade", foi um dos dois escolhidos e agora vai ser correspondente do Lance lá em Atenas. É mole?

O texto dele era delicioso, mas eu, que o havia lido antes de saber o resultado, achei que era bom demais para ser premiado. Não é que foi? Geralmente esses concursos premiam coisas mais bobocas, não uma história toda estilosa e de final reticêntico (perdão pelo neologismo) como a que o Tiago mandou. Eu, que havia mandado um desses textos mais bobocas pra promoção, só posso bater palmas e me vigiar pra não morrer de inveja.
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Posted by marcol at 11:28 PM