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julho 20, 2004

Minha pequena história do rock

Minha pequena história do rock

Viva Kant. Graças a ele eu posso contar a História sob minha ótica pessoal e dar de ombros pro resto do mundo.

Pois bem, o rock completou 50 anos e a mídia recebeu uma enxurrada de textos a respeito. Gostei particularmente das matérias publicadas na arta Capital desta semana, onde um tal de Sean O'Hagan, que escreve para The Observer, deu uma visão sua dos fatos mais marcantes desses 50 anos (Marcelo Nova faz o mesmo focando apenas o Brasil), começando com a gravação de Elvis para "That's all right Mamma", em 54, passando por Bill Halley, Chuck Berry, James Brown, Dylan, Beatles e por aí afora até desembocar em Spice Girls, Eminem e Beyoncé. Ele já vai logo advertindo que a visão é totalmente subjetiva e sujeita a pedradas, e mostra o que Caetano Veloso dizia: "tudo é rock". Ele, de cabelo gigante e roupa estranha em pleno Brasil il il dos anos 60/70 já era rock. Os puristas vão xingar, espernear, arrancar os cabelos, mas a verdade é que tanto Bee Gees como Nirvana são expressões que se enquadram na maternal moldura do rock, o que me leva a crer que muito pouco ou nada do que se compõe hoje em dia no Ocidente possa escapar do rótulo genérico rock, pois foi por ele influenciado.

Uma parte gigante dos tópicos ali da Carta Capital era grego pra mim. Nunca ouvi falar em "The Miracles" e confesso que nem sabia que Iggy Pop tinha saído duma banda chamada The Stooges. Percebi que minha história personal do rock batia em apenas três pontos das listas do tal O'Hagan e do Marcelo Nova: The Smiths, Legião Urbana e Ira!. Minha história, não dos 50 anos do rock, mas dos pouco mais de 20 que eu acompanhei, seria a seguinte:

1982. Paul MaCartney e Stevie Wonder gravam Ebony and Ivory, música que recentemente entrou numa dessas listas que saem a toda hora como uma das piores composições de todos os tempos. O libelo anti-racismo, cujo breguíssimo clip foi exibido no Fantástico, me fez ter o gosto despertado para música. Eu tinha nove anos de idade e descobri então um dos meus amores mais intensos e aos quais tenho sido mais fiel. A música não era ruim, contudo. MacArtney e Wonder são dois dos melhores arranjadores do mundo, pop é com os caras mesmo.

Não lembro muito bem o que eu comecei a ouvir a partir disso. Lembro vagamente dum grupo chamado Asia, que tocava Heat of the Moment, uma outra banda que nem lembro qual era, tocando I love rock'n roll(procurar por este nome no Google seria um pouco contraproducente) mas o fato seguinte verdadeiramente marcante aconteceu no ano seguinte, 1983 quando o tal do Michael Jackson resolveu gravar uma música chamada Thriller, que tinha um clip imenso, com uma historinha no começo; coisa de gênio inovador, Thriller tinha uma coreografia de monstros de tirar o chapéu e se hoje parece brega e datado é porque foi copiado à exaustão. Até hoje parece que a marca desse vinil não foi batida, continua sendo o disco mais vendido de todos os tempos.

1985. Era uma tarde chuvosa e eu esperava dentro do carro que meu pai voltasse não sei da onde quando o rádio começou a tocar Índios, da Legião Urbana. O primeiro impulso foi de mudar de estação, já que eu odiava música brasileira em geral, mas a temática da canção, a bela voz do Renato Russo e aquela letra de sentido não tão facilmente apreensível me deixaram intrigado. O violãozinho do final sobre um som de vento, logo após a frase de efeito "nos deram espelhos e vimos um mundo doente" acabaram por colocar abaixo meus preconceitos, do mesmo jeito que pouco tempo mais tarde a leitura de Olhai os Lírios do Campo faria com relação a literatura brasileira.



1986. O pequeno neonazista que morava no meu peito adolescente encantou-se com os versos da politicamente incorreta Pobre Paulista, do Ira! A música era menor, o sentimento nem se fale, mas as virtudes incontestáveis de músicas como XV anos (até hoje minha predileta e que inspirou um dos meus primeiros contos, um dos poucos que continuo achando bons mesmo olhando de cima do morro do tempo), Casa de Papel, Dias de Luta, a virtuose da guitarra do Edgard Scandurra, a batida não convencional da bateria de André Jung, tudo me fez tornar um fã ardoroso da banda. Me dava um certo orgulho de metido a intelectual gostar duma banda que tinha um vocalista ruim e não fazia as baladinhas facilmente palatáveis, embora aparentemente rebeldinhas, de bandas como Titãs e Barão Vermelho, que também causavam algum frisson na época. Ira! me acompanhou por anos e anos a fio. Só fui perder a meada de seus discos quando eles começaram a ficar muito ruins, lá pela altura do disco "Músicas calmas para pessoas nervosas". Aparentemente, todos os neurônios da banda foram queimados por substâncias de uso proibido.

1989. Foi só então que descobri The Smiths, que já estava nos últimos dias de banda. Fossa adolescente, solidão, insegurança, lirismo, poesia e genialidade musical. Precisa dizer mais muita coisa? Ah, quanta louça eu não lavei ouvindo Smiths? Last night I dreamt that somebody loved me poderia ser apontada como "o hino nacional da minha adolescência". How Soon is now, Half a person, Asleep, There is a light that never goes out, Rubber ring, Girlfriend in a coma, I started something (I couldn't finish, Reel around the fountain, Please please pleas let me get what I want, bá, é uma obra-prima atrás da outra.

No vácuo que a dissolução dos Smiths criou, cada semana tinha uma banda alcunhada pela impresa de "os novos Smiths". Evidentemente que ninguém conseguiu ser isso e não apareceu mais nenhum Smiths de fato. Uma banda que chegou mais ou menos perto e que foi responsável por alguns bons momentos foi The Stone Roses. Aí já estamos em 1992 e a musicalidade soft e requintada desses ingleses embalou meus primeiros anos de faculdade. Na mesma época Depeche Mode e a veterana House of Love (responsáveis por uma das melhores músicas que conheço, Christinne) também marcaram presença e, graças à influência de minha brima Anny Shoegazer (que eu conhecia só como Ana Paula mesmo) e que flertava com música gótica e outros lados B, travei contato com a excelente Inspiral Carpets, sobre a qual já falei aqui.

Mas aí veio o grunge, com o qual eu não me identificava nadica e que coincidiu com o tempo em que conheci de fato uma pessoa chamada Jesus Cristo. Isso me distanciou do velho e bom rock e passei longos anos sem ouvi-lo muito, tirando uma ouvidinha esporádica de Smiths ou Ira!. Nesse tempo enchi o bucho foi de música religiosa de primeiríssima qualidade e de MPB.

2001. Tempo de descobrir Pato Fu e Skank. Boas pedidas, mas com um ranço de "esse negócio de rock já foi melhor" na boca.

2004. Hoje eu escuto um pouco coisas como Los Hermanos, Dido, Michael W. Smith, Third Day, Sonic Flood, Steven Curtis Chapman e tô esperando pra ver o que vem por aí.

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Posted by marcol at julho 20, 2004 3:38 PM