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julho 16, 2004
Desce Ele saiu da sala
Desce
Ele saiu da sala fechando a porta atrás de si. Como o doutor pedira. A sala de espera estava mais escura que o consultório, mas ainda assim pipocavam em seus olhos umas pequenas explosões brilhantes que o atordoavam.
- Fausto de Mefisto, pode entrar ¿ a secretária chamou. Um homem largou a Caras na mesinha de centro, levantou-se e andou rumo ao consultório. Só então Arnaldo, que ainda estava ali, parado e atordoado, percebeu que devia se mexer, dar passagem. A secretária lhe sorria. O outro paciente entrou, o baque surdo da porta serviu como um empurrão e Arnaldo sorriu também, automático.
Arnaldo acomodou melhor o paletó sobre o braço e saiu. Sempre em movimentos lentos, chamou o elevador.
- Sinto muito.
Ele ouvia ainda. Sinto muito. Plim, a luz verde indicava ¿desce¿.
- Desce! o ascensorista confirmava. Sempre em passos lentos, Arnaldo entrou, segurando o paletó e o envelope do laboratório junto ao peito, e a porta do elevador fechou.
Havia um vácuo na mente de Arnaldo, custava a entender o que acontecia à sua volta, apenas de tempos em tempos ele ouvia sinto muito, algumas vezes na sua própria voz, que repetia, um eco das outras vozes, quando era a voz aguda e anasalada do médico. E em gestos lentos ele passava a mão pela testa, massageava as têmporas.
Arnaldo ganhou a rua e parou. Não sabia muito bem se devia subir ou descer. Um menino sujo se aproximou e pediu um trocado.
Arnaldo o olhou aparvalhado. Custou a decodificar a imagem: menino sujo, e a mensagem: tem um trocado, tio? Disse um ¿ah¿, pegou o paletó e do bolso de dentro tirou um chocolate. Os olhos do menino brilharam, ele pegou a barra e virou as costas sem dizer nada.
De repente Arnaldo percebeu que faltava algo e chamou o menino com energia. O menino virou-se com os olhos arregalados de susto, e Arnaldo então lhe estendeu o envelope do laboratório. O menino não entendeu, mas pegou e Arnaldo desceu a rua, deixando o paletó arrastar no chão, sempre em passos muito lentos.
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Não é lá um jeito muito bom de terminar uma semana, né? Desculpe, prometo melhorar. Isso foi publicado originalmente no finado Spamzine, que os deuses da literatura o tenham.
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Só para constar, uma digna do Homem Chavão: ao lado da casa onde me hospedei em Canela-RS, havia um lugar chamado "Lã Pião e Maria Bonita - Malhas". Juro.
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Posted by marcol at julho 16, 2004 2:04 PM