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julho 28, 2004
Bob Violence Nos quadrinhos de
Bob Violence
Nos quadrinhos de Howard Chaykin (agora não lembro se a grafia está certa) American Flagg, todo dia a cidade é invadida por uma turba destruidora, sempre no mesmo horário. O herói da história percebe que isso acontece sempre exatamente após a exibição de Bob Violence, um enlatado tipo Rambo high tech. Descobre-se, então, que o dito cujo está cheinho de mensagens subliminares instigando à violência.
Suprimido o programa do ar, a turba cai num estado letárgico, como se uma droga da qual estivessem dependentes lhes fosse negada.
O que seria se nos subtraíssem nossa dose diária de violência?
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Meio da tarde, ouve-se estampidos e um colega vaticina: isso é tiro. Ninguém deu muita trela, temos obras de quatro enormes torres bem ao lado, decerto era algo lá, mas dali a pouco alguém entra dizendo que roubaram o notebook de alguém que adentrava o prédio. Esse alguém esboçou uma reação e os ladrões passaram a pipocar a fachada do prédio, os furos estão ali e não me deixam mentir.
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A reação à violência é curiosa. De repente aquilo tudo deixa de ser ficção distante para ser o pesadelo da realidade. "Não foi algum lugar obscuro da metrópole, foi o MEU prédio que foi alvejado".
Começou uma interminável corrente de e-mails internos, todos avisando de novas modalidades de roubo, fraudes, técnicas de bandidos, causos pavorosos, enfim, paranóia coletiva. No elevador, empregados de outras empresas comentavam a existência de uma seguradora que segura notebooks. As meninas querem chegar mais cedo e sair mais cedo, para não pegarem seus carros na penumbra, e meio que coincidentemente todo mundo quer ir almoçar de turma.
No caso, a dose a mais de violência, ao invés da dose a menos de Bob Violence, causou um pavor que nasce da nossa impotência, da nossa fragilidade, do nosso inconformismo com o que julgamos uma coisa bárbara e extremamente ofensiva. Tirou-nos da letargia. E não foi bom, derramou fel no peito.
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Não foi a primeira vez. Outra feita levaram o notebook de um auditor da Price Waterhouse que vinha nos visitar. E estamos num plácido e bucólico bairro cheio de prédios belos e modernos, restaurantes, praças... E ladrões, tão onipresentes quanto bancas de jornal.
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Em 30 anos de São Paulo experimentei a violência na pele desde muito cedo. Primeiro, pivetes roubando "um barão" na rua, outros roubando relógios. Depois uma arma na cabeça em um ônibus (o cara achava que eu era office boy de empresa e estava com a mochila recheada de vales-transporte), um sequestro com direito a disparo de arma de fogo na direção da minha cabeça (milagre de Deus, compadre, milagre de Deus. Qualquer dia conto a história toda). Dois carros roubados.
Ela também respinga ao lado, afetando amigos das formas mais traumáticas.
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E, por multiplicar-se a iniquidade, o amor de muitos esfrirá.
Jesus Cristo, falando dos "últimos dias".
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Mas e se a violência nos fosse suprimida? Não seria o caso de que, agora, nos doesse os olhos tanta paz?
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Posted by marcol at julho 28, 2004 5:32 PM