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junho 16, 2004

Perseguição implacável Nas viagens que

Perseguição implacável

Nas viagens que eu fazia com o coral, geralmente ficávamos hospedados em casas de membros da igreja local. Íamos de dois em dois alojar-nos em cada casa e isso acabava sendo uma fonte de diversão inusitada. Podíamos ir parar na casa do abonado da área, que passou um mês inteiro enchendo a despensa para esse dia, e passar muito bem, mas podíamos também ir parar em uma casa humilde. Podíamos conhecer gente interessantíssima, ou ficar sob a tutela de tipos estranhos caricaturais.

Aí fomos para Dracena, no interior de São Paulo. O tal do abonado local era um fazendeiro, que matou um carneiro pro coral todo. De lá, barriga cheia, fomos distribuídos para as demais casas. Um tiozinho levou a mim e a mais três para a casa que iria nos hospedar, que era, como a fazenda, afastada do miolo de Dracena.

O fuscão embarafustou-se por uma porteira com um caminho de terra cheio de árvores. Entre elas galinhas, cabritos, pedaços de tratores e outras máquinas agrícolas. Parou ao lado de uma casa térrea, grande, com a parede descascada em alguns pontos e um enorme bode deitado na varanda, em frente à porta principal. O cheiro de xixi e cocô era o perfume predominante. Batemos almas, depois, pedindo licença ao barbudo, à porta, mas ninguém apareceu. Seria aquele mesmo o lugar?

Um dos meus amigos acionou a maçaneta e a porta se abriu. Ele, eu e mais um outro entramos na maior sem cerimônia, enquanto o quarto ficava lá fora, com o tio do Fusca. Demos com uma casa completamente desarrumada, sofás com lençóis por cima, pistolas de vacina veterinária sobre a mesa, restos de ração pelos cantos. Fomos entrando e comentando entre risadas o que a gente ia vendo. "Olha ali o nosso café da manhã" disse um, apontando o monte de ração. "Duro vai ser lavar essa louça" disse outro, olhando uma panela de alumínio enorme, com uma crosta preta. A gente riu pra burro, na certeza de que estávamos sozinhos na casa. No quarto, com cama de casal desarrumada, um Grande Conflito na cabeceira nos fez perceber que estávamos no lugar certo.

Sem mais nada para usar como alvo de piadas, saímos. Ao pisar a varanda, vimos um enorme ganso vindo em nossa direção com ar de não muito bons amigos, berrando e abrindo as asas. Fizemos de conta que não ligamos pra ele, fomos andando, descendo as escadas da frente. Percebemos com horror - mas sem o demonstrar - que ele sabia descer escadas e continuava vindo na nossa direção. "Dizem que os gansos são os melhores cães de guarda que existem" falou alguém. "É" responderam os outros ainda tentando afetar tranqüilidade mas já se sentindo um tanto desconfortáveis com a perseguição do plumoso guarda.

Notamos então que ele não respeitava o caminho e vinha cruzando o gramado, cortando o maior caminho. Avistamos o Fusca e, apressando o passo, perguntamos ao outro onde estava o tiozinho: "Sei lá, desceu por ali e disse que ia pegar carambola no pé" ele respondeu. Quando o ganso chegou a poucos passos a gente desistiu de fingir e começou a correr em volta do Fusca.

Mais ou menos na terceira volta, os quatro marmanjos correndo em fila indiana, eu já arquitetava uma forma de abrir a porta do Fusca e tascar-me dentro dele de um jeito que o bicho não me pegasse, quando olhamos para trás e vimos uma bela biscoituda olhando tudo encostada numa pilastra da varanda. Tinha uma baita cara de sono e olhava a cena de forma um tanto hostil.

Corremos na direção dela, meio que pra dizer "opa, como vai, tudo bom?", e percebemos aliviados que o bicho desistiu de perseguir a gente.

Nunca vou saber se a hostilidade dela era por não nos conhecer, por ter acabado de acordar ou por ter ouvido o monte de coisas pouco elogiosas que falamos sobre a casa dela na nossa xertíssima expedição casa adentro. Também, não faço a menor questão de descobrir.

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Aliás, bem a propósito, assisti esses dias a dois ótimos filmes: Tróia e O Pianista. Este último era uma lacuna que foi suprida ao dar com o DVD do tal vendendo por 15 reaus na Blockmonster. O primeiro foi uma segunda opção meio forçada, já que a idéia era ver Diários de Motocicleta, que, contudo, passou em uma única sessão, às 17h00.

O Pianista é um filme sem inovações estilísticas na forma de filmar, sem montagem videoclipesca, sem enquadramentos inusitados. É um filme conservador, mas tem um roteiro estupendo (a Segunda Guerra não nunca deixar de nos chocar?), ótimas locações e figurino e um ator absolutamente fantástico. A caracterização de um sobrevivente feita por Adrien Brody é emocionante.

Tróia é filmão hollywoodiano e, diferentemente de alguns metidos a besta, não tenho isso na conta de uma crítica, mas de um elogio. Também conta com ótimo figurino, uma fotografia belíssima, bons atores e um roteiro bacana. Além de tudo, a temática da guerra cantada por Homero é excelente e admira que ninguém houvesse tocado esse bonde antes. As cenas de Tróia em chamas são primorosas e os personagens ficaram de uma forma geral bastante bem desenvolvidos, verossímeis, críveis.
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Posted by marcol at junho 16, 2004 1:51 PM