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junho 17, 2004
De como o bilau do
De como o bilau do meu filho me poupou de assistir a um desastre e outros temas
Ele estava todo vermelho, um pouco inchado e com algumas coisas que eu não lembro o nome técnico que minha esposa mencionou, mas que entendi como sendo uns pontos de pus. Sim, o bilau do meu filhinho, coitado.
Assim, o que prometia ser mais uma noite refestelado ao sofá com a camisa do São Paulo, roendo as unhas e xingando o Fábio Simplício, transformou-se em uma mais uma visita ao Hospital Sabará. Acho que vale mencionar que o dito cujo é um nosocômio (ah, advogadices!) pediátrico que fica lá perto da Consolação, portanto, suficientemente longe de casa para demandar uma pequena viagem. Aliás, uma grande viagem, considerando que eram 19h00 quando saímos em sua direção e considerando que a Loira de Parar o Trânsito estava mais uma vez realmente parando o trânsito. Mesmo assim, encasquetamos que só dá pra confiar no povo de lá e pra lá fomos.
Depois da enrolação tradicional para sermos atendidos, o veredito: tinha que fazer exame de urina. Seria colhido na mesma hora e levaria uma hora pra ficar pronto. Bye Bye, tricolor paulista.
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Enquanto o exame não ficava pronto, saímos os três. Fui apresentar a eles o Mackenzie, ali do lado. Eu tinha ouvido falar que a boa (tá, nem tanto assim) e velha (ah, isso sim) Lanchonete Central tinha ido pro beleléu e no lugar tinha uma praça de alimentação com até mesmo um Benjamin Abrão.
Sentamos a uma das mesas (todas têm tomada de energia e entrada para cabo telefônico, pro povo ligar os notebooks. Não vi ninguém usando) e enquanto traçávamos nossos quitutes Benjamin Abrâmicos, de saudosa memória, fiquei filmando os ocupantes das outras mesas, respirando aquela atmosfera de novo. Um monte deles estudava, outros só batiam papo e senti a nostalgia me cirandar. Podia até calcular o curso que cada um fazia depois de observar por algum tempo.
E ali estava eu, cortando um pão de queijo em pedaços e tocando na boca do meu filho, segurando numa das mãos um pacote de fraldas e vendo nos espelhos uma figura bastante diferente da que circulava por aquelas esquinas há oito anos. Poderia ficar meio deprê, mas tendo a minha biscoituda ao lado e rebento ao outro, senti foi gratidão a Deus. Andando com eles por ali eu realizava um sonho que não havia chegado a sonhar, como tivesse voltado no tempo, botado as mãos sobre os ombros daquele outro Marco, mais magro e cabeludo, mas mais inseguro e incerto do que viria, e dito: vai ficar tudo muito bem. E, fazendo isto, senti nos ombros um outro Marco, quem sabe de oito anos pra diante, fazendo o mesmo, e ao sair botei o Eduardo sobre os ombros e fui assobiando uma música qualquer.
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Enquanto isso, muito longe dali, o São Paulo começava a saborear o seu nabo colombiano. Eu fui todo feliz para a salinha do hospital onde um televisor sintonizava a Globo, mas percebi com horror que a transmissão era via cabo e o que chegava era Flamengo e Vitória, e não o jogo que eu queria ver.
Consolei-me lembrando das desventuras que me impediram de ver o segundo jogo do São Paulo contra o Deportivo Táchira. Lá saiu goleada. Estou longe de ser supersticioso, mas nessas horas qualquer consolo é consolo. E estava funcionando muito bem. Dirigindo de volta pra casa, já comprada a pomada que o bilau infeccionado exigia, ia ouvindo no rádio o empate que levaria a coisa para os pênaltis, quando Rogério Ceni certamente resolveria a parada.
Desço do carro, abro o portão e ouço uma gritaria pela vizinhança? Atropelei o cachorro, a porta e liguei a televisão para ver o placar que mostrava Once Caldas 2, São Paulo 1. Pra esse tipo de situação, repetir-se shit happens não faz o menor efeito, colega, nem tente quando acontecer contigo.
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Jogos assim eu gosto de desligar a televisão antes de o juiz apitar. Fica aquela esperança não confessada de acordar no dia seguinte e descobrir que a lavoura foi salva no último segundo, tipo França e Inglaterra pela Eurocopa. Eu deveria dar ouvidos ao Rodrigo, velho colega de Grupo Pão de Açúcar, que afirmava com sabedoria ímpar: "a esperança é a única que morre".
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E foi assim que o bilau do meu filho me poupou de passar duas horas de sofrimento para ver minhas esperanças baldadas no último minuto de jogo. Espero que a pomada funcione.
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Posted by marcol at junho 17, 2004 9:57 AM