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junho 30, 2004

A inveja é pecado Enquanto

A inveja é pecado

Enquanto isso, eu tô aqui em Recife, num hotelzinho muito do honesto, num apartamento com vista para a praia de Boa Viagem.

Procure não desenvolver sentimentos não cristãos, como a inveja, irmão.

Aliás, daqui a pouco vou encontrar a blogueira Luciana Lucci Lux Lunae Teixeira, a dona do Órbita, linkado aí ao lado, e seu marido, o Tibério. Na igreja adventista central de Recife, com parada depois nalgum boteco que sirva um rango digno do predicado conterrâneo "pórreta".
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Posted by marcol at 6:18 PM

junho 28, 2004

À guisa de explicação O

À guisa de explicação

O tom dos comentários ao poste anterior me mostrou que ele foi muito indireto demais. Algumas pessoas chegaram a perguntar se o diálogo ali reproduzido era baseado em fatos reais, e com quem teria acontecido. Outros chegaram a pensar que eu e Tatiana estamos grávidos de novo.

Iés, isso mesmo.

Só quero apartear que minha cara de panaca é muito melhor que a do Hugh Grant.

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O fato de estarmos grávidos agora, a despeito das precauções tomadas, é prova do tão propalado milagre da vida. É ela, querendo perpetuar-se, haja o que hajar. Hohohoho

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A idéia era partir pro 2.0 só daqui a um ano e meio, mas o momento não foi de todo mau. Na verdade, não foi nada mau. Depois do choque inicial, da panáquica feição ao telefone, a reação foi rir muito. Deu uma vontade louca de sair abraçando todo mundo, distribuindo charutos (de repolho), dançando cancan no meio da rua Flórida.

Os muy amigos me advertem de que agora vem a compensação pela sorte que demos com o Eduardo, que é do tipo Filho Iso 9002, dorme a noite inteira desde os três meses, obedece quando a gente manda ele tirar da boca aquela formiga que ele achou no chão, é simpático e sorridente com todo mundo, etc. Bah, uruca dos invejosos.

Os nomes que estão vencendo o concurso, hasta ahora: Clara, se mulé, Filipe, se home.

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A segunda gravidez é, definitivamente, diferente da primeira. Os pais estão muito menos estressados, encarando a coisa com bom humor a toda prova. Respeito, aí, sô. Mais que nunca, somos pais de família!

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Quando você pega sua vidinha inteira e bota nas mãos de Deus, tudo o que Ele manda, do jeito que manda, na hora que manda, é motivo pra agradecer. Rapá, você sabe como faz bem viver agradecendo?

Sentando e levantando, comendo e descansando, correndo e beijando a minha biscoituda, não faço outra coisa senão agradecer desde quinta-feira passada. Rapá, você sabe como é bom viver agradecendo
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Posted by marcol at 10:08 AM

junho 25, 2004

Paternidade II - horizontes cambiantes

Paternidade II - horizontes cambiantes

Toca o celular.

- Oi, amor.
- Oi! Adivinha!
Pausa.
- Peraí. Você tá me ligando a essa hora e pedindo pra eu adivinhar. V-você... quer dizer que... hã...
- Isso mesmo!

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Posted by marcol at 3:41 PM

junho 23, 2004

Uma palavra Em homenagem ao

Uma palavra

Em homenagem ao natalício de Chico Buarque, revival da entrevista exclusiva que ele deu a É por aqui que vai pra lá?

Em 07/0/03:

Este final de semana ele não apareceu nos gramados do Polytheama, o campo de peladas por ele organizadas desde tempos imemoriais (e que, dizem as boas línguas, apresenta um futebol melhor do que muita partida da primeira divisão). Em lugar disso tomou a ponte aérea e veio dar em São Paulo, onde pegou um telefone e entrou em contato com "É por aqui que vai pra lá?".
- Eu queria ser entrevistado por vocês - ele disse.
Considerando que se tratava do compositor, escritor e quase-cantor Chico Buarque, e que ele é notoriamente bastante avesso a entrevistas e holofotes em geral, destacamos uma equipe de dezoito jornalistas, fotógrafos, carpinteiros, maquiadores, marceneiros, contra-regras, cabos-men e dubladores e encontramo-nos todos na sede mundial da É por aqui que vai pra lá? Inc., onde se realizou a seguinte entrevista:

EPAQVPL?:Muito bem, Chico, por quê É por aqui que vai pra lá?
CB: Entendo que vocês são o grande acontecimento midiático em muito tempo! Formam, informam, transmitem cultura, bom senso, análises certeiras, críticas eficazes e, além de tudo, são caras muito bonitões e que esbanjam inteligência.
EPAQVPL?: Ótimo. Deixemos de redundâncias. O que tem feito desde Cambaio?
CB: Ouço sempre "Vai trabalhar, vagabundo".
EPAQVPL?: Isso foi uma citação!
CB: Muito perspicaz.
EPAQVPL?: Tem escrito alguma obra prima?
CB: Uma aqui, outra acolá.
EPAQVPL?: Falemos de Marieta Severo. É verdade que você, mesmo separado, tem um ciuminho do Marco Nanini, a despeito de ele parecer inofensivo?
CB: Essa foi uma pergunta meio Caras.
EPAQVPL?: Ok, desculpe. É verdade que Beatriz foi escrito para uma pessoa de nome Beatriz?
CB: Essa foi uma pergunta meio estúpida.
EPAQVPL?: Ok, desculpe. Você tem uma composição predileta?
CB: Acho que algumas das musiquinhas que eu fiz não são de todo más...
- o entrevistador levanta-se e esmurra violentamente o entrevistado
CB: Está certo, elas são geniais. Obrigado por ter me chamado à razão. Creio que Construção seja a composição mais proeminente.
EPAQVPL?: Certo. É verdade que você escreveu Todo Sentimento em uma espécie de transe místico provocado por haver tomado tubaína enquanto comia lasanha e logo em seguida ter lido Antologia Poética do Drummond duma sentada só, numa rede de frente pro mar?
CB: Achava que isso tivesse ficado em segredo!
EPAQVPL?: É que você contou isso dormindo, uma vez, e nossas fontes estavam próximas o bastante para registrar.
CB: Oh!
EPAQVPL?: Você tem ouvido muita música contemporânea?
CB: Tenho evitado, por perscrição médica.
EPAQVPL?: Muito sábio. Nem tribalistas...?
CB: Especialmente. Depois de ouvir frases como [cantarolando] "eu gosto de você/e gosto de ficar com você" eu tentei durante umas oito horas achar uma palavra que rimasse com feijão, sem conseguir. Percebi que essas composições desconstruíam meu cérebro.
EPAQVPL?: Chico, como escrever letras de música geniais como Corrente, Meu guri, Pivete, A Moça do Sonho, Ludo Real, Geni e o Zepelim, Caros Amigos, Pelas Tabelas, Futebol, O velho e tantas, tantas outras?
CB: Ah, veja você. Meu pai estava preocupado porque eu andava com umas más amizades, meio perdidão na vida. Aí ele me chamou num canto e contou que o Noel Rosa tinha passado para ele uma formulinha muito simples e eficaz de construção de letras geniais. Meu pai mesmo nunca havia usado por absoluta falta de tempo. Aí eu comecei a usar e percebi que a mulherada caía em cima, então não parei mais.
EPAQVPL?: Opa! Que fórmula é essa?
CB: Não posso falar.
EPAQVPL?: Aqui no ouvidinho, vai?
CB: Tá bom.
- e cochicha no ouvido do entrevistador
EPAQVPL?: Ah, então é isso? Chico, pode ficar tranqüilo que daqui pra diante você terá em mim um legítimo sucessor de sua fina arte. Essa bandeira será levada adiante, pode ter certeza!
CB (chorando): Estou emocionado! É justamente o que eu queria e sabia que só você poderia me substituir...
EPAQVPL?: Uma última mensagem?
CB: O Brasil precisa de inteligência e cultura. Por isso, que todos leiam É por aqui que vai pra lá? todo dia. A propósito, como acaba Persela, a vesga?
EPAQVPL?: Isso é segredo...

Nesse ponto meu filho começou a chorar e eu acordei. Enquanto fazia a barba tentava a todo custo recuperar a tal formulinha mágica das letras geniais, mas em vão (pelo menos isso rima com feijão). Mas eu ainda vou lembrar, ou meu nome não é Temístocles!

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Posted by marcol at 12:13 PM

junho 22, 2004

Drops Continua minha vida de

Drops

Continua minha vida de viajor.

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Semana passada, por exemplo, fui ali em Niterói. Andei num troço que nem sabia que existia, um tal de aerobarco. É um barcão todo estiloso, de design meio espacial, com ar condicionado, cadeiras confortáveis e até televisão. Passando um clipe do Justin Timberlake. Meio surreal, não?

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Indicaram um restaurante chamado Caneco Gelado do Mané, ou algo que o valha. É um botecão, com paredes de azulejo, para o qual eu não teria sequer olhado se não fosse a indicação. Comi um peixe chamado cherne, magnifique, mas quase pedi uma outra coisa qualquer. É que ao perguntar o que acompanhava o dito cujo, o garçom me dizia que tinha além do tomate, do pimentão, da cebola e da batata um tal de petit sei lá o que. O advogado que tava comigo, e que é paulistano da gema, traduziu: ervilha. Ah, ok, então manda.

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E minha ignorância foi esbofeteada também no conceito que eu fazia da cidade. Achava que Niterói era meio Belford Roxo, meio Nova Iguaçu, mas dei com uma cidade linda de morrer.

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Ontem pisei naquela que é internacionalmente conhecida como "A terra do Nelson Morais". Alguns manés ainda conhecem como Goiânia, contudo. Também belíssima cidade, pena eu ter chegado às 10 e saído às 14. Deu pra fazer uma descoberta aterradora, contudo: shopping lá é igual em qualquer outro lugar. Ok, a descoberta não é tão aterradora assim.

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O bilau do Eduardo anda muito bem. Obrigado a todos os que manifestaram preocupação com o assunto, aos milhares que enviaram cartinhas com rezas, e às centenas que se reuniram em procissões e preces ao redor do globo. A pomada era um santo remédio e fez efeito quase que imediato.

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Assisti a Adeus, Lênin. Filmaço. Já imaginou a mesma história filmada por um americano? Você acha que o filme teria aquela trilha sonora maravilhosa que tem, com um monte de solos de piano? Jamais. O filme afasta a enferrujada cortina de ferro pra nos fazer tomar conhecimento de que havia vida do lado de lá dela. Grande indicação, Hélio.

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Assisti também, finalmente, a O Retorno do Rei. Cristalizou-se minha opinião sobre O Senhor dos anéis: um espetáculo visual incapaz de ser comparado com o que quer que seja, mas só. Diálogos muito fracos, personagens muito superficiais, roteiro complicado por haver muitos clímax (qual o plural disso?) e muitas, muitas situações que poderiam ter sido melhor aproveitadas negligenciadas. Em menos de três minutos uma mulher mata o bicho mais amedrontador da história, por exemplo. E Sauron. Quem é esse mané, que não apareceu? O cara só tem olho? Teria Billy Idol buscado inspiração nessa personagem de Tolkien para compor Eye without a face?

Adaptações de livros, humpf.


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Posted by marcol at 1:25 PM

junho 17, 2004

De como o bilau do

De como o bilau do meu filho me poupou de assistir a um desastre e outros temas

Ele estava todo vermelho, um pouco inchado e com algumas coisas que eu não lembro o nome técnico que minha esposa mencionou, mas que entendi como sendo uns pontos de pus. Sim, o bilau do meu filhinho, coitado.

Assim, o que prometia ser mais uma noite refestelado ao sofá com a camisa do São Paulo, roendo as unhas e xingando o Fábio Simplício, transformou-se em uma mais uma visita ao Hospital Sabará. Acho que vale mencionar que o dito cujo é um nosocômio (ah, advogadices!) pediátrico que fica lá perto da Consolação, portanto, suficientemente longe de casa para demandar uma pequena viagem. Aliás, uma grande viagem, considerando que eram 19h00 quando saímos em sua direção e considerando que a Loira de Parar o Trânsito estava mais uma vez realmente parando o trânsito. Mesmo assim, encasquetamos que só dá pra confiar no povo de lá e pra lá fomos.

Depois da enrolação tradicional para sermos atendidos, o veredito: tinha que fazer exame de urina. Seria colhido na mesma hora e levaria uma hora pra ficar pronto. Bye Bye, tricolor paulista.

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Enquanto o exame não ficava pronto, saímos os três. Fui apresentar a eles o Mackenzie, ali do lado. Eu tinha ouvido falar que a boa (tá, nem tanto assim) e velha (ah, isso sim) Lanchonete Central tinha ido pro beleléu e no lugar tinha uma praça de alimentação com até mesmo um Benjamin Abrão.

Sentamos a uma das mesas (todas têm tomada de energia e entrada para cabo telefônico, pro povo ligar os notebooks. Não vi ninguém usando) e enquanto traçávamos nossos quitutes Benjamin Abrâmicos, de saudosa memória, fiquei filmando os ocupantes das outras mesas, respirando aquela atmosfera de novo. Um monte deles estudava, outros só batiam papo e senti a nostalgia me cirandar. Podia até calcular o curso que cada um fazia depois de observar por algum tempo.

E ali estava eu, cortando um pão de queijo em pedaços e tocando na boca do meu filho, segurando numa das mãos um pacote de fraldas e vendo nos espelhos uma figura bastante diferente da que circulava por aquelas esquinas há oito anos. Poderia ficar meio deprê, mas tendo a minha biscoituda ao lado e rebento ao outro, senti foi gratidão a Deus. Andando com eles por ali eu realizava um sonho que não havia chegado a sonhar, como tivesse voltado no tempo, botado as mãos sobre os ombros daquele outro Marco, mais magro e cabeludo, mas mais inseguro e incerto do que viria, e dito: vai ficar tudo muito bem. E, fazendo isto, senti nos ombros um outro Marco, quem sabe de oito anos pra diante, fazendo o mesmo, e ao sair botei o Eduardo sobre os ombros e fui assobiando uma música qualquer.

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Enquanto isso, muito longe dali, o São Paulo começava a saborear o seu nabo colombiano. Eu fui todo feliz para a salinha do hospital onde um televisor sintonizava a Globo, mas percebi com horror que a transmissão era via cabo e o que chegava era Flamengo e Vitória, e não o jogo que eu queria ver.

Consolei-me lembrando das desventuras que me impediram de ver o segundo jogo do São Paulo contra o Deportivo Táchira. Lá saiu goleada. Estou longe de ser supersticioso, mas nessas horas qualquer consolo é consolo. E estava funcionando muito bem. Dirigindo de volta pra casa, já comprada a pomada que o bilau infeccionado exigia, ia ouvindo no rádio o empate que levaria a coisa para os pênaltis, quando Rogério Ceni certamente resolveria a parada.

Desço do carro, abro o portão e ouço uma gritaria pela vizinhança? Atropelei o cachorro, a porta e liguei a televisão para ver o placar que mostrava Once Caldas 2, São Paulo 1. Pra esse tipo de situação, repetir-se shit happens não faz o menor efeito, colega, nem tente quando acontecer contigo.

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Jogos assim eu gosto de desligar a televisão antes de o juiz apitar. Fica aquela esperança não confessada de acordar no dia seguinte e descobrir que a lavoura foi salva no último segundo, tipo França e Inglaterra pela Eurocopa. Eu deveria dar ouvidos ao Rodrigo, velho colega de Grupo Pão de Açúcar, que afirmava com sabedoria ímpar: "a esperança é a única que morre".

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E foi assim que o bilau do meu filho me poupou de passar duas horas de sofrimento para ver minhas esperanças baldadas no último minuto de jogo. Espero que a pomada funcione.
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Posted by marcol at 9:57 AM

junho 16, 2004

Perseguição implacável Nas viagens que

Perseguição implacável

Nas viagens que eu fazia com o coral, geralmente ficávamos hospedados em casas de membros da igreja local. Íamos de dois em dois alojar-nos em cada casa e isso acabava sendo uma fonte de diversão inusitada. Podíamos ir parar na casa do abonado da área, que passou um mês inteiro enchendo a despensa para esse dia, e passar muito bem, mas podíamos também ir parar em uma casa humilde. Podíamos conhecer gente interessantíssima, ou ficar sob a tutela de tipos estranhos caricaturais.

Aí fomos para Dracena, no interior de São Paulo. O tal do abonado local era um fazendeiro, que matou um carneiro pro coral todo. De lá, barriga cheia, fomos distribuídos para as demais casas. Um tiozinho levou a mim e a mais três para a casa que iria nos hospedar, que era, como a fazenda, afastada do miolo de Dracena.

O fuscão embarafustou-se por uma porteira com um caminho de terra cheio de árvores. Entre elas galinhas, cabritos, pedaços de tratores e outras máquinas agrícolas. Parou ao lado de uma casa térrea, grande, com a parede descascada em alguns pontos e um enorme bode deitado na varanda, em frente à porta principal. O cheiro de xixi e cocô era o perfume predominante. Batemos almas, depois, pedindo licença ao barbudo, à porta, mas ninguém apareceu. Seria aquele mesmo o lugar?

Um dos meus amigos acionou a maçaneta e a porta se abriu. Ele, eu e mais um outro entramos na maior sem cerimônia, enquanto o quarto ficava lá fora, com o tio do Fusca. Demos com uma casa completamente desarrumada, sofás com lençóis por cima, pistolas de vacina veterinária sobre a mesa, restos de ração pelos cantos. Fomos entrando e comentando entre risadas o que a gente ia vendo. "Olha ali o nosso café da manhã" disse um, apontando o monte de ração. "Duro vai ser lavar essa louça" disse outro, olhando uma panela de alumínio enorme, com uma crosta preta. A gente riu pra burro, na certeza de que estávamos sozinhos na casa. No quarto, com cama de casal desarrumada, um Grande Conflito na cabeceira nos fez perceber que estávamos no lugar certo.

Sem mais nada para usar como alvo de piadas, saímos. Ao pisar a varanda, vimos um enorme ganso vindo em nossa direção com ar de não muito bons amigos, berrando e abrindo as asas. Fizemos de conta que não ligamos pra ele, fomos andando, descendo as escadas da frente. Percebemos com horror - mas sem o demonstrar - que ele sabia descer escadas e continuava vindo na nossa direção. "Dizem que os gansos são os melhores cães de guarda que existem" falou alguém. "É" responderam os outros ainda tentando afetar tranqüilidade mas já se sentindo um tanto desconfortáveis com a perseguição do plumoso guarda.

Notamos então que ele não respeitava o caminho e vinha cruzando o gramado, cortando o maior caminho. Avistamos o Fusca e, apressando o passo, perguntamos ao outro onde estava o tiozinho: "Sei lá, desceu por ali e disse que ia pegar carambola no pé" ele respondeu. Quando o ganso chegou a poucos passos a gente desistiu de fingir e começou a correr em volta do Fusca.

Mais ou menos na terceira volta, os quatro marmanjos correndo em fila indiana, eu já arquitetava uma forma de abrir a porta do Fusca e tascar-me dentro dele de um jeito que o bicho não me pegasse, quando olhamos para trás e vimos uma bela biscoituda olhando tudo encostada numa pilastra da varanda. Tinha uma baita cara de sono e olhava a cena de forma um tanto hostil.

Corremos na direção dela, meio que pra dizer "opa, como vai, tudo bom?", e percebemos aliviados que o bicho desistiu de perseguir a gente.

Nunca vou saber se a hostilidade dela era por não nos conhecer, por ter acabado de acordar ou por ter ouvido o monte de coisas pouco elogiosas que falamos sobre a casa dela na nossa xertíssima expedição casa adentro. Também, não faço a menor questão de descobrir.

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Aliás, bem a propósito, assisti esses dias a dois ótimos filmes: Tróia e O Pianista. Este último era uma lacuna que foi suprida ao dar com o DVD do tal vendendo por 15 reaus na Blockmonster. O primeiro foi uma segunda opção meio forçada, já que a idéia era ver Diários de Motocicleta, que, contudo, passou em uma única sessão, às 17h00.

O Pianista é um filme sem inovações estilísticas na forma de filmar, sem montagem videoclipesca, sem enquadramentos inusitados. É um filme conservador, mas tem um roteiro estupendo (a Segunda Guerra não nunca deixar de nos chocar?), ótimas locações e figurino e um ator absolutamente fantástico. A caracterização de um sobrevivente feita por Adrien Brody é emocionante.

Tróia é filmão hollywoodiano e, diferentemente de alguns metidos a besta, não tenho isso na conta de uma crítica, mas de um elogio. Também conta com ótimo figurino, uma fotografia belíssima, bons atores e um roteiro bacana. Além de tudo, a temática da guerra cantada por Homero é excelente e admira que ninguém houvesse tocado esse bonde antes. As cenas de Tróia em chamas são primorosas e os personagens ficaram de uma forma geral bastante bem desenvolvidos, verossímeis, críveis.
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Posted by marcol at 1:51 PM

junho 11, 2004

Ainda a paternidade E tem

Ainda a paternidade

E tem gente que não quer ser pai. Ontem estávamos na cama os três, e a Tatiana tentava fazer o Eduardo dizer "amo mamãe". Ele fazia uma cara séria, abaixava um pouco o rosto e dizia algo como "momo papai" e saía rindo. Pode uma criaturinha de menos de um metro tirar sarro desse jeito? Antes ele gostava de fazer algo parecido com uma das tias, que é especialmente melosa. Ela abria os braços e pedia um abraço, ele saía correndo como se fosse atender ao pedido mas na hora de se jogar nos braços dela virava e passava direto, deixando-a a ver navios (embora estejamos um tanto distantes de portos de qualquer espécie).

Você sabe o que é ouvir "momo papai"? Já ouviu música mais sublime?
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Posted by marcol at 11:51 AM

junho 8, 2004

Antes disso, no saloon de

Antes disso, no saloon de Jack Cabeça de Jabuti

Jimmy Mãos de Borboleta, em um momento erudito, tocava com maestria "Poor Elise - got no husband", admirando distraidamente o saloon por cima do piano armário. Dali ele via Bill "Murros" Wilkinson, o xerife, descascando uma cenoura com um canivete, o pequeno Juanito Manos Leves aprendendo o método Vegas de embaralhar as cartas, Rosa, a Rumorosa, retocando a maquiagem mirando-se no cano da arma de Paco, o Cucaracha, que afiava uma foice na ponta da mesa.

Vendo a proximidade de Paco, o Cucaracha, e de Rosa, a Rumorosa, Jimmy achou que seria o caso de demonstrar cultura e dizer alguma coisa a um só tempo profunda e cínica. Disse, portanto, olhando enigmático para a janela, de onde se avistavam montes de feno rolando pela avenida:

- Diga-me com quem tu andas, tanto bate até que fura.

O xerife Bill "Murros" Wilkinson olhou Jimmy Mãos de Borboleta, depois olhou a cenoura em suas mãos, e, acreditando que o recado fôra para ele, resolveu retrucar na mesma moeda. Virou-se de costas, tomou nas mãos o copo de bombeirinho, secou-o duma talagada só e resmungou, olhando para o fundo do copo:

- Pois é. Quem com ferro fere, não se olha os dentes.

Paco, o Cucaracha, achou que era com ele. Considerou algum tempo, de forma sombria, a foice que tinha nas mãos, e afirmou palitando os dentes com a mesma:

- Sim, mas eu sei também que em boca fechada ficam os dedos.

Rosa, a Rumorosa, que estava justamente retocando o batom, sentiu-se ofendida e, largando a arma de Paco, o Cucaracha, sobre a mesa, vaticinou:

- Água mole em pedra dura, com ferro será ferido.

Juanito Manos Leves, deixando o baralho esparramar todo pelo chão, achou que deveria contribuir, e, limpando a garganta, falou:

- Calar-se quando um tolo lhe dirige a palavra é responder-lhe.

Os demais circunstantes se entreolharam por alguns instantes, depois disseram a uma só vez:

- Bah, isso não faz o menor sentido, Juanito Manos Leves!

A essa alturam Jimmy Mãos de Borboleta já executava "Jerome, the butcher, ain't got my lone hear".
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Posted by marcol at 11:50 AM

junho 7, 2004

Muito estranho, este mundo A

Muito estranho, este mundo

A revista Mundo Estranho publicou este mês, em comemoração ao seu segundo aniversário, um mapa múndi com o que eles chamaram de "Os cem lugares mais estranhos do mundo". Honestamente, não sei como cheguei até aqui sem saber aquelas coisas todas. Aí vão algumas delas:

* Aonde estão as múmias mais antigas do mundo? Royal Brittish Museum? Louvre? Cairo? Nada disso: San Miguel de Azapa, Chile.
* A honorífica marca de maior concentração de albinos do mundo é nossa, uhu! Ilha dos Lençóis, no Maranhão, é quem levanta a taça. Já a maior concentração de daltônicos vai para o Atol de Pingelap, na Oceania.
* E em Mimbó, Piauí, onde os 800 habitantes se chamam Rabelo da Paixão? São todos parentes!
* Na estação russa Vostok, na Antártida, o povo tem que picar a mula no inverno, que atinge temperaturas de até - 90º. Mas o lugar habitado mesmo mais frio do planeta deve ser OYmyakon, na Sibéria, onde é possível deliciar-se na brisa dos -50º.
* Quer disputas esquisitas? Veja o que o ócio não faz: na Inglaterra, em Wetton, acontece o torneio anual de luta de dedões de pé. Em Sonkajarvi, na Finlândia, o barato é uma corrida em que os homens carregam as esposas nas costas por 250 metros com barreiras. Em Selcuk, na Turquia, o povo faz uma fezinha na luta de camelos, enquanto que em Chen Jia, na China, quem entra no ringue são grilos, e os campeões podem valer até 1500 dólares!
* Pague para entrar, reze para sair: em Klampenborg está ativo um parque de diversões inaugurado logo ali, em 1583. Acha velho? Que tal hospedar-se num hotel aberto em 717 d.C.? Pois em Awazu, no Japão, você consegue.
* Chega de reclamar do arzinho de São Paulo, onde você pode de fato ver o ar que respira. A cidade mais poluída do mundo é Dzerzhinsk, na Rússia, onde a expectativa média de vida é de 47 anos para mulheres e 42 para homens. Ainda é boa, comparada à de Botsuana, onde um homem vive em média 36 anos e uma mulher 37.
* Em La Gomera, nas Ilhas Canárias, você pode aprender um idioma só de assobios.
* Na cidade que leva o sugestivo nome de Tororo, em Uganda, os dias são chuvosos com trovoadas em 251 dias ao ano, em média.
* Sem dúvida, a informação mais intrigante: em Sidney você pode visitar uma réplica da estátua da Liberdade feita todinha de manteiga.

Uau!

Deixe nos comentários o seu testemunho sobre como essas informações mudaram sua vida.

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Aproveite e deixe também o seu impropério pelo Parreira style, que te faz ficar acordado até depois da meia-noite para ver o Brasil entregar a rapadura de um jogo moleza. Por favor, evite palavras de baixo calão.

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A propósito, já reparou como o Galvão escolhe sempre um ou dois jogadores do adversário para tascar elogios, e esquece completamente do resto do time? Pode uma atuação magistral como a do Maldonado ontem ficar sem um único comentário? E, cá pra nós, vociferarem dizendo que não foi pênalti aquele lance, é de doer.

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Milton Ribeiro, parabéns pelo Inter! Tiagón, faça como os argentinos e passe a prestar atenção ao tênis. Ou outra coisa qualquer.
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Posted by marcol at 1:14 PM

junho 4, 2004

O custo São Paulo Morar

O custo São Paulo

Morar num local onde apinham-se 11 milhões de pessoas tem algumas vantagens e uma penca de desvantagens. As vantagens são óbvias e as desvantagens mais ainda, mas esta semana o custo de se viver aqui me foi sintomático do que acontece no resto do ano.

Pra começar, gastei uns 130 reais com antibióticos pro Eduardo, que pegou uma gripe graças ao clima doido. A gripe desenvolveu-se numa sinusite, coitado, graças à qualidade excepcional de nosso ar, que o faz também alérgico a mofo, bolor, umidade, poeira, sei lá o que.

Aí, na quarta-feira me roubam o carro. Isso seria ótimo, já que eu pago o exorbitante seguro (em São Paulo, o seguro de um carro como o Gol custa em média R$ 1000,00) e a perspectiva de ter o valor do carro na mão para comprar um outro era até auspiciosa.

Mas no dia seguinte acharam o bichinho. Os caras até que foram gente; não levaram os bancos, nem o motor. Mas comprar uma nova bateria, um estepe e uma bomba de gasolina (que eles tentaram arrancar e acabaram quebrando, já me arrancou 500 pilas do bolso. Isso porque todas essas peças consegui mais baratas do que comumente se encontra no mercado.

Um dia conseguirei comprar um outro rádio, um outro óculos de sol, uma outra cadeirinha de nenê e estarei restaurado ao status quo ante quarta-feira. Um pouco mais assustado, um pouco mais raivoso, um pouco mais revoltado e muito mais grato a Deus, porque me mantém vivo no meio dessa insanidade.

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Aceita-se emprego para advogado em qualquer Curitiba, Florianópolis, Londrina, Porto Alegre, Blumenau, Joinvile e que tais.

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"Todo dia o aeroporto em frente me dá lições de partir" - Manuel Bandeira.
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Posted by marcol at 3:34 PM

junho 3, 2004

Mais do mesmo O Kibeloco

Mais do mesmo

O Kibeloco anda em semana especialmente inspirada. Olha esta:

Roubaram meu carro ontem, mas a manhã depois duma vitória sobre a Argentina é sempre azul, os pássaros mugem, as vaquinhas dançam cancan, os sapos sapateiam um twist e as flores exalam na atmosfera diáfana seu pólem inebriante.
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Posted by marcol at 10:28 AM

junho 2, 2004

Estou com o Abdias do

Estou com o Abdias do Cyro dos Anjos: "Penso que sou muito mais um homo scribens do que um homo loquens".
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Posted by marcol at 6:03 PM

Essa foi boa, Mr. Kibeloco!!!

Essa foi boa, Mr. Kibeloco!!!

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Posted by marcol at 1:35 PM