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maio 21, 2004
Minha história de flertes em
Minha história de flertes em ônibus
Um dia uma amiga me chamou a atenção pra que boa parte dos contos que eu tinha escrito se passavam dentro de ônibus ou metrôs. Ora, habitando a periferia de São Paulo e estudando no centro não havia como ser diferente, boa parte da minha existência eu passei dentro de transportes coletivos por aí, e no ônibus você tem tempo pra olhar ao redor e gente curiosa pra observar.
Li outro dia num blog uma história meio onírica sobre um flerte no ônibus, que me remeteu a minhas experiências nesse campo. Prepare-se, pois, para uma altíssima carga de sensualidade, diálogos picantes e temperatura nas alturas:
I
Eu ia da Vila Olímpia para Santo Amaro em um ônibus que dá mais voltas que moscas de lâmpada. Havia conseguido um lugarzinho para sentar bem em frente ao cobrador, antes de passar a catraca, portanto. Estava no meu indefectível terno de linho claro, uniforme de estagiário de direito pobre, mas com uma gravata linda de morrer, que eu havia comprado com metade da minha bolsa auxílio do mês anterior na Mr. Kitsch, graças a uma vendedora especialmente persuasiva (troque por biscoituda, se quiser).
O ônibus pára e eu vejo subir um rosto conhecido. Puemba, era uma modelo lindíssima, que havia sido capa da Capricho fazia pouco tempo. Quis a Providência que ela se assentasse aonde? Sim, ao meu lado. Quis, ainda, a Providência, que ela não fosse muito acostumada a esse negócio de ônibus e tivesse dúvidas sobre o itinerário. A Providência, não satisfeita, quis que o cobrador fosse uma anta e não soubesse responder o que ela lhe perguntou, deixando caminho aberto para eu socorrer a formosa dama com minha voz de baixo e meu know how de quem conhece as estradas e o tempo. Ela pareceu muito agradecida, e ficou ali, ao meu lado, e eu há pelo menos uns onze meses sem namorada e sem um beijinho sequer.
Aconteceu o que acontece sempre nessas ocasiões. Digo, acontece sempre quando ando de ônibus: eu dormi. E quando acordei ela não estava mais. Foi isso.
II
Entre o Mackenzie e o alto dos jardins (digo, o real alto dos jardins, que é onde moro até hoje. Ali você tem o Jardim Jerivá, o Jardim Aurelio, mais abaixo o Jardim Colégio, depois o Jardim das Rosas e os internacionalmente famosos Jardim Irene e Jardim Ângela - o primeiro sendo o lar do Cafu e o segundo um visitador freqüente das letras dos Racionais MCs, meus vizinhos queridos) há um Objetivo.
Eu ali, sentado, inusitadamente acordado, havendo acabado de fechar o livro que estava lendo, observei quando duas ninfas melífluas e donas da graça e da formosura (enfim: biscoitudas) entraram, saídas do velho e bom cursinho. Quis a Providência (ah, como ela é paciente comigo!) que parassem ao meu lado, de modo que ofereci-me mui garbosamente para segurar seus cadernos e apostilas. Acomodei a pilha sobre o colo, atentei ao roçar insinuante das calças jeans no meu ombro e deixei simplesmente a natureza seguir seu curso. Leia-se: dormi.
De repente tomei consciência de que dormia e abri os olhos. Com horror notei que estava curvado sobre os cadernos das meninas e uma grossa poça de baba escorria pela capa do que estava no cimo da pilha. Pensei rápido. Enquanto respirava fundo e endireitava as costas, passava sutilmente a mão sobre a poça, tentando secá-la. Evidentemente não levantei mais os olhos para elas, nem quando elas pediram suas coisas, de modo que jamais saberei se elas notaram ou não a hidratada que dei em suas coisas.
III
Aí eu estava no Jardim das Rosas, o proverbial ônibus que ligava o largo de são francisco ao alto dos jardins, retro mencionado. É bom frisar que nunca, jamais, avistam-se no referido coletivo graciosas moçoilas de cabelos loiros. Imaginem, pois, meu espanto ao ver uma legítima representante dessa nobre classe adentrando o ônibus. Imaginem o calor interno ao ver que ela olhava para mim, só então para o assento vago ao meu lado, e assentava-se dizendo: "com linceça" com indizível graça.
Ah, quanto trabalho tem a Providência comigo. Dormi, claro, e acordei sobressaltado quando percebi que minha cabeça pendeu para trás e acertei o balaústre do banco, fazendo um ruído altíssimo. Ela me olhou, eu sorri e, óbvio, jamais olhei para ela outra vez nessa vida.
IV
Aí a coisa era diferente. Eu a conhecia. Eu queria muito namorar com ela. Eu gesticulava freneticamente disparando meus argumentos e minha lábia mais afiados. A um dado momento ela pediu licença e enfiou a mão por entre as folhas da janela do antigo ônibus, que estava trepidando irritantemente, para podermos continuar a conversar e foi assim, nessa situação pouco semelhante a uma lareira acesa e um foundue de chocolate, ou um luar sobre uma baía plácida de Ubatuba, que ela disse sim.
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Posted by marcol at maio 21, 2004 9:25 AM