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abril 23, 2004
Antes que o MST invada
Antes que o MST invada este blog improdutivo (se é que eles ligam presse negócio de produtividade):
Determinismo
No entender de todo mundo é a oportunidade perfeita para Renato solidificar o reinado e cortar pela raiz a falação de que está amolecendo. Ele não tem alternativa: é certo que a manhã de sábado amanheceria pra encontrá-lo de pé no campinho do Germânia, a velha e infalível lâmina na mão e o sangue do Jota e do irmão dele escorrendo sem parar pelo areão.
Sabe, essa vida é amargosa, trabalhosa. Um homem precisa de tempo e vontade férrea pra saber o que seja respeito. Aí ele tem o que se convém chamar poder; gente que o teme, que o obedece, que quer agradá-lo. Seja num círculo pequeno, seja num grande, isso não tem preço.
Você há de, na sua pressa típica, rotular o círculo de Renato como pequeno, já que é gente parda da periferia que mata e morre todo santo dia, fala sua língua estranha e chafurda na sua lama sem fim. Daqui, contudo, de trás desse balcão de bar, onde as pessoas vêm comentar tudo o que acontece na adjacência, eu tenho que discordar. Na verdade, le garanto que Renato tem grande círculo de respeito, porque a gente que orbita em volta dele é muita, irmão, muita!
Custou o couro de seis homens. Seis homens. Quer dizer, pela mão dele, que pelas dos comparsas foi mais. Começou cedo, com quatorze foi o primeiro e nem se há de dizer que foi um pirralho, mas o Mutum, sujeito tinhoso que mais de uma vez me quebrou o bar em briga, ligeiro em sacar o berro e em passar a mão em mulher dos outros.
Agora tem seu domínio, coisa cara. Quanta gente você não vê no alto de suas fortalezas blindadas, com insulfilme e olhar aparvalhado, que jamais há de saber o que seja isso? Respeito? Temor?
E não só isso. Amor, também, que Renato é homem admirado, modelo pra muito guri que cresce sem referência nesse sarjetão. Daí porque o que Renato tem, le digo, não se joga fora de hora para outra, como quem cospe um bagaço de cana.
Por essas e outras que todos têm como certo que o sábado há de amanhecer para encontrar Renato dando curso ao seu destino, fazendo calar a boca de quem o desafia, confirmando a sua história ou morrendo por ela.
Euzébio diz que acha que não. Que Renato tem perdido tempo demais em leroleros com a menina crente. Água e óleo, ele diz, água e óleo. Seria o caso de o dito estar virando óleo também, pra poder se misturar.
Sei que eu agora olho para ele ali, sentado a uma de minhas mesas, comendo um palito de dente com o olho meio perdido na selva da favela e o que estará pensando?
Estará vendo a mãe, abominando o pai dele, que ele não conheceu. Estará vendo os dias de barriga vazia e a necessidade de estar com os que o desprezavam. Estará vendo as surras que levou naquele mesmo campinho, as pedras dadas e recebidas, a vida esgueirenta por entre os barracos, pulando as lajes, vendo a marcha de um mundo que o põe revel e calado, que não quer saber da sua voz. Estará vendo tudo o que o fez ser o que é.
- Ela quer casar na igreja, diz, sem saber que eu ouço enquanto seco um copo.
O sábado amanhece com falação. Jota e o irmão cospem no chão, agitam os braços e esbravejam.
Renato não apareceu.
Ao saberem que tomou a menina crente na noite e correu alguma estrada desse mundo todos dirão que se acovardou, que pensou aqueles dois coisa demais pra faca dele e que era o seu sangue quem perigava irrigar o campinho.
Mas eu, que sei, direi de trás do meu balcão apenas que Renato exorcizou seus fantasmas, mudou a escrita.
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The inspiral carpets
A solidão é igual em Manchester, Tokyo ou Nova York. Quem disse isso foram os caras do Inspiral Carpets, uma banda que mal apareceu, sumiu, tudo na primeira metade dos anos 90. Estavam na fervilhante cena de Manchester pós-Smiths, onde cada banda que emplacava uma música era saudada como os novos Smiths. Havia novos Smiths a cada semana, portanto. Para conseguir emplacar alguma música, os Inspiral Carpets aproveitaram um contato que tinham numa distribuidora de leite e estamparam publicidade de seu disco na caixinha de leite. Foi por isso que o símbolo da banda se tornou uma vaca com os olhos em espiral. A estratégia tanto deu certo como hoje um habitante da periferia duma grande cidade da América Latina tá falando deles.
Esta foto aí é uma raridade, eles dificilmente davam as caras e decerto não era estratégia de valorização da imagem, mas porque eram feios pra dedéu. O importante é que a sonoridade cultivada pela banda era muito interessante: órgãos fafisa em primeiro plano, voz (bastante boa) e guitarra em segundo, variações inusitadas de ritmo, enfim, recursos em abundância, longe muito longe da obviedade da música americana.
Os Inspiral Carpets gravaram ao menos um grande disco. Chamava-se The Beast Inside e foi dali que saiu Caravan, música que tocou relativamente bem por aqui. Mas há ali também canções interessantes como Please Be Cruel e Born Yesterday e belas canções como Niagara e Sleep Well Tonight. Esta última é uma das mais lindas que me lembro de haver ouvido, faz parte da trilha sonora do filme que nunca filmei, especialmente naquela cena da menina de longos cabelos loiros colocando a cabeça para fora da janela do carro que cruza uma estrada imensa no verde e claro interior de São Paulo.
Descobri que eles ainda existem, estão ativos, fazendo shows. Decerto descobriram que não levam jeito pra contadores ou massagistas. Confira aqui. E corra no kazaa pra buscar Sleep well tonight e Rain Song.
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Posted by marcol at abril 23, 2004 2:23 PM