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abril 16, 2004

Alguma coisa que você nunca

Alguma coisa que você nunca entendeu

Você não vai querer ler isto.

Histórias de velhos arrependidos existem aos borbotões por aí.

De qualquer forma escrevo, eis que cada um exorciza seus demônios dum jeito. Cada um dá um fim aos seus dejetos como melhor lhe parece. No fundo acho que entre outros tantos grupos há o dos que, pra se aliviar, escrevem, mas também o dos que lêem.

A menina é inteligente. Fica movendo aqueles olhinhos pretos brilhantes, aí fica disparando perguntas por entre os lábios vermelhos como de batom, num meio sorriso quase cínico. Tira tudo de mim. Tudo.

Pois é, ela vem aqui geralmente nas tardes de domingo. Entra sem cerimônia, pega uma maçã e senta na cadeira de balanço.

Minha aspereza não impressionou, ela parece se divertir. Se eu pergunto porque ela me visita ela dá de ombros e diz: "porque lá em casa tá muito chato". Eu ouço o barulho da televisão e concordo com ela.

Esta tarde estava perguntadeira como nunca. Me fez revirar toda a seqüência de nãos desta vida vã, sem piedade, sem um gesto de compadecimento sequer, o que me põe tonto, porque não entendo como essa absoluta ausência de hipocrisia, como essa curiosidade irrefreável podem ter tamanho efeito sobre mim.

"Tem alguma coisa que você nunca entendeu? Algo que te cause arrependimento?" largou de repente.

Aquela testa alta, os cabelos escuros caindo lisos pelos ombros, o raio do meio sorriso e a pergunta me fizeram chegar no colégio adventista em 54. Era uma tarde quente demais, a lousa estava cheia de rabiscos incompreensíveis e eu viajava na garupa de D'Artagnan, decerto. Ah, essa propensão à fantasia! Isso mata alguém.

De repente, o professor Gorski anunciou que o restante da aula seria dada ao ar livre, lá na "Praça da Bíblia", para satisfação geral da classe. Meninos pela escada dos meninos, meninas pela escada das meninas, todos encontraram-se na porta do prédio, falando pelos cotovelos. Eu não. Ia fechado, viajando na garupa de Dom Quixote, decerto.

- Fizeste o teste para o [coral] Carlos Gomes?

A voz quebrou a fantasia e só aí notei que ia ao lado de Eunice dos Reis. Ela apertava os olhinhos por causa do sol, mas o narizinho apontado para mim não deixava dúvidas de que falava era comigo mesmo.

Respondi que sim, mas que não esperava ser aprovado. Ela disse que o coral precisava de vozes bonitas. Sem entender o que ela queria dizer, concordei com um gesto de cabeça, secando as palmas das mãos nos bolsos da calça de tergal. Em seguida ela disse que às vezes conseguimos coisas que nos surpreendem. Imaginando que ela falava ainda do teste para o coral, observei que a concorrência era intensa. Ela sorriu.

Entende? Ela sorriu.

Uma colega se aproximou e começou a conversar com ela e eu voltei pra mim, mas não mais para Dom Quixote, D'Artagnan nem capa e espada nenhuma. A gente chegou na praça da Bíblia. Hora de sentar em roda no gramado. Eunice me lançou um olhar, eu fiquei todo embaraçado. Sem saber o que fazer, temendo cometer alguma estupidez e passar vergonha, passei por ela e fui sentar ao lado de uns colegas.

"Tem alguma coisa que você nunca entendeu?" Entre outras tantas, minha querida vizinha, tem aquele olhar de Eunice dos Reis, no meio duma tarde modorrenta. Só que isso eu jamais vou te contar.

Bom, eu avisei que você não ia querer ler isto. Mesmo assim, você insistiu. O mundo está abarrotado de histórias de velhos arrependidos. E está já bastante cheio também de histórias de velhos que encontram nos seus últimos dias pessoas idênticas aos seus respectivos grandes amores, e se perturbam feito crianças.

Tem horas que eu não entendo o olhar dessa menina, a minha vizinha.

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Posted by marcol at abril 16, 2004 2:20 PM