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abril 26, 2004
A marcha do tempo Este
A marcha do tempo
Este final de semana conversava com meu pai sobre a incrível mudança que se processou no mundo nos últimos anos. Eu lhe dizia que não conseguia lembrar como é que eu pesquisava pra fazer os trabalhos da faculdade, ou mesmo minhas primeiras defesas, já como advogado. Agora é só clicar duas palavras-chave no site correto e a coisa pipoca na tela, como era então naquele remotíssimo 1997? Ele, por sua vez, falou de um fosso muito mais profundo. Disse que quando morou em Salvador e sua mãe conseguiu uma enceradeira elétrica, a janela da sala, que dava para a rua, ficava apinhada de cabeças curiosas. Disse que quando conseguiram uma geladeira a querosene as pessoas da igreja visitavam-nos para ver aquela maravilha. Disse que veio a saber o que era ter telefone em casa há menos de vinte anos.
Olhei meu filho ali do lado, traçando um tomate, e me esforcei pra imaginar o mundo no qual ele terá filhos, caso a coisa não tenha antes o feliz fim do qual Cristo falou em Mateus 24:42 a 44. Meu pai percebeu o que eu fazia e disse para eu desistir, é inútil tentar prever.
Mais tarde eu tentava ensinar a ele e à minha mãe como baixar o messenger pra poderem falar com meu irmão lá no Mexico e tremi vendo o estranhamento deles ante a tela do computador e pensando, de novo, nas coisas que vêm por aí.
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Ficções nº 1
Ao ver o Carrefour despontar sentiu um arrepio subindo a espinha. A mão suada apertou mais forte o balaústre, os olhos se fecharam.
- Estação Giovanni Gronchi - a voz no alto falante.
Céus. Que "G". Que voz encorpada, que calor nas sílabas pronunciadas como quem pisca um olho, como quem morde um lábio.
Ele estava apaixonado pela locutora dos nomes das estações. Olhava as mulheres bonitas no trem apenas para imaginar se seu rosto combinava com a voz, mas preferia mesmo imaginar do nada, cabelo, queixo, olhar, narinas, orelha, altura, tez, cheiro, tônus, tudo. Estava totalmente tomado pela paixão, começou a chegar mais tarde em casa, já que ia até a última estação e na hora de sair não conseguia, permanecia ali, voltava o caminho inteiro, estremecendo a cada nova estação anunciada.
A situação já era insustentável. Alguma coisa teria que acontecer, porque a permanecer naquele pé ele enlouqueceria ou alguma tragédia ocorreria.
Mas isso foi até o dia 26 de março, quando completou treze anos e ganhou da mãe o playstation que havia pedido fazia seis meses. E só foi ligar pra essas coisas de amor outra vez anos mais tarde.
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Posted by marcol at abril 26, 2004 1:10 PM