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março 31, 2004

Mais tarde, no Salloon de

Mais tarde, no Salloon de Jack Cabeça de Jabuti

Juanito Manos Leves adentra o Salloon visivelmente agitado.

- ¡Los federales! ¡Los federales! - ele grita agitando os braços num estilo assim meio Mariah Carey.

- Que? espanta-se Paco, o cucaracha, ainda com a foice que afiava na mão.
- Ora ora - resmunga o xerife Bill "Murros" Wilkinson, entornando em seguida mais um rabo de galo.
- Omessa! esbraveja Jimmy Mãos de Borboleta martelando com fúria o estribilho de "My love is a gun".
- U-la-la - diz Rosa, a Rumorosa, ajeitando os fartos seios.
- Calças Lee, calças Levis! - diz Barney Boob, o velho cego, crente de que se tratava do anúncio de mais potenciais clientes chegando.

Adentram três homens de terno com ar sombrio, batendo a porta com tudo nas costas de Juanito Manos Leves, que incautamente se havia deixado ficar à porta para melhor saborear as reações dos circunstantes.

- Que maus ventos os trazem? perguntou o xerife sem sequer olhar pra trás.
- Viemos investigar o sumiço dos agentes da Patrulha de Conscientização da Causa Gay, no último outono.

Jimmy Mãos de Borboleta lança um olhar significativo para Paco, o cucaracha, que nada percebe porque está lançando um olhar significativo para o xerife, que também, por sua vez, está lançando um olhar significativo sobre Barney Boob através do espelho do bar. O velho não está olhando significativamente para ninguém, porque é cego, mas achou que o silêncio era um bom momento para anunciar mais uma muamba:

- Ó a capa do celular! (Barney Boob sempre foi um homem à frente de seu tempo, por isso era incompreendido).

Rosa, a Rumorosa, fez seu approach ao que parecia ser o chefe dos três, acariciando seu peito enquanto dizia com voz rouquenha:

- Vai dizer, agente federal, que o senhor... simpatiza com a causa dos desaparecidos?
- Bem... não, de fato.

Rosa, a Rumorosa, passou então a morder os lábios enquanto deslizava o dedo indicador pela face do agente:

- Na verdade, bem ao contrário - continuou o homem - MUITO ao contrário!

Rosa, a Rumorosa, deu sua risada mais perversa, e, puxando o tipo pela gravata borboleta, desapareceu porta afora.

Dois meses depois, Juanito Manos Leves adentrou atabalhoadamente o Salloon de Jack Cabeça de Jabuti:

- ¡Los federales! ¡Los federales!

Repetiu-se a cena já descrita com poucas variações, apenas um acréscimo de personagens. Os três agentes ingressam, olham em torno de forma ameaçadora e avisam:

- Estamos investigando o sumiço dos agentes que investigavam o sumiço dos outros agentes!

Rosa, a Rumorosa, abana-se com seu leque rindo escancaradamente, enquanto todos no salloon se olham significativamente. Especialmente os agentes de dois meses atrás, agora com a barba e o cabelo crescidos e olheiras muito fundas sob os olhos.


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Posted by marcol at 6:23 PM

março 30, 2004

Mais Haroldos Maranhão A belíssima

Mais Haroldos Maranhão

A belíssima Meg, dona e senhora do SubRosa e principal agitadora do Concurso de Narrativas Curtas Haroldo Maranhão, cometeu a fofice de me mandar os dois textos que eu havia remetido ao concurso e que não haviam sido premiados, já que eu, antamente, não os havia guardado. Mais que isso, ela pediu para sua amiga Magaly dar uma criticada nos ditos, o que foi feito com muita graça, sensibilidade e sobretudo misericórdia.

Tão aí, Helio Serafino. Foi você quem instou para que eu fosse atrás desses filhos desgarrados.

Não há de ser nada

Adriano suspirava fundo olhando os pingos que a chuva pintava na vidraça. A mente fixa na caixa que dali via, a uns dez metros.
- Vai estudar, moleque - a mãe dizia, ele não ouvia.
Num salto abriu a porta e saiu, sem sentir a chuva, andou e dizia de si pra si:
- Quarta-feira, 25, é mesmo o melhor dia pra se receber uma carta da Regina.
Alcançou o carcereiro de sua atenção, a caixa do correio, abriu a portinhola, olhou em baixo, abaixou pra olhar em cima, dos lados, nada. Tornou à casa, onde, pingando, ante o intrigado olhar da mãe, pensou:
- A quinta-feira 26 sim, é o dia ideal pra se receber uma carta da Regina!

La bella luna

De repente se viu no quarto em que ela, ninguém menos que ELA dormia. O racional: sair correndo. O que fez: chegou perto - respirando sua respiração, sentindo um perfume que estava na sua cabeça, sorvendo sua aura toda - perto, muito perto, e tão perto que sem perceber estava ali, beijando seus lábios entreabertos e sonhando sonhos inefáveis.
Mas entreabertos também estavam os olhos dela, percebeu com horror. Tropeçou desastradamente para fora e foi se enfiar na cama.
No café-da-manhã do dia seguinte, à fila do bandejão, ela olhou pra ele, abriu a boca pra falar alguma coisa e ele, mais que depressa, fingiu ter esquecido alguma coisa e saiu correndo. Ela resmungou pra amiga: eu ia dizer que sonhei com esse garoto essa noite. Que coisa.

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Comentários da Magaly:

Não há de ser nada

Esta é também uma deliciosa mostra do talento de Marco Aurélio. Ele capta a ansiedade natural do adolescente em suas primeiras incursões amorosas e constrói um quadro cênico,
onde a alma expectante se aliena da realidade, age inusitadamente e termina por fazer da frustração uma esperança para uma ocasião futura, no caso, o dia vindouro.

La bella luna

Outra experiência de jovem, com tempero diferente:
receio / indecisão X atração / pulsão, transformando-se no ditame: comedimento - uso do racional X cometimento - apelo à audácia.
A graça toda reside no fato de a garota, em sua sonolência, ter confundido com sonho a afoiteza do agora arredio colega de alojamento.


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Posted by marcol at 5:16 PM

março 29, 2004

Semântica Ele se perguntou quanto

Semântica

Ele se perguntou quanto tempo fazia que ela estava ali, de pé, chacoalhando aquele dedo e falando sem parar. Por mais que lhe fosse doloroso, decidiu abandonar as digressões oníricas nas quais se perdera nos últimos instantes para captar algo do que ela falava:

- Por que raios você não tira essa bunda desse sofá? Tá deitado aí desde sempre, deve estar com os músculos embolorados, deve ter criado escaras nas costas, tenha piedade! A vida se vive na vertical!

Sem muita reflexão, ele cuspiu:

- Se vertical vem da matemática vértice, horizontal vem da poética horizonte.

Foi só depois de muita hesitação que ela, desistindo e indo embora, respondeu:

- Essa poesia moderna é um lixo.

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Eterna repetição

Blogs confirmam Nietzche. Achei mesmo que havia alguma coisa estranha na história do saloon de Jack Cabeça de Jabuti e hoje atinei com o que era: ninguém morre no final. Sim, de fato, parece que esse é o final predileto de todos meus textos, sei lá porque. Vide PopWritersStars, em Ernestinho, a metáfora do palhaço Pirulitino e todas as fábulas consagradas aí nos postes anteriores.

Vou ficar ao lado das caixas de papelão junto ao lixo, qualquer dia, e aí ver se alguém me pega e me recicla.

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Utilidade

Não existe publicação mais útil do que o Jornal do Advogado, que a OAB/SP gentilmente manda lá em casa todo mês. Os jornais normais têm o papel mais fino, que se desmancha mais fácil e suja as mão, sem falar que o tamanho não é o ideal. O Jornal do Advogado, por sua vez, é realmente perfeito para o fim a que se propõe, ou seja, recolher o cocô do Bernardo, meu pequeno weimaranner.

Trata-se de um periódico de autopromoção. Tive a paciência de folhear a última edição. Contei a presença do recém-empossado presidente da OAB/SP, o D'urso, em não menos que 30 (!) fotos. Isso porque o jornal tem 36 páginas. Que palpitantes matérias você acha que o jornalzinho (eu ia escrever jornaleco, mas por esse tenho o maior respeito) publica, se um mesmo cara aparece em 36 fotos? Ele já era arroz de festa antes de se eleger, aparecendo em toda edição de algum jeito, agora então. O duro é aquele cabelinho pro lado.

Well, vamos colocar um fim nisso antes que a OAB bote minha foto e meu e-mail à disposição de qualquer pessoa que acessar seu site, em represália. Ops, ela já fez isso!

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Posted by marcol at 2:33 PM

março 25, 2004

Enquanto isso, no Saloon de

Enquanto isso, no Saloon de Jack Cabeça de Jabuti

As portas se abrem com estrépito e o forasteiro entra fazendo tipo. Olha para um lado, olha para o outro. A mão descansando suavemente sobre a arma no coldre. Rosa, a Rumorosa, sorri perversamente. Paco, o cucaracha, afia sua faca ostensivamente. Jimmy Mãos de Borboleta começa a tocar mais rapidamente seu piano. O sheriff Bill "Furos" Wilkinson, ao balcão, derrama o conteúdo do copo de uma talagada só e se vira lentamente. Encara o forasteiro por um tempo, dá uma coçada no bilau e vai dizer alguma coisa quando o forasteiro diz, olhando-lhe fundo nos olhos, com voz fanha e levemente gaga:

- Você deve ser Bill "Murros" Wilkinson.
- Eu sou Bill "Furos" Wilkinson. Por quê? Vai encarar? responde o sheriff com sua proverbial voz de tenor.
- Eu vim até aqui para vingar o que você fez a minha irmã, a doce e meiga Cat "12 anos" O'Brien.
- Ah, eu lembro dela. Era uma prevaricosa.
- Que adjetivo menos usual, sheriff! - intervém Jimmy Mãos de Borboleta começando a tocar "Dolly had a little tantrum".
- Você, seu ignóbil oligofrênico, você negou-lhe a licença para vender suas esculturas de astros do beisebol.
- Puxa, hoje é o dia dos adjetivos estranhos! admirou-se Jimmy Mãos de Borboleta começando a tocar "Do ya got any glubglub tonite?"
- O que vai ser? pergunta o sherif cuspindo para o lado.
- Stop - diz o forasteiro e todos fazem "oh!"

Logo o palco está montado. A primeira rodada é com a letra W e o forasteiro ganha porque no quesito "armas" lembrou-se de Winchester ao passo que o sherif deixou em branco. Na segunda rodada foi a vez do sherif sair na frente, pois lembrou-se de canções com a letra H, ao passo que o forasteiro deixou passar. Ao fim do alfabeto: empate.

- Sua vez - disse o forasteiro.
- Eu quero elástico - disse o sherif, e todos disseram oh. Começaram a pular o elástico e a destreza de ambos era equivalente. Tentaram no palitinho, gamão, jó-quem-pô e desafio de break, mas nada.

Ao fim do dia, suados e exaustos, o sherif, já sentindo alguma simpatia pelo forasteiro, lhe perguntou:

- Mas afinal de contas, o que aconteceu a sua irmã?
- Não podendo vender suas esculturas por aqui, ela ficou deprimida. Foi para uma clínica em São Roque e lá conheceu Toddy Al Fayed, o achocolatado milionário. Casou-se e hoje tem dezesseis filhos e vive na Riviera Árabe.
- Que destino venturoso!
- Definitivamente, eu jamais ouvi adjetivos mais estapafúrdios neste faroeste - disse animadamente Jimmy Mãos de Borboleta, tocando os últimos acordes de "O hear hear hear, my ear".

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Ontem foi aniversário também de mano Tiagón. Muitos bereteios, cumpadre! Aproveitem e leiam sua receita de pastéis de avelãs.

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Tremei, terráqueos, Janjão Jones está de volta!
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Posted by marcol at 5:13 PM

março 24, 2004

História em três tempos I

História em três tempos

I

- Qual a frase que você ouviu mais vezes na sua infância?

Eu penso um tempo. Mas não muito:

- "Eu te amo".

II

A queda foi dura. Vejo os ralados nas mãos, o joelho sangrando, e antes que comece a chorar procuro com os olhos, ela está lá. E me olha. Já está correndo.

III

Foi naquela noite, na frente de cinco mil pessoas, que descobri que o orgulho dela era o melhor antídoto para o medo.

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hoje é o aniversário dela. Mãe é assim um universo todo condensado, meus braços muito curtos pra abraçar.

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Posted by marcol at 10:35 AM

março 22, 2004

Vivo não mais eu Ele

Vivo não mais eu

Ele ia distraído, como sempre, tropeçando a cada falha da calçada, mas a queda do homem maltrapilho da bicicleta sobre a qual levava umas latinhas para reciclagem não dava pra ignorar. O homem caiu no meio da rua e começou a convulsionar.

Mais tarde admirou-se um pouco de haver cruzado a rua na sua direção sem sequer pestanejar e de, vendo a boca espumante emoldurada pela barba desgrenhada e suja, sequer hesitar antes de introduzir a própria mão para evitar que ele mordesse a língua e viesse a sufocar. Admirou-se da calma ao colocar a cabeça daquele estranho no próprio colo, segurando-o até a convulsão terminar. Admirou-se de não notar a presença daquelas pessoas em volta, da distância repugnada, da forma como não desviou os olhos da face daquele homem de outra raça, de outro mundo, com uma pena avassaladora.

Mas não admirou-se quando o homem do bar negou-lhe entrada para lavar a mão.

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Tô fofo, tô fofo!

O poste sobre paternidade, alguns centímetros aí abaixo, foi, pra grande honra minha, publicado no Jornaleco. A Mécia só pediu pra eu dar-lhe uma engordada, e confirmou-se o que eu já dizia no próprio texto: ao repassar o que havia escrito para acrescentar novas sensações e impressões, senti os olhos marejarem. Enfim, foi-se completamente a minha frialdade glacial de macho (no mau sentido, claro). Ficou algo melhor.

Confiram a ótima ilustração que o Maurício Berni fez pra abrilhantar meu texto mas reparem que a idéia de paternidade dele é um tanto menos poética que a minha.

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Como começar uma semana meio deprê

Tome seu desjejum assistindo ao jornal local e repare que todas (eu disse TODAS) notícias são tristes e revoltantes, começando com o último acidente nas estradas e terminando pelos resultados da rodada do futebol.

Só mesmo adotando a filosofia "shit happens" pra levar esse rojão.

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Posted by marcol at 1:03 PM

março 19, 2004

Zeca Pagodinho: traíra ou boi

Zeca Pagodinho: traíra ou boi de piranha?

Sim, sim, sim, três vezes sim. O assunto do momento é o imbróglio ético-moral protagonizado por Zeca Pagodinho na briga das cervejas. Todos já se pronunciaram e também eu quero tecer profundas considerações a respeito, mas permitam-me fazê-lo através de uma metáfora:

Breve e rasteira metáfora sobre a ética da fidelidade e o ensobreamento do caráter humano à luz de postulados e axiomas emoldurados pela cultura ocidental cristã a níve de sei lá

Pirulitino era um velho palhaço cansado de sua profissão. O riso das crianças e dos adultos obesos - que em cada vez menor número acorriam aos espetáculos do circo - não mais o satisfaziam. Ele queria fazer algo verdadeiramente grande, que insculpisse seu nome na História. Estava cheio de fazer o mesmo número havia 36 anos.

Um dia, após um espetáculo muito triste, enquanto tirava a maquiagem em seu camarim, Pirulitino teve uma vontade irresistível de sair pelas ruas sem destino. Do jeito que estava, meio maquiado e meio sem, com a roupa de palhaço, saiu às ruas e foi andando.

Cerca de uma hora depois, sem que qualquer pessoa sequer o notasse, saltou à sua frente uma menina de uns oito anos e lhe disse:

- Matusalém viveu 969 anos.

Pirulitino entendeu que aquilo era um recado do além e saiu meditando em tudo. Aí passou um Dodge 69 e o atropelou.

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Eu vi capivaras

O detalhe mais curioso: na margem do Pinheiros. Fiquei ali, na estação de trem da Berrini, admirando longamente aquela cena surreal. Cheguei em casa todo empolgado e contei pra patroa.

- O que? Você nunca tinha visto? Eu sempre vejo.

Me senti traído.

Aí passei anteontem na estação Berrini e vi um cara embasbacado na escadaria.

- Capivaras!

- Claro, elas estão sempre aí nesse canto - eu disse, me sentindo um canalha.

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Lugar de gente feliz

Eu trabalhei no grupo Pão de Açúcar. É uma empresa muito grande, não dá pra asseverar que a impressão que tive se aplica a toda ela, mas a impressão que persiste é que é um lugar rabugento. As confraternizações eram meras formalidades e o pessoal da cúpula tinha jeito de odiar pessoas que sorriam e diziam bom dia. Ficávamos imaginando o que se passava em suas mentes: "grrrrrrr, gente feliz, bons sentimentos, que coisas horrível, isso me dá asco!"

Meu velho colega que está por lá ainda acaba de me relatar um diálogo sintomático que ouviu num restaurante ali nas redondezas da Brigadeiro Luiz Antonio, entre, claro, "gente feliz" com o crachá da empresa pendurado:

- E o Fulano? Pô, o cara é tão legal que dá até raiva!
- É verdade, não aguento. Toda vez que ele passa ele cumprimenta!
- Coisa mais chata, o cara é todo educadinho, vive sorrindo!
- Só.

E eu digo: só.
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Posted by marcol at 12:06 PM

março 17, 2004

Bom dia! Olhou para um

Bom dia!

Olhou para um lado - belo perfil - e para o outro - sol recém nascido nas claras retinas, atravessou a rua com um passo macio, sorrindo um amor novo, toda meiguice, toda candura.

Saltou o muro baixo, bateu à porta, ele abriu - olhos grudados de sono - acordou com o tapa.

Ela deu meia volta volver e volveu, repulou o muro baixo, reatravessou a rua sorrindo uma liberdade nova, toda dignidade, toda armadura.

(originalmente publicado no Concurso de Narrativas Breves Haroldo Maranhão, organizado pela Meg Guimarães. Deu 5º lugar.)

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A dica do Prediletos hoje tá ótima. Um povo que decidiu eleger as dez piores capas de discos de todos os tempos. Os textos explicativos são ainda mais engraçados que as imagens. Confira aqui.

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Outra coisa ótima e que não é surpresa nenhuma é o poste de hoje do Ao, Mirante, Nelson!, o novo blog do velho e bom Nelson da Praia. Ele conseguiu domínio próprio antes de o Blogger resolver decapitar o melhor blog de todos os tempos. No poste de hoje, Nelson explica porque acha que os atentados de Madrid foram obra do próprio Aznar. Ou eu não entendi nada?

Lôas também pro poste-exorcismo que o sempre alerta Ratapulgo copy-pasteou do Jesus, me chicoteia! Excelente.

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Como, aliás, foi excelente a premiação da autora de livros infantis Lygia Bojunga Nunes. Ela vai embolsar um prêmio de quase dois milhões de reais do governo sueco através do prêmio do Astrid Lundgren Memorial, criado especificamente para fomentar e incentivar a literatura nos tenros anos.

Pra quem não conhece, Lygia Bojunga Nunes é uma das melhores escritoras que já tive a graça de ler. Pena tê-la conhecido apenas depois de adulto; mesmo assim os livros dela que li, em especial "Meu amigo pintor" tiveram um profundo impacto pela explosão de criatividade, sensibilidade e destreza no manejo da palavra. Sugiro, recomendo, intimo: conheçam-na e levem-na para seus filhos.

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E É por aqui que vai pra lá? atinge os píncaros da glória ao ser designado pelo misericordioso Inagaki San como um dos blogues da semana, junto, aliás, do hermano Blog Ranger, do Hélio Serafino. É algo assim como estar na lista do Pelé de melhores do mundo. Ou melhor, não é assim não, não é assim não. É bom de verdade.

Mas pára com isso e corre lá no sai-te do japa que o poste de hoje tá do balacobaco, homem! (ou mulher!, conforme o caso) (e pára de gracinha que eu só admito essas duas opções!)
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Posted by marcol at 2:33 PM

março 16, 2004

Breve tratado sobre o mitologia

Breve tratado sobre o mitologia capônica

Após dezoito anos de ingentes pesquisas, consegui traçar aqui um esboço do panteão capônico. Alguns afirmam que o próprio Capão Redondo não existe senão na imaginação doentia de uns desvairados; prefeitos de São Paulo, por exemplo, afirmam que o lugar não passa de fábula. Realidade ou não, contudo, logramos listar alguns dos principais deuses do Capão:

Meus
O panteão capônico é encimado por Meus, o deus egoísta. Ele habita no monte, digo, no morro tOlimpo, onde pra subir você tem que garantir que tá limpo, ou seja, que não está armado. Ninguém jamais vê Meus, só se ouve os sons que emite, geralmente de madrugada. É dele aquele trovejar que soa rotundo na madrugada e que alguns confundem com rojões. Esse trovejar indica que Meus quer distribuir muitas de suas graças, chamadas baguios, aos de boa vontade, digo, aos de bom saldo bancário. Meus é muito temperamental e irascível, mas não se mete com os mortais, desde que eles não entrem no caminho dele.

Merdusa

A deusa do Espanto. Seu cabelo jamais viu pente ou algo que o valha e mais parece uma porção de serpentes espetadas. Suas carnes flácidas distribuem-se saltando para fora das calças e da camiseta do Maluf que jamais tirou. As pessoas evitam olhá-la de frente por razões óbvias. Reza a lenda que Balaco, o deus da cachaça, ousou encará-la em um momento etílicamente alto e ficou petrificado. Mentira, na verdade ele desenvolveu foi só pedras nos rins. Mesmo assim, o povo evita encarar Merdusa, a deusa mocréia e banguela.

Prometeu

O deus da política. Ele aparece de quatro em quatro anos apenas, gesticulando muito e dizendo que vai asfaltar as ruas que faltam, canalizar os córregos e consertar o asfalto.

Frô Dite

A deusa biscoituda. Sempre com calças uns seis números menor, marcas de calcinha enterrada à mostra, top deixando costas e umbigo ao ar livre, unhas e boca vermelhas, Frô Dite exerce poder diametralmente oposto ao de Merdusa, atraindo olhares e provocando acidentes; de fato, quem a encara não fica petrificado, mas derretido. Os adoradores de Balaco são os que mais sofrem com a passagem de Frô Dite em frente ao seu templo, e quando a vêem proferem seus mantras de duplo sentido.

Zícaro

O deus mirim que queria ser aviãozinho, mas acabou caindo na vala comum.

Pragod

O deus do samba. Ele reina soberano nas noites de sexta-feira e sábado, e às vezes até mesmo em outras noites, fazendo com que os mortais permaneçam acordados e vigilantes. Anda sempre com o deus Balaco e é freqüente convidar o deus Quebrapau.


Conhece algum outro? Dizaí.
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Posted by marcol at 4:49 PM

março 15, 2004

Festa! Gandaia! Pra comemorar as

Festa! Gandaia!

Pra comemorar as 9.000 visitas botamos um disco do Noel na vitrolinha já devidamente instalada na garagem e mandamos descer risólis, fanta uva e baré cola. A vassoura tem presença garantida. Brindamos a essa marca cabalística ofertando-vos another kind of biscoituda. Clarice Lispector, biscoituda também da testa pra dentro.

* * * * * * * * * * * Paixões em ebulição

Claro que ainda não vi o filme do Mel Gibson, o que pretendo fazer, mas acho extremamente curioso (pra não dizer logo de cara "forçação de barra) reações como a do rabino Sobel e daquele advogado zémané que pediu a proibição do filme. Claro, o rabino é pago pra isso, mesmo assim dizer que o filme é antisemita porque apresenta os judeus conspirando pela morte de Cristo soa tão estapafúrdio como afirmar que Mestre dos Mares é francofóbico, que todos os filmes sobre a II Guerra Mundial são germanófobos, que Cidade de Deus é anti-patriótico.

Esses exemplos são expressões artísticas que enfocam ações de pessoas. Não estão tecendo considerações sobre o caráter de um povo inteiro. Lombroso é piada faz tempo, ninguém acredita que por um judeu um dia haver matado um inocente hoje deva-se matar todos os judeus.

Insistir dessa forma na pele de vítima indefesa, de quem ninguém pode falar numa luz sequer longinquamente desfavorável, só faz mal ao judaísmo. Alimenta ódios injustificáveis, mas tristemente reais.

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A sabedoria dos homens

E tem um outro lado nessa história. Os caras esperneiam dizendo que os judeus não tiveram nadica de nada que ver com a morte de Jesus (que, aliás, era judeu, não era?), que isso foi obra dos romanos e só. Para embasar essa idéia, recorrem a sábios e eruditos escritores. Todos do século XX, claro. Esses aí afirmam que Jesus foi um revolucionário, que Roma sentiu-se incomodada, e por isso o matou.

Os evangelistas, contudo, que escreveram em épocas distintas do primeiro século, dando perspectivas diferentes da mesma história, relatam Jesus pagando os impostos a César e dizendo que todos deveriam fazer o mesmo, afirmando que seu reino não era deste mundo, mas do mundo por vir, em suma, colocando-se absolutamente à parte de qualquer qüiproquó político de Seu tempo. Ao mesmo tempo criticava ferozmente a liderança religiosa do Seu tempo, atingindo o status quo dos judeus que mandavam no santuário e ditavam as leis cerimoniais. Era a esses, portanto, que incomodava. Querer pintá-lo como um Che Guevara é, portanto, à luz da Bíblia, a coisa mais ridícula.

Mas o que eu estou dizendo? Estou recorrendo à Bíblia, aquele livro escrito na época em que os fatos aconteceram, e desprezando a inteligência dos eruditos do século XX, do alto da soberba da evolução de 2000 anos da raça humana? Eu devo estar delirando mesmo.

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Aos corinthianos, de nada

Mas fato é que jamais uma vitória do São Paulo me pôs tão macambúzio.
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Posted by marcol at 9:09 AM

março 12, 2004

Haha? Ontem viajei, passei o

Haha?

Ontem viajei, passei o dia desplugado. Logo, eu não poderia haver postado o mais brilhante poste que já visitou esta modesta casa, as quatro letras: "haha". Imaginem, pois, minha surpresa ao acessar hoje a paradinha e dar de cara com a tal espirituosa e brilhante intervenção. Corri no blogger para alterar minha senha e descubro pasmo que não há um link para isso. Pelo menos não facilmente localizável, e olha que fucei. Agora entro aqui nos postes do É por aqui que vai pra lá? e vejo que o "haha" não está entre os meus postes. Em suma, alguém, de fora, botou esse negócio aqui, e eu não consigo sequer editar. Ao menos notei que, ao publicar este poste de hoje, o "haha" desapareceu, e com ele os comentários do Hélio e da Pats, que lá estavam. Mistério um tanto quanto assustador.

Se eu começar a postar coisas estúpidas, creditem ao fantasma, ora pois.

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Breve incursão ao coração da massa falida

O táxi me deixou na Rua da Relação, centro velho do Rio de Janeiro. O número da delegacia de repressão aos crimes de informática, meu destino, batia com o de um prédio muito antigo. Tive uma impressão fúnebre adentrando ali. O prédio é da época do império e o estado de absoluto abandono servia para reforçar a sensação estranha, misto de medo com repulsa. O elevador era daqueles tipo gaiola, que você abre uma cerquinha com a mão mesmo. Não foi sem algum receio que entrei nele, o chão estava afundado, ele não inspirava lá muita segurança. Procurei o botão oito, já que ia ao oitavo andar, mas só havia três.

Tornei a abrir a cerquinha e comecei a perambular pelo lugar onde não se via viv'alma. Percebi que o prédio era quadrado e tinha um pátio bem no meio. Andando por ali ouvi vozes e enfim achei uns tipos manipulando umas pastas de inquéritos policiais. Disse onde queria ir aí então me explicaram que ficava no "prédio novo", atrás daquele.

O "prédio novo" devia ter uns 30 anos, calculei. Passei por uma barafunda de reportéres televisivos (não descobri o que acontecia) e por um cidadão vestido com uma camiseta do corinthians e uma calça vermelha berrando para um interlocutor invisível, dentro do prédio, que ia matar alguém ainda e coisas assim. Parei na fila do elevador. Quando ele abriu, os que estavam atrás de mim correram e entraram na minha frente, na maior cara de pau. Entrei no elevador de serviço mais sujo que já vi e quase não consegui descer no oitavo andar, porque em frente à porta do elevador havia algumas pilhas de uns livros de registro antiquíssimos. Enquanto saltava como podia, imaginava Floriano Peixoto, Café Filho e outras figuras obscuras de nossa história manuseando aquelas coisas.

A delegacia era minúscula, o forro descascado, o carpete descolando, uns poucos gatos pingados batendo em máquinas de escrever Olivetti e menos ainda à frente de computadores. Os funcionários pareciam não ligar para a falta de estrutura, ao contrário, deram-me um atendimento excelente, mas ficou aquele senso de estranhamento quanto ao tipo de país em que vivo. Uma das maiores cargas tributárias do mundo redunda nisso.

A delegada me explicou que o prédio onde eu havia adentrado antes era onde havia funcionado o DOPS do Rio. Não estranhei. Também o DOPS de São Paulo, onde o fascínora delegado Sérgio Paranhos Fleury montou sua escolinha de tortura e homicídios, é um prédio antigo, com os degraus de mármore comidos, as paredes parece que a ponto de cair, e também adentrando lá a gente tem uma sensação esquisita, como se a violência ali perpetrada não houvesse conseguido desgrudar do concreto, impregnando o ar.

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Já que o papo hoje é melancólico...

Lágrimas por Madrid. Lágrimas pela humanidade. Perdoa-lhes Pai, porque não sabem o que fazem.
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Posted by marcol at 9:40 AM

março 8, 2004

Viva a mulher! Hoje é

Viva a mulher!

Hoje é dia internacional da mulher. Enternecido pela data e tudo que ela significa, vou, eu também, prestar minha singela homenagem. Para tanto, nada melhor do que reeditar este post, que tem tudo a ver com a condição da mulher atual e que tem um significado muito profundo mesmo, quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Fábulas Consagradas - O sapo Egberto

Era uma vez, uma lagoa onde funcionava a Orquestra Experimental de Repertório Minimalista (OERM), regida pelo popular Maestro Budweiser. Uma meia hora depois do por-do-sol os músicos apareciam de seus cafofos e começava o som que fazia o maior sucesso entre as libélulas, os guaxinims e as mulas-sem-cabeça "cabeça", que não curtiam o som popular das cigarras ou regionalista demais dos grilos. Estes, ficavam nos entornos da lagoa dizendo:
- Só.
- Sublime.
- Brilhante.
- Só.
Acontece que o sapo Egberto, um mezzo-barítono mezzo-calabresa, passeava um dia pela clareira do bode estressado atrás de umas mosquinhas muito gostosinhas e crocantes que por ali havia, quando de repente não mais que de repente ouviu uma dupla de grilos mandando ver num "Melô do cri cri ci". Ele ficou ali ouvindo e acabou curtindo o som.
Naquela noite, tentou dar uma empostação mais grílica ao seu som, para escândalo do resto da orquestra. O Maestro, vermelho de raiva, interrompeu o ensaio e o mandou embora. Triste, ele se retirou e caminhou dezoito dias até achar outra lagoa, onde uma pequena banda fazia um som completamente grilo, coisa de lôco! Ele foi todo feliz e saltitante para a lagoa, dando uns cricricris bem agudos, mas antes de conseguir mergulhar na água, uma cobra apareceu e o comeu.

Moral da história: Não tente ser o que você não é, porque poderá acabar se tornando aquilo que não seria.

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Posted by marcol at 1:39 PM

março 5, 2004

Há muita coisa podre no

Há muita coisa podre no reino da Dinamarca

Você acha que já viu tudo que a televisão pode fazer? Então que tal chamar uns caras perturbados como os do Dogma 5 para dirigirem uma série dando-lhes carta branca para roteiro e técnicas de filmagem?

Morten Arnfred e Lars Von Trier (de Dançando no Escuro e Dogville) assinam Riget, aquilo que deveria ser só uma série televisiva sobre o dia-a-dia de um hospital. Mas esses caras gostam de qualquer coisa, menos do convencional. Riget significa "o reino", e é o nome do tal hospital, construído pouco antes da primeira guerra para ser o melhor do reino da Dinamarca. É um lugar labiríntico e sombrio, no qual as mais esquisitas histórias acontecem ao mesmo tempo.

A enfermeira grávida de três meses que aborta um homem adulto de feições monstruosas, os pacientes que ouvem gritos durante a noite, um bonde cheio de fantasmas que anda pelos corredores infindáveis na noite do hospital e tudo filmado do jeito claustrofóbico e vertiginoso desses dinamarqueses malucos.

As histórias se cruzam mas não se explicam. Os episódios sempre acabavam com o entrelaçamento dos enredos, mas isso não serve para apaziguar o telespectador amargurado. Você fica sem saber porque acontece o que acontece, as pessoas parecem não se importar umas com as outras, quando parece que o enredo vai ter um defecho e ficar claro acontece o oposto e você acaba mais confuso do que começou.

A série resvala no tragicômico, na comédia light, no terror mais horripilante e no drama realista, tudo num único episódio. Tudo ao mesmo tempo. Uma das experiências mais criativas da telinha, tornou-se cult mundo afora e arrebanha fãs aos borbotões.

Ouvi falar nisso hoje e me peguei imaginando uma coisa assim na TV brasileira. Aí parei e pensei: não, isso sim é que é surreal.


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Posted by marcol at 2:48 PM

março 4, 2004

Nice time with mr. Hornbty

Nice time with mr. Hornbty

A brima Ana Anny (que eu gostaria de linkar aqui, mas cujo "Deixa que eu Chuto" linkado ao lado parece ter morrido) vai preparar tese de conclusão de concurso tendo como tema o estereótipo do looser conforme retratado na literatura contemporânea de Nick Hornby. Excelente tema, aliás.

Aí falei: pô, e quando é que cê vai me emprestar um Hornby pra ler? Emprestou Um grande garoto, que tem me deliciado nos vai-e-vens dentro do metrô pela idílica linha lilás afora. Descobri depois que a história foi filmada, tendo Hugh Grant no papel de Will Freeman, mas o filme não empolgou ninguém, ao que parece. Compreensível. É o tipo de livro cuja graça está no livro, não exatamente na história. A graça está nas justificativas que ele, o autor, encontra para as atitudes de suas personagens, na forma como eles raciocinam, coisas que só o narrador onisciente do livro pode fazer. E olha, a graça é grande, o livro é muito bom.

Parece que é o menos engraçado da grife Hornby, que começou escrevendo Febre de Bola, sobre um trintão solteirão apaixonado pelo Arsenal, e que depois escreveu o famoso Alta Fidelidade, a história do trintão solteirão que tem uma loja de discos de vinil e que leva um pé da namorada passando a questionar o que está errado. John Cusak levou essa pra telona.

Um Grande Garoto tem (adivinhe??) um trintão solteirão que não faz picas, porque uma canção de natal que seu pai fez nos anos 50 rende-lhe dinheiro sufieiente para não fazer nada. Ele começa a se relacionar com um nerd de 12 anos e o que poderia ser uma historinha água com açúcar bocó revela-se uma história com água, açúcar, mas nada bocó.

Agora deu vontade de terminar logo (acho que de hoje não passa) e buscar descolar com a brima ou algum amigo de boalma outro fruto da lavra de Hornby, que não à toa tem feito muito sucesso mundão afora.

Ok, uma livraria também resolveria o assunto, vamos pensar no assunto.

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Posted by marcol at 10:55 AM

março 2, 2004

Mais discursos E, por falar

Mais discursos

E, por falar em discursos de agradecimento pelo Oscar, nem precisei assistir à cerimônia toda para eleger o melhor da noite: o do diretor de Procurando Nemo, que depois de agradecer um povo disse que precisava agradecer de forma toda especial a sua esposa, e falou algo mais ou menos assim: "Eu escrevi no seu caderno da 8ª série que te amava, mas agora quero te dizer isso na frente de um bilhão de pessoas: eu te amo!" A câmera pegou a dita cuja, um gorduchinha simpática, se derretendo toda, escondendo o rosto com a mão enquanto ria e chorava.

Nós, homens casados que amam suas esposas, não conseguimos deixar de vibrar com algo assim.

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Murphy

Enquanto tentava encaixar a lente de meu óculos de sol, que queria descolar, escorregar e espatifar-se ao chão, eu encontrei uma das aplicações mais exatas à Lei de Murphy: a durabilidade de um óculos de sol é inversamente proporcional ao tanto de dinheiro que ele te custou.

Esse Murphy, desde que virou o Robocop, é um ser amargo e desiludido, mesmo.

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Mini-conto de terror

Foi à meia-noite daquele dia de frio intenso que o pequeno Nicolau teve a visão mais apavorante de toda sua vida. Levantou-se da cama dar uma mijada e começou o trajeto não sem algum ressabio. O maldito galho da árvore batia na janela e a escuridão do corredor era espêssa e soturnamente ruidosa. Cuidadosamente tentou guiar-se até o banheiro, mas estava naquela casa havia poucas horas e ainda não a conhecia bem. Maldita, maldita a hora em que seus pais decidiram visitar os estranhos parentes de Ouro Preto. Viu uma fraca luminosidade à esquerda e calculou que pudesse ser o banheiro. Afastou a porta, que rangeu alto, e foi aí que todos os cabelos de seu corpo arrepiaram-se e ele quase caiu desfalecido pelo susto. O que o pequeno Nicolau teria visto?

Eu lhes conto: viu sua tia sessentona e solteirona só de calcinha, depilando a perna com uma gilete azul escura. Foi isso o que ele viu e desde então não consegue deixar de ter pesadelos.


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Posted by marcol at 2:23 PM

março 1, 2004

Toscar Não tenho nenhum papel

Toscar

Não tenho nenhum papel à mão, então vou guardar aqui este rascunho de discurso de agradecimento para quando ganhar o Oscar:

Wow! Sabe que vocês são muito mais bonitos daqui de cima? Até você fica mais ou menos, Clint (dirigindo-me para Clint Eastwood ou qualquer ator velho e bom de bola que esteja ali nas primeiras fileiras. Isso dá um ar de intimidade cos home e configura uma legítima piadinha de americano). Ok (respirando fundo). Fazer este filme foi uma experiência e eu não teria jamais chegado aqui sem *pum* (fingindo que ninguém ouviu eu continuaria). Digo, sem mamãe e papai, que estão lá em Itapecerica da Serra *pum*... Desculpem, eu comi um churrasquinho grego aí na frente do Kodak Theatre e *pum**pum*. Acho que ter gases é uma opção, digo, tipo uma minoria e *pum*.

Sim, essa é uma opção, mas talvez esta aqui seja melhor:

Esta estatueta representa muito para os quase duzentos milhões de brasileiros, esse povo fantástico, forte, lutador, alegre e cheio de esperança.[então eu tenho uns trimiliques, como se algo estivesse acontecendo com meu cérebro] Representa muito também para os apanhadores de limão na Guatemala. Para os gêmeos siameses que nasceram na Índia setentrional, para os gagos torcedores do Racing que são desprezados por mulheres mais velhas na Andaluzia e por isso mesmo não penteiam a sobrancelha e especialmente para os pingüins, essas critaturas dóceis e homicidas que vivem nas trevas. Alguém devia fazer alguma coisa a respeito. Mas eu não, porque eu tenho oito filhos, minha mulher é bêbada e me bate, eu tenho um irmão com pancreatite na fila do transplante do hospital Zona Sul, mas eu prefiro estar aqui a estar roubando e matando. Alguém aí viu meu velocípede?

Este aqui não está descartado:

Normal. Falou aí.

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Estreou, por falar nisso, o Blog Ranger, o vôo solo de Helio Serafino, que já exercita a energumecidade em minha companhia e na do Alexandre Spissoto em Ernestinho. Reparem no templeite por demais fiel ao grau de sanidade mental do autor e deliciem-se com sua digressão sobre o tema Oscar, que parece tomar conta do mundo esta manhã. Longa vida, nobre e heróico blog tupiniquim! Enquanto o Blogger deixar!
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Posted by marcol at 2:53 PM