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fevereiro 19, 2004

Olha só isso aqui Ontem,

Olha só isso aqui

Ontem, por duas vezes, vi na rua Ephraim Barcessat. A primeira foi depois do almoço. Passou sem dirigir-se a mim, estranhável porque somos amigos. Porém não estranhei porque podia não me ter visto. Íamos apressados, e não quis chamá-lo. Pareceu-me gordo e envelhecido. Não usava óculos, o que, aí sim, me causou espécie, pois avançada é sua miopia e necessida de lentes grossas, que lhe mudam os olhos israelitas em olhos de peixe. Andar sem óculos na rua temerário me pareceu. E intrigou-me semelhante pormenor. Não me voltei para certificar-me se os seus passos seriam hesitantes à conta da escassa visão. Teria quebrado as lentes?, fui me perguntando, e do por que da súbita obesidade e da velhice de repente.

Duas horas depois, quem é que vejo? Ephraim Barcessat já agora de óculos. Não me viu ou me ignorou e achei que não devia interromper-lhe a caminhada. Forte causa o preocuparia. Não iria pará-lo para trocar banalidades, há quanto tempo, hem?, e a tua mulher?, e os filhos?, moras ainda em Vitória?, se soubesse que o Gomes morreu? Bobagens me enervam. Não o envervaria eu. Vigio-me para levianamente não gastar palavras recheando as conversas de vento. Tenho mais o que fazer. Também Ephraim Barcessat teve sempre o que fazer. Ele conhece-me, sabe que falo o estritamente necessário, não falo do tempo, se faz sol ou se parece que vai chover. Não tendo se dirigido a mim, seria por diverso motivo e não para evitar-me. Apenas, poderia ter sorrido e acenado com a mão. Sou indulgente com apressados, eu tantas vezes apressado também. Tenho um amigo que não tem por que andar apressado mas corre mais que anda, como se precisando alcançar o último trem para Istambul. Ele é assim, esgota-se em correrias. Cada um com as saus calmas e seus açodamentos. Não entendi a estranha atitude de Ephraim Barcessat. Realmente. Notei que às 4 da tarde estava bem mais jovem e bem mais magro. Isto é, o mesmo Ephraim Barcessat, como eu o conheci sempre, isso antes de sumir num desastre da Japan Airlines em Nova Delhi. Depois, tem dado para isso. Às vezes aparece-me gordo, às vezes quase um ancião, apressado sempre. E nunca mais falou comigo.

De Haroldo Maranhão, in Senhoras e Senhores. Matou a pau, não?
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Posted by marcol at fevereiro 19, 2004 9:10 AM