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fevereiro 11, 2004

O silêncio dos inocentes Passados

O silêncio dos inocentes

Passados há muito os quinze minutos de fama, aquela ex-participante de reality show vivia a angústia do anonimato e do ostracismo. Tentara uma relação doentia com um ex-integrante de boysband, agora presidiário, tentara tornar-se evangélica, tentara seduzir um figurão da Playboy (que revelou-se mais tarde ser apenas o officeboy). Tudo em vão.

Decidiu, então, que todo aquele silêncio, toda aquela ausência do espoucar dos flashes em suas retinas não poderia deixar de causar sérios danos a sua incolumidade psíquica. Decidiu, pois, que havia se tornado uma psicopata.

Leu alguma coisa a respeito (na verdade, excertos da revista Viva Vida) e optou pelo psicopatismo que melhor lhe conviria, que melhor faria jus a sua triste sina: haveria de ser serial killer. Meditou algum tempo que esse seria o melhor caminho, mas que contudo o mercado andava um tanto congestionado. Havia muitos serial killers por aí, inclusive os tipos haviam-se tornado figurinhas repetidas no cinema. E ela estava curiosamente avessa a qualquer forma de badalação midiática.

Resolveu inovar. Seria, sim, serial killer, mas não de pessoas. De animais. Informou-se com o tiozinho da loja de rações sobre o melhor método para acabar com umas pragas, comprou uns vidros de Mão Branca e outro veneno para ratos e começou a visitar o zoológico de São Paulo todos os dias.

Sua atuação não foi sem método. Deu cabo de chimpanzés após estudar meticulosamente como fazer para levar o veneno até os bichos sem ser pega. Queria que os chimpanzés morressem a fim de que algum improvável investigador de polícia com inteligência acima da média pescasse a dica: chimpanzé - ano do macaco - cabala mística e a perda da glória. Para ela era tudo muito claro. Matou uma elefanta, porque os elefantes não esquecem e as mulheres muito menos, o recado era claro. Por fim, não deixou de matar dromedários, aqueles repugnantes seres corcundas que freqüentavam propagandas de cigarro, vício que haveria de, amanhã, matar muitas criancinhas de hoje (ela tinha coração. Adorava criancinhas).

Haveria de também dar cabo do rei dos animais, o leão, como recado à humanidade de que os que estão por cima da cocada preta podem se atingidos também, uma inequívoca alusão a sua condição de ex-star. Teria feito, não fosse um milagre. Quando manipulava o mão branca à frente da jaula, uma menininha puxou sua micro-saia e perguntou:

- Você não é a...? e disse seu nome. Lágrimas vieram-lhe aos olhos, ela fora reconhecida! Sentiu-se curada, jogou o vidro de Mão Branca por cima dos ombros e foi embora saltitante e regozijante.

Infelizmente, o vidro de Mão Branca foi parar no receptáculo da comida das antas, animais com os quais ela simpatizava e sentia mesmo uma identificação profunda.
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Posted by marcol at fevereiro 11, 2004 12:51 PM