« Olha só isso aqui Ontem, | Main | O pândego folião, no »
fevereiro 20, 2004
Meus filmes de cabeceira -
Meus filmes de cabeceira - estrelando: a trilogia das cores, de Krzystof Kieslowski

Perambulando pela Paulista com os amigos após assistirmos a "A liberdade é azul", eu absolutamente não conseguia deixar que o assunto mudasse. Só queria falar do filme. A cabeça fervia, as imagens pareciam coladas na retina, a música nos ouvidos. Foi assim que fui apresentado ao genial Krzystof Kieslowski, diretor polonês de excepcional envergadura, responsável por "A Dupla Vida de Veronique", filme sobre o qual já tive ocasião de falar por aqui. Kieslowski era católico num continente ateu e seus filmes têm sempre a densidade e o desconforto de alguém que olha para cima e vê coisas que seus pares não vêem, não querem ver.
Ele teve a idéia de filmar uma trilogia que tratasse dos lemas da revolução francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), chamando a cada um deles por uma das cores da bandeira francesa. Foi aqui no Brasil que, por medo de que o público tupiniquim não pescasse a relação, que os títulos dos filmes vieram assim, bem explicadinhos, embora o resultado tenha sido um tanto nonsense: "A liberdade é azul", "A igualdade é branca" e "A fraternidade é vermelha". Filmados em coisa de dois anos e meio, representaram o canto do cisne de Kieslowski, que faleceu em 1996. Os filmes de Kieslowski sempre abusam de referências internas. Cenas que se repetem, coincidências alegóricas e coisas assim. Na trilogia há referências dentro dos filmes aos demais, culminando até mesmo com uma aparição conjunta dos principais personagens dos dois primeiros filmes na seqüência final da "Fraternidade".
Creio que Juliete Binoche tenha encontrado seu melhor papel em Bleu (e olha que pra uma feioquinha como ela, até que conseguiu papéis excelentes). Ela representa a esposa do compositor que trabalhava numa sinfonia para ser executada ao mesmo tempo nas doze capitais da Comunidade Européia no momento da inauguração da dita cuja, uma sinfonia inspirada em I Coríntios 13, o sublime elogio ao amor feito por São Paulo.
Mas um acidente vitima o compositor e a filhinha do casal e o trauma faz com que a personagem de la Binoche busque isolar-se completamente, cortar qualquer laço de relação social e sepultar o passado. Vende casa, aluga um apartamento e tenta tocar a vida asceta a que se propôs para conseguir lidar com a dor da perda. Uma vizinha garota de programa, um flautista mendigo, um velho amigo de seu marido (que revela que ele a traía, em cadeia nacional) e uma série de acontecimentos significativos começam a mostrar a ela que liberdade não é esse troço que o existencialismo inventou, o cortar todos os laços. "Todo mundo precisa se agarrar a alguma coisa", diz, aparentemente do nada, o tal mendigo flautista. A seqüência final é de arrepiar os cabelinhos de dentro do nariz.
Blanc é um tanto menos empolgante que Bleu. Conta a história do festejado cabeleireiro polonês que se casa com uma bela modelo (Julie Delpy, que depois fez um filme com o Ethan Hawk e sumiu no mapa). Vão morar na França e aí começam os problemas do casal. Habitar no país estrangeiro, ser arrancado do que lhe é familiar, acaba causando uma série de transtornos ao cidadão. O que mais incomoda sua senhora é o fato de ele não mais dar no coro. Ela pede a anulação do casamento por falta da saudável cópula, ele não consegue se defender no tribunal (outro local onde os personagens da trilogia se encontram) por não falar bem o francês e acaba voltando pra Polônia todo macambúzio. Ele se sente traído pela mulher e resolve que a história não acabou. Junta-se a uns mafiosos, dá um chapéu neles, fica rico, monta uma empresa, e... bom, contar a história é malvadeza, eu já fui repreendido por há uns postes atrás contar o final da Ana Karenina. Enfim, ele tenta cultivar a igualdade. Deixar sua esposa perdida no estrangeiro também.
A Franternidade é Vermelha encerra com chave de ouro esse belíssimo monumento cinematográfico com a história da modelo (Iréne Jacob, povoou muitos sonhos de adolescência meus...) que socorre um cão que atropelou. Seu dono era um juiz aposentado, recluso, mau humorado, que passava os dias escutando as conversas telefônicas dos vizinhos através de um sistema de escutas. O filme é recheado de entrelaçamentos inesperados, personagens que se encontram e influenciam as vidas uns dos outros sem saber e, claro, belíssimas imagens. A relação da modelo com o juiz é bastante parecida com a de Amélie (Poulain) com seu vizinho de ossos de vidro, não admiraria se Kieslowski houvesse sido a referência aí. Surge a inusitada fraternidade da moça linda e mau amada pelo namorado com o juiz carrancudo, sem resvalar no sentimentalismo piegas.
Aliás, li em algum canto que Kieslowski é acusado por críticos de ser um diretor kitsch. Quando li isso perguntei-me se havia entendido o significado de kitsch, porque isso é tudo o que ele me parece não ser.
Chega, falei demais por hoje.
--------
Posted by marcol at fevereiro 20, 2004 9:41 AM