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fevereiro 27, 2004

Você já leu o Jornaleco

Você já leu o Jornaleco hoje?

Num belo dia a talentosa Mécia, dona do excelente Caderno Lilás de Karin Blair calhou de passar por aqui. Calhou de ser justo no dia em que eu escrevia sobre Cyro dos Anjos. Calhou de ela estar inventando uma seção nova lá do Jornaleco, chamada Acervo, para recuperar a memória de grandes caras que passaram quase despercebidos. Calhou de ela achar que Cyro dos Anjos era o nome ideal pra inaugurar o Acervo e de ela achar que eu seria a pessoa ideal pra escrever sobre ele. Enganei ela direitinho, ela ficou mesmo achando que eu sabia alguma coisa.

Fato é que está lá na última edição do Jornaleco uma crônica sobre meu envolvimento com o cidadão mineiro e também uma pequena biografia. Trata-se, é fato, de meu escritor predileto entre todos, e é sempre satisfativo falar sobre aquilo de que gostamos. O mais do Jornaleco está ótimo como sempre, qualidade irretocável.

Agradeço à Mécia, que foi uma ótima e misericordiosa editora, aparando as arestas, dizendo o que precisava ser engordado e o que precisava ser emagrecido, me fazendo dar uma de resenhista pela primeira (e provavelmente última) vez. Mamãe tá orguiosa.

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Mudando de assunto. Você já votou na eleição mais acalorada, mais tumultuada, mais polêmica da internet brasileira??? Não, não, não me refiro à votação do iBest (estamos com Inagaki. Vide botom aí mais ao lado). Nem tampouco na finalíssima do genial POPwritersSTARS de Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas (a disputa está apertadíssima, mas Ítalo Calvino, Ingmar Bergman e Luís Fernando Verissimo saem com um nariz de vantagem. Já Paloma Mandabala sai com dois peitos de vantagem) (desculpem a piada infame, foi mais forte que eu!). Refiro-me, isso sim, à mudança do nome do melhor blog do universo: a Praia do Nelson. Sim, vai mudar de nome. Vá lá e faça seu protesto contra a mudança, depois escolha uma das ótimas opções na mesa. Digo, na areia!
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Posted by marcol at 2:09 PM

fevereiro 25, 2004

O pândego folião, no

O pândego folião, no caminho do baile, ouviu o tuc tuc tuc no vidro quando estava parado no semáforo. Viu o berro e ouviu o berro: baixa o vidro! Pensou rápido. O vidro tinha insul film e a máscara de lobisomem tava no banco ao lado. Rápido como ninguém botou a máscara e baixou o vidro duma vez só. O ladrão assustou e atirou bem no alto da cabeça, mas ele era assim mesmo. Perdia a vida mas não perdia a piada.

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O perseverante folião desfilou pela Vai Vai, deu Rosas de Ouro. Foi pela Rosas, deu Gaviões. Foi pela Gaviões, deu Mocidade. Aí chutou o balde: vendeu apartamento, carro, terreno em Mocotó e saiu em nada menos que nove escolas. Aquele ano, pensou, seria campeão de qualquer jeito. E foi. Ficou feliz da vida. Mas depois do desfile das campeãs pensou: e aí? Sem atinar com a resposta, pegou um ônibus e foi pra casa que tinha alugado no Capão Redondo.

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Os alegres foliões se esbarram em Salvador.

- Desculpa - ele grita.
- Normal, desencana - ela berra.
- Sabe, em circunstâncias outras eu jamais diria isso, mas você parece com minha mulher, que morreu ano passado.
- Sério? Poxa, eu perdi um irmão ano passado. Isso, mas eu ter sido despedida, me deixou mó deprê.
- Que droga. E eu, que apostei uma grana no Corinthians...
- Vixe!

Aí eles ficam um tempo pulando e meditando.

- Por que raios a gente tá rindo, então?
- Ah, acho que é porque é Carnaval...
- Se importa se eu chorar um pouco no seu ombro?
- Não, não, te faço companhia - disse, já chorando.

* * ** * * * * * * *

Responda rápido: quantas vezes você ouviu "a festa não tem hora para acabar" nos últimos dias? Quantas vezes você ouviu a expressão "alegria contagiante"? Qual a nota de criatividade que você daria às dezenas de repórteres que tiveram a brilhante idéia de entrevistar os garis que limpam a avenida do samba na quarta-feira? Tem alguma coisa que você viu este ano que não lhe deu a estranhíssima impressão de de ja vu (como quer que isso se escreva)?

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Por essas e muitas outras, Thanks God its wedsneday.

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Posted by marcol at 4:53 PM

fevereiro 20, 2004

Meus filmes de cabeceira -

Meus filmes de cabeceira - estrelando: a trilogia das cores, de Krzystof Kieslowski

Perambulando pela Paulista com os amigos após assistirmos a "A liberdade é azul", eu absolutamente não conseguia deixar que o assunto mudasse. Só queria falar do filme. A cabeça fervia, as imagens pareciam coladas na retina, a música nos ouvidos. Foi assim que fui apresentado ao genial Krzystof Kieslowski, diretor polonês de excepcional envergadura, responsável por "A Dupla Vida de Veronique", filme sobre o qual já tive ocasião de falar por aqui. Kieslowski era católico num continente ateu e seus filmes têm sempre a densidade e o desconforto de alguém que olha para cima e vê coisas que seus pares não vêem, não querem ver.

Ele teve a idéia de filmar uma trilogia que tratasse dos lemas da revolução francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), chamando a cada um deles por uma das cores da bandeira francesa. Foi aqui no Brasil que, por medo de que o público tupiniquim não pescasse a relação, que os títulos dos filmes vieram assim, bem explicadinhos, embora o resultado tenha sido um tanto nonsense: "A liberdade é azul", "A igualdade é branca" e "A fraternidade é vermelha". Filmados em coisa de dois anos e meio, representaram o canto do cisne de Kieslowski, que faleceu em 1996. Os filmes de Kieslowski sempre abusam de referências internas. Cenas que se repetem, coincidências alegóricas e coisas assim. Na trilogia há referências dentro dos filmes aos demais, culminando até mesmo com uma aparição conjunta dos principais personagens dos dois primeiros filmes na seqüência final da "Fraternidade".

Creio que Juliete Binoche tenha encontrado seu melhor papel em Bleu (e olha que pra uma feioquinha como ela, até que conseguiu papéis excelentes). Ela representa a esposa do compositor que trabalhava numa sinfonia para ser executada ao mesmo tempo nas doze capitais da Comunidade Européia no momento da inauguração da dita cuja, uma sinfonia inspirada em I Coríntios 13, o sublime elogio ao amor feito por São Paulo. Mas um acidente vitima o compositor e a filhinha do casal e o trauma faz com que a personagem de la Binoche busque isolar-se completamente, cortar qualquer laço de relação social e sepultar o passado. Vende casa, aluga um apartamento e tenta tocar a vida asceta a que se propôs para conseguir lidar com a dor da perda. Uma vizinha garota de programa, um flautista mendigo, um velho amigo de seu marido (que revela que ele a traía, em cadeia nacional) e uma série de acontecimentos significativos começam a mostrar a ela que liberdade não é esse troço que o existencialismo inventou, o cortar todos os laços. "Todo mundo precisa se agarrar a alguma coisa", diz, aparentemente do nada, o tal mendigo flautista. A seqüência final é de arrepiar os cabelinhos de dentro do nariz.

Blanc é um tanto menos empolgante que Bleu. Conta a história do festejado cabeleireiro polonês que se casa com uma bela modelo (Julie Delpy, que depois fez um filme com o Ethan Hawk e sumiu no mapa). Vão morar na França e aí começam os problemas do casal. Habitar no país estrangeiro, ser arrancado do que lhe é familiar, acaba causando uma série de transtornos ao cidadão. O que mais incomoda sua senhora é o fato de ele não mais dar no coro. Ela pede a anulação do casamento por falta da saudável cópula, ele não consegue se defender no tribunal (outro local onde os personagens da trilogia se encontram) por não falar bem o francês e acaba voltando pra Polônia todo macambúzio. Ele se sente traído pela mulher e resolve que a história não acabou. Junta-se a uns mafiosos, dá um chapéu neles, fica rico, monta uma empresa, e... bom, contar a história é malvadeza, eu já fui repreendido por há uns postes atrás contar o final da Ana Karenina. Enfim, ele tenta cultivar a igualdade. Deixar sua esposa perdida no estrangeiro também.

A Franternidade é Vermelha encerra com chave de ouro esse belíssimo monumento cinematográfico com a história da modelo (Iréne Jacob, povoou muitos sonhos de adolescência meus...) que socorre um cão que atropelou. Seu dono era um juiz aposentado, recluso, mau humorado, que passava os dias escutando as conversas telefônicas dos vizinhos através de um sistema de escutas. O filme é recheado de entrelaçamentos inesperados, personagens que se encontram e influenciam as vidas uns dos outros sem saber e, claro, belíssimas imagens. A relação da modelo com o juiz é bastante parecida com a de Amélie (Poulain) com seu vizinho de ossos de vidro, não admiraria se Kieslowski houvesse sido a referência aí. Surge a inusitada fraternidade da moça linda e mau amada pelo namorado com o juiz carrancudo, sem resvalar no sentimentalismo piegas.


Aliás, li em algum canto que Kieslowski é acusado por críticos de ser um diretor kitsch. Quando li isso perguntei-me se havia entendido o significado de kitsch, porque isso é tudo o que ele me parece não ser.

Chega, falei demais por hoje.
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Posted by marcol at 9:41 AM

fevereiro 19, 2004

Olha só isso aqui Ontem,

Olha só isso aqui

Ontem, por duas vezes, vi na rua Ephraim Barcessat. A primeira foi depois do almoço. Passou sem dirigir-se a mim, estranhável porque somos amigos. Porém não estranhei porque podia não me ter visto. Íamos apressados, e não quis chamá-lo. Pareceu-me gordo e envelhecido. Não usava óculos, o que, aí sim, me causou espécie, pois avançada é sua miopia e necessida de lentes grossas, que lhe mudam os olhos israelitas em olhos de peixe. Andar sem óculos na rua temerário me pareceu. E intrigou-me semelhante pormenor. Não me voltei para certificar-me se os seus passos seriam hesitantes à conta da escassa visão. Teria quebrado as lentes?, fui me perguntando, e do por que da súbita obesidade e da velhice de repente.

Duas horas depois, quem é que vejo? Ephraim Barcessat já agora de óculos. Não me viu ou me ignorou e achei que não devia interromper-lhe a caminhada. Forte causa o preocuparia. Não iria pará-lo para trocar banalidades, há quanto tempo, hem?, e a tua mulher?, e os filhos?, moras ainda em Vitória?, se soubesse que o Gomes morreu? Bobagens me enervam. Não o envervaria eu. Vigio-me para levianamente não gastar palavras recheando as conversas de vento. Tenho mais o que fazer. Também Ephraim Barcessat teve sempre o que fazer. Ele conhece-me, sabe que falo o estritamente necessário, não falo do tempo, se faz sol ou se parece que vai chover. Não tendo se dirigido a mim, seria por diverso motivo e não para evitar-me. Apenas, poderia ter sorrido e acenado com a mão. Sou indulgente com apressados, eu tantas vezes apressado também. Tenho um amigo que não tem por que andar apressado mas corre mais que anda, como se precisando alcançar o último trem para Istambul. Ele é assim, esgota-se em correrias. Cada um com as saus calmas e seus açodamentos. Não entendi a estranha atitude de Ephraim Barcessat. Realmente. Notei que às 4 da tarde estava bem mais jovem e bem mais magro. Isto é, o mesmo Ephraim Barcessat, como eu o conheci sempre, isso antes de sumir num desastre da Japan Airlines em Nova Delhi. Depois, tem dado para isso. Às vezes aparece-me gordo, às vezes quase um ancião, apressado sempre. E nunca mais falou comigo.

De Haroldo Maranhão, in Senhoras e Senhores. Matou a pau, não?
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Posted by marcol at 9:10 AM

fevereiro 18, 2004

Bico calado, toma cuidado, que

Bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí

No caminho da estação do trem até o escritório tem uma floricultura. A primeira vez que passei por ela, não percebi nada de incomum, apenas flores, arranjos, baldes cheios de rosas, gérberas, lisiantus e afins. Na segunda vez, achei curioso, mas nada demais. Quando na terceira o fenômeno se repetiu, torci o pescoço procurando o passarinho. Explico: era passar ali na porta e um passarinho fazia um piu-piu, sempre igual. Decerto um boneco daqueles com sensores, que dispara ao alguém passar à frente.

Tornou-se rotina. Comecei a aguardar com alguma ansiedade o momento de passar em frente à porta da floricultura e ouvir o assovio artificial do boneco que nunca, jamais vi, por mais que vasculhasse o interior do lugar com os olhos procurando não dar muita bandeira pros lá de dentro. Era pisar a calçada contígua, ajeitava o livro embaixo do braço, enfiava as mãos nos bolsos e apurava os ouvidos. Aquele piu-piu era um "have a nice day", pra mim, um sopro de bom humor logo no comecinho do dia. Você faz idéia do que significa um sopro de bom humor logo no comecinho do dia? O quanto isso vale?

É que faz já uma semana que o passarinho morreu. Sei lá, não toca mais piu piu nenhum quando passo lá. Maior frustração. Tentei até mesmo pisar dentro da floricultura uma vez, a ver se chegando mais perto... nada. Me vi de barba por fazer, o olhar desvairado, andando por aí sem sentido. Minha mulher reclamando, as pessoas passando a me evitar, eu arrancando os cabelos pelas esquinas, refém de um mistério insolúvel. Me vi também um dia parando ali e perguntando: ei, cadê o bichinho que apitava aqui todo dia quando eu passava?

Não, não. Nem uma coisa nem outra. Sobreviverei na minha sandice moderada, a despeito de não ter mais esse sopro matinal. E também não vou perguntar nada ao povo da floricultura, que um pouco de mistério faz bem.

Provavelmente eles se encheram o saco de ouvir aquele piu piu todo dia o dia todo sempre que qualquer um passa ali, e deram um fim nele. Não sei. Um pouco de mistério faz bem.
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Posted by marcol at 8:53 AM

fevereiro 17, 2004

Saudamos a marca das 8.000

Saudamos a marca das 8.000 visitas com uma biscoituda que faz jus ao título. Poderosa Afrodite Mira Sorvino, que, além de tudo, ainda fala chinês mandarim fluentemente. Tá certo, tá certo, predicado mais dispensável, mas é sempre um plus, né?


Nada a propósito, o Globlogger tá afiando as garras mesmo. Mudando mil regras, barrando a visualização da página a servidores no exterior, blábláblá. Tento fazer um esforço e tributar a ausência de comentários aos últimos postes aqui e em Ernestinho a isso, e não a uma improvável baixíssima qualidade dos postes. Não, não, imagina, da onde tirei essa idéia?

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Posted by marcol at 11:50 AM

fevereiro 16, 2004

Museu de criminalística dadaísta É

Museu de criminalística dadaísta É por aqui que vai pra lá?

O crime da rua Kubanakan

A despeito de clamoroso e repugnante, a mídia quase não tocou no assunto, com a exceção desonrosa de uma ou outra publicação especializada em folhetins. No mais, contudo, apenas comparações entre este crime contra o bom gosto e outro do mesmo quilate: Pedro, o Escamoso, decerto algum primo de Carlos, o Chacal.

O assassinato de John Kenny G.

Aconteceu em Dallas. Ou melhor, em um intervalo da interminável novela Dallas. Depois de uma cena em que J.R Ewing faz mais alguma malvadeza inominável, Lee Oswald, já sob os efeitos desconstrutores de cérebro da atração televisiva norte-americana, pegou seu rifle predileto, abriu a janela e a apontou para o prédio ao lado, colocando na mira a cabeça do saxofonista gay que, com um agudo de 16 minutos sem respirar não lhe permitia concentrar-se nas inflexões sensuais da voz de Pamela Ewing.

O crime do amá-la

Réu confesso, ele foi condenado a vagar eternamente a sós por tamanha audácia. Aconselharam-no a fatiar aquele sentimento e despachar numa mala perfumada para Helsinque, mas em lágrimas ele atraiu sobre si o agravamento da pena: pediu para vê-la mais uma vez.

O creme não com pinça

Na sorveteria, deliciava-se comendo todo tipo de sabor diferente com uma pinça. Mas para o de creme pediu uma pazinha.


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Posted by marcol at 8:23 AM

fevereiro 11, 2004

O silêncio dos inocentes Passados

O silêncio dos inocentes

Passados há muito os quinze minutos de fama, aquela ex-participante de reality show vivia a angústia do anonimato e do ostracismo. Tentara uma relação doentia com um ex-integrante de boysband, agora presidiário, tentara tornar-se evangélica, tentara seduzir um figurão da Playboy (que revelou-se mais tarde ser apenas o officeboy). Tudo em vão.

Decidiu, então, que todo aquele silêncio, toda aquela ausência do espoucar dos flashes em suas retinas não poderia deixar de causar sérios danos a sua incolumidade psíquica. Decidiu, pois, que havia se tornado uma psicopata.

Leu alguma coisa a respeito (na verdade, excertos da revista Viva Vida) e optou pelo psicopatismo que melhor lhe conviria, que melhor faria jus a sua triste sina: haveria de ser serial killer. Meditou algum tempo que esse seria o melhor caminho, mas que contudo o mercado andava um tanto congestionado. Havia muitos serial killers por aí, inclusive os tipos haviam-se tornado figurinhas repetidas no cinema. E ela estava curiosamente avessa a qualquer forma de badalação midiática.

Resolveu inovar. Seria, sim, serial killer, mas não de pessoas. De animais. Informou-se com o tiozinho da loja de rações sobre o melhor método para acabar com umas pragas, comprou uns vidros de Mão Branca e outro veneno para ratos e começou a visitar o zoológico de São Paulo todos os dias.

Sua atuação não foi sem método. Deu cabo de chimpanzés após estudar meticulosamente como fazer para levar o veneno até os bichos sem ser pega. Queria que os chimpanzés morressem a fim de que algum improvável investigador de polícia com inteligência acima da média pescasse a dica: chimpanzé - ano do macaco - cabala mística e a perda da glória. Para ela era tudo muito claro. Matou uma elefanta, porque os elefantes não esquecem e as mulheres muito menos, o recado era claro. Por fim, não deixou de matar dromedários, aqueles repugnantes seres corcundas que freqüentavam propagandas de cigarro, vício que haveria de, amanhã, matar muitas criancinhas de hoje (ela tinha coração. Adorava criancinhas).

Haveria de também dar cabo do rei dos animais, o leão, como recado à humanidade de que os que estão por cima da cocada preta podem se atingidos também, uma inequívoca alusão a sua condição de ex-star. Teria feito, não fosse um milagre. Quando manipulava o mão branca à frente da jaula, uma menininha puxou sua micro-saia e perguntou:

- Você não é a...? e disse seu nome. Lágrimas vieram-lhe aos olhos, ela fora reconhecida! Sentiu-se curada, jogou o vidro de Mão Branca por cima dos ombros e foi embora saltitante e regozijante.

Infelizmente, o vidro de Mão Branca foi parar no receptáculo da comida das antas, animais com os quais ela simpatizava e sentia mesmo uma identificação profunda.
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Posted by marcol at 12:51 PM

fevereiro 10, 2004

Gororoba Que tal exercitar essa

Gororoba

Que tal exercitar essa imaginação enferrujada? A Gororoba é uma fascinante criação do site COMverSOS [e prosas], onde alguém começa uma história e qualquer pessoa pode continuá-la ou alterar o curso que outras pessoas deram à dita cuja livremente. As criações coletivas são desiguais, claro, mas a brincadeira é fascinante.

COMverSOS é um fanzine editado por cristãos mas de temática livre. A página é muito bem feita, merece uma visitada. Aliás, a próxima edição do fanzine vai ser um The best of mostrando o que o seu público entende como as melhores publicações dos 30 primeiros números da revista. Run, Forrest, run!
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Posted by marcol at 1:47 PM

As pompas da blogosfera Inagaki-san,

As pompas da blogosfera

Inagaki-san, o mestre ninja dos blogs, irresponsável pelo finalista do iBest Pensar Enlouquece. Pense Nisso, conferiu a Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas, um blog irmão siamês deste aqui, a distinção máxima a que poderíamos almejar. Botou Ernestinho entre os "Blogs da semana". É o prêmio derradeiro que faltava sobre nossa lareira. A distinção foi duplicada, já que Inagaki ombreou Ernestinho a monumentos da envergadura do Bereteando, do mano Tiagón, e a Palimpsesto, outra iniciativa balacobáquica do genial Nelson Moraes.

Meu, tipo assim, toooooooda a galerinha tá curtindo adoidado o Ernestinho, bixu. Só você vai ficar de fora?

Só em Ernestinho acontece Maria de Auschwitz, a primeira blog-novela mexicana ambientada em um campo de concentração nazista; só lá você confere o andamento de POPwritersSTARS, o concurso mais pop da blogosfera; só lá o jornalismo sério e preciso de Ernestinho, em associação com o Instituto Indiana Jones, faz conhecer ao mundo a existência da enigmática Irmandade da Cuia, uma organização secreta que atua no norte do país; enfim, só lá você lê o que lá está escrito.


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Posted by marcol at 10:11 AM

fevereiro 9, 2004

As pompas do mundo Ontem

As pompas do mundo

Ontem assisti a um pedaço da premiação do Grammy. Aí pensei: como estariam agora os vencedores da premiação de 1975?

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Michael W. Smith arrebatou o gramofonezinho de melhor álbum de música cristã por Worship Again. Parece que não é o primeiro prêmio dele e também não há de ser o último, a julgar pela disposição que ele demonstra no DVD de Worship.

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O Prince pode ser doidivanas, mas música pop é com o cara.

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Aliás, as dobradinhas do Grammy estavam ótimas, até o momento que eu consegui assistir: Prince e a grande vencedora da noite, Beyoncé, que além de biscoituda canta pra dedéu, Justin "Agudos" Timberlake e o trompetista cucaracha Arturo Sandoval e principalmente Sting e Sean Paul, cuja música não me diz necas de pitibiribas mas cuja intromissão no clássico Roxane, do Police, ficou do balacobaco.

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Na grande maioria das premiações os indicados fazem uma música que não tem qualquer atrativo para mim, mas lastimei uma coisa e aplaudi outra: lastimei a derrota de Dido para Beyoncé (no prêmio para melhor cantora pop), já que a loirinha me parece das coisas mais talentosas desde o comecinho da carreira de Sinnead O'Connor (comparaçãozinha mais esdrúxula); e aplaudi a premiação de Cold Play como melhor gravação.

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Dá licença que eu vou ali ouvir Chico Buarque e já volto.
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Posted by marcol at 1:14 PM

fevereiro 6, 2004

Sobre Hilda Hilst não posso

Sobre Hilda Hilst não posso falar nada, é mais uma das lamentáveis lacunas que tenho em minhas leituras. Conheço os minguados poemas que foram publicados nos jornais ontem, e o que vi me agradou, mas não a ponto de justificar um poste lacrimoso sobre a perda que nossa literatura sofreu.

Agora, uma coisa chamou muito a atenção na cobertura de seu passamento. Lendo a Folha ontem, havia uns depoimentos de altas figuras da inteligentsia tupiniquim sobre a Hilda, uns dez. Em pelo menos seis desses depoimentos destacavam-se como grande virtude da escritora seu imoralismo. Alguns chegavam a afirmar que ser imoral era a maior virtude que um artista podia almejar.

Aí eu entorto o nariz e pergunto: hein?

Definitivamente, meu mundo não é aqui.

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Aí, foi mal. Contei o final de Ana Karenina. Mostre que você tem aquilo roxo e leia as 600 e tralálá páginas assim mesmo. O prazer não será pequeno, garanto-tô.

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Ontem comi um pão de mel ali do lado do dedo de Deus, em Teresópolis-RJ, no finzinho da tarde. Não conhecia aquilo e o visual é espantoso.

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Como espantoso é Cidade de Deus, ao qual finalmente vi. A qualidade e autenticidade das atuações têm um impacto incomum, que poucos filmes que vi tiveram. A montagem é coisa de cinema, mas eu gostaria de destacar aquilo que eu considero de longe a maior deficiência do cinema nacional: roteiro. Esse filme tem roteiro. Ah, que diferença que isso faz.

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O jornalista Tiago Jokura, dono do Embrulho de Pão, dos quais já falei aqui outras vezes, acaba de me avisar que ganhei uma assinatura da revista Mundo Estranho. Pra quem não conhece, trata-se de uma publicação da Abril com a grife Superinteressante. Mundo Estranho é basicamente uma revista de curiosidades focada no público jovem.

Eles têm uma seção com uma pergunta que premia a resposta mais criativa e a mais correta com uma assinatura da revista. Parece que fui agraciado.

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Posted by marcol at 10:13 AM

fevereiro 4, 2004

Livros essenciais: Ana Karenina, de

Livros essenciais: Ana Karenina, de Leon Tolstoi

Um de meus livros prediletos é Ana Karenina, do brilhante russo Liev Tolstói. Eu o li quanto tinha apenas 15 anos mas a impressão profunda que me causou jamais esvaneceu. É um tijolão de cerca de 600 páginas que começa com uma citação de Deuteronômio 32:35, que diz: ¿Minha é a vingança e a recompensa¿.

A personagem título, Ana Karenina, fez uma viagem a Moscou a fim de tentar salvar o casamento de seu irmão, que estava em crise. Conseguiu, mas acabou pondo a perder o seu próprio, apaixonando-se perdidamente por um aristocrático militar por quem larga marido e o filho pequeno. Ambos vão viver no exterior sua intensa paixão, embora mesmo no auge dela um quê de melancolia envolva o casal.

Quando a ¿química¿ da atração de dilui, contudo, o relacionamento deteriora e com isso o desespero de Ana Karenina pelo aparentemente inevitável final de sua aventura toma conta dela. O rompimento vem e Ana acaba atirando-se à frente de um trem. Vingança divina?

O que seria o fim do livro não é, contudo. Continuamos acompanhando o desfecho da história de outro personagem, Lievin, um rico e jovem proprietário de terras rurais que vive às voltas com problemas de conflitos de classe com seus lavradores e também, principalmente, com questionamentos existenciais profundos. Nós assistimos quando ele começa a apaixonar-se pela simpática e cheia de vida Kitty, vemos aliviados que após uma série de reviravoltas eles acabam casando-se e aí sim estamos prontos para o ¿the end¿, certos de que a mensagem do livro seria algo como: a pecadora teve de Deus a vingança e o homem honesto teve a recompensa.

Mas ainda não é o final. Vemos Lievin muito feliz no casamento, mas sentindo todos os questionamentos e dúvidas voltarem à tona e tirarem-lhe o sossego. Até que um dia, participando da colheita em seus campos, um velho mujique expressa em termos muito singelos sua fé simples em Deus, sua confiança de que Ele cuidaria da saúde de sua adoentada esposa, e aquilo serve como um ¿clique¿ na cabeça de Lievin. Ele entrevê, ante o toque do Espírito Santo, que as respostas que tanto buscavam estavam na simplicidade da fé de quem tem a convicção de que há Alguém ao leme. Ele corre a abraçar sua esposa grávida e só então temos o final da história.

Linda mensagem. Belíssima visão de amor e felicidade. Especialmente quando se sabe que Tolstoi chegou quase lá.


Leon Tolstoi, modelo e romancista
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Posted by marcol at 2:54 PM

fevereiro 2, 2004

Noite macabra na Transilvânia II

Noite macabra na Transilvânia II

Um relâmpago estrepitoso iluminou a face macilenta e magérrima de Dom Quixote, cujos olhos ferviam num estranho brilho.

- Permitai-me proferir um breve solilóquio a respeito da flor da maternidade, da mais elevada das que um dia vestiram o sacrosanto manto da diáfana e sublimante carreira de ser mãe: minha progenitora, aquela cujo calor e...
- Não, Raskolhnikov, espere sua vez - disse Mr. Magoo. E, apontando para Quasímodo, disse: Poirot, é sua vez.

Poirot confiou os bigodes, pigarregou e então disse com argúcia:

- Minha mãe foi uma velha doentia chamada Agatha Christie!
- Oh! fizeram todos.
- Uma velha? perguntou Raskolhnikov - Teria ela, porventura, uma... casa de penhores?

Antes que Poirot respondesse a porta se abriu violentamente e ouviu-se uma voz funesta, cujo timbre seria capaz de fazer erregelar os ossos de uma borboleta.

- Eu sou o fantasma dos natais futuros!
- Eu sei quem você é - esbravejou Mr. Magoo - (se bem que você está hoje mais parecido com o Freddy Kruegger! Esse negócio de ficar assombrando velhinhos está fazendo mal à sua pele!). Mas espere sua vez, não vê que estou numa sessão aqui?

O fantasma fechou a porta resmungando e um barulho de correntes se ouviu lá fora. Quasímodo falou:

- Meu negócio é badalar. Eu gosto dum agito, entendem?

Era uma piada, mas só Dorothy riu, lembrando-se de uma balada que rolou em Oz, quando o Homem de Lata tentou ficar com ela.

continua (?)

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Posted by marcol at 6:22 PM