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dezembro 9, 2003

Para gostar de ler O

Para gostar de ler

O que determina o gosto pela leitura? Me peguei perguntado isso depois de ler mais um belo poste do sempre qualitativo blog do Milton Ribeiro. A primeira lembrança que tenho do assunto não é boa não. A tia Dorinha, professora do segundo ano daquilo que então convencionava-se chamar "primário" (aliás, maledettos pedagogos que parece não terem outra coisa a fazer se não mudar os nomes das coisas), mandou a gente ler um livro nas férias do meio do ano. Minha mãe me fez pegar um livrão grandão e cheio de figurinhas da história do Ivanhoé. Isso decerto pra não ter que comer um livro novo, aproveitou um que tava por ali. Eu não entendi patavinas, que fez o resumo do livro foi ela. Pareceu-me chato, maçante.

A lembrança seguinte que tenho, contudo, é bam diferente. Eu tou numa festa, minha mãe me chama e me apresenta pruma tiazinha que ela diz ser professora, diz a ela que eu gosto muito de ler (!) e pede umas dicas de livros bons para piás na terceira série. Lembro perfeitamente quais foram a sugestões da tal professora: O menino do dedo verde (maurice druón, salvo engano) e Papai me compra um amigo (Pedro Bloch, por certo).

Sei que li os dois e encantei-me. As lembranças seguintes que tenho sou eu indo a uma livraria com meu pai e saindo de lá com uns vinte ou trinta livros.

Durante toda aquela época e pegando a pré-adolescência dei preferências a livros de aventura, como O corsário negro, Rei Artur e seus cavaleiros, Os três mosqueteiros, O máscara de ferro, O conde de Monte Cristo, Carlos Magno e seus cavaleiros, Capitão Tormenta, entre outros. Aí passei pruma fase Agatha Christie, na qual me diverti muito, lendo também O Gênio do Crime, Arsene Lupin, etc.

Torci o nariz quando, com uns 14 anos, minha mãe deixou um Olhai os Lírios do Campo sobre o criado mudo. Putz, literatura brasileira? Respirei fundo e comecei a ler. Acho que só voltei a respirar quando a primeira parte do livro acabou. Senti-me nas nuvens, uma revolução tomou de assalto meu peito, minha consciência. Estava ali um herói de carne e osso, cheio de defeitos e - seria isso mesmo - terrivelmente parecido comigo.

Dali em diante passei a ter a companhia incomparável dos personagens de Ana Karenina, Clarissa, Música ao Longe, O Cristo Recrucificado, Os miseráveis, Crime e Castigo, Em busca do tempo perdido, O retrato de Dorian Grey, todos de Dickens, Balzac, Coetzee, García Marquez, Borges, Machado de Assis, os versos de Drummond, Clarice, Cecília, Lygia... e centenas de outros.

Ali pelo meio da faculdade experimentei um outro salto em termos de nível de literatura e mergulhei em escritos teológicos que juntaram aa - xi! deu zica no teclado, cadê a crase... e a interrogação! - forma que eu agora amava, o conteúdo, a mensagem.

O me fez gostar de ler, eu pergunto. Sei que a mamma aparece em várias fases lá do comecinho e só posso pensar que, como em tudo o que é bom, para uma criança passar a gostar de ler, alguém precisa estar do lado, mão no ombro, incentivando. E torcendo para essa criança em especial ser uma das iluminadas.
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Posted by marcol at dezembro 9, 2003 2:14 PM