« Cinco mil il il Isso | Main | Para gostar de ler O »
dezembro 8, 2003
É você? Foi ali, na
É você?
Foi ali, na Estrada de Itapecerica, que Milto tomou o Jardim das Rosas onde Mercedes ia agarrada a uma sacola de compras. Ele logo a reconheceu, mas perguntou mesmo assim:
- Mercedes, é você?
Ela considerou por um longo tempo aquela face enrugada, o sorriso enorme de poucos dentes, os cabelos brancos em desalinho e não viu nada de familiar. Havia, no entanto, algo de muito familiar naquela pergunta, mas ela não saberia dizer se era na voz (dificilmente, a voz era rouca e esfacelada), nas palavras, na entonação ou se na combinação de alguns desses fatores.
- Milto!?
Sua resposta saiu assim, meio pergunta meio exclamação. Fazia bem uns quarenta e cinco anos desde a última vez em que se viram e o encontrou serviu como um imediato abrir de comportas, inundando-os de de velhas sensações e de memórias.
Houve uma tarde como aquela, de primavera, quarenta e seis anos antes, em que Mercedes caminhava respirando fundo o perfume do corredor das flores do Mercadão. O sol entrava por frinchas no telhado e conferia um ar onírico ao ambiente povoado de sons, coalhado de margaridas, lírios, dálias e gérberas. De repente Milto apareceu, num terninho bem cortado, chapéu na mão e um lindo sorriso (cheio de dentes!), perguntando a mesma pergunta:
- É você?
Como agora, no Jardim das Rosas que sacolejava pela Vila das Belezas, a reação de Mercedes custou a vi:
- Eu o que?
- É você ¿ o sorriso dele abriu ainda mais ¿ que vai pegar na minha mão o resto da vida? Que vai se encaixar aqui, embaixo do meu braço, que vai me dar motivo pra suar, por quem eu vou querer mover o mundo, que quando eu tiver dias ruins vai estar lá pra me receber, que vai carregar minhas chinelas quando eu envelhecer e que vai me dizer saúde quando toda vez que eu espirrar...?
Ela sentiu enrubescer, camuflando-a contra a banca de rosas, mas desejou imediata e ardentemente ser ela, ser aquela pessoa. E foi, durante um ano.
Até o dia em que saíam da igreja adventista que a família dela freqüentava na rua Taguá, quando, na frente de outras pessoas, o pai dela perguntou se ele estava interessado na moça ou no dinheiro dele. Conversa entre portugueses turrões de sangue quente: Milto disse que ele jamais o veria de novo; virou-se para Mercedes, disse um ¿sinto muito¿, ela chorou e no dia seguinte Milto pegou um navio que ia pro Chile.
Milto sentou-se ao lado de Mercedes sempre sorridente. Contou-lhe que rodara o mundo como marinheiro, depois tentou um comércio na Vila Prudente, foi instrutor de natação no clube Pinheiros ¿ onde dizia haver desenvolvido um método infalível e ultra rápido de ensinar qualquer um a nadar ¿ andou pelo interior, voltou, tornou a sair e hoje tocava a vida construindo casinhas na periferia e botando pra alugar. Contou que não deu sorte com mulheres, havia se separado de duas, uma das quais o havia roubado, não falava com os filhos e agora estava com uma que lhe dava mais desgosto que alegria.
Mercedes contou que passara a vida como professora do colégio adventista, onde agora era secretária, e contou que morava lá dentro. Abaixando um pouco a voz e com um ar grave respondeu a uma pergunta dele dizendo que não, que nunca havia se casado.
Ele quis dizer umas coisas, mas não disse. Ela quis dizer também, mas calou. Ele quis foi pedir desculpas por deixar o orgulho sobrepujar o amor. Ela quis dizer que não, que infelizmente para ela, a resposta à pergunta que ele lhe fizera no Mercadão era negativa.
- Ela morreu faz uns trës meses, fiquei sabendo ¿ ele me disse quando nos conhecemos, na imobiliária que administrava seus aluguéis. Aí seu aparentemente eterno sorrisinho fraquejou um pouco. E ele arrematou: que coisa, não?
X X X X X X X X XX X
Havia escrito isso pra participar dum concurso da Revista da Folha, quando descobri que o prazo pra enviar os trabalhos havia-se encerrado no dia anterior. É uma adaptação duma velha e terrível história. Terrível porque é verdadeiríssima.
--------
Posted by marcol at dezembro 8, 2003 8:42 AM