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novembro 11, 2003
Você não pediu! Nós atendemos!
Você não pediu! Nós atendemos! - Mais um roteiro genial para um filme quase lá
Depois do sucesso avassalador do meu último roteiro cinematográfico (que eu não lembro qual foi), meu telefone vermelho, que fica dentro de uma bandeja pra bolo (originalidade sempre foi meu forte) não pára de tocar. Trata-se da linha direta com Hollywood. Torraram meus picuás diretores de estilos tão díspares como Wes Craven (sére Pânico), Woody Allen, Irmãos Wachowsky, os caras de Quem vai ficar com Mary?, o agente da Meryl Streep, Costa Gravas e Quentin Tarantino. Como ando muito assoberbado com os postes inteligentíssimos de É por aqui que vai pra lá? e os postes sublimes de Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas, resolvi atendê-los todos duma vez só. O resultado você, leitor refinado e classudo, confere em primeira mão. Chama-se...
O ocaso dos cágados sacripantas
Jovens colegiais de Primaveirópolis, cidade do interior de Goiás, estão às voltas com as festividades da formatura. Enquanto decoram o ginásio da escola, ficamos conhecendo os personagens: Marilene, a loira biscoituda e devassa que se veste de forma pouca própria; Juremiel, o capitão do time de futebol, popular, xavequeiro e dado a usar camisetas agarradas com as mangas dobradas para realçar os bíceps; Leonora, a intelectual e politizada, alvo das paixões doentias de ; Deoclécio, o esquisitão de feições nerd e hacker de ocasião; e, claro: um obeso, um negão, um punk, uma freira e um pasteleiro chinês.
Leonora diz: gente, não é hora de irmos embora? Vocês ouviram falar no que aconteceu àqueles fazendeiros, está perigoso andar por aí de noite...
Juremiel: bobagem, vamos acabar isso aqui - e dá uma risadinha safada na direção de Marilene.
O pasteleiro resolve ir ao banheiro. A câmera fica postada atrás de uma porta, só vemos pela fresta o que acontece. O chinês posiciona-se ao mictório e a porta se abre lentamente e vai-se aproximando. De repente, uma mão com um enorme ancinho aparece. O china olha no espelho e vê uma assombrosa figura vestida de bumba meu boi, mas antes que possa gritar o ancinho desce violentamente espirrando sangue pela parede branca do banheiro.
O punk acha estranho que o china não aparece, então começa a procurá-lo. Ele morre com uma barra de ferro atravessada no crânio. O obeso tenta escapar e é cortado ao meio por um cabo de aço da tabela de basquete, que se desprende a um toque do tenebroso bumba-meu-boi. Os demais tentam escapar, mas as portas do ginásio estão trancadas. A quadra é regada com o sangue juvenil. Cada corpo deveria ter uns 90 litros de sangue, e todos eles estão agora borbulhando de seus cadáveres dilacerados. Restaram apenas Leonora e Deoclécio, que abraçam-se a um canto tremendo e gritando. Quem é você!? grita Deoclécio. O bumba-meu-boi vem chegando e, parando dramaticamente, com uma foice na mão, começa, com a outra, a tirar a máscara. Close em Leonora. Pela lente de seu óculos vemos do lado de fora da janela, um homem vestido de sobretudo preto e óculos escuros.
Ele está andando pelas ruas desertas de forma decidida. Pára em frente a uma casa comum, de frente para o coreto da cidade. Pula o muro e bate na janela ao lado. Aparece um rapaz com grandes olheiras: o que foi? Quem é você? - Siga-me! o homem diz. - Mas... o rapaz diz, mas o homem atalha: - Siga-me, você corre perigo! e, dizendo isso, ele se vira. O rapaz vê então, tatuado na nuca dele, uma anta branca. Num flash back somos levado ao sonho que o rapaz estava tentando quando bateram-lhe na janela.
Ele estava no bico de um enorme navio, com os braços abertos, e por trás dele uma mulher azul sussurrava: a anta! a anta branca!
Sem mais pensar ele pula a janela e segue o homem de preto. Estão quase chegando à esquina, ele quer perguntar o que está acontecendo, mas o homem faz sinal para que ele fique quieto e o faz pular para dentro do quintal de uma outra casa. Olham para a casa dele, à frente da qual estacionou um caminhão de onde saem trinta homens vestidos com uniformes militares futuristas; eles fazem uma linha à frente da casa e começam a metralhá-la. Em poucos e barulhentos instantes, a casa está no chão, eles voltam ao caminhão e saem. O rapaz está atônito. O homem de preto o leva até uma antiga igreja desativada. Ali, sob uma luz tugúria, diz: você tem perguntas. Faça! O rapaz começa então a despejar nervosamente: quem é você? O que quer comigo? Quem eram aqueles homens? Por que isso está acontecendo?
Toca um celular. O homem de preto atende e sua cara de durão de repente se derrete: ok, vou já pra aí - ele diz. Sem mais nem mais ele tira o sobretudo de couro preto e veste um paletó de lã xadrez, pega um ramalhete de flores, sai da igreja e vai até uma casa. Toca a campainha, uma bela mulher atende e pede um segundinho. Volta segundos depois com uma bolsa e um xale. Ele diz, estendendo as flores: são para você. Ela sorri, diz que são lindas, volta para dentro de casa para guardá-las e finalmente saem.
- Você sabe que isso vai ser complicado, não sabe, Edmundo?
- Cecília! Ele diz colocando-se à frente dela e segurando firmemente seus braços - seria preciso mais do que um mundo de diferenças a nos separar para me fazer desistir de tentar. Que me importa se você foi casada com o inimigo mortal do meu pai, que me importa se o seu pai é diretor do Vila Nova e eu sou sócio do Goiás, que me importa se você tem a metade da minha altura, se é doutora em psiquiatria clínica e eu sou analfabeto? Essas coisas todas pertencem ao mundo das abstrações, das quimeras, dos imponderáveis, ao passo que existe algo que é fato, mais concreto do que o paralelepípedo sobre o qual pisamos, e esse algo é: eu te amo.
Começa a chover e eles se beijam. Cecília começa a tossir, diz que não se sente bem e vai pra casa. O sol amanhece e seu pai aparece com um envelope na mão, dizendo: filha, o resultado do exame é o que eu temia. Aquela chuva te deixou com câncer. Existe uma chance em 18.000 de você se salvar, mas estou sabendo de um tratamento experimental em um hospital da Antioquia. Vou dar um jeito de levantar os fundos necessários para irmos até lá. - Oh, papai - ela diz e começa a chorar. O velho sai e começa a fazer ligações, colocar faixas nas ruas, distribuir santinhos com a foto da sua filha e mobilizar toda a sociedade de Primaveirópolis. Seu amigo Sandoval o convence a tentar levantar o dinheiro no concurso de duplas sertanejas mistas da cidade, mas para isso um dos dois tem que se vestir de mulher e o outro disfarçar-se de corno. O diretor do concurso começa então a dar em cima da "mulher" sem saber que se trata de seu cunhado Sandoval. Chega a hora da grande final, eles sobem ao palco e começam a cantar "Por que você me largou?" quando o concurso é interrompido por uma marcha de sem terras. Eles estão a caminho de Brasília e lutam por dignidade e justiça. O seu líder, Libério Guevara, é alvo de uma emboscada dos fazendeiros latifundiários, mas conta com a ajuda do repórter Jair Vladílson, de A Folha de Primaveirópolis, que começa a publicar bombásticos artigos contra o prefeito e os fazendeiros, revelando um esquema de lavagem de dinheiro, extorsão, tráfico de crianças, de escravas brancas e de rapadura.
Ele vê que está sendo seguido por capangas do prefeito e sobe num jegue para fugir. Começa uma emocionante perseguição de jegues pelas ruas tortuosas da cidade. Enfim, Jair Vladílson esconde-se na casa de Francisco Emérito, o filósofo e pensador da comunicação, que, sentado em uma cadeira de balanço na varanda de sua casa, começa a tergiversar sobre a arte, o pensamento, a expressão e a aparente falta de sentido nas construções artísticas contemporâneas. No fundo, ele diz, tudo se encaixa. E, dizendo isso, pisca para a câmera, que escurece em fade enquanto sobem os créditos e toca "Vai passar", do Legião Urbana.
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Posted by marcol at novembro 11, 2003 9:43 AM