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novembro 19, 2003
Reflexões rasas em torno da
Reflexões rasas em torno da arte
Giorgio Bassani, no seu prefácio a O Leopardo (Il Gattopardo) do Príncipe de Lampedusa, filmado com respiros de gênio por Lucchino Visconti, diz: "A vida é musical, como se sabe". Seu conterrâneo genial, Giovani Papini (autor de um dos melhores livros de contos já escritos: Palavras e Sangue), afirmava sem parar que a música era a forma artística mais perfeita. Complexo de inferioridade do escritor? Tenho pra mim que era constatação da fria realidade.
A música é uma forma de comunicação que toca cordas nossas intocáveis por outros meios, cordas internas distantes, freqüentemente empoeiradas pelo cinza dia-a-dia. Quando sua finalidade é mais que arte pela arte, quando tem mensagem, especialmente quando visa louvar a Deus, atinge sua expressão máxima. Não à toa Valdecir Lima (autor de algumas das letras de música mais inspiradas que já ouvi) chama o louvor de "sorriso da alma", e explica: quando alguém faz uma coisa muito boa pra você o que você faz? Você diz: muito obrigado - e com isso está dizendo: olha, foi muito bom o que você me fez e eu me sinto obrigado a retribuí-lo. Aí vem o teu Criador e diz: filho, eu tomei a tua forma, comi a poeira dos teus caminhos, fui incompreendido, perseguido, rejeitado, conheci o que é cansaço, dor, solidão, fome e enfim fui espancado e torturado até a morte por você. O que você responde? "Muito obrigado"? Nosso linguajar perde o sentido nessa hora! A única coisa sensata é então louvar. Louvamos. A resposta é dada assim, música, e Ele aceita.
Há na superioridade da música sobre outras formas artísticas algo de nossa habitual sede por heróis. O músico é um só. O cara deve respirar uma atmosfera mais elevada pra ser capaz de compor coisas geniais. Essa aura atinge também o cantor, daí menininhas morrerem de emoção no show do KLB ou perderem a voz no show dos Beatles. Daí caras saírem no tapa no bar por divergirem sobre quem foi melhor, Wagner ou Mozart. O mesmo tipo de sentimento creio que acompanhe o admirador de algum escritor, o cara solitário que escreve coisas inefáveis.
Tenho uma amiga que não gosta de cinema, e não entendo como isso possa ser. Cinema é tudo isso. Começa com um belo roteiro, passa por ótimas locações, figurino, trilha sonora, montagem, som, fotografia, atuações e direção. Um bom filme só será um bom filme se tiver um bom time por trás, pessoas geniais em diferentes áreas trabalhando juntas.
Oscar Wilde termina sua introdução a O retrato de Dorian Grey afirmando que toda arte é inútil. "A gente não quer só comida", contudo! Arnaldo Antunes tem razão, o Criador nos deu mais do que só comida.
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Posted by marcol at novembro 19, 2003 1:53 PM