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novembro 17, 2003
Meus filmes de cabeceira -
Meus filmes de cabeceira - Vestígios do Dia
James Ivory é tido como o mais inglês dos diretores norte-americanos. Gosta sobretudo da época vitoriana, quando a Inglaterra era a locomotiva da Revolução Industrial no mundo e um choque de costumes acontecia, uma revolução com pouca adrenalina, como só ingleses seriam capazes de fazer. Filmou primeiro Uma janela para o amor (título estúpido para A room with a view) e depois o fantástico Retorno a Howards End.
Em Vestígios do Dia, adaptação do romance de Kazuo Ishiguro, ele retoma o casal de atores de Howards End, os excelentes Anthony Hopkins e Ema Thompson (oscar em Howards End) e os coloca como criados de um aristocrata inglês no período entre guerras. Há um interessante pano de fundo político, já que o tal aristocrata é pró Alemanha e lidera um movimento para arrecadar fundos para restabelecer a economia dos chucrutes fustigados pela primeira guerra. Um encontro político com diplomatas de diversos países reúne-se para esse fim. Destaca-se ali a presença de Christopher Reeve, como o americano que tenta por todas as formas convencê-los da estupidez daquela idéia. Creio que tenha sido seu último papel antes do acidente que o vitimou.
Mas a história mesmo está por trás do rosto quase sem expressão do mordomo Anthony Hopkins. Neste "quase", contudo, está a mais impressionante atuação que eu já vi (e não admira que não tenha ganho o Oscar, já que o óbvio ululante enfada os membros da academia). Ele é um robô, criado para servir, não para ter sentimentos. Seu pai está morrendo´num quartinho lá em cima, mas ele permanece imóvel esperando um dos tais diplomatas terminar um enorme discurso para poder empurrar-lhe a cadeira quando quiser sentar. Está em frangalhos por dentro, mas tem que se mostrar sempre com aquele irritante sorrisinho solícito que cai bem em criados.
Quando percebe que sua vida restringe-se às paredes daquela casa, resolve viajar para encontrar a governanta que fez o impensável: chorou por ele. O filme é narrado em forma linear, mas o romance foi escrito como se ele estivesse lembrando de sua vida durante aquela viagem definitiva, daí o título, que, no filme, fica meio sem pé nem cabeça. Destaque todo especial pra cena em que Christopher Reeve, de volta à casa depois de passada a guerra, liberta uma pomba que havia ficado presa num dos aposentos. Adoro filmes que discursam com uma cena.
Fotografia, direção exímia, montagem, figurino, atuações, roteiro, enfim, aplausos de pé.

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Posted by marcol at novembro 17, 2003 8:32 AM