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outubro 16, 2003
Viagem a Catirifufu Sierioja era
Viagem a Catirifufu
Sierioja era um garoto assustado e nervoso que vivia com seus avós em Dudinka, na Rússia. Muitos só ouviram falar em Dudinka jogando War, mas o lugar existe de fato, assim como verdadeira e digna de crédito é toda a fabulosa narrativa que segue. Sim, Sierioja era menino de frágil compleição, dado a ataques de asma ou de histeria, extremamente pálido, como, aliás, sói ser a todas as crianças de Dudinka. Ele um tanto mais, contudo, por conta do que já se disse.
Orfão que era e sendo seus avós rústicos aldeões de pouquíssimas ou nenhumas palavras, Sierioja fora empurrado para um mundo interior cheio de fantasias, alimentadas pelas histórias que ouvia da boca do velho Nicholai, o ferreiro, que todas as noites assentava-se junto à fogueira nos dias de verão e narrava contos fantásticos de heróis de terras distantes, que galopavam cavalos alados e combatiam estranhos seres de várias cabeças e nenhuns miolos, salvavam donzelas, decapitavam gigantes malvados, socorriam pobres oprimidos e morriam engasgados com torta de javali. Sierioja sonhava, pois, ser um mago cheio de poderes e recursos maravilhosos, com os quais impunha grande temor. Sonhava que algum dia seria levado pelas calêndulas, no ar, até a escola dos bruxos, onde aprenderia o ofício para o qual sentia-se vocacionado.
Certo dia, uma caneca que ele fantasiava ser um caldeirão onde preparava magias terríveis escapou-lhe da mão e, caindo ao chão, rolou até o meio da cama. Esgueirando-se para pegá-la, descobriu no assoalho uma tampa com uma grossa argola de ferro. Puxou-a e meteu a cabeça no vão escuro que se lhe apareceu. De repente foi sugado para baixo, sem conseguir segurar-se e viu-se flutuando num túnel espaço-tempo psicodélico, vindo a cair sobre um monte de feno azul marinho. Sim, havia passado por um portal transdimensional.
Ainda não havia se dado conta disso (e talvez nunca desse de fato), quando apareceram uns homens com capacetes enormes e chamando-o de "grande mago" o levaram para a presença de um certo Rei Sigismundo. O Rei, de pontuda barba laranja, lhe disse o quanto segue:
- Grande mago que veio das alturas, eu, Rei Sigismundo de Balacobaia, um grande e próspero reino deste mui aprazível planeta Catirifufu, conclamo seus serviços para que vença o terrível dragão Alberto, que assola-nos as vidas destruindo plantações e soltando sonoros gases anais há já 456 privameras!
-- Tudo isso? estranhou o pequeno Sierioja.
- Sim. Do que precisarás para essa mui perigosa e arriscada missão, grande mago?
Sierioja lembrou-se das histórias de Nicholai e começou a enumerar uma série de ingredientes que ouvia o velho dizer que faziam parte das poções dos magos. O Rei Sigismundo mui admirado ficou, um tanto do conhecimento do pequeno, outro tanto da exoticidade e imparidade de tais ingredientes, que ordenou a seus súditos arrumassem. Alguns dias foram tomados nesses preparativos, dias que o pequeno Sierioja gastou em conhecer a bela capital de Balacobaia, uma cidade cheia de altos e reluzentes prédios trasparentes, com calçadas de ametista e portas com batentes de jaspe. Enfim, os ingredientes foram arrumados e Sierioja preparou a poção tal e qual ouvia contar o velho Nicholai, proferindo palavras misteriosas em dialeto mágico. Tudo pronto, tocaram para a caverna onde habitava o tal dragão Alberto.
Chegando lá, foi direto ao dragão, sem medo, pois julgava tratar-se de um sonho tudo aquilo.
- Dragão Alberto, através do respingar dessa poção mágica, condeno-o a tornar-te uma lagartixa inofensiva.
- Não! Por favor, senhor mago, não faça isso - disse o dragão com tanta meiguice na voz que Sierioja estancou o movimento no meio - Sou um solitário dragão que não faço mal a ninguém. O Rei Sigismundo quer é o meu couro, para fazer um novo uniforme para seu exército inteiro.
Assim foi que Sierioja e o dragão Alberto tornaram-se bons amigos, e ja iam saindo da caverna quando Sierioja caiu num bueiro que estava aberto e morreu.
Essa história nos ensina uma lição, mas eu esqueci qual é.
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Posted by marcol at outubro 16, 2003 9:25 AM