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outubro 23, 2003

Self service Ainda não foi

Self service

Ainda não foi devidamente estudada a profundidade do impacto que este brilhante invento teve na formatação da sociedade ocidental pós moderna.

O controle remoto, embora minúsculo, tem moldado nossa sociedade a sua imagem e semelhança. Sua finalidade primeira é permitir que não sejamos mais obrigados a assistir aos comerciais da Tele Sena, àquelas reportagens sobre como plantar dálias em apartamentos que passam no jornal local, ou àquelas reportagens sobre o jogador de futebol que visita o orfanato com toca de papai noel e fica com cara de bobo no meio da molecada, tentando salvar sua imagem de perna de pau ou de butineiro. Não, agora podemos escolher absolutamente tudo, cada mínimo detalhe da existência. Mas não é só isso o que o controle remoto fez com a gente.

Antigamente a gente escolhia se preferia loira ou morena. Agora, além disso, escolhe tamanho e formato do cabelo, tipo de nariz, tamanho de busto, de quadril, de cintura, se gosta de MPB, axé ou rap, se corinthians se juventus, se ri jogando a cabeça pra trás ou se dá um risinho abafado. A gente escolhe o tipo de molho de tomate, o sabor, tamanho e crocância do wafer, o tipo de iogurte, de margarina, a gente escolhe se quer continuar com o nariz que nasceu, se quer continuar com as banhas no abdome, se vai usar terno e gravata ou bermuda rasgada e camiseta, se casa ou se compra bicicleta. Até a religião hoje em dia é self service, você escolhe o que gosta nessa, o que gosta naquela, afasta o que lhe é incoveniente e pronto! tem sua própria religião, your own personal Jesus.

Então por que raios teríamos de nos acomodar com as notícias da realidade? Olha os jornais de hoje, por exemplo: por que eu tenho que ler que os EUA estão manobrando pra zuar o G7? Que foi achado o corpo do menino no Tietê? Que a Fiesp tá criticando o Copom? Que a imagem do Lula teve sua pior avaliação?

Se você também tá de saco cheio da realidade, tenho uma boa notícia: existem pelo menos dois ótimos veículos de imprensa onde não se lê nada disso. Eu sempre recorro a eles no dia seguinte àqueles em que o Sao Paulo perde (aproveitem hoje corinthianos).

No Mundo Perfeito você lê manchetes como estas: "Alexandre Pires muda-se para Miami e diz que não volta nunca mais". Ou então "Israel contrata engenheiro do Palace 2 para construir muro" e muito mais. Ou seja, lá só é noticiada coisa boa, como se o mundo fosse perfeito. E ainda tem uma seção ótima com a "publicidade perfeita", mostrando como ela deveria ser. Veja, por exemplo, como deveria sera a propaganda antitabagismo:

O outro veículo da imprensa marrom com bolinhas amarelas é o Sacolão Brasil, um jornal que só conta mentira. Bóbvio que a mentira pode - e é - ser muito mais interessante que a verdade.

É por aqui que vai pra lá? recomenda.
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Posted by marcol at outubro 23, 2003 8:00 AM