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outubro 2, 2003

Praias Todos os natais e

Praias

Todos os natais e revéillons dos meus primeiros vinte e quatro aninhos passei em um mesmo lugar: a praia da Lagoinha, em Ubatuba-SP. Acabou se tornando um troço meio mítico pra mim, cheio de signos e cifras que não se explicam mas se percebem. Coisa de passar os anos quentes da adolescência, a formação da auto-imagem, da personalidade, da construção - e posterior destruição, ou substituição - de sonhos, de uma série de suspiros engasgados e, sobretudo, de mergulhar no mar quente e azul e me sentir no melhor e mais eficaz templo que o Senhor já construiu.

Chega esta época do ano e me bate no peito a mesma sensação que então batia: a de saudade de lá. Agora, contudo, vem com um sentimento meio amargo de saber que dessa vez não vai dar.

Contento-me, então, com a prazenteira Praia do Nelson.

Contudo, fecho os olhos e vejo o mar e ai é inevitável não lembrar disso aqui:

Onde o mar falta

Entreabertas as pernas, e pousada
de leve, sobre os ombros, a cabeça,
parecias, às vezes, derramada
no fundo, mais espêssa.

E eras líquida:vias, através
de tua própria sombra transparente
a luminosidade dos teus pés,
alados. Porque ausente.

Jamais dizias nada. Sempre tinhas
entre os lábios, a voz silenciosa
dos que voltam. Onda após onda, vinhas
(e vens) misteriosa.

Desde a profundidade, do mar. Brusco
nas suas reações, onde o mar falta
sob as ondas. Aí, aí te busco -
e és, como as ondas, alta.

Quando olho o horizonte: quando tudo
se dissolve em si mesmo e, onda após
onda, me calo. Vejo, e estou mudo.
O mar na tua voz.

Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar
que tudo era horizonte.

Octavio Mora
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Posted by marcol at outubro 2, 2003 8:31 AM