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outubro 30, 2003
A história de Dario, o
A história de Dario, o Cinzento
Três ou quatro redações que mereceram um dez da professora de português do ensino médio, meia dúzia de poemas e outro tanto de contos que receberam elogios da mãe e de alguns amigos tão ignorantes em literatura quanto ela e isso foi sua desgraça. Ficou achando que era escritor e que não havia como seu nome não atravessar séculos sendo pronunciado com venerando respeito pelos corredores das academias.
Levou uma vida parda durante os primeiros quarenta anos. Enfiou-se num pequeno escritório de advocacia onde passava os dias às voltas com inventários e ações de despejo. Nas audiências, às vezes a mente voava para o mítico campo das literatices, além, muito além do chão duro cotidiano.
Certa noite perdeu o sono e pegou O Retrato de Dorian Grey pra ler. Leu-o duma sentada numa espécie de febre, e ainda sob o efeito daquela overdose sentiu-se picado pela inspiração, sentou-se ao micro e pôs-se a digitar seu conto definitivo.
Adormeceu ali mesmo. Acordou sobressaltado com o sol fustigando-lhe o rosto e apressou-se em sair, hoje especialmente desalinhado. No ônibus começou a repensar o conto que havia escrito com tamanho frêmito e agora ele, que após escrever parecia-lhe tão cheio de virtudes, apareceu com todas as imperfeições e mesmices que perpassavam-lhe todas as obras. Foi desanimado que tocou os afazeres do dia.
De noite, de volta a casa, ligou o computador com um suspiro, disposto a dar uma boa lida no seu conto e ver se conseguia salvá-lo. Sobre a tela azul da área de trabalho chamou-lhe a atenção um ícone novo, que não costumava estar ali. Era o W estilizado do Word com o título "Doc 01". Intrigado, abriu o arquivo. Após alguns instantes apareceu um texto de dezoito páginas. Ao começar a ler um arrepio perpassou-lhe a espinha e foi quase sem respirar que chegou até o fim. Estava ali o melhor conto que já havia lido. Reconhecia no estilo e na construção de certos períodos sua própria lavra e mesmo a temática lhe parecia familiar, mas ele não se recordava de haver escrito aquilo. Como aquilo teria ido parar ali? O que seria aquilo?
Passou doze dias atormentado sem saber o que fazer com aquele texto genial. Andando no caminho do fórum regional, naquele décimo terceiro dia, um forte vento atirou-lhe no rosto uma folha de jornal. Quando afastou-a de si, leu a manchete: "Academia Brasileira de Letras lança concurso de contos". Ele sorriu nervoso.
Alcançou fama internacional e teve o nome insculpido no rol dos mestres com os contos que apareciam-lhe na tela do computador. Deu entrevistas, palestras, cursos, assinou manifestações, visitou salões do livro, bienais, pré-estréias, vernisages, tudo. Mas não conseguia afastar da mente a sensação de ser um ladrão.
Até a madrugada em que, perturbado com a acusação que a consciência lhe fazia e com o fato de haver convencido a todos que era um grande escritor, menos a si mesmo, pegou um machado e deu com ele no computador.
Vizinhos acordaram com o grito. Arrombaram a porta e encontraram-no caído ao chão, esvaindo-se em sangue. Reconheceram-no pelos anéis.
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Posted by marcol at outubro 30, 2003 11:17 AM