« setembro 2003 | Main | novembro 2003 »

outubro 31, 2003

Eu sou amigo do Tiago

Eu sou amigo do Tiago Jokura

Quero deixar isso registrado. O cara é o dono do Embrulho de Pão, um blog que mal nasceu e já foi aparecendo no Blogs of Notes do Blogger. Tiaguin é um jornalista matogrossense que anda aqui por São Paulo por enquanto trabalhando como webedesigner e fazendo uns frilas vez ou outra. Um deles saiu publicado na Mundo Estranho, um ótimo subproduto da griffe Superinteressante. Viram, gostaram, e a matéria vai circular também pelas oropa, segundo nos conta o próprio Tiaguin no supra referido Embrulho de Pão. Chique no úrtimo!´

Em tempo: Tiaguin também ajuda a editorar o fanzine eletrônico COMverSOS [e prosas], uma iniciativa que tocamos para dar espaço a novos autores e leitores cristãos e que já anda em sua edição nº 29.

Feliz sábado a evribári!
--------

Posted by marcol at 1:38 PM

outubro 30, 2003

A história de Dario, o

A história de Dario, o Cinzento

Três ou quatro redações que mereceram um dez da professora de português do ensino médio, meia dúzia de poemas e outro tanto de contos que receberam elogios da mãe e de alguns amigos tão ignorantes em literatura quanto ela e isso foi sua desgraça. Ficou achando que era escritor e que não havia como seu nome não atravessar séculos sendo pronunciado com venerando respeito pelos corredores das academias.

Levou uma vida parda durante os primeiros quarenta anos. Enfiou-se num pequeno escritório de advocacia onde passava os dias às voltas com inventários e ações de despejo. Nas audiências, às vezes a mente voava para o mítico campo das literatices, além, muito além do chão duro cotidiano.

Certa noite perdeu o sono e pegou O Retrato de Dorian Grey pra ler. Leu-o duma sentada numa espécie de febre, e ainda sob o efeito daquela overdose sentiu-se picado pela inspiração, sentou-se ao micro e pôs-se a digitar seu conto definitivo.

Adormeceu ali mesmo. Acordou sobressaltado com o sol fustigando-lhe o rosto e apressou-se em sair, hoje especialmente desalinhado. No ônibus começou a repensar o conto que havia escrito com tamanho frêmito e agora ele, que após escrever parecia-lhe tão cheio de virtudes, apareceu com todas as imperfeições e mesmices que perpassavam-lhe todas as obras. Foi desanimado que tocou os afazeres do dia.

De noite, de volta a casa, ligou o computador com um suspiro, disposto a dar uma boa lida no seu conto e ver se conseguia salvá-lo. Sobre a tela azul da área de trabalho chamou-lhe a atenção um ícone novo, que não costumava estar ali. Era o W estilizado do Word com o título "Doc 01". Intrigado, abriu o arquivo. Após alguns instantes apareceu um texto de dezoito páginas. Ao começar a ler um arrepio perpassou-lhe a espinha e foi quase sem respirar que chegou até o fim. Estava ali o melhor conto que já havia lido. Reconhecia no estilo e na construção de certos períodos sua própria lavra e mesmo a temática lhe parecia familiar, mas ele não se recordava de haver escrito aquilo. Como aquilo teria ido parar ali? O que seria aquilo?

Passou doze dias atormentado sem saber o que fazer com aquele texto genial. Andando no caminho do fórum regional, naquele décimo terceiro dia, um forte vento atirou-lhe no rosto uma folha de jornal. Quando afastou-a de si, leu a manchete: "Academia Brasileira de Letras lança concurso de contos". Ele sorriu nervoso.

Alcançou fama internacional e teve o nome insculpido no rol dos mestres com os contos que apareciam-lhe na tela do computador. Deu entrevistas, palestras, cursos, assinou manifestações, visitou salões do livro, bienais, pré-estréias, vernisages, tudo. Mas não conseguia afastar da mente a sensação de ser um ladrão.

Até a madrugada em que, perturbado com a acusação que a consciência lhe fazia e com o fato de haver convencido a todos que era um grande escritor, menos a si mesmo, pegou um machado e deu com ele no computador.

Vizinhos acordaram com o grito. Arrombaram a porta e encontraram-no caído ao chão, esvaindo-se em sangue. Reconheceram-no pelos anéis.
--------

Posted by marcol at 11:17 AM

outubro 28, 2003

Postício ligeiro I Uma


Postício ligeiro

I
Uma coisa trilegal que achei vasculhando nos blogs inscritos no iBest foi o Garotas que Dizem Ní. Dentre a enxurrada de blogs esse chamou a atenção. O título, pra quem não sabe, é uma citação a outro de meus filmes de cabeceira, do qual ainda não tive tempo de falar, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, um dos filmes mais engraçados de todos os tempos, se não o mais.

Assim, não havia risco de não achar vida inteligente no dito blog. Dito e feito. As garotas escrevem muito bem, com ótimo humor e sacadas geniais. No blog você acha apenas o primeiro parágrafo dos textos, e para ler tudo tem que clicar, o que deixa a coisa bem enxuta e dinâmica. Só o que você não encontra e que faz muita falta é um lugar onde botar comentários. Fica aí o pedido, garotas. Vocês merecem todos os schwberries do mundo.

II
Top 10 das letras de música que marcaram época e moldaram meu espírito malhado

começando com a número 1, XV Anos, do Ira! (dos tempos em que eles escreviam músicas bacanas, não haviam ainda queimado os neurônios de formas diversas que prefiro não referir). Aliás, essa música deu nome (vivendo e não aprendendo) ao segundo e até hoje, salvo engano, disco de maior sucesso da história da banda:

Quando me sinto assim
Volto a ter quinze anos
começando tudo de novo
vou me apanhar sorrindo

- seu amor hoje
me alimentará amanhã
Eis o homem
que se apanha chorando

Vivendo e não aprendendo
Eis o homem esse sou eu
Que se diz seguro
Que se diz maduro

--------

Posted by marcol at 10:26 AM

outubro 27, 2003

Meus filmes de cabeceira 4

Meus filmes de cabeceira 4 - Cinema Paradiso

Eu havia combinado de ir ao cinema com a Nancy e a Simone. Elas viriam do longínquo Capão Redondo para o shopping Paulista. Eu estava há não muito tempo cursando direito no Mackenzie e pensei que o shopping paulista não devia de ser muito distante, resolvi ir andando. Ainda fiz o caminho mais longo: subi a Consolação até a Paulista e andei a Paulista todinha. Encontrei as minas e a Nancy veio com essa: tá passado Cinema Paradiso no Belas Artes, vamos andando?

Por aí vc vê que não foi com a melhor das boas vontades que fui ver o filme. Eu nunca havia ouvido falar dele, achei que era alguma esquisitice européia e além disso teria que andar a Paulista inteirinha de volta até a Consolação. Mas desde sempre quem manda são as mulheres. Havia pouca gente no cinema. Alguns bancos mais à frente, um velhinho com a mão cheia de moedas as fazia tilintar. Pois é, lembro direitinho tudo o que aconteceu até o filme começar, mas não lembro de nada do que aconteceu depois que ele acabou, como foi que voltamos pra casa, necas. Nas nuvens.

Assisti oito vezes depois dessa. Junte-se belas atuações (notadamente de Salvatore Cascio, o Toto enquanto menino, e de Philip Noiret, o Alfredo), linda fotografia, a trilha sonora daquele que tenho como o maior gênio compositor a serviço do cinema, Enio Morricone, o natural carisma do povo da Sicíia e um roteiro inventivo, que mistura nostalgia com poesia, ao mesmo tempo em que homenageia a própria sétima arte em diálogos metalinguísticos lindos de morrer e temos um dos melhores filmes que já vi. Que alguns críticos rotulam de "sentimentalismo parnasialóide". E eu com isso? O filme me pegou pelo fígado, virou tudo lá dentro, deu aquele nó na garganta. Tou nem aí.

Cenas inesquecíveis: Toto anda pela rua meio torta depois de levar um fora, enquanto copos e pratos começam a ser jogados das janelas e fogos espoucam acima das casas - era revèillon; Toto menino, escondido atrás da cortina, assiste a uma sessão privativa do novo filme, que era só para o padre fazer a censura das cenas picantes, o padre levanta o sino e quem badala é o sino da escola; Toto homem feito deitado em sua cama recorda a história enquanto a sombra de um daqueles sininhos de porta é projetada sobre seu rosto pelos relâmpagos; o beijo na chuva; o ônibus azul chegando na praça; a sessão de cinema projetada contra a fachada de uma casa na praça (um tanto inverossímil, mas bela, vá lá); o pique-nique no mato e o diálogo ao lado do Mediterrâneo, quando Alfredo tem as falas mais belas do filme.

Licença, vou botar a trilha do filme aqui e dar uma viajada a Giancaldo.

--------

Posted by marcol at 9:28 AM

outubro 24, 2003

Homem bomba Letra de música

Homem bomba

Letra de música do Lobão, tirada do seu sai-te

por: Lobão (2/1/2003)

O Homem Bomba

Mais uma noite que não vai terminar
Mais uma noite no meio do nada
O silêncio da alma queimando na veia
É tudo que me resta nessa madrugada

E o silêncio morno escorre pela vidraça
E o sangue me relembra todo o frio da calma
O pesadelo é uma espécie de passatempo
Enquanto o ódio semeia destroços na alma

E a calmaria da madrugada
Sibila doce feito o vôo da granada
E a calmaria da madrugada
Sibila doce doce feito ameaça

Mais uma vez outra promessa quebrada
A minha foto vai lembrar minha cara
Mais um momento e o ódio me tem prá sempre
É tudo que me resta nessa madrugada

O martírio é a fé que cega o meu fado
E a carne trêmula aceita o frio da calma
O desspero é uma espécie de devaneio
Enquanto o ódio devora o que sobrou da dessa alma

--------

Posted by marcol at 2:11 PM

Vai lá mas não diz

Vai lá mas não diz que fui eu que falei

Comentando o poste de ontem, micieur Nelson da Praia indicou outra boa opção de sai-ts que não leva o noticiário muito a sério. Tente aí Cocadaboa.
--------

Posted by marcol at 12:03 PM

outubro 23, 2003

Self service Ainda não foi

Self service

Ainda não foi devidamente estudada a profundidade do impacto que este brilhante invento teve na formatação da sociedade ocidental pós moderna.

O controle remoto, embora minúsculo, tem moldado nossa sociedade a sua imagem e semelhança. Sua finalidade primeira é permitir que não sejamos mais obrigados a assistir aos comerciais da Tele Sena, àquelas reportagens sobre como plantar dálias em apartamentos que passam no jornal local, ou àquelas reportagens sobre o jogador de futebol que visita o orfanato com toca de papai noel e fica com cara de bobo no meio da molecada, tentando salvar sua imagem de perna de pau ou de butineiro. Não, agora podemos escolher absolutamente tudo, cada mínimo detalhe da existência. Mas não é só isso o que o controle remoto fez com a gente.

Antigamente a gente escolhia se preferia loira ou morena. Agora, além disso, escolhe tamanho e formato do cabelo, tipo de nariz, tamanho de busto, de quadril, de cintura, se gosta de MPB, axé ou rap, se corinthians se juventus, se ri jogando a cabeça pra trás ou se dá um risinho abafado. A gente escolhe o tipo de molho de tomate, o sabor, tamanho e crocância do wafer, o tipo de iogurte, de margarina, a gente escolhe se quer continuar com o nariz que nasceu, se quer continuar com as banhas no abdome, se vai usar terno e gravata ou bermuda rasgada e camiseta, se casa ou se compra bicicleta. Até a religião hoje em dia é self service, você escolhe o que gosta nessa, o que gosta naquela, afasta o que lhe é incoveniente e pronto! tem sua própria religião, your own personal Jesus.

Então por que raios teríamos de nos acomodar com as notícias da realidade? Olha os jornais de hoje, por exemplo: por que eu tenho que ler que os EUA estão manobrando pra zuar o G7? Que foi achado o corpo do menino no Tietê? Que a Fiesp tá criticando o Copom? Que a imagem do Lula teve sua pior avaliação?

Se você também tá de saco cheio da realidade, tenho uma boa notícia: existem pelo menos dois ótimos veículos de imprensa onde não se lê nada disso. Eu sempre recorro a eles no dia seguinte àqueles em que o Sao Paulo perde (aproveitem hoje corinthianos).

No Mundo Perfeito você lê manchetes como estas: "Alexandre Pires muda-se para Miami e diz que não volta nunca mais". Ou então "Israel contrata engenheiro do Palace 2 para construir muro" e muito mais. Ou seja, lá só é noticiada coisa boa, como se o mundo fosse perfeito. E ainda tem uma seção ótima com a "publicidade perfeita", mostrando como ela deveria ser. Veja, por exemplo, como deveria sera a propaganda antitabagismo:

O outro veículo da imprensa marrom com bolinhas amarelas é o Sacolão Brasil, um jornal que só conta mentira. Bóbvio que a mentira pode - e é - ser muito mais interessante que a verdade.

É por aqui que vai pra lá? recomenda.
--------

Posted by marcol at 8:00 AM

outubro 21, 2003

Tô fofo, tô fofo! Desculpem

Tô fofo, tô fofo!

Desculpem se eu fiquei de repente um tanto arrogante e abri mão da minha já proverbial humildade, visível em postes como a entrevista com Luis Fernando Veríssimo mais abaixo. Mas é que fui um dos vencedores do Concurso de Narrativas Breves Haroldo Maranhão. Se eu passar e não cumprimentar, güenta, que isso passa em dois ou três meses.
--------

Posted by marcol at 11:46 AM

Cenas tocantes Essa me foi

Cenas tocantes

Essa me foi vendida como sendo verdadeira. Nos tempos da TV ao vivo, o personagem duma novela devia brigar com o outro e, nessas, abrir a gaveta e de lá tirar um revólver pra matar o desafeto. A cena começa, a briga fica boa, aqueles diálogos maravilhosos dos anos 50 (como se tivessem melhorado bastante como passar dos anos - vide uma conversa qualquer de Canaviais da Paixão ou Malhação), o assassino vai com fúria até a escrivaninha, abre a gaveta e... cadê o revólver? O jeito foi improvisar. Começou a enfiar chutes no outro esbravejando:

- Morre, desgraçado, morre!

O outro, então, percebendo a razão da mudança do script, improvisou melhor ainda. Levando as mãos à canela e caindo, gritou:

- Ai! Ai! Morro sim! O sapato dele estava envenenado!!

E morreu.
--------

Posted by marcol at 10:07 AM

outubro 20, 2003

Ran, Forrest, Ran Numa dessas

Ran, Forrest, Ran

Numa dessas andanças por aí, vi que uma dessas revistas que acompanham DVDs colocava à disposição do respeitável público nada menos que Ran, e pela bagatela de dez reau. Trata-se daquele que muitos têm na conta de o melhor filme de Akira Kurosawa, o mestre que filmou também Os sete samurais, Sonhos e Rapsódia em Agosto. Feliz e contente, comprei e guardei pro dia em que pudesse assistir.

Este sábado à noite, já que a patroa estava com sono e foi nanar, achei que seria o momento ideal para assistir. Levei um soco na boca do estômago. Aliás, soco, não, uma espada samurai.

Ran é a transposição do enredo de Rei Lear (Shakespeare) para o Japão feudal. Super produção esmerada em cada detalhe, parece um quadro de Caravaggio, aquele de Tomé cutucando as feridas de Jesus. Ele abre a ferida, põe o dedo e diz: olhaí, o ser humano é isso.

A verdade é que ainda tô digerindo a coisa. Até lá, estarei meio em órbita.

--------

Posted by marcol at 4:23 PM

outubro 17, 2003

É por aqui que vai

É por aqui que vai pra lá? entrevista

Três da tarde de uma atarefada terça-feira qualquer de agosto, minha secretária avisa que há visita para mim.
- Quem?
- O senhor Luís Fernando Veríssimo - ela responde com um leve tremor na voz, essa vendida.
Passei alguns segundos admirando a janela. A vista da sede mundial de É por aqui que vai pra lá? é muito bonita, o gramado verdinho da Hípica Paulistana,o bairro do Brooklin Novo, etc.. Eu na verdade meditava em como atender àquela inesperada visita. Acabei por pedir que o encaminhassem para a sala de reuniões 9.
- Desculpe, LFV, se você tivesse avisado eu teria reservado a sala de reuniões nº 1, que é mais confortável, tem redes de balançar, coqueiros e suco de mangaba...
- Oh, eu é que tenho que me desculpar por vir sem avisar! Mas é que eu li aquela fantástica entrevista com o Chico Buarque [desculpe, não sei linkar postes. Vai aí o link da página, aí vc desceu até a dita entrevista, se quiser conferir: http://www.eporaquiquevaiprala.blogger.com.br/2003_07_01_archive.html] e desde então não paro de pensar na possibilidade de ser, eu também, entrevistado. Aproveitei que estava em São Paulo para o lançamento de meu novo livro e tomei a liberdade de vir até aqui.
- Certo, entendi. Bom, vamos lá, então. Sua obra...
- É boa, mas pode ficar muito melhor. Agora que tenho este blog para visitar sempre, minhas referências crescem em qualidade. Conseqüentemente, meus textos também melhoram. A propósito, como é o seu processo criativo, como consegue ser tão inteligente, mordaz e perspicaz?
- Bem - eu respondi - sigo os conselhos de Rainer Maria Rilke, que em suas "Cartas a um jovem poeta" diz que devemos mergulhar em nossa infância e buscar ali o tesouro que norteará a nossa obra criativa no presente.
- Então, você procura falar bastante de sua própria infância?
- Não exatamente. Eu mergulho em minha infância e tento adequar minha mentalidade à de então. Assim, eu penso como um garoto de cinco anos e meus escritos refletem isso.
- Genial! E como misturar realidade histórica, como no caso de Viagem a Catirifufu e A montanha das Sete Provações, com esse humor refinado e classudo?
- Bem, o importante é deixar falar a voz do coração. A realidade é engraçada, assim não precisamos ter medo de ser engraçados, tanto mais quando falamos da realidade como ela é.
- Certo. Que conselhos você daria a um escritor iniciante, com apenas alguns milhares de exemplares vendidos mundo afora?
- Eu diria, Verissimo, para priorizar o conteúdo em detrimento da forma, e para só escrever se isso realmente for uma necessidade de seu espírito, se for inevítável. Para blogar é preciso traquejo, habilidade e este olhar magnético e atraente.
- Peraí que eu tô anotando tudo!
- Veríssimo, não acha que eu deveria fazer-lhe uma pergunta?
- Pra que? Bobagem! Está ótimo, ó-ti-mo. Agora sim peguei o jeito da coisa. Posso te ligar se tiver alguma dúvida? Quando essa entrevista vai ao ar?
- Ora, a pauta está toda tomada até dia 17/10. Tenha paciência.

Ele se foi ao cabo de alguns instantes, muito satisfeito. Achei um pouco estranho, mas dei de ombros e voltei a trabalhar.

--------

Posted by marcol at 2:53 PM

outubro 16, 2003

Viagem a Catirifufu Sierioja era

Viagem a Catirifufu

Sierioja era um garoto assustado e nervoso que vivia com seus avós em Dudinka, na Rússia. Muitos só ouviram falar em Dudinka jogando War, mas o lugar existe de fato, assim como verdadeira e digna de crédito é toda a fabulosa narrativa que segue. Sim, Sierioja era menino de frágil compleição, dado a ataques de asma ou de histeria, extremamente pálido, como, aliás, sói ser a todas as crianças de Dudinka. Ele um tanto mais, contudo, por conta do que já se disse.

Orfão que era e sendo seus avós rústicos aldeões de pouquíssimas ou nenhumas palavras, Sierioja fora empurrado para um mundo interior cheio de fantasias, alimentadas pelas histórias que ouvia da boca do velho Nicholai, o ferreiro, que todas as noites assentava-se junto à fogueira nos dias de verão e narrava contos fantásticos de heróis de terras distantes, que galopavam cavalos alados e combatiam estranhos seres de várias cabeças e nenhuns miolos, salvavam donzelas, decapitavam gigantes malvados, socorriam pobres oprimidos e morriam engasgados com torta de javali. Sierioja sonhava, pois, ser um mago cheio de poderes e recursos maravilhosos, com os quais impunha grande temor. Sonhava que algum dia seria levado pelas calêndulas, no ar, até a escola dos bruxos, onde aprenderia o ofício para o qual sentia-se vocacionado.

Certo dia, uma caneca que ele fantasiava ser um caldeirão onde preparava magias terríveis escapou-lhe da mão e, caindo ao chão, rolou até o meio da cama. Esgueirando-se para pegá-la, descobriu no assoalho uma tampa com uma grossa argola de ferro. Puxou-a e meteu a cabeça no vão escuro que se lhe apareceu. De repente foi sugado para baixo, sem conseguir segurar-se e viu-se flutuando num túnel espaço-tempo psicodélico, vindo a cair sobre um monte de feno azul marinho. Sim, havia passado por um portal transdimensional.

Ainda não havia se dado conta disso (e talvez nunca desse de fato), quando apareceram uns homens com capacetes enormes e chamando-o de "grande mago" o levaram para a presença de um certo Rei Sigismundo. O Rei, de pontuda barba laranja, lhe disse o quanto segue:

- Grande mago que veio das alturas, eu, Rei Sigismundo de Balacobaia, um grande e próspero reino deste mui aprazível planeta Catirifufu, conclamo seus serviços para que vença o terrível dragão Alberto, que assola-nos as vidas destruindo plantações e soltando sonoros gases anais há já 456 privameras!
-- Tudo isso? estranhou o pequeno Sierioja.
- Sim. Do que precisarás para essa mui perigosa e arriscada missão, grande mago?

Sierioja lembrou-se das histórias de Nicholai e começou a enumerar uma série de ingredientes que ouvia o velho dizer que faziam parte das poções dos magos. O Rei Sigismundo mui admirado ficou, um tanto do conhecimento do pequeno, outro tanto da exoticidade e imparidade de tais ingredientes, que ordenou a seus súditos arrumassem. Alguns dias foram tomados nesses preparativos, dias que o pequeno Sierioja gastou em conhecer a bela capital de Balacobaia, uma cidade cheia de altos e reluzentes prédios trasparentes, com calçadas de ametista e portas com batentes de jaspe. Enfim, os ingredientes foram arrumados e Sierioja preparou a poção tal e qual ouvia contar o velho Nicholai, proferindo palavras misteriosas em dialeto mágico. Tudo pronto, tocaram para a caverna onde habitava o tal dragão Alberto.

Chegando lá, foi direto ao dragão, sem medo, pois julgava tratar-se de um sonho tudo aquilo.
- Dragão Alberto, através do respingar dessa poção mágica, condeno-o a tornar-te uma lagartixa inofensiva.
- Não! Por favor, senhor mago, não faça isso - disse o dragão com tanta meiguice na voz que Sierioja estancou o movimento no meio - Sou um solitário dragão que não faço mal a ninguém. O Rei Sigismundo quer é o meu couro, para fazer um novo uniforme para seu exército inteiro.

Assim foi que Sierioja e o dragão Alberto tornaram-se bons amigos, e ja iam saindo da caverna quando Sierioja caiu num bueiro que estava aberto e morreu.

Essa história nos ensina uma lição, mas eu esqueci qual é.


--------

Posted by marcol at 9:25 AM

outubro 14, 2003

Template novo, vida nova Após

Template novo, vida nova

Após essa sutil e aprazível alteração no template de É por aqui que vai pra lá?, levada a cabo pelo talentoso Tiaguin, dono do Embrulho de Pão, decidi mudar eu também de vida. Chega de abotoar a camisa de baixo pra cima! Agora é de cima pra baixo! Chega de apertar o tubo da pasta de dente no finzinho. Agora tem que ser no meio mesmo, de qualquer jeito! E mais: vou parar de tomar Toddy. De agora em diante, só Nescau.

Comemorem comigo essa nova e instigante fase de minha existência!

P.T. (post teclarum): aos que lançaram dúvidas sobre as possibilidades disso, assevero que SIM, o Dudu de dois postes abaixo é o meu herdeiro e um dois principais objetos de meus afetos. Faz um ano no próximo dia 06.
--------

Posted by marcol at 3:05 PM

Cinéfilo europeu Ele era


Cinéfilo europeu

Ele era viciado em cinema. Todo dia alugava dois ou três filmes. Nessa média, claro que revia uma porção. Contudo, escocês que era, incomodava-se profundamente com o cinema norte-americano. Então tomava sempre o cuidado de olhar quantos minutos tinha o filme e calculava com exatidão quando faltavam cinco minutos para o fim. Aí desligava. E ficava sem saber o fim. Toda aquela explicação o angustiava. Talvez por isso adorasse Dr. Jivago e História Sem Fim.

--------

Posted by marcol at 2:48 PM

outubro 13, 2003

Ipi ipi urra! 3.000


Ipi ipi urra!

3.000 VISITAS!!! Não fico tão feliz desde que ganhei o Falcon Explorador das Selvas, que mexia os olhos e vinha com roupa de safári, facão e rádio.

É hora de comemorar no já tradicional estilo "uma imagem vale por mil ingressos para o Hopi Hari". Para apaziguar os ânimos da ala do amendoim, vou evitar biscoitudas e publicar coisa bem melhor, a saber, a foto de uma pessoa cheia de ginga sulamericana, personalidade carismática, dono de um repertório vernacular prodigioso (embora um tanto hermético e indevassável) e de um magnestismo insofismável. E é a cara do pai! Com vocês, DUDU!


--------

Posted by marcol at 10:34 AM

outubro 10, 2003

Este poste é uma


Este poste é uma viagem!
ou Steve fora uns dias

Postício à la diário de viagem

A falta que ela me faz

Em Aracajú, depois da audiência e até o horário do vôo para Porto Alegre, tive quase um dia inteiro livre. O hotel ficava de frente pro mar, sugerindo uma forma bastante aprazível de utilizar este tempo, quanto mais para um amarelado paulistano que pisou uma praia pela última vez há mais meses do que cabem nos dedos das duas mãos. Botei um shorts sexy, que valoriza minhas formas semi-roliças, passei na lojinha de conveniência do hotel e comprei um Sundown e lá me fui eu, em busca do velho e bom Atlântico. Até lá havia uma bela caminhada, que a praia é daquelas compridas, com o mar lá no fundo. Besuntei-me de Sundown em todos os espaços de pele onde a mão alcançava e assentei-me para ler minha Carta Capital refesteladamente, ao lamber da doce brisa do mar. Mais tarde notei que aquela sensação curiosa nas costas não era nada senão um vermelho camarônico na região das costas que a mão não alcança e que me faz sentar com cuidado até agora.

Na verdade, mesmo mergulhando naquele marzão de Deus, ou depois, na piscina do hotel, havia um quê de melancólico no dia. Ela não estava por ali. E não era, decerto, por causa das costas sem Sundown que ela fazia falta. Era por uma razão menos prática e mais da alma.

O taxista professoral

Em Porto Alegre tomei um táxi com um tiozinho de boina que deve ter largado o magistério pra ganhar dinheiro na praça. No caminho até o hotel ele ia falando assim:

- Estamos entrando na avenida que margeia o rio Gua...? íba! Este rio é formado por quatro rios (e dizia o nome dos quatro do mesmo jeito). Esta aqui é uma estação do Me...? trô! O metrô em Porto Alegre não é como em São Paulo. Em São Paulo o metrô é subterrâneo e de...? Superfície.Aqui, o metrô é todo de superfície. Aqui, o monumento em homenagem à revolução farrou...? pilha, etc etc etc

Porto Alegre e contente

Tinha uma manhã sobrando em Porto Alegre então pus-me a andar, aproveitando que o hotel (muito bonito, por sinal) ficava no Centro. A cidade tem cultura, tem alma, respira história e tradição. Entrei em dezenas de sebos, conheci a livraria da editora Globo, editora do meu querido Erico Veríssimo, entrei na bela catedral, na biblioteca pública e diverti-me ouvindo o cantarolar da fala dos nativos.

Depois, fui seguindo o faro e uma vaga noção sobre aonde ficava o Ilha Natural, o restaurante vegetariano onde almocei em 1994. Não é que achei? Achei e tracei os espetinhos de carne vegetal mais supimposos de minha curta existência.

Frustração

Estive em Lajeado, passei em frente a atraentes e cativantes Cafés Coloniais (um troço que bota qualquer casa de chá de São Paulo no chinelo) mas por desencontros diversos acabei comendo uma pizza meia boca no hotel mesmo. Ojeito é torcer pra ter outra audiência por lá.

Sabe o que é felicidade?

É sua mulher chegando com o piá no colo, o riso aberto, e o guri começando a dar uns pulos e se jogando no seu colo, radiante. Se não é isso, é algo muito muito próximo disso.


--------

Posted by marcol at 11:14 AM

outubro 6, 2003

Pra acabar com o diz

Pra acabar com o diz que diz que

A ala do amendoim, um certo grupo de leitoras enfurecidas com a exacerbada freqüência com que este blog tem-se referido às biscoitudas, não pára de criticar as ponderadas, acertadas e precisas conclusões a que chegamos.

Para refrear os ânimos dessa casta influente de nosso leitorado, publicamos aqui uma fotografia tirada ainda agorinha por uma outra fã enquanto eu distraidamente lia meu Tokyo Shimbun (o jornal predileto de 10 entre 10 formadores de opinião poliglotas antenados nas novas tendências da arquitetura progressivo-construtivista pós-onze de setembro - e tem uma sessão de piadas de chinês de morrer de rir).

Quero ver jogarem tomates agora!

--------

Posted by marcol at 5:58 PM

Sabedoria chinesa Fiquei sabendo


Sabedoria chinesa

Fiquei sabendo hoje de manhã que o governo chinês baixou um decreto proibindo os canais de televisão de exibir comerciais de coisas como absorventes femininos e remédios para hemorróidas durante os horários de refeições.

Nada como comunistas preocupados com a boa digestão do arroz do povão. Meu primeiro estranhamento foi com o fato de haver, na China, canais de televisão. O segundo foi o de haver, nos canais de televisão chineses, intervalos comerciais. O terceiro foi o tipo de questão palpitante na China, que faz com que seus governantes de preocupem é com o comercial de Hemovirtus. Decerto não haveria nada mais sério e importante para tratar.

Creio que nosso Congresso deveria colocar o assunto em pauta. Mas se formos tirar da nossa TV tudo o que é de mau gosto no horário das refeições, ficaria só comerciais com a Giselle Bundchen e a Daniela Cicarelli. Tá, Ana Paula Arosio também passaria.

Graças aos céus, contudo, não temos o problema da sensibilidade chinesa. Há décadas temos que jantar com o Jornal Nacional e nosso aparelho digestivo está calejado.


--------

Posted by marcol at 7:48 AM

outubro 3, 2003

Meus filmes de cabeceira -

Meus filmes de cabeceira - 3 - Muito além do jardim

Muito antes de Tom Hanks estourar a boca do balão e ser bi-campeão do Oscar vivendo um mentecapto em Forrest Gump (que considero excelente), Peter Sellers viveu um personagem parecido em Muito além do jardim.

Trata-se de uma comédia muito refinada, cheia de piadas sutilíssimas, com ótimas atuações. As piadas, na verdade, acabam não sendo muitas mais que uma só: o cidadão que é meio burro e sem querer engana a todo mundo, virando celebridade nacional. Ele é um jardineiro sem sobrenome, viveu a vida toda entre seu modesto quarto e um jardim de uma mansão, até que o dono da casa morre e ele é despejado. Dali para diante, sempre que alguém fala com ele algo que ele não entende, retruca falando algo de seu jardim, o que acaba passando por metáforas de enorme profundidade. As situações são construídas com muita habilidade e inventividade. O filme não tem pressa e passaria por lerdão hoje, a era videoclip. Mas contar esta história de outra forma seria assassiná-la.

As comédias que se fazem hoje são apelações de gosto duvidoso (para não dizer mau, logo) como Débi e Lóide, Quem vai ficar com Mary? ou Todo Mundo em Pânico. Daí eu crer ser oportuno lembrar de uma obra que divide com essas o rótulo "comédia", mas não divide, de jeito nenhum, o patamar de criação artística.
--------

Posted by marcol at 10:54 AM

outubro 2, 2003

Nobel J.M. Coetzee ganhou o

Nobel

J.M. Coetzee ganhou o Nobel de literatura. Só li À espera dos bárbaros e minha opinião, com base nessa única obra é: coisinha mais merecida! O livro é fantástico, quem puder, leia!
--------

Posted by marcol at 9:00 AM

Praias Todos os natais e

Praias

Todos os natais e revéillons dos meus primeiros vinte e quatro aninhos passei em um mesmo lugar: a praia da Lagoinha, em Ubatuba-SP. Acabou se tornando um troço meio mítico pra mim, cheio de signos e cifras que não se explicam mas se percebem. Coisa de passar os anos quentes da adolescência, a formação da auto-imagem, da personalidade, da construção - e posterior destruição, ou substituição - de sonhos, de uma série de suspiros engasgados e, sobretudo, de mergulhar no mar quente e azul e me sentir no melhor e mais eficaz templo que o Senhor já construiu.

Chega esta época do ano e me bate no peito a mesma sensação que então batia: a de saudade de lá. Agora, contudo, vem com um sentimento meio amargo de saber que dessa vez não vai dar.

Contento-me, então, com a prazenteira Praia do Nelson.

Contudo, fecho os olhos e vejo o mar e ai é inevitável não lembrar disso aqui:

Onde o mar falta

Entreabertas as pernas, e pousada
de leve, sobre os ombros, a cabeça,
parecias, às vezes, derramada
no fundo, mais espêssa.

E eras líquida:vias, através
de tua própria sombra transparente
a luminosidade dos teus pés,
alados. Porque ausente.

Jamais dizias nada. Sempre tinhas
entre os lábios, a voz silenciosa
dos que voltam. Onda após onda, vinhas
(e vens) misteriosa.

Desde a profundidade, do mar. Brusco
nas suas reações, onde o mar falta
sob as ondas. Aí, aí te busco -
e és, como as ondas, alta.

Quando olho o horizonte: quando tudo
se dissolve em si mesmo e, onda após
onda, me calo. Vejo, e estou mudo.
O mar na tua voz.

Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar
que tudo era horizonte.

Octavio Mora
--------

Posted by marcol at 8:31 AM