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setembro 23, 2003

Meus filmes de cabeceira 2

Meus filmes de cabeceira 2 - Antes da Chuva

Tarde vazia de meio de semana, eu saio do Mackenzie pra dar uma sapeada no novo cinema que inauguraram na Rua Augusta, o Espaço Unibanco de Cinema. Tá passando um filme macedônio. Como assim, macedônio? É um filme feito na Macedônia, por macedônios. Até então, pra mim Macedônia era Grécia. Uéu, vamos encarar, vai. Quarta-feira e com carteira da UNE, eles quase tinham que pagar pra eu assistir.

Logo na primeira cena, uma lua enorme sobre o Mediterrâneo, iluminando a capela ortodoxa na colina e eu digo de mim pra mim mesmo: virgi! Esses filmes que te apaixonam à primeira cena são singulares.

Antes da Chuva é dividido em três episódios aparentemente desconexos, mas tratam basicamente de intolerância, a grande marca de nosso tempo. O primeiro ("Palavras"), fala do noviço que fez voto de silêncio e que esconde uma albanesa que está sendo procurada pelo assassinato de um macedônio. O desfecho é impactante e adiantar aqui seria matar o filme para quem não viu. O segundo ("Rostos") se passa em Londres e mostra um casal à beira da separação dentro de um restaurante. Ele não quer a separação, mas ela parece resolvida e dá a última palavra. Enquanto conversam, um sujeito estranho falando uma língua estranha começa uma briga com um garçom e é expulso do restaurante. O garçom, aparentemente inocente, é demitido. Dali a pouco o homem estranho reaparece e armado, atirando para todo lado. O terceiro ("Tempo"), mostra um famoso fotógrafo de guerra macedônio, em crise por alguma coisa que aconteceu em sua recente cobertura dos conflitos na Bósnia. Ele resolve voltar de Londres para sua terra natal. Encontra lá uma realidade na qual ele não se encaixa mais; o povo vive armado, em pé de guerra com a etnia vizinha (albaneses) vociferando uma ladainha de ódio que ele conhece muito bem de outras paragens, tantas que pisou em seu trabalho por aí. Mesmo assim ele insiste em ver seu primeiro amor, uma albanesa, e envolve-se num imbróglio que vai colocá-lo numa sinuca: continua na mesma posição que sempre ocupou, ou seja, fotógrafo, o cara de fora, que assiste tudo sem se intrometer, às vezes torcendo pro circo pegar fogo para ter o que fotografar, ou toma um partido? Se toma um partido, qual?

É claro, estamos na mesma vila onde se desenvolve o primeiro episódio e as peças se encaixam magistralmente, mostrando um roteiro fantástico, cerzido em forma circular, como a cobra que morte do próprio rabo. Tem fotografia. Tem ótimos atores. Tem um roteiro absurdamente bom. Tem uma mensagem. Tem direção segura e certeira. Quer mais o que?
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Posted by marcol at setembro 23, 2003 2:15 PM