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setembro 17, 2003
Meus filmes 1 - A
Meus filmes 1 - A dupla vida de Véronique
Falar dos filmes prediletos é tocar em coisas que temos como boas, como acima da média, é ou né? Por essas e outras optei por começar com A dupla vida de Véronique.
Este filme pode ser degustado como mera fonte de prazeres estéticos (sei que de alguns eu receberia pedradas pelo "mero"), como alimento para o cérebro, para o pensamento, ou, de preferência, como ambos. É que ele é ao mesmo tempo belo, tem imagens e situações lindíssimas, ao passo que é difícil de entender, de captar a mensagem. Na primeira vez que vi, gamei, mas não entendi patavinas. A bem da verdade, só fui começar a entender depois que terminei de assisti-lo pela quarta vez.
Momentos belos como a cena que o abre, quando um coral de moças canta ao ar livre, sob uma luminosidade laranja do pôr-do-sol. Close na linda de morrer (tão linda em sua discrição, em sua sutileza) Iréne Jacob, que faz um solo. Enquanto ela sola, uma lágrima começa a escorrer-lhe da face. Ela, cantando, sorri, põe a mão no rosto e aí percebe-se que não é uma lágrima, mas chuva, que faz dispersar o coral e a deixa sozinha, cantando. Ou como o maravilhoso show de marionetes. Ou como as imagens refletidas numa bola de vidro. Ou como a cena do concerto no teatro.
A história fala de duas mulheres, Weronika e Véronique, que são idênticas, no corpo e no espírito, embora uma viva na Polônia e outra na França. A sensação de haver uma "alma gêmea" causa alguma confusão nelas, que confundem aquela coisa forte com a crença no amor homem-mulher. Krzystof Kieslowsky, o diretor e roteirista, responsável também pela trilogia das cores e lemas da revolução francesa Bleu, Blanc e Rouge (A liberdade é azul, A igualdade é branca e A fraternidade é vermelha), era um católico profundamente preocupado com as relações pessoais na sua fria Europa, e não cairia no conto do vigário fácil da "alma gêmea".
Ele deixou, neste (repito, nunca é demais) belíssimo filme vazar sua porção "sobrenatural", inexplicável, imponderável. Levei comigo o recado: não tente entender tudo. É entendimento ou felicidade. E ele (e sua personagem) opta pela felciidade.
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Posted by marcol at setembro 17, 2003 1:09 PM