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setembro 30, 2003

Jacó e a fada


Jacó e a fada

Jacó sai à rua com ar abestalhado, fora de si. Ele sente que precisa fazer alguma coisa para evitar o casamento de Eliodora com Fernando. A sensação de que pôs o relacionamento com ela a perder por uma aventura estúpida era um espinho na carne e nos últimos onze meses não parou de repetir de si pra si que ela era dele, que aquela situação era temporária e seria fatalmente contornada. Quando a notícia do casamento marcado chegou, ele tentou agir com indiferença, sentiu o peito anestesiado, como se se tratasse de uma dor remota, alheada de si. A noite anterior à data, contudo, passou em claro, fritando na cama, na mente reboando tudo o que todos disseram sobre o assunto nas últimas semanas. O sol ainda não havia nascido quando ele enfim decidiu agir.

E foi até a igreja. Circundou o prédio em busca de uma entrada, achou uma janela que poderia ser forçada no banheiro, que ficava nos fundos. Insinuou-se para dentro e começou a andar pelo salão vazio. No peito a sensação de que pisava um solo não sagrado, mas trágico, algo assim como um campo de batalha prestes a ser pisado pelos exércitos combatentes.

Decidiu esperar na galeria, no mezanino. Subiu até lá, deitou-se ao chão e, pensando em como faria para levar a cabo seu firme intento, adormeceu.

Adormeceu e sonhou. Uma bela moça vestida de forma estranha vinha voando, tomava-o pela mão e o levava consigo pelos ares, dando risadas. Ele sentia o vento no rosto, deliciado, sentia a maciez daquela mão, a doçura daquele sorriso e lá de cima via paisagens belíssimas. Ela apontava e, sempre a rir, dizia os nomes dos lugares: veja! É a acrópole de Atlântida! Veja ali, o Olimpo, com Asgard mais à direita. Daquele lado a Planície da Terra Média! Veja, é Pasárgada, onde Manuel Bandeira delicia-se, e ali adiante está Camelot, com todos os cavaleiros da Távola Redonda, os doze pares de França, Rolando, Amadis da Grécia e o próprio Carlos Magno. Oh, veja, a Terra do Nunca!

De repente ela interrompeu o vôo e começou a descer. Ele perguntou o que acontecia e ela disse: já está bom de viagens.

- Mas, chegamos ao fim, portanto?
- Sim.
- Diga-me, ao menos, seu nome!
- Claro! Sou a fada dos casamentos felizes.

Casamento...? Lembrou-se do casamento de Eliodora e Fernando e imediatamente despertou. Levantou-se sobressaltado e viu uma porção de gente saindo da igreja. Correu na janela e viu o casal já casado passando por uma chuva de grãos de arroz.

Sentindo o coração partir, olhou, e viu por entre a folhagem da copa de uma grande árvore, a fada dos casamentos felizes rindo seu riso que, Jacó agora sabia, era de mofa.

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Posted by marcol at setembro 30, 2003 12:09 PM