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agosto 5, 2003

Era uma vez... ...

Era uma vez...

... um menino pobre e órfão do norte da Polônia que se chamava Nikolenka. Ele estudava na escola da vila, que ficava a treze quilômetros da velha e sombria casa onde morava com sua tia e seus treze gatos. Certo dia, ele deixou a escola e perdeu algum tempo brincando com os amigos. Quando pôs-se a caminho de casa, já o crepúsculo se anunciava. Ele pegou os livros amarrados a uma cinta, jogou-os por sobre os ombros e, ouvindo sons estranhos que vinham do bosque ao qual a estrada cortava, apertou o passo. Sozinho, Nikolenka não precisava aparentar muita coragem, como quando estava entre os colegas; não, ele podia dar curso a seus pensamentos aterrorizantes, aos quais o grasnar agudo dos corvos em revoada só faziam agudizar.

Súbito, um homem enorme, todo vestido de preto, com um chapéu que fazia uma escura sombra sobre sua face, de onde só se via o brilho de dois olhos amarelos, carregando uma maleta de couro em uma das mãos, apareceu sem que Nikolenka pudesse saber de onde. Ele assustou-se, claro, mas tentou manter a cordialidade que caracterizava o povo do norte da Polônia, e disse "boa tarde, senhor." O homem grunhiu alguma coisa ininteligível e começou a andar ao lado de Nikolenka.

- Você mora na casa perto do lago? - ele perguntou.
- Sim, senhor - respondeu o pobre Nikolenka. O homem resmungou alguma coisa com uma voz muito rouca, como se estivesse satisfeito.
- Você acredita na vida após a morte, garoto?

Nikolenka passou a mão sobre a testa suada, sem saber o que dizer ante tão inusitada pergunta.

- Você acompanha o campeonato turco de biribinha?
- Não, senhor.
- Garoto, você já viu as formas do barro do fundo do poço velho?
- N-não, senhor.
- Você nunca reparou que há ali a face de um homem? Um homem... gritando?
- Não, senhor. O senhor aceita um pedaço de pão com toucinho? - o homem resmungou mais alguma coisa. De repente, sem parar de andar, abriu a maleta e de lá tirou alguma coisa que fazia um barulho de ferros batendo.

Nikolenka lembrou-se então do que sua tia lhe dizia:

- Nikolenka, jamais molhe o pão no leite de cabra, porque dá azar.

Sem poder mais agüentar aquela situação, Nikolenka saiu correndo em disparada, sem olhar para trás. Só foi parar quando estava dentro de casa, ao abrigo daquelas velhas paredes... Até hoje, já velho, quando o vento assobia sombrio nas frestas da janela da casa velha, Nikolenka se lembra. E então, pega o jornal e busca informações sobre o campeonato turco de biribinha... sem nunca encontrar!

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Posted by marcol at agosto 5, 2003 9:22 AM