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agosto 13, 2003

A montanha das sete


A montanha das sete provações - 6º volume

- Vai um cafuné na orelha aí, meu sultão garanhão?
- Boa idéia, sabe, Shera? Bota uma almofada aqui em baixo do meu pezinho, manda os músicos entrarem e simbora pra montanha das sete provações.
- Beleza. Vou pedir pra banda tocar "o passo de elefantinho", pra dar o tom dramático que a história exige.
- Boa!

Kalil olhou e viu um velho com um turbante muito alto com um penacho de pavão na ponta. O velho acenava para que ele subisse logo. Cheio de ressabios, Kalil Aben H'suam escalou os metros que o separavam do velho e cautelosamente olhou o que acontecia. Havia uma mesa redonda em uma pequena plataforma à beira do precipício com diversos homens de venerável aspecto assentados em pomposas almofadas. O velho apontou-lhe uma almofada, na qual Kalil assentou-se sem tirar em nenhum momento a mão do cabo da adaga.

- Muito bem. Agora podemos começar o debate! anunciou um homem de barbicha pontuda.
- Que debate? atalhou Kalil bruscamente.
- Ora, o debate sobre a ilusão do real e a desmitificação do físico ante a ilogicidade do ser. Com a palavra, o pachá Enrolad Téoscabelo.

Um homem muito gordo, com grandes anéis nos dedos, pigarreou limpando a garganta e começou, gesticulando prodigamente:

- Vejam bem, a ontognosiologia sistemática da escola do Cairo sobrepõe a fugacidade do deslocamento astral enquanto forma de adequar a pusilanimidade da existência ante o não-ser, o não-fazer. Há que se objurgar que os axiomas neo-emoldurantes apontam para uma desindexação da realidade apalpada pelos sentidos contra a ilusoriedade da construção fenomênica ante a realização do pressuposto afórico. Em nível de apostelemática, óbvio.

Alguns balançavam a cabeça positivamente, outros negativamente. O homem que conduzia a sessão apontou para Kalil e disse:

- A réplica é tua, forasteiro! Você deve rebater os argumentos do pachá sem dizer "a nível de", "veja bem" e qualquer forma de gerundismo, do tipo "eu vou estar falando", ou "nós vamos estar observando" e asim por diante. Ah! Também exigimos que faça um uso muito racional da palavra "enfim".
- E se eu não responder...? perguntou Kalil com a proverbial sabedoria árabe.
- Vais se arranjar com ele ali - disse e apontou para um homem de uns seis metros de altura, sem camisa, com um capuz negro na cabeça e segurando um machado que deveria pesar uma tonelada.

Enquanto isso, na cidade, Homadad não parava de comer e comer, lastimando a idéia que o pai tinha tido, de mandar seu amado para a tenebrosa montanha. O grão-vizir olhava aquilo, pensava nas possibilidades de êxito do casamento de seu filho, Mongus, com a bela filha do califa, e dizia de si para si:

- Enquanto a bezerra muge, a andorinha se coça! (nota do tradutor: trata-se, decerto, de mais um ditado da época cujo significado nos escapa...).

Face a face com seu trágico destino, Kalil confiou o bigode algum tempo, lembrando-se das célebres palavras do velho sábio de Bagdad: "se não podes com os argumentos de teu interlocutor, não abra mão da possibilidade de acertar-lhe um porrete nas idéia." Colocou as mãos sobre a mesa e num vigoroso gesto empurrou-a para o precipício, fazendo com que todos os sábios caíssem ali. Virou-se incontinenti para o terrível carrasco. Este levantou o machado alto, sobre a cabeça. Kalil viu que com tamanho gigante não podia, então lembrou-se do pó mágico que o sábio de Bagdad lhe havia dado antes de arrojar-se em sua missão impossível. Tomou o saquinho, abriu-o e atirou-o para o ar, sem saber o que aconteceria. O gigante aspirou o pó, começou a trançar as pernas e deixou o corpo cair com estrépito no chão. Ali ficou, com um sorriso estranho sob o capuz e cantando um reggae. Kalil olhou o saco melhor e viu que havia uma etiqueta de "Made in Colombia" no cós. Pensou então que aquele sábio era mesmo muito estranho.

Passou, então, por cima do gigante e retomou a escalada rumo ao topo da terrível montanha. Parando numa penha, com o vento a açoitar-lhe o peito desnudo, a faixa da cinta a tremular contra o abismo, disse:

- Cinco provações já passaram! Duas ainda faltam! Pelo amor de Homadad e pela glória do Califa!

- Gostou da história, meu sultão? Sultão? Dormiu o desgraçado! Bem que eu vi que aquele discurso não estava excitando muito o pamonha!
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Posted by marcol at agosto 13, 2003 9:11 AM