« ESTÁ NO AR!!! Ruflam os | Main | A montanha das sete »
agosto 12, 2003
A montanha das sete
A montanha das sete provações - 5ª edição revista e atualizada
- Sherazade, minha quenga, hoje eu tô cheio de disposição! Olhe só, até me virei na cama, pra você poder massagear minhas costas enquanto conta aquela história do Kalil na montanha...
- Sim, meu amo, com prazer. Bem...
Enquanto Kalil suava quente na Montanha, Homadad suava frio na cidade. Era tanta ansiedade quanto ao bem estar de seu amado na terrível Montanha, de onde jamais alguém havia voltado com vida, que desandou a comer os quitutes da cozinha do palácio. Traçou sozinha oito botijas de sorvete de kibe banhadas com calda de humus. O grão-vizir, que pretendia a mão da bela para seu filho, Mongus, olhou aquilo e, confiando a longa barba, disse com seus botões:
- Aonde a raposa do deserto cava sua toca, ali está o seu cantinho! (nota do tradutor: trata-se provavelmente de um ditado da época, cujo significado perdeu-se nas brumas do tempo) (nota do editor: desculpem por "brumas do tempo". Eu não devia ter contratado um tradutor com pretensões poéticas).
Kalil viu um regato de água na montanha e, exausto, assentou-se um pouco para bebericar benfazejamente a pura e cristalinha água. De repente, do fundo do regato, levantou-se um ser híbrido, metade peixe metade homem, com hercúlea (hum... hercúlea não, digamos) inacreditável força física que prendeu braços e pernas de Kalil Aben H'suam num abraço (desculpe o trocadilho) escamoso.

(desculpem a ilustração. Dadas as restrições orçamentárias dessa edição tardia de A Montanha das Sete Provações, foi o que se pôde arranjar).
Ele disse:
- Forasteiro! Terás de responder a um enigma ou morrerás esmagado em meu abraço.
- Manda! disse Kalil com a bravura que lhe é peculiar.
- O que é o que é: cai em pé e corre deitado?
- Chuva!
- Droga! Tem escamas mas não é peixe, tem coroa mas não é rei?
- Abacaxi!
- Maldição! Você conhece meus mais insondáveis enigmas! Só de raiva vou matá-lo mesmo assim.
E, dito isso, passou a estreitar Kalil com força suficiente para parti-lo ao meio. Kalil aproveitou, contudo, a incrível força e também o corpo liso e cheio de escamas da criatura, e escorregou para fora do abraço. Ato contínuo, antes que o ser terrível pudesse recuperar-se e o atacar outra vez, tomou da cinta o lenço que Homadad lhe confiara. Abrindo-o com incrível agilidade, laçou o animal pela boca aberta e num safanão jogou-o para fora d'água, onde ele começou a se debater e agonizar. Kalil aproveitou a deixa para tomar uma pedra bem grande, levantá-la sobre a cabeça e atirá-la contra a cabeça do viscoso ser das águas. Ele estava morto!
- Foi assim que nasceu o ditado "o peixe morre pela boca?" perguntou o sultão.
- Sim, meu amo, muito perspicaz!
Kalil bradou com força, e o eco de suas palavras preencheu o abismo enevoado:
- Quatro provações já passaram! Três ainda faltam! Pelo amor de Homadad e pela glória do califa!
Enquanto dizia isso, ouviu um grito acima de si:
- Corra, imbecil! O debate já vai começar!
- Debate? Que debate, Sherazade, minha nêga?
- Acho que só saberemos amanhã, alteza. Também estou com muito sono.
- Cê que sabe, minha deusa. Quer que vá buscar um chazinho pra você...?
- continua
--------
Posted by marcol at agosto 12, 2003 1:11 PM