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agosto 6, 2003

A montanha das sete

A montanha das sete provações

Em meus estudos eruditos fiz uma descoberta de importância razoável. Descobri que "As mil e uma noites" seriam, em verdade, no original árabe, mil e oito. Sim, sim, sim, três vezes sim. Na caverna imediatamente abaixo daquela onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto, havia não um vaso, mas um porta jóias de barro, dentro do qual foi encontrado um rolo que continha uma eletrizante narrativa, sobre a qual estava carimbado, no árabe típico das transações comerciais da Bagdad de quatrocentos anos antes de Cristo: "Cortado da edição final por contingência de custos".

Trata-se, em verdade, da última história contada por Sherazade ao Sultão homicida, e que, ao que parece, foi suprimida da primeira tiragem por razões de ordem econômica.

Ao que parece, também, os editores criaram uma sociedade secreta de protetores do manuscrito sagrado, que serviria para evitar que esse infame corte na obra original, fosse descoberto. Isso explica porque dezoito pessoas morreram em condições violentas e/ou inexplicadas antes de conseguirem fazer com que o manuscrito chegasse ao único veículo da mídia mundial que teria culhões para efetuar a publicação conta todos os perigos, É por aqui que vai pra lá?, claro. Isso talvez explique porque não estou me sentindo muito bem...

Ok, sem mais delongas, vamos ao magnífico conto que deveria encerrar "The arabian nights", ou "As mil e uma noites", ou "Sherazade, a cheia de lábia". Preparem-se para viver fortes emoções. A publicação dar-se-á nos moldes Jack, ou seja, em picadinhos, eis que assim foi concebida originalmente.

A Montanha das Sete Provações

Havia um califa dado às artes mágicas, sabedor dos encantos e das artes secretas. Certa noite, sentindo-se entediado, pediu a presença dos músicos (Ali Omar e seus Blue Turbans) e solicitou também que sua formosa filha, Homadad, dançasse para ele.

Ouvindo a música e o farfalhar da sêda da roupa da moça que dançava, Kalil Aben-H'suam, o pobre soldado que efetuava a guarda do jardim interno, não resistiu à tentação e fez o que não devia: olhou para dentro do salão. Imediatamente a flecha do amor perpassou seu coração e o homem caiu perdidamente apaixonado pela formosa donzela, passando desde então a viver em dores e suspiros pela sua intangível musa.

Certa tarde, contudo, enquanto fazia a guarda do muro, viu quando um salteador esgueirou-se pelo jardim interno, trepou até a sacada dos aposentos de Homadad e tirou uma comprida e recurva adaga. Não havendo tempo a perder, e mesmo sabendo que a ousadia de ingressar nos aposentos da rapariga poderia custar-lhe a vida, Kalil correu como um puro-sangue árabe e num ágil salto surpreendeu o salteador quando ele se arrojava contra a filha do califa. Lutaram selvagemente até que Kalil prevaleceu e varou o pérfido vilão com sua cimitarra. Sem olhar para sua amada, pediu desculpas pela invasão, tomou o corpo sem vida do bandido sobre os ombros e arremeteu-se sacada afora, aguardando seu amargo destino.

O califa mandou chamá-lo. Elogiou sua valentia mas perguntou se sabia qual era a pena para o homem que pisasse nos aposentos reservados de uma donzela. Kalil respondeu que sabia e que se submetia à vontade do soberano. Nesse momento, Homadad invadiu a sala, arrojou-se aos pés do pai e suplicou-lhe a mercê, pois encontrava-se, ela também, agora perdidamente apaixonada pelo soldado.

- Você a ama? ele perguntou ao soldado, que, com os olhos brilhando e ousando pela primeira vez olhar nos olhos da bela dama, disse, como se numa novela mexicana estivesse:

- Sim, nobre califa, com todas as forças da minha alma, com cada fibra de meu ser!

A moça, de olhos lacrimejantes, sorriu por trás do tênue véu o sorriso mais belo que Kalil já vira, e que lhe pareceu assim como a visão dos jardins do paraíso de Alá.

- Você poderá ter a mão de minha filha, eis que é homem valente e de brio. Contudo, terá primeiro de provar sua lealdade e destemor de forma definitiva. Você terá de passar pela Montanha das Sete Provações!

Todos na sala assustaram-se com a dureza do teste, mas Kalil topou, digo, aceitou.

Homadad, cheia de mêdo, entregou-lhe um lenço; seu amigo, o mago Ostragad, entregou-lhe um saco cheio de pó mágico; o chefe da guarda entregou-lhe sua própria espada e o califa disponibilizou-lhe seu próprio cavalo.

Foi assim que Kalil partiu rumo à pavorosa Montanha das Sete Provações. Está tarde, meu amo, amanhã veremos como essa história termina.

(to be continued)
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Posted by marcol at agosto 6, 2003 10:01 AM