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agosto 29, 2003

Da série HebeCamarguica "Que graciiiiiiiinha"

Da série HebeCamarguica "Que graciiiiiiiinha"

A Bia avisou que ia fazer e fez. Publicou no Jornal do Blogueiro uma matéria sobre É por aqui que vai pra lá? em tons muito mais elogiosos do que merecemos. Olha só se não é uma graciiiiiiiiinha:


É POR AQUI QUE VAI PRA LÁ?

Esse é o nome do blog do Marcão. Por que esse nome? Você nem pode imaginar, mas não sou eu quem vai contar. Só posso dizer que é um dos blogs mais engraçados que já li (e olha que conheço vários).

Mesmo quem não curte novelas vai morrer de rir com a primeira novela "bloguística" criada por ele, chamada "PERSELA, A VESGA" (pois se existe "Beth, a feia" e "Joana, a virgem", por que não "Persela, a Vesga"?). Não sei como o SBT ainda não o descobriu! Certamente, a audiência iria subir bastante...

O blog é engraçado, mas quem chegar agora lá pode se perder um pouco no meio das loucuras que o dono posta. Uma dica? Comece a lê-lo lá do primeiro post. Você não vai se arrepender! Acompanhe os progressos que ele fez no "mundo do HTML" e morra de rir...

O mais importante de tudo: ele é uma pessoa nota 10! Daqueles que deixam comentários deliciosos no seu blog. Sem dúvida, iniciei minhas indicações de blogs em grande estilo! Visite-o agora, clicando aqui.

Saudações aos leitores!

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Posted by marcol at 9:44 AM

agosto 28, 2003

Champagne, por favor! Tá bom,

Champagne, por favor! Tá bom, espumante de abacaxi serve.

Meu fiel leitor e companheiro de blogações (in Ernestinho e suas mulatas besuntadas) Helio Serafino chamou-me a atenção (com seu proverbial sotaque nicaraguense): hey, hombre! Tienes 1.500 visitas! No vays a postar nenguna fueto de una biscoitudona para nosotros regalarnos?

Respondi: oh, oh, oh, três vezes oh! 1.500?! Eu não me julgo digno. Mas, diga, nobre Helio, você que conhece muitas artistas de beleza ímpar, eu deveria publicar a foto de quem desta vez, já que aos 500 foi Sophia Loren e aos 1000 Brigite Bardot?

Ele nem pestanejou e me deu a dica. Segue, pois, abaixo, a imagem comemorativa em grande estilo dessa marca memorável da história dos blogs modernos!

Ah, Wilza Carla! Ilumine esta página!
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Posted by marcol at 9:25 AM

agosto 27, 2003

Persela, a vesga, 20

Persela, a vesga, 20 anos depois

Incomodado pelas milhares de cartinhas que chegam todo dia, pedindo uma retomada da já clássica blog novela Persela, a vesga, sucesso de público e crítica em mais de 600 países (Persela foi dublada em 2345 línguas e dialetos. Consta que no Vaticano os sinos dobram anunciando o começo de um novo capítulo), é hora de revisitar nossos queridos personagens. Não numa continuação, mas em um especial de natal que se passa em algum momento, 20 anos depois dos acontecimentos do último capítulo

Tony Johnny, gordo e careca, mas com um resquício do antigo topete no cocoruto, está só de cuecas lendo o jornal. Um punk aparece na sua frente e fica encarando.

- Que foi, Pancito?
- Não me chama de Pancito, pô, já falei! Quero grana!
- Oh, vai se divertir com os amiguinhos?

O punk faz uma cara de dãr e estende a mão. Tony Johnny pega a carteira dentro da cueca e tira umas notas, que o garoto arranca de sua mão com uma certa rudeza. Tony Johnny dá uma risadinha e diz de si pra si: "esses jovens..." enquanto o piá sai pela porta da frente da humilde casinha.

- Querido, você pode me ajudar? a pergunta vem da cozinha. Tony Johnny apenas grunhe por trás do jornal:
- Não dá, tô lendo.

Corta pra cozinha, onde Persela, agora de permanente e macilenta, mas bem maquiada, lava uma pilha de uns dezoito metros de louça. Seus olhos estão tristes e encaram o horizonte longínquo enquanto ensaboa as panelas gordurentas. Pode-se ler seus pensamentos:

- Oh, Tony Johnny não me tem mais aquele velho amor, a paixão que transbordava e que transformava o mundo todo num lindo papel crepom côr-de-rosa! Ele parece indiferente, sempre atrás do futebol, dos amigos no bar e daqueles carros imundos da oficina! O que será que houve?

Ouve-se batidas na porta. Tony Johnny grita pra Persela ir atender. Ela aparece, então, limpando as mãos no avental, e abre a porta. A música ataca com violência um acorde dramático! A câmera dá um zoom! Ali na frente está ninguém mais ninguém menos que o enigmático personagem enigmático!!!!!!!!!

O susto é tão grande que Persela envesga de novo!

O enigmático personagem enigmático abre a boca de forma enigmática e diz:

- Finalmente!

Ele levanta a mão e se prepara para falar algo quando um carro pára em frente cantando o pneu, três homens encapuzados saem dele armados, agarram o personagem enigmático e somem. Persela fica muito abalada. Ela se vira para Tony Johnny, que abaixa o jornal perguntando quem era. Quando ele vê Persela vesga outra vez, um som de harpa dedilhada anuncia o brilho brotando de volta em seus olhos túmidos de emoção. Ele joga o jornal pro lado e vai correndo em câmera lenta, na direção de Persela. A cueca samba canção deixa entrever um indesejável movimento interno enquanto ele corre, e as banhas chacoalham por baixo da camiseta regata branca. Persela sorri e abre os braços, mas ele tropeça na mesinha de centro e se esborracha aos pés dela. Ela o levanta pelo topete e eles se beijam loucamente. Ao redor deles, um coração de purpurina vermelha começa a brilhar e ouve-se ao longe o canto do rouxinol bendizendo a alvorada!


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Posted by marcol at 8:37 AM

agosto 26, 2003

A apelação continua! Depois


A apelação continua!

Depois de requentar um poste ido (que rendeu 2[!] comentários novos não sobre o poste em si, mas sobre o fato de requentar um poste), é a vez de copiar um poste de outro. Mas dessa vez a apelação se justifica pela nobreza da causa: mostrar que quem não visitou ainda o blog Órbita, tocado pela Lux Luciana Dantas Teixeira, lá de Natal-RN, não sabe o que tá perdendo. Achei isso aqui lá, ontem:

Apontamentos tardios

- Niezcthe me diria que não basta a vontade poder, mas a vontade de exercê-lo. É fato público, notório e comprovado na História que as mulheres exercem domínio inenarrável sobre os homens. E toda mulher (razoavelmente inteligente) sente quanto está com a faca e o queijo na mão. Uma palavra, um gesto, um sorriso e tem-se aquilo que se quer, ainda que o homem vá chorar o resto de sua pobre vida ("Santo Deus, aquilo custava mais de três mil reais???"). Perdoai-me, Helenas; estando eu com a faca e o queijo na mão, sou daquelas que preferem comer chuchu.

- O ônibus é bom, eu não reclamo. Me conduz sem que eu precise prestar atenção nas placas, me deixa pensar e relembrar poemas, fechar os olhos enquanto o vento bate no rosto. O ônibus até inspira com sua turba falante, cheia de histórias, caretas, corpos, tiques e quetais. Mas ai, o banco do ônibus não comporta minhas pernas.

- Eu perdôo até o PMDB, mas não as pessoas que quebram o macarrão. Sabe? Antes de colocar na água para cozinhar quebram ele no meio - ou pior - em vários pedacinhos. Isso não se faz! Macarrão tem que ser inteiro e longilíneo, enrolar direitinho no garfo e dar trabalho pra entrar todinho na boca. Tem que ser inteiro para lambuzar a gente de molho. Que seria da dama e do vagabundo se o cozinheiro quebrasse o macarrão? Crianças, não quebrem o macarrão! Já basta nossas almas aos pedaços.

- Há pessoas perfeitas para amar à distância e pessoas formidáveis para amar de perto. Esta classificação não é politicamente correta, mas a mim, ao menos, parece real. Percebo isso quando estou com pessoas que há pouco tempo estavam longe e eu jurava serem o máximo, que me pareciam queridas, admiradas, até certo ponto endeusadas, mas de perto... são tão comuns! São até decepcionantes! E quando estou aqui, segura na minha solidão, penso que talvez seja melhor assim... e ainda tem aquelas quatro horas de viagem incômoda... mas de perto... de perto eu encontro meu lugar.

- Quando você conhece as avós elas já são velhinhas. Hoje eu só tenho uma, vó Maria. E seu abraço está entre as coisas mais deliciosas que já provei (seu feijão também). Mas é diferente quando sua avó é velhinha e você é criança: ela parece grande, forte, mágica, como uma fada-mãe pronta a fazer um encanto espantoso, como fazer aquela panelinha no fogão alimentar uma multidão de filhos, netos e bisnetos (não tenho idéia de quantos tios tenho). Quando, porém, sua avó é velhinha e você pensa que cresceu, ela parece pequena, frágil, ainda mágica, é verdade, mas você já conhece seus segredos tão bem quanto sua própria humanidade. E tudo que quer é o encanto espantoso de torná-la eterna, enquanto come o seu feijão com o mesmíssimo gosto bom imutável.

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Posted by marcol at 2:21 PM

agosto 25, 2003

Eu também sei apelar


Eu também sei apelar

A despeito do mais que evidente refinamento intelectual do conteúdo deste blog, certificado que é pela OIPK (Organização Mundial de Vigília do Conteúdo dos Blogs - sigla em húngaro), gostaria de provar de uma vez por todas que eu também sei apelar.

Sim, também eu sei recorrer a postes já postados e que entendo não haverem sido devidamente ignorados para suprir o buraco da falta de tempo de blogar. Este é o momento de provar tudo isso. Eis, portanto, a entrevista de um compositor razoável da MPB, romancista mediano, dramaturgo meia-boca e excelente jogador de futebol. Não perca! É excrusiva!

Uma palavra
Uma entrevista exclusiva com Chico Buarque de Holanda

Este final de semana ele não apareceu nos gramados do Polytheama, o campo de peladas por ele organizadas desde tempos imemoriais (e que, dizem as boas línguas, apresenta um futebol melhor do que muita partida da primeira divisão). Em lugar disso tomou a ponte aérea e veio dar em São Paulo, onde pegou um telefone e entrou em contato com "É por aqui que vai pra lá?".
- Eu queria ser entrevistado por vocês - ele disse.
Considerando que se tratava do compositor, escritor e quase-cantor Chico Buarque, e que ele é notoriamente bastante avesso a entrevistas e holofotes em geral, destacamos uma equipe de dezoito jornalistas, fotógrafos, carpinteiros, maquiadores, marceneiros, contra-regras, cabos-men e dubladores e encontramo-nos todos na sede mundial da É por aqui que vai pra lá? Inc., onde se realizou a seguinte entrevista:

EPAQVPL?:Muito bem, Chico, por quê É por aqui que vai pra lá?

CB: Entendo que vocês são o grande acontecimento midiático em muito tempo! Formam, informam, transmitem cultura, bom senso, análises certeiras, críticas eficazes e, além de tudo, são caras muito bonitões e que esbanjam inteligência.

EPAQVPL?: Ótimo. Deixemos de redundâncias. O que tem feito desde Cambaio?

CB: Ouço sempre "Vai trabalhar, vagabundo".

EPAQVPL?: Isso foi uma citação!

CB: Muito perspicaz.

EPAQVPL?: Tem escrito alguma obra prima?

CB: Uma aqui, outra acolá.

EPAQVPL?: Falemos de Marieta Severo. É verdade que você, mesmo separado, tem um ciuminho do Marco Nanini, a despeito de ele parecer inofensivo?

CB: Essa foi uma pergunta meio Caras.

EPAQVPL?: Ok, desculpe. É verdade que Beatriz foi escrito para uma pessoa de nome Beatriz?

CB: Essa foi uma pergunta meio estúpida.

EPAQVPL?: Ok, desculpe. Você tem uma composição predileta?

CB: Acho que algumas das musiquinhas que eu fiz não são de todo más...
- o entrevistador levanta-se e esmurra violentamente o entrevistado

CB: Está certo, elas são geniais. Obrigado por ter me chamado à razão. Creio que Construção seja a composição mais proeminente.

EPAQVPL?: Certo. É verdade que você escreveu Todo Sentimento em uma espécie de transe místico provocado por haver tomado tubaína enquanto comia lasanha e logo em seguida ter lido Antologia Poética do Drummond duma sentada só, numa rede de frente pro mar?

CB: Achava que isso tivesse ficado em segredo!

EPAQVPL?: É que você contou isso dormindo, uma vez, e nossas fontes estavam próximas o bastante para registrar.

CB: Oh!

EPAQVPL?: Você tem ouvido muita música contemporânea?

CB: Tenho evitado, por perscrição médica.

EPAQVPL?: Muito sábio. Nem tribalistas...?

CB: Especialmente. Depois de ouvir frases como [cantarolando] "eu gosto de você/e gosto de ficar com você" eu tentei durante umas oito horas achar uma palavra que
rimasse com feijão, sem conseguir. Percebi que essas composições desconstruíam meu cérebro.

EPAQVPL?: Chico, como escrever letras de música geniais como Corrente, Meu guri, Pivete, A Moça do Sonho, Ludo Real, Geni e o Zepelim, Caros Amigos, Pelas Tabelas, Futebol, O velho, Futuros amantes, Amor bandido e tantas, tantas outras?

CB: Ah, veja você. Meu pai estava preocupado porque eu andava com umas más amizades, meio perdidão na vida. Aí ele me chamou num canto e contou que o Noel Rosa tinha passado para ele uma formulinha muito simples e eficaz de construção de letras geniais. Meu pai mesmo nunca havia usado por absoluta falta de tempo. Aí eu comecei a usar e percebi que a mulherada caía em cima, então não parei mais.

EPAQVPL?: Opa! Que fórmula é essa?

CB: Não posso falar.

EPAQVPL?: Aqui no ouvidinho, vai?

CB: Tá bom.
- e cochicha no ouvido do entrevistador

EPAQVPL?: Ah, então é isso? Chico, pode ficar tranqüilo que daqui pra diante você terá em mim um legítimo sucessor de sua fina arte. Essa bandeira será levada adiante, pode ter certeza!

CB (chorando): Estou emocionado! É justamente o que eu queria e sabia que só você poderia me substituir...

EPAQVPL?: Uma última mensagem?

CB: O Brasil precisa de inteligência e cultura. Por isso, que todos leiam É por aqui que vai pra lá? todo dia. A propósito, como acaba Persela, a vesga?

EPAQVPL?: Isso é segredo...

Nesse ponto meu filho começou a chorar e eu acordei. Enquanto fazia a barba tentava a todo custo recuperar a tal formulinha mágica das letras geniais, mas em vão (pelo menos isso rima com feijão). Mas eu ainda vou lembrar, ou meu nome não é Temístocles!

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Posted by marcol at 1:46 PM

agosto 22, 2003

A montanha das sete


A montanha das sete provêichans

[ - Shéra, mandaí um final diferente pra história.]

Final estilo Julia, Bianca e Sabrina

Kalil deu a volta no muro do palácio, tomou uma grande corda e com ela laçou uma das pontas do telhado. Então escalou o muro e, segurando firmemente, saltou e entrou no palácio pela janela, caindo bem no meio do salão onde acontecia o casamento, que, para grande sorte dos pombinhos, não se havia concretizado.

- Parem! Homadad me estava prometida e eu cumpri o que me foi solicitado! Venci a Montanha das Sete Provações!

Homadad deu um grito de alegria. Mongus, o noivo, que estava num canto tirando catota do nariz com a boca aberta, recebeu um safanão do pai, que lhe disse:

- Não seja tolo! Mate Kalil!

Mongus, que havia sido treinado pelo tatatatatatatatatatatataravô do Sr. Miyagi, partiu para cima de Kalil com fúria, Homadad deu um grito de pavor.

O próprio califa tomou uma espada de um dos soldados próximos e atirou para Kalil dizendo:

- Defenda-se!

Seguiu-se o maior de todos os duelos. Kalil, exausto pelas sete provações, parecia mais fraco que Mongus e estava a ponto de ser subvertido quando, do fundo de suas entranhas, ouviu-se um brado que estremeceu as bases do palácio:

- Pelo amor de Homadad! Pela glória do califa!

E num golpe rápido e certeiro arrancou fora a cabeça de Mongus.

Todo mundo feliz, Homadad e Kalil se abraçaram, a orquestra começou a tocar We Are The Champions e todos os convidados fizeram uma coreografia bem anos oitenta no meio do salão.

[ - Taí, gostei desse final, minha quenga!
- É, mas eu não, achei uma droga. Toda história que eu te conto acaba assim, vou te dizer o real final da história agora:]

Final no estilo Botero

Kalil irrompe pela janela do palácio e cai no meio do salão. Homadad dá um grito de alegria, todos dizem oh! Mongus continua tirando a meleca do nariz e o grão-vizir fica vermelho de raiva. Kalil corre para Homadad, levanta seu véu e dá um grito de horror: ela está uma baleia, gorda, de tanto que comeu por ansiedade do que pudesse acontecer a Kalil. Então ele toma uma espada e se mata com ela.

Pronto.

[ - Sherazade, tem certeza que isso acaba assim?
- É, não. Acaba assim:]

Final Kama Sutra
Kalil sucumbe à última das sete provações, a Alcova das Odaliscas Safardanas, e fica por lá mesmo, numa boa, o resto da eternidade.

[- Bom, tá legal. Deixa isso pra lá. E a nossa história, como acaba?
- Você pára com esse negócio de querer matar toda mulher, a gente tem uns filhos, eles vão estudar no Cairo, depois você se aposenta e a gente curte o resto da vida em Caldas Novas.
- Essa história tem outro final?
- Tem uns dezoito. Quer ouvir?
- Não!
E eles se beijam selvagemente.]

Aqui sim, termina As mil e tantas noites. Os originais desses manuscritos encontram-se na sede da AAVJ (Associação Atlética de Vila Jurubeba).
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Posted by marcol at 9:28 AM

agosto 21, 2003

A montanha das sete provações

A montanha das sete provações - últimas melequices

- Sultão, vem aqui me fazer uma massagem que eu tô meio estressada com essa história de sultanesa...
- Ô, minha gucha, só se for agora. Assim está bom?
- Hum... um pouco mais de delicadeza, por favor.
- E... que tal terminar a história do Kalil? Tô que num me aguento de curiosidade!
- Tá bom, você foi bonzinho hoje. Arrumou a cama, tirou o lixo e lavou as janelas. Vamos lá. Onde foi que eu parei, mesmo?
- O Kalil passou pela última provação e foi dar na cidade, onde a Homadad estava se aprontando pro casamento com o filho do grão vizir...

Que não era bobo nem nada e ordenou aos guardas para não deixar Kalil entrar, caso aparecesse. E ele apareceu! Kalil foi correndo pelo meio do mercado, trombando com as pessoas, louco para ter Homadad em seus braços. Quando chegou ao palácio, deu com os guardas determinados a morrerem antes de deixarem Kalil entrar!

Kalil perguntou porque toda aquela hostilidade, eles eram colegas até bem pouco tempo, e aí foi que ficou sabendo que Homadad estava sendo dada em casamento a Mongus. Momentos de angústia e dor. Kalil sente uma profunda tristeza e um cavernoso desespero...

Final 1 - um esquema assim, meio romantismo alemão do século XVII
[-óxente, Sherazade, que papo é esse de romantismo alemão do século XVII?
- Você não entenderia, meu amo, mas vamos sem mais delongas para a primeira versão do final dessa história?
- Primeira versão? Depois de 1000 e tantas noites você começa a inventar umas...
- Calado!]
Kalil começa a andar pelos jardins exteriores, toma uma rosa nas mãos e a cheira enquanto ouve o som da música do casamento lá dentro do palácio. Mortificado com o que interpreta ser uma traição de Homadad, sobe no mesmo muro do qual pulara para salvar a vida dela, e brada:
- A vida sem Homadad nada é!
E atira-se no fosso do jardim, morrendo uma morte indigna! Dentro do palácio as pessoas ouvem o clamor dos guardas e servos e saem a ver o que ocorreu. Homadad, com a maquiagem borrada pelas lágrimas devidas ao casamento forçado, vê o seu amado com uma rosa nas mãos e o lenço que ela lhe dera na outra, estatelado no chão. Ela grita desesperada, seu pai vem acudi-la, ela toma a adaga da aljava dele e o crava no peito dizendo:
- A vida sem meu amor não faz nenhum sentido.

[- Esta é a mais triste história já contada! diz o sultão
- Hum, também achei.
- Não gostei do final.
-Tá, vamos à próxima hipótese...]
cãotinua! não perca a amanhã o real e ponta firma final dessa saga que fez Danielle Winits exclamar: "Céus!"
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Posted by marcol at 9:55 AM

agosto 20, 2003

Suspense Aos dois ou


Suspense

Aos dois ou três iluminados que acompanharam a saga de Kalil até seu penúltimo capítulo peço um pouco de paciência. Isso é o que nós, novelistas de renome internacional, chamamos de "pausa dramática" e que valoriza o gran finale do espetáculo.

Divirtam-se com aventura muito mais eletrizante aí embaixo, e essa baseada em fatos reais.
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Posted by marcol at 8:29 AM

Maleddetta globalizêichan! Quando fiquei


Maleddetta globalizêichan!

Quando fiquei sabendo que teria de ir a Aracaju segunda-feira passada, minha primeira reação foi de puro prazer. As perspectivas de regalar-me com pitombas, tapiocas quentinhas, cocadas suprasumáticas e tudo isso regado a muita água de côco ante um marzão rasgado eram, de fato, prazenteiras. Passei por Aracaju em julho de 1985 e apesar de ser ainda pouco mais que um espermatozóide (apesar de já ler gibis Marvel), lembrava nitidamente daqueles carrinhos de mão abarrotados de pitombas nas esquinas, vendendo cachos inteiros a preços módicos. Foi embalado por essa doce lembrança que voei até lá, percurso que começou às 05:30 da matina quando saí de casa e que acabou às 12:10, quando cheguei enfim.

O que tem pra conhecer aqui? perguntei pro motorista de táxi. Tem esse shopping aí - ele respondeu apontando pra um shopping center. Aí tem um restaurante de comida árabe... ele completou e eu vi a reluzente placa do Habibs. Depois da audiência (que, registre-se, não houve por culpa do Tribunal de Justiça do Sergipe, que resolveu cancelá-la) vagueei pelo centro de Aracaju. Vi camisas do São Paulo e do Corinthians falsificadas; vi CDs dos Tribalistas falsificados; ouvi as rádios das lojas tocando as músicas da novela das 8 (mas que passa às nove); enfim, não vi nada que não veria no Largo 13 de maio, em Sto Amaro. Só que o povo tava de chinelo e bermuda, só isso.

Achei um raio dum mercadão que tinha lá um artesanato bonitinho e aí lembrei que estava no nordeste. Tomei uma água de côco sem gosto nenhum, só ficando o consolo de ter pagado cinqüenta centavos.

Acabei melancolicamente almoçando na Casa do Pão de Queijo do aeroporto depois duma frustrada passagem pela orla marítima, que era, segundo os motoristas, o grande point turístico da cidade e onde vi nada mais que um monte de quiosques de lanches fechados, um mar muito escuro lá longe e um restaurante de frutos do mar de fachada suspeita, entregue às moscas.

Ah, comi cocada sim. Uma minúscula, que achei no aeroporto de Salvador. Mas cocada comprada em aeroporto, naquelas lojinhas de prateleiras bonitinhas, não tem a metade da graça.

Tõ me filiando em qualquer movimento anti-globalização agorinha mesmo!

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Posted by marcol at 8:27 AM

agosto 15, 2003

A montanha das sete provações

A montanha das sete provações - momentos decisivos

- E aí, meu sultão? Não vai querer saber o restante da história do Kalil?
- Sei não, quenga. Tamos nesse negócio de historinha pra cá historinha pra lá há mais de três anos. Ontem achei o negócio meio sinistro... Acho que a gente devia deixar a história pra lá e pensar num tipo de interação mais efetivo, tá me entendendo?
- Mas então o senhor não vai querer saber como Kalil Aben H'Suam se deu com a última e terrível provação, "A Alcova das Odaliscas Safardanas"?
- Hein? ôch! Tú me convenceu, Sherazade, manda!

Enquanto Kalil suava para vencer as milhares de criaturas, Homadad não parava de comer sorvete de pão sírio com calda de esfiha, gritando como uma douda:
- Ah, Kalil, Kalil! Teria morrido o meu amado?
O grão vizir foi até o califa e disse:
- Senhor, já fazem treze dias que partiu o guarda abusado. Deve estar morto na Montanha das Sete Provações. Sugiro que, sem mais delongas, case vossa filha com meu filho, Mongus.
- Assim seja!
Kalil, por sua vez, tão logo dizimou o exército de monstros intragáveis, ainda ofegante e sentindo as forças esvaírem-se, sentiu um suave perfume e ouviu uma doce melodia. À sua frente apareceu...

...uma bela odalisca dizendo - venha, nobre guerreiro! Você precisa de um bom banho para prosseguir sua jornada!
Kalil achou que seria uma boa idéia e, um tanto narcotizado pelo estranho perfume, seguiu a odalisca por onde ela o guiou, até encontrar a temível Alcova das Odaliscas Safardanas, a última e terrível provação!

Elas logo o envolveram com uma dança muito inebriante, e lhe serviram vinho e o levaram até uma banheira com água quente e pétalas de rosa, onde o mergulharam sussurando coisas em seus ouvidos.
Kalil sentiu o corpo todo relaxar e estava achando tudo muito bom quando ouviu em sua cabeça a voz de Homadad dizendo: Kalil, meu amado!
Ele arregalou os olhos e saltou da banheira. As odaliscas o cercaram com o ápice de seus encantos, mas Kalil percebeu o risco que corria! Saltou então pela janela do harém esbravejando:
- Pelo amor de Homadad! Pela glória do califa!
Olhou para trás e viu as odaliscas com cara de frustradas dizendo:
- É a primeira vez em oitocentos anos que alguém consegue chegar até aqui e vai embora desse jeito? Grosso!
Kalil viu então que estava no pico da montanha das sete provações. À sua frente descortinava-se uma linda planície, com cachoeiras e dromedários saltitantes. Sobre si ouviu o som de relâmpagos e trovões e uma voz que dizia:
- Você venceu a montanha das sete provações! Agora tem o direito de escolher qualquer reino do mundo sobre o qual reinar e qualquer mulher do mundo para lhe ser rainha!
- Não quero nada - disse Kalil, de nobre coração - a não ser o amor de Homadad!
As brumas o cercaram e quando se dissiparam ele achou-se às portas da cidade do califa!

- Beleza!
- É, mas o resto só amanhã, que eu tô com sono. Bai.
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Posted by marcol at 9:17 AM

agosto 14, 2003

A montanha das sete

A montanha das sete provações - 7º fragmento

- Vai, Sherazade, conta logo o restou da história!! - dando um tabefe na odalisca.
- Ai, sultão! Adoro ver o senhor assim, macho! Vamos lá...

A sexta e penúltima provação chegou logo. Da terra começaram a brotar estranhas criaturas sedentas por sangue. Elas murmuravam:

- Sangue! Sangue!

E foram pra cima do Kalil

- Virgi, Sherazade, essa história tá meio "Contos da Krypta", tá não?
- Cala a boca! esobefetando o sultão (nota do editor: as mil e uma noites são um libelo pró-feminismo dezoito séculos antes do negócio acontecer mesmo. Isso mostra como era uma obra avançada pra época).

Bom, onde estávamos mesmo? Ah, sim, criaturas nojentas e sanguinolentas.

(nota do editor: perdão pela ilustração, nosso ilustrador está apaixonado e sente-se incapaz de desenhar coisas sanguinolentas)

Kalil bradou:

- Pelas barbas crespas de Alá! São milhares!

O primeiro ser esbofeteou Kalil arremessando-o contra a pedra. Kalil começou a sangrar no canto da boca, sentindo-se atordoado. As criaturas o cercaram, o sol desapareceu ante a nuvem de inimigos do inferno!

- Credo, Sherazade, cê tá com os óio injetado, esse negócio tá muito...
- Não atrapalha! spleft!

Kalil estava pronto a desistir quando sentiu na ponta dos dedos o lenço que Homadad lhe havia dado! Uma onda de fúria invadiu seu corpo. Sacando a adaga da cinta, começou a distribuir golpes certeiros abrindo os cérebros, cortando cabeças, braços e pernas, furando olhos, furando orelhas, colocando brincos, abrindo sorrisos nas gargantas, inscrevendo "K" de Kalil nos ventres flácidos e pútridos.

(nota do editor: na falta de ilustrações condizentes, usamos umas aqui do arquivo. Espero que o leitor compreenda!)
Enfim, sobre um mar de cadáveres, exausto, banhado do sangue alheio, Kalil Aben H'suan murmurou por entre os dentes:

- Seis provações passaram. Apenas uma falta. Pelo amor de Homadad e pela glória do califa!

- Quer que eu continue? perguntou Sherazade voltando inopinadamente à doçura habitual.
- Não não, bem, deixa pra amanhã. Boa noite, tchau! Olha, já dormi!...


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Posted by marcol at 9:21 AM

agosto 13, 2003

Ah, tá Repetindo o


Ah, tá

Repetindo o poste abaixo, agora com o link certinho:
ESTÁ NO AR!!!

Ruflam os tambores, tinem os pistons, berram as cabeleireiras! Está no ar ERNESTINHO E SUAS MULATAS BESUNTADAS, um blog cheio de bom senso, erudição, criticismo e deliciosos churros dona Florinda. Você não pode perder. Agora mesmo, está inaugurada lá a saga de Janjão Jones, o agente secreto albanês mais glaumuroso desde... bom, nunca houve um agente secreto albanês como ele. Visite, mas tome um engov antes e outro depois. E se não falar bem por aí, a galera do Capão vai cobrar, truta!

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Posted by marcol at 9:40 AM

A montanha das sete


A montanha das sete provações - 6º volume

- Vai um cafuné na orelha aí, meu sultão garanhão?
- Boa idéia, sabe, Shera? Bota uma almofada aqui em baixo do meu pezinho, manda os músicos entrarem e simbora pra montanha das sete provações.
- Beleza. Vou pedir pra banda tocar "o passo de elefantinho", pra dar o tom dramático que a história exige.
- Boa!

Kalil olhou e viu um velho com um turbante muito alto com um penacho de pavão na ponta. O velho acenava para que ele subisse logo. Cheio de ressabios, Kalil Aben H'suam escalou os metros que o separavam do velho e cautelosamente olhou o que acontecia. Havia uma mesa redonda em uma pequena plataforma à beira do precipício com diversos homens de venerável aspecto assentados em pomposas almofadas. O velho apontou-lhe uma almofada, na qual Kalil assentou-se sem tirar em nenhum momento a mão do cabo da adaga.

- Muito bem. Agora podemos começar o debate! anunciou um homem de barbicha pontuda.
- Que debate? atalhou Kalil bruscamente.
- Ora, o debate sobre a ilusão do real e a desmitificação do físico ante a ilogicidade do ser. Com a palavra, o pachá Enrolad Téoscabelo.

Um homem muito gordo, com grandes anéis nos dedos, pigarreou limpando a garganta e começou, gesticulando prodigamente:

- Vejam bem, a ontognosiologia sistemática da escola do Cairo sobrepõe a fugacidade do deslocamento astral enquanto forma de adequar a pusilanimidade da existência ante o não-ser, o não-fazer. Há que se objurgar que os axiomas neo-emoldurantes apontam para uma desindexação da realidade apalpada pelos sentidos contra a ilusoriedade da construção fenomênica ante a realização do pressuposto afórico. Em nível de apostelemática, óbvio.

Alguns balançavam a cabeça positivamente, outros negativamente. O homem que conduzia a sessão apontou para Kalil e disse:

- A réplica é tua, forasteiro! Você deve rebater os argumentos do pachá sem dizer "a nível de", "veja bem" e qualquer forma de gerundismo, do tipo "eu vou estar falando", ou "nós vamos estar observando" e asim por diante. Ah! Também exigimos que faça um uso muito racional da palavra "enfim".
- E se eu não responder...? perguntou Kalil com a proverbial sabedoria árabe.
- Vais se arranjar com ele ali - disse e apontou para um homem de uns seis metros de altura, sem camisa, com um capuz negro na cabeça e segurando um machado que deveria pesar uma tonelada.

Enquanto isso, na cidade, Homadad não parava de comer e comer, lastimando a idéia que o pai tinha tido, de mandar seu amado para a tenebrosa montanha. O grão-vizir olhava aquilo, pensava nas possibilidades de êxito do casamento de seu filho, Mongus, com a bela filha do califa, e dizia de si para si:

- Enquanto a bezerra muge, a andorinha se coça! (nota do tradutor: trata-se, decerto, de mais um ditado da época cujo significado nos escapa...).

Face a face com seu trágico destino, Kalil confiou o bigode algum tempo, lembrando-se das célebres palavras do velho sábio de Bagdad: "se não podes com os argumentos de teu interlocutor, não abra mão da possibilidade de acertar-lhe um porrete nas idéia." Colocou as mãos sobre a mesa e num vigoroso gesto empurrou-a para o precipício, fazendo com que todos os sábios caíssem ali. Virou-se incontinenti para o terrível carrasco. Este levantou o machado alto, sobre a cabeça. Kalil viu que com tamanho gigante não podia, então lembrou-se do pó mágico que o sábio de Bagdad lhe havia dado antes de arrojar-se em sua missão impossível. Tomou o saquinho, abriu-o e atirou-o para o ar, sem saber o que aconteceria. O gigante aspirou o pó, começou a trançar as pernas e deixou o corpo cair com estrépito no chão. Ali ficou, com um sorriso estranho sob o capuz e cantando um reggae. Kalil olhou o saco melhor e viu que havia uma etiqueta de "Made in Colombia" no cós. Pensou então que aquele sábio era mesmo muito estranho.

Passou, então, por cima do gigante e retomou a escalada rumo ao topo da terrível montanha. Parando numa penha, com o vento a açoitar-lhe o peito desnudo, a faixa da cinta a tremular contra o abismo, disse:

- Cinco provações já passaram! Duas ainda faltam! Pelo amor de Homadad e pela glória do Califa!

- Gostou da história, meu sultão? Sultão? Dormiu o desgraçado! Bem que eu vi que aquele discurso não estava excitando muito o pamonha!
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Posted by marcol at 9:11 AM

agosto 12, 2003

A montanha das sete


A montanha das sete provações - 5ª edição revista e atualizada

- Sherazade, minha quenga, hoje eu tô cheio de disposição! Olhe só, até me virei na cama, pra você poder massagear minhas costas enquanto conta aquela história do Kalil na montanha...
- Sim, meu amo, com prazer. Bem...

Enquanto Kalil suava quente na Montanha, Homadad suava frio na cidade. Era tanta ansiedade quanto ao bem estar de seu amado na terrível Montanha, de onde jamais alguém havia voltado com vida, que desandou a comer os quitutes da cozinha do palácio. Traçou sozinha oito botijas de sorvete de kibe banhadas com calda de humus. O grão-vizir, que pretendia a mão da bela para seu filho, Mongus, olhou aquilo e, confiando a longa barba, disse com seus botões:

- Aonde a raposa do deserto cava sua toca, ali está o seu cantinho! (nota do tradutor: trata-se provavelmente de um ditado da época, cujo significado perdeu-se nas brumas do tempo) (nota do editor: desculpem por "brumas do tempo". Eu não devia ter contratado um tradutor com pretensões poéticas).

Kalil viu um regato de água na montanha e, exausto, assentou-se um pouco para bebericar benfazejamente a pura e cristalinha água. De repente, do fundo do regato, levantou-se um ser híbrido, metade peixe metade homem, com hercúlea (hum... hercúlea não, digamos) inacreditável força física que prendeu braços e pernas de Kalil Aben H'suam num abraço (desculpe o trocadilho) escamoso.


(desculpem a ilustração. Dadas as restrições orçamentárias dessa edição tardia de A Montanha das Sete Provações, foi o que se pôde arranjar).

Ele disse:

- Forasteiro! Terás de responder a um enigma ou morrerás esmagado em meu abraço.
- Manda! disse Kalil com a bravura que lhe é peculiar.
- O que é o que é: cai em pé e corre deitado?
- Chuva!
- Droga! Tem escamas mas não é peixe, tem coroa mas não é rei?
- Abacaxi!
- Maldição! Você conhece meus mais insondáveis enigmas! Só de raiva vou matá-lo mesmo assim.

E, dito isso, passou a estreitar Kalil com força suficiente para parti-lo ao meio. Kalil aproveitou, contudo, a incrível força e também o corpo liso e cheio de escamas da criatura, e escorregou para fora do abraço. Ato contínuo, antes que o ser terrível pudesse recuperar-se e o atacar outra vez, tomou da cinta o lenço que Homadad lhe confiara. Abrindo-o com incrível agilidade, laçou o animal pela boca aberta e num safanão jogou-o para fora d'água, onde ele começou a se debater e agonizar. Kalil aproveitou a deixa para tomar uma pedra bem grande, levantá-la sobre a cabeça e atirá-la contra a cabeça do viscoso ser das águas. Ele estava morto!

- Foi assim que nasceu o ditado "o peixe morre pela boca?" perguntou o sultão.
- Sim, meu amo, muito perspicaz!

Kalil bradou com força, e o eco de suas palavras preencheu o abismo enevoado:

- Quatro provações já passaram! Três ainda faltam! Pelo amor de Homadad e pela glória do califa!

Enquanto dizia isso, ouviu um grito acima de si:

- Corra, imbecil! O debate já vai começar!

- Debate? Que debate, Sherazade, minha nêga?
- Acho que só saberemos amanhã, alteza. Também estou com muito sono.
- Cê que sabe, minha deusa. Quer que vá buscar um chazinho pra você...?

- continua
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Posted by marcol at 1:11 PM

agosto 11, 2003

ESTÁ NO AR!!! Ruflam os

ESTÁ NO AR!!!

Ruflam os tambores, tinem os pistons, berram as cabeleireiras! Está no ar ERNESTINHO E SUAS MULATAS BESUNTADAS, um blog cheio de bom senso, erudição, criticismo e deliciosos churros dona Florinda. Você não pode perder. Agora mesmo, está inaugurada lá a saga de Janjão Jones, o agente secreto albanês mais glaumuroso desde... bom, nunca houve um agente secreto albanês como ele. Visite, mas tome um engov antes e outro depois. E se não falar bem por aí, a galera do Capão vai cobrar, truta!
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Posted by marcol at 11:32 AM

A montanha das sete

A montanha das sete provações - 4ª Fatia

- Sabe, Sherazade, tô com uma dor aqui no joelho... Eu não devia ter assinado todos aqueles três documentos que o grão-vizir me trouxe hoje, o trabalho foi estafante, não sabe?
- Oh, sultão, quer que eu faça uma massagem com óleos aromáticos?
- Não seria ruim...
- E quer que eu coloque aquele CD do Charles Aznavour? (nota do editor: essa frase está borrada no original. Talvez não tenha sido exatamente isso que estivesse ali.)
- Pode ser. Mas conte, nêga, e o Kalil, aquele bofe arretado que só?
- O senhor continua bem Bahia, não, sultão? Foi o que aconteceu desde que o óleo de babaçú acabou e começaram a cozinhar vossa real refeição no dendê. Bem, onde estávamos mesmo...?

Kalil ouve uma doce e suave melodia acima dele. Com o corpo cansado das duas primeiras provações, aquela música é como música aos seus ouvidos. Trata-se de uma flauta muito serena e relaxante. Ele sobe pelas penhas sentindo o corpo flutuar, como se pisasse em nuvens... Enfim, descobre de onde vinha o divino sonido. Era um anão de enorme turbante, assentado sobre um baú.

- Quem és? pergunta Kalil.
- Sou Mohamad, o flautista - responde o anão.
- Por que a música continua enquanto você fala?

O anão fez uma cara de contrariedade, então saltou do baú e deixou Kalil ver, atrás de si, um CD player (nota do editor: idem supra).

- Ah, não é você quem toca, mas essa caixinha?
- Sim, mestre. Eu fui mandado por Alá para suavizar vosso caminho. São tantas provações... Aqui, neste baú (ele bateu a pequena mãozinha na tampa do baú) existe repasto e refrigério.

Kalil Aben H'suam aproximou-se do baú sem de nada desconfiar. Quando levantou sua tampa, de dentro dele saltou um gárgula terrível e acorrenteu as mãos de Kalil.


(nota do editor: ao que parece, o ilustrador da história morreu na segunda provação, engolido por alguma serpente. O substituto claramente não dispunha da mesma qualidade artística...)

- Traição! Kalil gritou.

O gárgula começou a puxar Kalil pela corrente montanha acima. O anão seguia atrás e dizia:

- Agora vamos arrancar sua cabeça e jogar seu corpo no abismo, hahahaha

Levaram-no até uma rocha em forma de prancha. O gárgula levantou a mão para arrancar a cabeça de Kalil, mas este perguntou:

- Espere! Não pode arrancar minha cabeça com essas unhas sujas! Eu posso pegar alguma doença! Vocês não têm o mínimo de higiene!

O gárgula interrompeu o gesto mostrando confusão e olhando para o anão.

- Continue, idiota!
- Idiota? Vai deixar ele falar assim com você? Qualé, os gárgulas já mostraram que são gente boa, só sofrem de hálito ruim, não permita que falem assim com você! argumentou Kalil. O gárgula grunhiu olhando com despeito para o anão. Este falou:

- Ora, eu mesmo vou fazer o trabalho - e saiu em disparada na direção de Kalil, que apenas abriu as pernas e o anão, passando por entre elas, se precipitou abismo abaixo. O gárgula deu um urro de ódio e arremeteu-se contra Kalil, que num salto fez as correntes passarem pela garganta do gárgula. No desespero, ele saiu voando, e Kalil foi apertando mais e mais as correntes até que o terrível monstro sufocou e caiu com estrondo sobre os arvoredos na encosta da montanha maldita.

Kalil, ferido e exausto, bradou ao lado do corpo morto daquele terrível aborto da natureza:

- Três provações já passaram, quatro ainda faltam! Pelo amor de Homadad e pela glória do califa!

- to be continued
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Posted by marcol at 9:56 AM

agosto 8, 2003

A Montanha das Sete

A Montanha das Sete Provações - 3º fascículo

- Sherazade, minha musa, que tal uma massagem com creminho aqui no meu pezinho?
- Sim, meu amo.
- E que tal continuar aquela história de ontem? Tô doidim pra saber que barulho foi esse que o coitado do Kalil ouviu depois que saltou do tal pássaro.
- Ah, sim! Voltemos, então, meu sultão, à temível Montanha das Sete Provações...

Kalil virou-se sobressaltado e viu-se face a face com uma serpente gigantesca, sibilando com sua língua bipartida do tamanho de dezesseis elefantes. E ela não estava sozinha, havia outras, igualmente gigantes. Ele estava numa espécie de desfiladeiro cheio de esqueletos de guerreiros. Atrás de Kalil, uma enorme parede de pedra, deixando-o sem saída. Ele, contudo, não era visto, estava protegido por uma penha. Sentia, contudo, o hálito quente e mortal dos monstros.

Kalil esgueirou-se até encontrar a ponta da cauda de uma das serpentes.

- A ponta da cauda? ôch! Endoideceu?
- Calma, meu amo. Kalil tinha de arguto o tanto que tinha de valentia.

Ele notou que a referida cauda estava sob a cabeça de outro mostrengo. Sacou, então, da algibeira sua adaga e a enterrou com fúria na cauda à vista, sacando a adaga em seguida e escondendo-se atrás de uma pedra. O monstrou deu um terrível salto, que fez estremecer o chão, e passou a atacar a outra serpente, acreditando que ela o mordera. Logo toda a região havia se tornado um grande yakisoba de cobras furiosas a picarem-se umas às outras.

Sem perder um só momento, o bravo Kalil Aben H'Suam disparou em direção à estreita saída daquele desfiladeiro sinistro. Uma das serpentes, contudo, percebeu-o ali e, desvencilhando-se da batalha, começou a persegui-lo. Kalil correu como um cervo assustado por entre as rochas, mas a serpente vinha atrás, sem pressa, porque para ela seria fácil alcançá-lo. Kalil passou a entrada do desfiladeiro e começou a subir a encosta da Montanha o mais rápido que podia. Vendo que seria alcançado e fatalmente morto em pouquíssimo tempo, Kalil tomou um grande galho de árvore caído e postou-se atrás de uma grande rocha, fazendo sinais para a serpente como a chamá-la. Quando ela abriu sua bocarra para o devorar, Kalil usou o galho como alavanca, atirando a rocha para dentro da goela da bicha, que se contorceu em agonia e desceu o caminho de volta dando agudos gritos de dor.

Kalil, arfante, tirou do peito o lenço que Homadad lhe dera, beijou-o e em seguida secou o suor da fronte.

- Duas provações passaram, cinco ainda faltam. Pelo amor de Homadad e pela glória do califa! ele exclamou.

Ouviu, então, uma suave canção que vinha de trás de uma penha...

- Chega, amo. Já é tarde e seu pé está mais massageado que seu ego. Amanhã continuamos.
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Posted by marcol at 9:06 AM

agosto 7, 2003

1000 VISITAS!!!! A equipe

1000 VISITAS!!!!

A equipe de É por aqui que vai pra lá?, constituída de 85 jornalistas, advogados, cantores de cabaré, sapateiros, overloquistas e transformistas (todos heterônimos meus) está em festa! Cada visita é um gol e a gente somos assim um Pelé. Ouvimos o depoimento de Fúlvio Zureta, CEO do blog:

"O sucesso é fruto de um trabalho intenso, com um objetivo claro, que é levar informação confiável e séria às crianças da Trácia Oriental".

O orgulho é tanto que, sim, vamos brindar nossos visitantes, a razão de ser tudo isso (tudo o quê, mesmo, hein?), de forma similar à que utilizamos quando da incríveis 500 visitas; só que dessa vez a gente se sai não com Sophia Loren (temos que mostrar dinamicidade, nobre Helio), e sim, com madame BB.

Obrigado, blogosfera!!!!



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Posted by marcol at 5:13 PM

Ditados ditosos "Quem com


Ditados ditosos

"Quem com ferro fere, não se olha os dentes" - Steve MacManamam, microbiólogo tailandês
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Posted by marcol at 8:51 AM

A montanha das sete provações

A montanha das sete provações - 2ª partchê

- Vem cá, minha quenga. Continua aquela história da tal montanha que tú começou ontem. Mas fala fazendo aquele roçaroça gostoso na minha barriguinha.
- Oh, sultão, o senhor está tão Bahia, hoje! Mas vamos à história, meu rei.

Kalil Aben H'suam cavalgou quatro dias e quatro noites. Foi eventualmente parado por algumas tropas da coalisão, pedindo documentos, mas nada que o impedisse de enfim adentrar o Vale da Ossada. Ali, sobre a Colina da Gandaya, ele parou o galopar por alguns instantes e vislumbrou, lá ao fim do vale, a sombria Montanha das Sete Provações. Sua montaria pressentiu o lúgubre do lugar e empinou, o que acabou representando um quadro de plástica beleza, nosso herói de peito sarado, a blusa aberta contra o vento, os braços fortes agarrados às rédeas...

- Por favor, Sherazade, pula essas partes mais monótonas.
- Desculpe, sultão.

A terrível Montanha das Sete Provações era uma altíssima montanha negra, constantemente cercada de bruma, de dentro da qual ouvia-se estranhos sonidos, como se os pássaros engolidos pela Grande Inundação ali ainda habitassem.

Kalil abandonou a montaria ao pé da montanha e começou a subi-la com todos os reflexos acesos, pronto para enfrentar os perigos que faziam da Montanha das Sete Provações o lugar de onde homem algum jamais voltou.

- Então como é que se sabe que lá havia sete provações?
- Detalhes, meu rei, detalhes. Acho que isso estava no folheto turístico.
- Certo.

Súbito, ao afastar as folhas de vegetação que impediam seu caminhar, Kalil viu-se em um estreito e funesto corredor de pedra. As paredes eram molhadas, e o frio era intenso. Kalil passou a caminhar com ainda mais cautela. Um brilho azulado parecia indicar a saída. Um estranho movimento no alto chamou sua atenção, mas quando olhou, o chão cedeu sob os pés de nosso herói e ele começou a cair em um abismo sem fim.

Rápido e destemido, Kalil sacou a cimitarra da cinta e arremeteu-a contra a parede, segurando firmemente no cabo, evitando assim a queda e a morte certa. Não conseguia, contudo, firmar os pés naquela parede viscosa e molhada. Ouviu, então, um sonido estridente vindo debaixo de si. Um enorme vulto negro apareceu. Sem hesitar, Kalil saltou no abismo, retirando da cabeça o turbante e com ele improvisando uma pequena corda, que passou em torno do estranho animal que apareceu. Era um enorme e terrível pássaro de asas prateadas, que guindou Kalil por cima do abismo. Quando o chão enfim reapareceu, Kalil soltou a corda, caindo ao chão, e o pássaro se foi por entre a bruma.

- Uma provação já foi. Eis que faltam seis. Pelo amor de Homadad e pela glória do Califa! disse Kalil.

Antes que pudesse tornar a andar, contudo, ouviu um pavoroso grunhido...

to be continued

ESTE CAPÍTULO NÃO SERIA POSSÍVEL SEM ESPADAS GINSU - CORTAM ATÉ PEDRA!
E SEM TURBANTES VIVARINA - LAÇAM ATÉ PTERODÁTILO!
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Posted by marcol at 8:39 AM

agosto 6, 2003

A montanha das sete

A montanha das sete provações

Em meus estudos eruditos fiz uma descoberta de importância razoável. Descobri que "As mil e uma noites" seriam, em verdade, no original árabe, mil e oito. Sim, sim, sim, três vezes sim. Na caverna imediatamente abaixo daquela onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto, havia não um vaso, mas um porta jóias de barro, dentro do qual foi encontrado um rolo que continha uma eletrizante narrativa, sobre a qual estava carimbado, no árabe típico das transações comerciais da Bagdad de quatrocentos anos antes de Cristo: "Cortado da edição final por contingência de custos".

Trata-se, em verdade, da última história contada por Sherazade ao Sultão homicida, e que, ao que parece, foi suprimida da primeira tiragem por razões de ordem econômica.

Ao que parece, também, os editores criaram uma sociedade secreta de protetores do manuscrito sagrado, que serviria para evitar que esse infame corte na obra original, fosse descoberto. Isso explica porque dezoito pessoas morreram em condições violentas e/ou inexplicadas antes de conseguirem fazer com que o manuscrito chegasse ao único veículo da mídia mundial que teria culhões para efetuar a publicação conta todos os perigos, É por aqui que vai pra lá?, claro. Isso talvez explique porque não estou me sentindo muito bem...

Ok, sem mais delongas, vamos ao magnífico conto que deveria encerrar "The arabian nights", ou "As mil e uma noites", ou "Sherazade, a cheia de lábia". Preparem-se para viver fortes emoções. A publicação dar-se-á nos moldes Jack, ou seja, em picadinhos, eis que assim foi concebida originalmente.

A Montanha das Sete Provações

Havia um califa dado às artes mágicas, sabedor dos encantos e das artes secretas. Certa noite, sentindo-se entediado, pediu a presença dos músicos (Ali Omar e seus Blue Turbans) e solicitou também que sua formosa filha, Homadad, dançasse para ele.

Ouvindo a música e o farfalhar da sêda da roupa da moça que dançava, Kalil Aben-H'suam, o pobre soldado que efetuava a guarda do jardim interno, não resistiu à tentação e fez o que não devia: olhou para dentro do salão. Imediatamente a flecha do amor perpassou seu coração e o homem caiu perdidamente apaixonado pela formosa donzela, passando desde então a viver em dores e suspiros pela sua intangível musa.

Certa tarde, contudo, enquanto fazia a guarda do muro, viu quando um salteador esgueirou-se pelo jardim interno, trepou até a sacada dos aposentos de Homadad e tirou uma comprida e recurva adaga. Não havendo tempo a perder, e mesmo sabendo que a ousadia de ingressar nos aposentos da rapariga poderia custar-lhe a vida, Kalil correu como um puro-sangue árabe e num ágil salto surpreendeu o salteador quando ele se arrojava contra a filha do califa. Lutaram selvagemente até que Kalil prevaleceu e varou o pérfido vilão com sua cimitarra. Sem olhar para sua amada, pediu desculpas pela invasão, tomou o corpo sem vida do bandido sobre os ombros e arremeteu-se sacada afora, aguardando seu amargo destino.

O califa mandou chamá-lo. Elogiou sua valentia mas perguntou se sabia qual era a pena para o homem que pisasse nos aposentos reservados de uma donzela. Kalil respondeu que sabia e que se submetia à vontade do soberano. Nesse momento, Homadad invadiu a sala, arrojou-se aos pés do pai e suplicou-lhe a mercê, pois encontrava-se, ela também, agora perdidamente apaixonada pelo soldado.

- Você a ama? ele perguntou ao soldado, que, com os olhos brilhando e ousando pela primeira vez olhar nos olhos da bela dama, disse, como se numa novela mexicana estivesse:

- Sim, nobre califa, com todas as forças da minha alma, com cada fibra de meu ser!

A moça, de olhos lacrimejantes, sorriu por trás do tênue véu o sorriso mais belo que Kalil já vira, e que lhe pareceu assim como a visão dos jardins do paraíso de Alá.

- Você poderá ter a mão de minha filha, eis que é homem valente e de brio. Contudo, terá primeiro de provar sua lealdade e destemor de forma definitiva. Você terá de passar pela Montanha das Sete Provações!

Todos na sala assustaram-se com a dureza do teste, mas Kalil topou, digo, aceitou.

Homadad, cheia de mêdo, entregou-lhe um lenço; seu amigo, o mago Ostragad, entregou-lhe um saco cheio de pó mágico; o chefe da guarda entregou-lhe sua própria espada e o califa disponibilizou-lhe seu próprio cavalo.

Foi assim que Kalil partiu rumo à pavorosa Montanha das Sete Provações. Está tarde, meu amo, amanhã veremos como essa história termina.

(to be continued)
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Posted by marcol at 10:01 AM

agosto 5, 2003

Era uma vez... ...

Era uma vez...

... um menino pobre e órfão do norte da Polônia que se chamava Nikolenka. Ele estudava na escola da vila, que ficava a treze quilômetros da velha e sombria casa onde morava com sua tia e seus treze gatos. Certo dia, ele deixou a escola e perdeu algum tempo brincando com os amigos. Quando pôs-se a caminho de casa, já o crepúsculo se anunciava. Ele pegou os livros amarrados a uma cinta, jogou-os por sobre os ombros e, ouvindo sons estranhos que vinham do bosque ao qual a estrada cortava, apertou o passo. Sozinho, Nikolenka não precisava aparentar muita coragem, como quando estava entre os colegas; não, ele podia dar curso a seus pensamentos aterrorizantes, aos quais o grasnar agudo dos corvos em revoada só faziam agudizar.

Súbito, um homem enorme, todo vestido de preto, com um chapéu que fazia uma escura sombra sobre sua face, de onde só se via o brilho de dois olhos amarelos, carregando uma maleta de couro em uma das mãos, apareceu sem que Nikolenka pudesse saber de onde. Ele assustou-se, claro, mas tentou manter a cordialidade que caracterizava o povo do norte da Polônia, e disse "boa tarde, senhor." O homem grunhiu alguma coisa ininteligível e começou a andar ao lado de Nikolenka.

- Você mora na casa perto do lago? - ele perguntou.
- Sim, senhor - respondeu o pobre Nikolenka. O homem resmungou alguma coisa com uma voz muito rouca, como se estivesse satisfeito.
- Você acredita na vida após a morte, garoto?

Nikolenka passou a mão sobre a testa suada, sem saber o que dizer ante tão inusitada pergunta.

- Você acompanha o campeonato turco de biribinha?
- Não, senhor.
- Garoto, você já viu as formas do barro do fundo do poço velho?
- N-não, senhor.
- Você nunca reparou que há ali a face de um homem? Um homem... gritando?
- Não, senhor. O senhor aceita um pedaço de pão com toucinho? - o homem resmungou mais alguma coisa. De repente, sem parar de andar, abriu a maleta e de lá tirou alguma coisa que fazia um barulho de ferros batendo.

Nikolenka lembrou-se então do que sua tia lhe dizia:

- Nikolenka, jamais molhe o pão no leite de cabra, porque dá azar.

Sem poder mais agüentar aquela situação, Nikolenka saiu correndo em disparada, sem olhar para trás. Só foi parar quando estava dentro de casa, ao abrigo daquelas velhas paredes... Até hoje, já velho, quando o vento assobia sombrio nas frestas da janela da casa velha, Nikolenka se lembra. E então, pega o jornal e busca informações sobre o campeonato turco de biribinha... sem nunca encontrar!

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Posted by marcol at 9:22 AM

agosto 4, 2003

Minha entrevista ao The Economist

Minha entrevista ao The Economist

Cansado do assédio da imprensa, que vem crescendo mais e mais desde a inauguração de É por aqui que vai pra lá?, resolvi atender aos rogos dos esforçados repórteres da The Economist. Pra quem não sabe, trata-se de uma publicação galesa sobre corte e costura. Foi o que me disseram. Transcrevo abaixo tudo o que foi dito, que é para você, leitor de aguçado espírito crítico, comparar com o texto que eles vão publicar. Eu os recebi (Sir Alex Zoonicrêisan, Mr. Frank Einstein e o fotógrafo Edouard MonAmi) no Castelo de Jerivadame numa plácida manhã de domingo, vestindo um robe de chambre, com chinelas, e petiscando brotos de bambú selvagem, regados a muito suco de tremoço. Antes, contudo, a foto que eles tiraram:

TE: Sr. Marcão, é verdade que, para a confecção de É por aqui que vai pra lá? o senhor foi beber na fonte dos minimalistas alemães?
Mim: Eu sou o que eu vi, ouvi e li. Se sobressai algo dos minimalistas alemães, isso seria natural. Mas vocês vão encontrar algo de Woof, Weitgenstein, Imelda Marcos, Borges, Cervantes, Burgess, Brooks (yes, Mel) e até mesmo de Sófocles, se olharem com cuidado postes como "Fábulas Consagradas"...
TE: Como o senhor tem lidado com a fama, o assédio das mulheres e a fortuna amealhada com este blog de indiscutível contribuição para o enriquecimento do patrimônio cultural mundial?
Mim: Por favor, tente não puxar muito meu saco [eu tive de traduzir a expressão para eles: to pull my bag]. Bem, eu tenho agido com naturalidade. Foi para isso que mamãe me criou. Sei que amanhã ou depois o Helio Serafino pode fazer o seu próprio blog e aí todo esse assédio vai embora. Sei também que a genialidade de meus postes pode [e provavelmente vai] ser incompreendida pela massa alienada, e, portanto, tento não alimentar ilusões de que é o meio exterior que me fortalece, mas sim o meu meio interior que fortalece o exterior, e vice versa ou não.
TE: Como o senhor se sente sendo autor de pérolas como a entrevista de Chico Buarque e os poemas da última sexta-feira, criando todo esse universo no seio da sociedade futebol-carnaval?
Mim: Veja, melhor criar tudo isso aqui do que lá na tua terra, que não tem sol.
TE: Puxa, que reposta inteligente! Mais uma pergunta: você, como Pirandello, acredita que os densos personagens de Persela, a Vesga, adquiriram vida própria e agora habitam no imaginário popular como entes palpáveis?
Mim: Não. Embora eu tropece todo dia em "personagens engimáticos", hahahaha
TE: Pra acabar. Como faz pra ter esse abdomen definidinho?
Mim: Tava demorando. Retirem-se! E deixem os brotos de bambú aí! Essa frutaiada européia, blargh!
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Posted by marcol at 10:52 AM

agosto 1, 2003

Poemas para fazer belo o

Poemas para fazer belo o nosso dia

Poema de as 3 faces do dr. Lao

1
Se sufocado te sentires
Se como que preso e encaixotado
Se a escuridão se fez ao redor
E o silêncio oprime
Se o olor de flores o afogar e
saída não puderes ver
Resigna-te:
estás morto e enterrado

2
Mundo, mundo, vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Batia no meu pai!


3
Eu não devia dizer, mas
Essa poluição, esse suco de mangaba
Botam a gente flatulento como o quê
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Posted by marcol at 9:18 AM

Mais reverberações da crítica


Mais reverberações da crítica internacional a Persela, a vesga, coletadas pelos colaboradores de É por aqui que vai pra lá?

Helio Serafino, atento a publicações de má reputação, leitor voraz das quais, que é, envia-me o seguinte depoimento:

"Marcondes, gostaria de destacar mais alguns comentários que saíram sobre você na mídia:
¿Depois de ter sido alçado ao Olimpo da literatura universal e se tornar o escritor-diretor-torneador-de-silhuetas mais festejado do século XXI, Marco Brasil passa momentos inesquecíveis em Poços de Caldas com a família e fala dos planos para o futuro" - Revista Caras,
"Com uma narrativa ágil e intrincada, Persela, a vesga, é uma clara recriação gay da fábula 'O Patinho feio' e leva o leitor a uma profunda reflexão sobre o dilema 'sair ou não sair do armário'. Em alguns momentos, a sutileza e argúcia arrebatadoras do autor remetem ao estilo do genial Oscar Wilde. Sem dúvida, estamos diante do novo enfant térrible da literatura" - Revista Purpurina & Cia,
e mais: "Que Persela, que nada! Fãs enlouquecidos aguardam ansiosamente o revelador ensaio fotográfico que mostrará tudo aquilo que as fotos 'mamãe quero colo' do blog não mostraram" - G Magazine.
"É mentira! Quem escreveu Persela, a vesga, foi Paulo Maluf" - Paulo Maluf.

Roberto Sasaki, de volta de uma viagem tipo Ralph Machio ao Japão, redescobrindo suas raízes ancestrais (o que explica a inércia de seu blog "Mundanus", ao lado), dá seu emocionado testemunho:

"Eu não acredito! Alguns dias sem me conectar e, quando volto, descubro que a minha blog-novela preferida terminou! E é exatamente nesta mistura de sentimentos (surpresa, tristeza e um pouco de alívio, eu confesso, afinal já era hora mesmo de por um fim nisso tudo) que eu proponho um brinde à felicidade de Persela, a ex-vesgona, e toda a gama de personagens bizarros que por semanas povoaram nosso imaginário!"


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Posted by marcol at 9:09 AM