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maio 29, 2003
Falando sério I: Bela reflexão
Falando sério I:
Bela reflexão sobre relacionamentos hodiernos.
Ser ou não ser de ninguém?
Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os
braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo
mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com
energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se
dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo
mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas,
descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas que quer que
alguém seja seu.
Beijar na boca é bom? Claro que é! Se manter sem compromisso, viver
rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas
por que reclamam depois? Será que os grupos tribalistas se esqueceram
da velha lição ensinada no colégio, onde "toda ação tem uma reação".
Agir como tribalista tem consequências, boas e ruins, como tudo na vida.
Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar
de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso
comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso,
como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está
namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se
importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.
Embora já saibam namorar, "os tribalistas" não namoram. Ficar, também é
coisa do passado. A palavra de ordem hoje é "namorix". A pessoa pode
ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo. Dificilmente está
apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de manter a
ilusão de que não está sozinho. Nessa nova modalidade de relacionamento,
ninguém pode se queixar de nada. Caso uma das partes se ausente durante
uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu, afinal, não estão
namorando. Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo
de cobrança?
A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais.
Assim como só deseja "a cereja do bolo tribal", enxerga somente o lado
negativo das relações mais sólidas. Desconhece a delícia de assistir a um
filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate
quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as
cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor.
Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e
ser cuidado por ele, é telefonar só
para dizer boa noite, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos
dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo
para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para
amar.
Já dizia o poeta que "amar se aprende amando" e se seguirmos seu
raciocínio, esbarraremos na lição que nos foi passada nas décadas passadas:
relação é sinônimo de desilusão. O número avassalador de divórcios nos
últimos tempos, só veio a confirmar essa tese e aqueles que se
divorciaram ( pais e mães dos adeptos do tribalismo), vendem na maioria das
vezes a idéia de que casar é um péssimo negócio e que uma relação sólida é
sinônimo de frustrações futuras. Talvez seja por isso que pronunciar a
palavra "namoro" traga tanto medo e rejeição.
No entanto, vivemos em uma época muito diferente daquela em que nossos
pais viveram. Hoje podemos optar com maior liberdade e não somos mais
obrigados a "comer sal junto até morrer". Não se trata de
responsabilizar pais e mães, ou atribuir um significado latente aos acontecimentos
vividos e assimilados na infância, pois somos responsáveis por nossas
escolhas, assim como o que fazemos com as lições que nos chegam. A
questão não é causal, mas quem sabe correlacional.
Podemos aprender amar nos relacionando. Trocando experiências, afetos,
conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os conceitos que nos
foram passados. Somos livres para optarmos. E ser livre não é beijar na
boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir
viver um sentimento... É arriscar, pagar para ver e correr atrás da
felicidade. É doar e receber, é estar disponível de alma, para que as
surpresas da vida possam aparecer. É compartilhar momentos de alegria e buscar
tirar proveito até mesmo das coisas ruins.
Ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém
também... É não ser livre para trocar e crescer... É estar fadado ao
fracasso emocional e à tão temida solidão.
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Posted by marcol at maio 29, 2003 9:13 AM