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Tenho visto, com frequência, pessoas defendendo o uso das tais "palmadas terapêuticas" como estratégia pedagógica válida, como prática necessária para a boa educação das crianças. Este post, "No recreio: passando dos limites", não é o único do gênero que chegou a mim recentemente, mas é um ótimo exemplo, já que reúne a maior parte dos argumentos normalmente utilizados pelos defensores dos "tapinhas".
Gostaria de começar definindo algo, do ponto de vista lógico: bater é agredir. Assim como agressão é violência e, como tal, deve ser combatida, exceto talvez quando praticada entre quatro paredes, de forma consentida, por adultos com fetiches sadomasoquistas, responsáveis por seus atos; ou em ringues de luta.
Brincadeiras à parte, não há como relativizar os conceitos de agressão e violência. Não existe uma gradação, uma escala padronizada que nos permita dizer a partir de que ponto um tapa torna-se um ato violento ou até onde se trata de um ato de amor. Para delimitá-los melhor, penso em quem recebe a agressão: trata-se de pessoa que pode se defender? É alguém que entende porque está apanhando e pediu conscientemente por isso? Se as respostas para essas questões não forem simultaneamente positivas, temos um ato violento. Fica muito clara então a impossibilidade desta afirmativa dubla quando o agredido é uma criança, ainda que ela seja capaz de entender o caráter punitivo dos tapas que está levando, essa agressão sempre será imposta e sem possibilidade de defesa.
Existe também outra definição importante relativa ao ato de bater: além de agressão, é comunicação. A criança que apanha internaliza o recado de que a violência é não só uma solução viável, mas também uma resposta natural e esperada para uma série de situações. Não haveria nada errado nisso se estivéssemos falando de um "filhote humano" criado entre lobos, mas estamos falando de crianças inseridas na cultura, num mundo de linguagem que é exatamente o que nos diferencia do restante dos animais. Quando você bate em seu filho está mostrando a ele que a violência é um discurso natural, e te garanto que isso não faz dele um ser humano melhor.
Você já deve estar pensando agora numa questão muito boa, e que eu reconheço ser um ótimo argumento de quem defende as "chineladas de amor": o que fazer com essas crianças tiranas, sem educação e absolutamente sem limites, filhas de pais sem atitude? Não vou acusar de má-fé as pessoas que realmente acreditam que as palmadas são uma boa resposta para essas crianças - eu mesmo reconheço que a paternidade está em crise e que de vez em quando tenho vontade de pendurar alguns pestinhas de cabeça para baixo, mas o engano dessas pessoas está em perpetuar a crença antiquada de que o medo educa, de que a força bruta impõe respeito, quando na verdade o efeito pode ser exatamente o contrário. Há muita imaturidade, insegurança e despreparo nas relações entre pais e filhos. Pode-se falar até em inversão de papéis - já vi mães delegando a filhos menores de dez anos decisões sobre a própria vida que deveriam ser apenas delas. Penso também, de forma mais ampla, na questão do que é ser sujeito em nossos tempos. Ora, como oferecer limites a meu filho se vivo num mundo que me vende a falácia de que tudo posso; de que todo sofrimento, por mínimo que seja, não me é permitido? Como oferecer conscientemente exemplos, possibilidades e caminhos a esta criança que depende de mim, quando eu mesmo preciso ser guiado e tutelado pela indústria da auto-ajuda?
Fica fácil perceber que a solução oferecida por nossos avós não dá conta dessas questões que são nossas. Ainda que eu entenda os impulsos de quem busca soluções que "funcionavam" no passado, elas não passam de fuga, já que "bater ou não bater" simplesmente não resolve algo que é maior, que está ligado à definição e vivência de nossos próprios papéis.
"Ah, mas eu apanhei e hoje não tenho problemas graves por isso". Bem, a não ser que você tenha sido sistematicamente espancado de maneira inesquecível, é bem provável que os problemas decorrentes do fato de ter apanhado não sejam tão aparentes assim. Mas quem me garante que essa sua percepção não é defesa? E depois, é correto afirmar que consequências "menos graves" legitimam a violência?
"Mas como educar e impor limites sem bater? E quando for preciso?". É necessário saber algumas coisas sobre as crianças em geral. Primeiro, que nada é mais importante para elas que o amor e a aceitação dos pais. Qualquer coisa que a faça sentir que pode perder esta aceitação não se repetirá. Mostrar real decepção e descontentamento tem efeito punitivo maior que o de mil chineladas, e terá equivalente efeito didático se os motivos forem bem explicados, não importa a idade do "fedelho". O momento mais marcante da minha infância foi quando vi que havia decepcionado realmente meu pai ao fazer algo, que obviamente nunca mais se repetiu. Depois, não subestime a capacidade que toda criança tem de aprender via diálogo e exemplos. Eles aprendem mais e melhor que os adultos, se estimulados.
Por último, saiba que o "não" é talvez a maior palavra de amor que um pai pode pronunciar, e não é por acaso que esta seja uma das primeiras palavras aprendidas pelas crianças. Saber o que pode e o que não pode também é saber quem se é, delimitar-se enquanto indivíduo.
A relação pai e filho é também uma disputa por poder e controle. A criança sempre testará os pais, tentando delimitar seu lugar no mundo e na vida deles. Paradoxalmente, ainda que ela possa levar este teste até as últimas consequências, ela deseja o limite, mas não em forma de agressão. Ao saber "quem manda", via exemplos e diálogo, ela se sente acolhida e protegida, mas se os pais se deixam levar pelo impulso e batem nela, ela pode responder a isso de várias formas indesejadas. Pode sentir revolta e raiva, um ódio que pode matar o diálogo dela com este pai; e pode também sentir-se falsamente vitoriosa neste jogo de poder, passando a usar a culpa deste pai que bateu, como moeda. Sempre me divirto quando lembro de minha tia cega de raiva, correndo atrás da minha prima, para bater nela. A expressão da menina era de puro deleite, a própria face da vitória, ainda enquanto corria, porque ela sabia que 1) era capaz de manipular os sentimentos de sua mãe através de seus atos, uma percepção que dá à criança um sentimento de onipotência; e que 2) poderia aproveitar-se da culpa de sua mãe depois, usando o arrependimento dela para conseguir qualquer coisa.
O fato é que bater nunca é preciso. Sempre existem alternativas melhores, e é perfeitamente possível ser severo quando necessário, sem levantar um dedo. Cria-se uma relação de respeito, e não de medo. Talvez a dificuldade em aceitar que as coisas possam ser assim esteja relacionada com o desconforto que é questionar nossa própria criação e, por tabela, nossos pais. Escapamos de certas dúvidas e medos acreditando na idealização de um passado idílico em que fomos todos muito bem criados, e que nossos pais nos amaram pelos tapas que nos deram. Afinal, eles só agiram assim por amor, certo?
Também, acredito eu, há o sofrimento em aceitar que a paternidade é um exercício muito mais complexo e passível de fracassos do que faz supor o singelo ato de "dar uns tapinhas para ele aprender"...
PS - Não me ofendam com o argumento simplório e emocional do "você não pode falar porque não tem filhos ainda". Já respondi a isso neste post sobre o Google Latitude.
Regredido. Desestruturado. Delirante. É o que se diz de quem acaba sendo internado. Temos a triagem, a recepção, e depois os medicamentos, a psicoterapia, a terapia ocupacional, as atividades esportivas, a hora da cantina etc. Quase tudo acontece do lado de dentro do muro, e a principal demanda, antes e mais importante que qualquer cura oferecida a essas pessoas, passa a ser a liberdade.
Essa estrutura manicomial existe há séculos, e permanece viva a despeito dos progressos científicos e do nosso maior entendimento sobre as psicopatologias e mesmo sobre o homem. Não foram poucos os avanços, afinal as psicologias, a psicanálise, a psiquiatria e as neurociências, ainda que ciências novas, estão em constante evolução. Estamos cada vez mais distantes da realidade de um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975) ou mesmo de um Bicho de Sete Cabeças (2001), mas ainda não é o bastante.
Seja no caso de pacientes completamente delirantes ou no dos que já estão "conectados com a realidade", fico imaginando o quanto a internação acaba sendo contraproducente em diversos momentos. Afinal, é possível enfrentar uma condição patológica destituído de sua liberdade e confinado a uma prisão (literalmente, daquelas que usam o cigarro como moeda e tudo)? Nos corredores, eles nos puxam pelo braço e perguntam quando será a prometida "alta", e em meio às atividades terapêuticas, tudo o que conseguimos captar do discurso de alguns é um "me deixe sair daqui, por favor!".
Há também o questionamento a respeito do quanto a própria instituição acaba por "alimentar" a doença. Existe sim um antagonismo "nós x eles", um jogo de opostos do qual o resultado costuma ser imprevisível. No dia em que os pacientes encontram-se mais agitados e agressivos, é bem possível que aquela prestativa mocinha do escritório responda a um pedido com um "não tirarei este xerox agora, nem morta". Afinal, não está errado o autor (Dejours?) que afirmou que a instituição sempre acaba por apresentar os mesmos sintomas que procura tratar.
Mas quem oferece suporte a essas pessoas do lado de fora do hospital? Existem alternativas, boas até. Temos o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), com uma ótima proposta terapêutica para essas pessoas, mas que parece não encontrar ressonância na sociedade. O paciente sai do hospital bem, levando debaixo do braço a recomendação para que faça visitas periódicas ao CAPS, para que continue com sua medicação e para que faça terapia, mas aí um pastor da Igreja que a mãe frequenta diz que a doença psicológica na verdade é uma possessão demoníaca e que a medicação deve ser interrompida automaticamente (caso real). O paciente então abandona o CAPS e logo está novamente internado, com delírios de inspiração religiosa. Há casos de famílias que interrompem a medicação do paciente na iminência de um feriado prolongado, assim ele terá um surto-desculpa-para-internação que permitirá a todos curtirem a praia durante uns dias, sem o pesado lastro. Muitos não retornam para buscar seus maridos, irmãos e filhos, e ainda ameaçam o assistente social de processo por assédio caso ele continue a ligar.
Não é bonito, mas é compreensível. Conviver com o doente é ter de encarar sua própria patologia, acima de tudo. Não há psicótico sem uma família que também o seja, e pode-se dizer até que aquele que apresentou os sintomas é o mais saudável de todos, já que o sintoma é um grito de ajuda, a busca pela re-estruturação necessária, a maneira de trazer à tona um sofrimento latente. Eu gostaria sim de poder apontar o dedo para essas pessoas "sem coração" que armazenam esses pacientes em verdadeiros "depósitos de loucos". Seria catártico e deliciosamente confortável dizer "veja como os outros são malvados". Mas, será que é assim tão simples? Usando de um ponto de vista macro, confinamos nossos doentes, e também todos os que são diferentes, a guetos. Mudam apenas os rótulos: "loucos", "diferentes", "minorias", "freaks", e fazemos isso desde sempre. Tememos as diferenças porque elas nos forçam a olhar para quem somos, e nada é mais desconfortável que isso. Usando de uma metáfora grosseira, somos todos um grande Estado de Israel que isola seus doentes e, principalmente, aqueles que são diferentes, em diversas "faixas de Gaza", fisicamente delimitadas ou não.
Fica fácil entender também o propósito de todas essas pesquisas científicas do tipo "identificado o gene da doença psicológica x" ou "o comportamento anti-social dos adolescentes é explicado pelo hormônio y". Ora, a partir destas provas irrefutáveis banhadas de rigor científico 18 quilates percebemos que nossa organização social e nossos relacionamentos são completamente normais, livres de qualquer traço doentio. É uma fatalidade o que acontece com os "loucos", mas não poderia ser diferente, "não é culpa de ninguém", muito menos uma questão relacional, não é verdade?
Houve um tempo em que eu suspirava ao assistir a abertura de Hair (1979). Eu me enchia de esperanças. Pois acontece que no dia 14 último a Lua entrou na sétima casa, alinhando-se com Marte e Júpiter. Infelizmente, nada de paz, amor, confiança e entendimento. A maioria de nós não seria mesmo capaz de perceber a chegada da tal "Era de Aquário", a nossa prometida panaceia. Afinal, continuamos, como sempre, com as cabeças enfiadas em confortáveis buracos na terra (ou em nossos umbigos). Mais importante que saber qual a área do cérebro responsável pela agressividade ou pela falta de modos, fico pensando que já é hora de percebermos de uma vez por todas que somos todos, de uma forma ou de outra, regredidos e desestruturados.

