Minha amiga Lady Rasta me pergunta por que sou contra a redução do limite para a maioridade penal. Trata-se de assunto delicado e complexo, que fica ainda mais complicado quando de fatos como esse, ocorrido com o assassino do menino João Hélio. A indignação popular e o clamor por justiça são mais do que justificados, quando tudo o que queremos é que o ato sórdido do assassino seja devidamente vingado.
É necessário sim que se questione com seriedade quais os limites de ação da justiça em casos assim, mas é ao mesmo tempo perigoso, no calor dos fatos, optar por ações drásticas sem pensar as conseqüências a médio e longo prazo. Apesar dos Champinhas e similares, será mesmo que mais prisões (nos moldes das nossas prisões) para mais jovens seriam mesmo uma solução efetiva para a delinqüência desses destes? Existem vários bons argumentos de ambos os lados, mas me posiciono contra a redução do limite por uma questão de coerência teórica e postura profissional. A melhor maneira de elucidar minha posição, por enquanto, é reproduzindo aqui o longo trecho abaixo (me desculpem):
Voltemos à motivação primeira do adolescente: trata-se de conseguir um reconhecimento para o qual ninguém sabe lhe dizer quais são as provas, qual é o ritual iniciatório necessário. E, por consequência, de colocar fim a uma moratória que lhe é imposta logo quando se sente maduro, forte e potencialmente adulto.- Contardo Calligaris, em "A Adolescência" [pp. 39-42, São Paulo, Publifolha, 2000].O adolescente é rejeitado pela sociedade dos adultos, que respondem ao seu pedido de admissão com uma bola preta na urna. Ora, quando um pedido não encontra uma palavra que no mínimo reconheça sua relevância, normalmente seu autor levanta a voz. Numa progressão linear, grita, quebra vidros e pratos, coloca fogo na casa e pode até se matar para ser levado a sério. Ou seja, ele tenta impor pela força, ou mesmo pela violência, o que aparentemente não é ouvido.
[...] "Delinqüência" não é uma palavra excessiva, embora de fato pouquíssimos adolescentes se tornem propriamente delinqüentes. Mas existe uma parceria de adolescência com delinqüência, porque o adolescente, por não ser reconhecido dentro do pacto social, tentará ser reconhecido "fora" ou contra ele - ou, o que dá na mesma, no pacto alternativo do grupo.
Ele constituirá um novo pacto entre adolescentes, com claras regras de reconhecimento mútuo. Essas regras sempre estarão deliberadamente em ruptura, mais ou menos declarada, com o pacto social.
Dentro ou fora da prática gregária, os jovens não desistirão de tentar suscitar a atenção e o reconhecimento dos adultos. O grupo que eles vierem a constituir seguirá um modelo de ação que deverá transgredir o pacto social, já que continua viva a esperança de merecer, por essa transgressão, a atenção dos adultos.
[...] Paradoxo e dificuldade da relação entre gerações: os adolescentes transgridem - até gravemente - não para burlar a lei, não na esperança de escapar das conseqüências de seus atos, mas, ao contrário, para excitá-la, para que a repressão corra atrás deles e assim os reconheça como pares dos adultos, ou melhor, como as partes escuras e esquecidas dos adultos. [grifos meus]
[...] Nessa condição, torna-se impossível para os adultos escolher uma estratégia correta entre tolerância e repressão. Por exemplo, é um perigo deixar a porta aberta (como está acontecendo cada vez em mais países) para que o tribunal decida se jovens culpados de crimes graves devem ser perseguidos como menores ou como adultos. À vista disso, como o jovem resistiria à tentação de fazer algo que seja grave a ponto de forçar o tribunal a julgá-lo como adulto - que é o que ele pede desde sempre? Se for julgado e condenado como adulto, isso será a demonstração do fato de que os adultos só ouvem a linguagem do crime mais detestável e de que essa linguagem funciona.
Tolerar não é uma opção, visto que o jovem atua justamente para levantar a repressão. A tolerância só o forçará a atuar com mais violência.
Ora, se tolerar faz com que o jovem busque a repressão e reprimir com mais intensidade é dar a ele este "prêmio", parece haver mesmo um impasse que não será resolvido delimitando por força de lei (com letra minúscula mesmo) os limites da maioridade. A resolução dessa questão passa pelo questionamento da "moratória" imposta aos jovens pelos adultos (assunto do livro do Calligaris, recomendo) e pela revisão do papel dos jovens no pacto social. Precisamos sim encontrar maneiras de proteger a sociedade de indivíduos como os assassinos citados, mas acredito sinceramente que a alteração dos limites de maioridade seja uma proposta simplória que nem de perto toca no que está realmente envolvido nessa questão. Funciona mais para aplacar nossa ânsia por vingança e "justiça" do que para evitar que situações absurdas assim se repitam.


