Outro dia vinha para casa ouvindo "Tema de Tostão", belíssima homenagem de Milton Nascimento e Fernando Brant ao lendário camisa 9 do Cruzeiro, e fiquei triste. A tristeza é pelo fato de que não haverá outro Tostão, e não falo de jogadores tão geniais quanto ele; mas que tenham nomes assim, simples e marcantes. Não teremos mais Dadá Maravilha, ou mesmo um Fio Maravilha. Não teremos mais Didi ou Canhoteiro, muito menos Garrincha ou Pelé. Aliás, se Pelé estivesse começando a carreira por estes dias, já teria um assessor de imprensa o aconselhando a chamar-se "Edson Arantes". "Tudo bem que é nome de despachante, mas ajuda na hora de conseguir uma boa transferência", ele diria.
E tem também a feijoada. Outro dia fui com um amigo a um famoso bar paulistano para comer a tradicional feijoada de sábado, e fiquei assustado ao receber apenas uma cumbuca de feijão preto com carne seca. Fiquei indignado e perguntei ao garçom o que estava acontecendo. A resposta foi simples: "as pessoas não comem mais feijoada com tudo. Nada de pé, orelha e rabo de porco. Agora tem que ser light". A mesma coisa está acontecendo com o pastel de feira livre. É dizer "comi um delicioso pastel de queijo quando vinha para a faculdade" que a turba fica enfurecida: "que absurdo que é comer fritura logo de manhã!".
Mas a maior injustiça mesmo estão fazendo com as mulheres peludas. Ousei gritar contra este absurdo que é dizerem que a Carol Castro está peluda demais na Playboy, tomando partido da campanha do meu amigo Brigatti, e fui atingido por espátulas, depiladores e potes de cera quente. Ouvi absurdos do tipo "tenho amigos que simplesmente não topam a transa se percebem que a mulher não está muito bem depilada", isso sem falar na pergunta "mas não é ruim e anti-higiênico?". Ora, a tal da brazilian wax é coisa nova, de menos de 20 anos, e a espécie humana faz sexo a bem mais tempo, não é verdade? Anti-higiênico é a mocinha não lavar as partes íntimas, e garanto que se o sexo antes fosse ruim, não estaríamos aqui para discutir o assunto. O fato é que querem tirar do sexo o cheiro, o gosto e as texturas. É o furor higienista dos fiscais da normalidade em ação.
Tudo bem, você deve estar pensando, o que a brazilian wax tem a ver com os nomes de jogadores, com comer pastel de manhã e com a feijoada light? Sou obrigado a dizer que TUDO. A ação dos "agentes mantenedores da normalidade" [obrigado @piupass] é incisiva. Quando você menos espera já está repetindo regras como um robô, sem qualquer postura crítica, achando que tudo é "normal". Mas aí eu me volto para a Estatística, e vejo que mais próximos da normalidade estão os pontos que circundam a média e a mediana, e penso que a raiz destes termos é a mesma da palavra mediocridade.
Não é estranha essa modernidade que nos diz "seja você mesmo, sua individualidade é o que vale" mas que pune qualquer atitude, comportamento ou opinião que te afaste da média? Vamos pensar: você pode ser você mesmo quando isso leva ao egoísmo e à competitividade. Sua individualidade é "respeitada" quando serve de argumento para os homens de marketing que querem explorar nichos de mercado, mas na realidade você deve se submeter a regras e códigos de conduta que tentam padronizar até mesmo o tesão e os fetiches?
Na verdade, faz todo o sentido. O sexo, as relações, as sensações, até mesmo a subjetividade de cada um de nós, tudo é produto. Ora, se os aspectos mais íntimos de nossa vida podem se tornar produtos; estão passíveis então de padronização e controle de qualidade. Simples assim.
A imagem dos jogadores, o horário pré-determinado para comer pastel e o controle sobre o que deve ir na feijoada são sintomas da mesma doença. Cuidar da saúde é importante, é obvio que comer frituras toda manhã não faz muito bem, mas cada um tem o direito de agir segundo as próprias regras, desde que não prejudique terceiros. Eu devo saber os limites da minha saúde e do meu bem estar. É paradoxal, para não dizer patético, este mundo onde você deve fazer valer sua individualidade apenas quando convém aos outros, sem se expor.
O mesmo cara que não transa se a mulher não estiver perfeitamente depilada é o que não come a feijoada com rabo ou o delicioso pastel do início da feira [sem metáforas com rabos e pastéis aqui, por favor!]. Provavelmente o nome dele é Edson Arantes, e ele trabalhará durante trinta anos no mesmo cubículo em uma repartição pública, depois vai morrer, sem que ninguém se lembre dele.
* a imagem da curva normal é do blog netodays - reflexões.
** originalmente publicado em 01/09/2008




Belíssimo ensaio, que descobri por meio do Facebook.
Dois adendos eu tenho a fazer: no que tange à lacuna que nos deixou TOstão e Dadá Maravilha, creio que o Obina nos tempos de Mengão era um alento a quem está cansado do jogador "normal".
Já quanto ao assunto Brazilian Wax, deixo a palavra com o engenheiro Olavo Pascucci, que em magistral artigo creio que esgotou o tema:
http://olavopascucci.blogspot.com/2007/12/elegia-da-xavasca-felpuda.html
Adorei seu artigo sobre ser normal. Como tb adoro pequenas frases que dizem muito, lembrei-me de uma, não sei o autor; " QUANDO TODOS ESTÃO PENANDO IGUAL, NINGUÉM ESTÁ PENSANDO". vC. É GENIAL, PELO MENOS NESSE ARTIGO, INFELIZMENTE AINDA NÃO LI OS OUTROS !
É isso aí. Também acho um absurdo as pessoas que vêem mulheres lindas nuas e ao invés de elogiar o belo corpo se atém a quantidade pêlos pubianos delas! Deixem as mulheres serem peludas lá, se elas quiserem, pow! Que coisa meio pedófila isso de querer as mulheres todas lisinhas.
Concordo plenamente, e tenho quase que certeza que isso tudo é obra da mulecada que vem sendo criada desde 1995 com a internet. Descobrem as primeiras "mulé peladas" via web com seus 10, 12 anos, e acham que isso é o normal. E crescem com esse preconceito, aliás o mesmo, que diz que homem não pode ter peito cabeludo.
Acredito que são muito mais importantes as idéias e o carácter da pessoa em questão que os pêlos que possa o não ter.
Uma amiga minha tem uma analogia ótima: que existem os homens que comem o hamburger com gosto, dando umas mordidas com vontade, segurando com as duas mãos, e têm aqueles que levantam o pão, olham o hamburger, acham que tem muita alface e tiram um pouco, arrumam o tomate... e comem o hamburger com aquela cara de entojo.
Esses que ficam patrulhando quantos fiapos de pelo a mulher têm são os que comem o hamburger separando o alface, achando que tem muito bacon, arrumando o queijo!
E pode apostar que nós, mulheres, preferimos os que comem o hamburger saboreando com vontade e sem frescuras.
beijo
Oi, Doni! Como sempre excelente!
É difícil e chato ser normal! Estou fora desse gráfico e, por isso, sou rechaçada. Mas prefiro assim.
Esse texto me fez lembrar de uma frase de Mário Quintana: "Ah, esses moralistas...não há nada que empeste mais do que um desinfetante".
Beijo.