Antes que alguma leitora desmaie diante de tanta falta de sensibilidade deste Neanderthal que vos escreve é necessário deixar claro que gosto sim de homenagear a mulher, e que não pegarei aqui o caminho simplório, bobo e superficial do "se existe um dia internacional da mulher deveria haver também o dia internacional do homem". Na verdade, até acredito que os idealizadores da data tiveram boas intenções ao adotar o dia 8 de março de 1857 como um marco.
O que não pode deixar de ser comentado é o que aconteceu desde então com esta "boa intenção". Durante o próximo domingo, muitas rádios vão tocar John Lennon ou Erasmo Carlos; blogues terão textos emocionados sobre a força e a beleza de toda mulher e muitos dirão que devemos dar os parabéns às mulheres que amamos. Algumas vão encontrar flores em suas mesas de trabalho na segunda-feira e outras, com certeza, receberão mensagens de gosto duvidoso, daqueles serviços horríveis de telemensagem. "Não há nada de errado nisso, é muito importante oferecermos homenagens e todo o nosso carinho a quem amamos, numa data tão importante, não é?"
Não! Pode até ser que não seja má fé, mas se você é um gerente que parabeniza sua funcionária pelo dia dela e depois oferece aquela promoção ao funcionário menos capacitado, que acompanha com você os jogos do seu time (já vi isso acontecer), você é um hipócrita! Se você parabeniza sua esposa pelo dia dela, mas chega em casa e se esparrama no sofá enquanto ela cumpre sua jornada tripla de trabalho, você é um hipócrita! Se você cumprimenta todas as suas amigas, mas passa o restante do ano tendo o mesmo comportamento machista e sexista de sempre, você é um hipócrita! O homem que não se posiciona de verdade, com sinceridade e desprendimento, frente a questões importantes da feminilidade e da relação entre os sexos deveria ter ao menos a dignidade de não ficar repetindo o clichê de "parabéns pelo seu dia".
"É isso aí! O Dia Internacional da Mulher deve ser mesmo para refletirmos sobre as conquistas da mulher, e para reivindicar nossos direitos, lutar por maiores conquistas!"
Por incrível que pareça, não também! Eu sei, parece estranho que eu seja contra essa comemoração, mesmo que ela seja encarada de forma séria, mas posso explicar. Essa data comemorativa não é hipócrita só porque os homens agem assim. Ela é hipócrita em si, a priori, assim como todas as datas do gênero. É que existe um mecanismo sutil e ao mesmo tempo cruel pelo qual a sociedade perpetua seu status quo. Se não houver uma reflexão crítica a respeito do significado de cada ato, mesmo o mais bem intencionado militante torna-se engrenagem que ajuda a mover o próprio sistema que combate. As mais justas reivindicações são absorvidas pela ordem social vigente, e nada muda. O problema? Datas assim limitam essa reflexão. Vou chamar isso de "vacina ideológica". Para compreender, vamos pensar em como uma vacina funciona: para que o corpo se mantenha saudável (ou inalterado, no nosso caso), uma versão enfraquecida do vírus X é ministrada, mas de forma que fique sob controle dos mecanismos de defesa do corpo, que estarão prontos para combater qualquer manifestação real do vírus.
No caso da sociedade, a data comemorativa das minorias (as mulheres são tratadas como tal) é esse vírus X enfraquecido. Salvo exceções, a reflexão que poderia levar à mudança fica restrita a um dia pré-determinado, fica encaixotada. Todas as reivindicações são feitas com maior intensidade na data estipulada, existem os discursos e discussões, mas no dia 9 de março as mulheres continuam sujeitas a jornadas triplas de trabalho; continuam trabalhando 50% mais que homens, na mesma função, para ganhar 50% menos; continuam objeto de valores ditatoriais (da beleza, por exemplo); continuam vítimas de violência, sofrendo todo tipo de intimidação.
Sinceramente, o dia internacional da mulher, tal qual é hoje, é irrelevante e desnecessário. As necessidades das mulheres, de igualdade e dignidade, além das econômicas, são muito maiores do que uma data pode comportar, e de nada adianta discutirmos isso depois de amanhã e ficarmos anestesiados até o próximo mês de março. Se for para citar Lennon, prefiro dizer que infelizmente a mulher continua sendo "the nigger of the world", e que para mudar isso precisamos de menos simbolismo e mais ação.
* Originalmente publicado no Hedonismos.




Onde eu assino?
Melhor homenagem de dia da mulher EVER.
oi Doni
tenho tbm essa visão. O que me surpreende no discurso do dia da mulher é o sequestro da voz das próprias mulheres.
é estranho ver homens e mulheres falando como se existe um terceiro elemento, uma mulher idealizada, para o bem ou para o mal, que merece nossa atenção.
e na voz das mulheres que defendem essa causa, mas sem reflexão, isso causa um deslocamneto mais estranho ainda.
quase nunca é "somos nós!, e quase sempre é "as mulheres".
Sem dizer, é claro, ess idéia tacanha do dia defender o direito de uma minoria(!), quando elas são mais de 50% mias um de mulheres no planeta, ou seja, de como o mundo esta longe de ser macihsta e sexista.
Quando essa data for apenas um dia específico para lembrar uma mosntruosidade praticada contra cento e tantas mulheres, aí sim, acho acho, que estaremso, todos, refletindo sobre as melhores perguntas para os mlehores diálogos.
PS: Acho essas revista , tipo Criativa, uma besteirada, já que não há escolha no dicurso que ela aplica as mulhers. Mulher ideal tem que se super-up, nada mais, sem direito a qualquer escolha fora do super-up. Papagaida
PS2 : Se vc leu até aqui, lembre-se, foi um homem tolo e jovem que escreveu esse comentário
Léo, tudo bem? Seu comentário tem uma visão interessante a respeito desta criação de uma "entidade" que afasta a luta e a reflexão das pessoas reais. É mesmo um ponto no qual se pode pensar. Também concordo quando você critica o tipo de discurso que aparece em certas publicações femininas (são apenas um outro lado de uma mesma moeda, que também contém as revistas masculinas). Agora, existe um problema. Como assim "o mundo está longe de ser machista e sexista"? O termo "minoria" não está relacionado a um conceito estatístico, mas a uma realidade que se dá em nossa cultura, em nossa sociedade, e em nossos meios de produção. Mulheres são maioria no planeta? Sim, mas enquanto continuarem tendo salários menores que os homens numa mesma função; enquanto sofrerem violência; enquanto tiverem cobranças morais diferenciadas, teremos sem dúvida um mundo machista e sexista.
Abraços.
oi Doni.
Ops, é nisso que falta uma revisão. Erro de escrita me uma parte, e em outra parte da frase um mau desenvolvimento da id[eia.
Era pra dizer que o mundo é sim, machista sexista. Mas o que é a falta de um advérbio, ou da cosntrução melhor de uma frase, para que a idéia fosse clara não só na minha cabeça como em outras. Repito, ali, era pra se entender que sim, o mundo é machista sexista.
Quanto a idéia das "minorias", é ficou algo tacanho o meu pensamento, mas é pra isso que serve um diálogo, né não? Para consertos e concertos.
abs
Opa! Agora ficou mais claro, Léo. Grande abraço!
Engraçado, mas o dia internacional da mulher, de uma maneira que não consigo explicar muito bem, me ofende. É um parabéns ofensivo, que se assemelha a um osso oferecido ao cachorro, com afago na cabeça. Só assinala a minha exclusão. Que venha o tempo em que se comemorar o dia da mulher seja algo tão absurdo quanto hoje é se pensar em comemorar o dia dos homens!
(comentário um tiquinho atrasado de quem caiu agora nesse blog, embora dê lá suas voltas pelos "Hedonismos". Parabéns pelos dois!)
Obrigado, espero que apareça mais por aqui!