Regredido. Desestruturado. Delirante. É o que se diz de quem acaba sendo internado. Temos a triagem, a recepção, e depois os medicamentos, a psicoterapia, a terapia ocupacional, as atividades esportivas, a hora da cantina etc. Quase tudo acontece do lado de dentro do muro, e a principal demanda, antes e mais importante que qualquer cura oferecida a essas pessoas, passa a ser a liberdade.
Essa estrutura manicomial existe há séculos, e permanece viva a despeito dos progressos científicos e do nosso maior entendimento sobre as psicopatologias e mesmo sobre o homem. Não foram poucos os avanços, afinal as psicologias, a psicanálise, a psiquiatria e as neurociências, ainda que ciências novas, estão em constante evolução. Estamos cada vez mais distantes da realidade de um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975) ou mesmo de um Bicho de Sete Cabeças (2001), mas ainda não é o bastante.
Seja no caso de pacientes completamente delirantes ou no dos que já estão "conectados com a realidade", fico imaginando o quanto a internação acaba sendo contraproducente em diversos momentos. Afinal, é possível enfrentar uma condição patológica destituído de sua liberdade e confinado a uma prisão (literalmente, daquelas que usam o cigarro como moeda e tudo)? Nos corredores, eles nos puxam pelo braço e perguntam quando será a prometida "alta", e em meio às atividades terapêuticas, tudo o que conseguimos captar do discurso de alguns é um "me deixe sair daqui, por favor!".
Há também o questionamento a respeito do quanto a própria instituição acaba por "alimentar" a doença. Existe sim um antagonismo "nós x eles", um jogo de opostos do qual o resultado costuma ser imprevisível. No dia em que os pacientes encontram-se mais agitados e agressivos, é bem possível que aquela prestativa mocinha do escritório responda a um pedido com um "não tirarei este xerox agora, nem morta". Afinal, não está errado o autor (Dejours?) que afirmou que a instituição sempre acaba por apresentar os mesmos sintomas que procura tratar.
Mas quem oferece suporte a essas pessoas do lado de fora do hospital? Existem alternativas, boas até. Temos o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), com uma ótima proposta terapêutica para essas pessoas, mas que parece não encontrar ressonância na sociedade. O paciente sai do hospital bem, levando debaixo do braço a recomendação para que faça visitas periódicas ao CAPS, para que continue com sua medicação e para que faça terapia, mas aí um pastor da Igreja que a mãe frequenta diz que a doença psicológica na verdade é uma possessão demoníaca e que a medicação deve ser interrompida automaticamente (caso real). O paciente então abandona o CAPS e logo está novamente internado, com delírios de inspiração religiosa. Há casos de famílias que interrompem a medicação do paciente na iminência de um feriado prolongado, assim ele terá um surto-desculpa-para-internação que permitirá a todos curtirem a praia durante uns dias, sem o pesado lastro. Muitos não retornam para buscar seus maridos, irmãos e filhos, e ainda ameaçam o assistente social de processo por assédio caso ele continue a ligar.
Não é bonito, mas é compreensível. Conviver com o doente é ter de encarar sua própria patologia, acima de tudo. Não há psicótico sem uma família que também o seja, e pode-se dizer até que aquele que apresentou os sintomas é o mais saudável de todos, já que o sintoma é um grito de ajuda, a busca pela re-estruturação necessária, a maneira de trazer à tona um sofrimento latente. Eu gostaria sim de poder apontar o dedo para essas pessoas "sem coração" que armazenam esses pacientes em verdadeiros "depósitos de loucos". Seria catártico e deliciosamente confortável dizer "veja como os outros são malvados". Mas, será que é assim tão simples? Usando de um ponto de vista macro, confinamos nossos doentes, e também todos os que são diferentes, a guetos. Mudam apenas os rótulos: "loucos", "diferentes", "minorias", "freaks", e fazemos isso desde sempre. Tememos as diferenças porque elas nos forçam a olhar para quem somos, e nada é mais desconfortável que isso. Usando de uma metáfora grosseira, somos todos um grande Estado de Israel que isola seus doentes e, principalmente, aqueles que são diferentes, em diversas "faixas de Gaza", fisicamente delimitadas ou não.
Fica fácil entender também o propósito de todas essas pesquisas científicas do tipo "identificado o gene da doença psicológica x" ou "o comportamento anti-social dos adolescentes é explicado pelo hormônio y". Ora, a partir destas provas irrefutáveis banhadas de rigor científico 18 quilates percebemos que nossa organização social e nossos relacionamentos são completamente normais, livres de qualquer traço doentio. É uma fatalidade o que acontece com os "loucos", mas não poderia ser diferente, "não é culpa de ninguém", muito menos uma questão relacional, não é verdade?
Houve um tempo em que eu suspirava ao assistir a abertura de Hair (1979). Eu me enchia de esperanças. Pois acontece que no dia 14 último a Lua entrou na sétima casa, alinhando-se com Marte e Júpiter. Infelizmente, nada de paz, amor, confiança e entendimento. A maioria de nós não seria mesmo capaz de perceber a chegada da tal "Era de Aquário", a nossa prometida panaceia. Afinal, continuamos, como sempre, com as cabeças enfiadas em confortáveis buracos na terra (ou em nossos umbigos). Mais importante que saber qual a área do cérebro responsável pela agressividade ou pela falta de modos, fico pensando que já é hora de percebermos de uma vez por todas que somos todos, de uma forma ou de outra, regredidos e desestruturados.




Na minha brevíssima passagem por um hospital psiquiátrico eu lembro de ter ficado com a impressão que seria muito difícil pra aquelas pessoas estruturarem sua vida longe dali. Mesmo estando num município com um serviço ambulatorial muitíssimo bem estruturado. Parece que não há espaço nem na sociedade nem nas famílias pra que possam se colocar depois da alta, já que o olhar pra esses doentes é ou de condescendência ou de rejeição.
Adorei o texto, vai pra minha caixinha de reflexões.
Beijos
R: tomara que vá para mais caixinhas de reflexões... Obrigado!
Excelente post, Doni.
(Está em meus planos ainda falar sobre o filme Bicho de Sete Cabeças e todo o movimento antimanicomial_ adorei assisti-lo!!)
Um dúvida: na teoria, nosso sus é perfeito, mas não é o que tenho visto na prática (como profissional da saúde que tenta encaminhar pacientes para terapia fonoaudiológica na rede pública). O CAPS consegue suprir toda a demanda? Ou ainda precisaria ser aprimorado.
Quanto a julgar os "parentes" minha professora sempre diz pra nos colocarmos no lugar dos familiares, tendo uma pessoa doente em casa. Não deve ser fácil, realmente.
Adorei seus texto! Bjo!
Ma, sinceramente nosso SUS está bem longe de ser perfeito. É melhor do que o sistema de saúde pública com que convivemos em nossa infância, eu não tenho muita dúvida disso, mas ainda está longe de ser perfeito, e nunca chegará a isso, na verdade. Quanto ao CAPS, sim, pode e deve ser aprimorado. A questão antimanicomial ainda está engatinhando.
Realmente a Era de Aquário está aqui, mas as idéias que achávamos q estariam associadas a ela são apenas isso: idéias. Você já escreveu aqui no seu blog resenhas sobre esses filmes que vc comentou? Adoraria saber sua opinião sobre eles e outros tbm. Abs
Boa ideia, escreverei sobre eles. A maior parte das resenhas que farei estará em meu outro blogue, o Hedonismos. Grande Abraço.
Doni, adorei a nova casa! Os textos estão impecáveis, uma delícia de ler! Parabéns!
Tive uma experiência com alguém bem próximo que foi internado em uma instituição psiquiátrica. Foram poucos dias, mas lembro que o mudou completamente. Aquela estada mudou o foco do seu tratamento. A partir daquele momento, a única certeza dele era de que voltar para um lugar como aquele seria a morte.
Acredito que isso ajudou com seu posterior sucesso no tratamento. Mas a marca que deixou foi muito forte. Não sei explicar, mas parece que permanece uma constante tristeza por trás do olhar dele.
Depois dessa experiência, sempre me perguntei quais seriam as opções para casos em que, hoje, a alternativa é a internação?
Alguma coisa nos seus estudos já te deu alguma luz?
Abraços,
Carla
É uma luz que eu ainda estou procurando, Carla. Acho que este post é mais um passo nesse sentido. Organizar umas ideias que estavam soltas e ver o que fazer daqui em diante.
Vc já leu "Viagem Através da Loucura"? Que fala sobre o Kingsley Hall, que tornou-se um centro de psicologia alternativo aos manicômios, onde pacientes, médicos e auxiliares vivem juntos na msm comunidade. É o outro extremo.
è interessante o paciente doente "demonstrar" que a família toda tem uma parte da loucura, mas é confortante culpar apenas o doente e sentar no próprio rabo.
R: infelizmente não li...
Lendo Roberto Freire tive um breve contato com o conhecimento proveniente da Antipsiquiatria.
De acordo com ela a grande maioria das doenças mentais são "fabricadas" pela própria sociedade, sendo inclusive a família uma de suas principais causas.
Ao que parece os manicômios nunca recuperaram ninguém e somente prejudicam as pessoas, isolando-as ainda mais da realidade.
O que acham?
Alguém conhece a Antipsiquiatria e poderia me esclarecer mais?
Saúde mental sem hospitaldia não existe.Pena que seja coisa de rico.
Belo post. Em cima!
abç
.
ah, sim...Bela casa nova, parabéns!
Kaléu, essa é uma discussão bem complicada. Se por um lado as teorias sobre a gênese social da psicopatologia têm bastante valor, por outro é arriscado levar isso ao extremo de um movimento antipsiquiatria. Seja criação social ou não, o sofrimento do doente está lá, é presente e marcante. Não vejo um mundo sem participação ativa da psiquiatria na promoção da saúde mental. Agora, existem modelos a se discutir, e a questão do manicômio é uma dessas discussões necessárias.