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fevereiro 26, 2009

Ponto Quarenta - convite para o lançamento

flyer_cultcoolfreak

Até que enfim, a tão esperada quiabada. O boteco é confortável, cerveja barata e gente bacana. Se caso você tiver problemas com a polícia, recomendo que não apareça. A casa estará cheia de gente armada com vontade prender. Mas se tiver problemas, e mesmo assim quiser dar o ar da graça para ter o livro autografado, não se acanhe. Darei um jeito de arredondar o seu B.O. e passar um pano para meu querido leitor bandido.

Dia 04 de março (quarta-feira). À partir das 18h00, com entrada franca. R$ 16,00, lá na minha mão é mais barato. Policiais da corregedoria pagam mais caro e do DENARC levam de graça, para nunca deixarem de sorrir, já que o livro é uma homenagem à narcótica paulistana.

Corre lá, porque tá acabando. O Canto da Madalena é o melhor lugar para esse tipo de evento. Não pude agendar para uma quinta-feira, porque é dia de MPB. Mas é muito fácil de chegar:

Gostaria que todos os amigos da grande Blogsfera Policial estivessem lá. Seria ótimo conversar ao vivo com essa galera guerreira. Conto, então, com a presença dos paulistanos, nem que seja só para um abraço. O bom tira sabe voar e dar o gato no plantão. Qualqquer coisa, diga que foi buscar o QSA na pizzaria.

Até lá.

fevereiro 25, 2009

Chefes inseguros em barracas

Quem já teve a oportunidade de passar pela Avenida São João em São Paulo, pela manhã, vai se lembrar de ter visto centenas de pessoas dormindo sobre o viaduto conhecido por minhocão. Enfileiradas como se estivessem participando de uma intervenção de algum artista plástico metido a besta, todas as noites improvisa-se naquele lugar um hospital de guerra que se extende por quilômetros.

Na Capital, a principal função de um investigador do DECAP (o departamento responsável pelos distritos policiais) é limpar a rua da população residual, como os sem-tetos e os menores. Nada daquele romantismo de inquerir com perspicácia criminosos geniais. Como sempre disse, caso o polícia não tenha as costas quentes, vai ficar cuidando da parte indesejável da cidade.

Enfim, sobre os mendigos: depois de revistar pelo menos uns dois mil moradores de rua ao longo da promíscua carreira de investigador, ganhei uma certa intimidade (não que queresse tê-la) com esse nicho. Ao ponto de, em uma noite gelada em que me deparei com a humilhante missão de colher as impressões digitais de um morador de rua que cheirava à merda, a raiva fez com que eu perguntasse:

- Caralho! Porque você não vai para um albergue e passa a noite lá? Porque insiste em morar na rua?

O sujeito abriu a boca sem dente, e disse que não iria porque não possuía RG. E no albergue municipal só entra quem é civilmente identificado.

Como ele era muito experto, não me disse mais nada. Mas não precisou. Vejam: eu não tenho patrimônio ou dinheiro algum. Ao mesmo tempo, não tenho a falta de caráter suficiente para mentir e puxar o tapete de pessoas no trabalho, de forma que as perspectiva de crescimento não são muitas. Não gosto da cidade onde moro e aqui os amigos são raros, senão inexistentes. Minha família está longe e tenho vergonha de contar meus fracassos a eles. O que sobraria? Para mim é óbvio: renunciar a vida de homem ocidentalizado e viver à margem do mundo de trabalhar-doze-horas-por-dia.

Não foi preciso o mendigo responder nada. Acho que compreendi sua necessidade de morar na rua. Ele é a negação da política, a afirmação de uma outra possibilidade de existência distante do que conhecemos como sociedade. Aliás, a única experiência de vida fora da sociedade capitalista são os mendigos. O sujeito não vai para o albergue porque tem preguiça de tirar um novo RG, retomando sua conexão com o sistema. Ele não se subemete ao pseudo conforto da moradia coletiva provisória porque não aceita se submeter às mesmas regras que eu e você, breve leitor, nos deixamos ser engolidos.

Eu volto amanhã ao trabalho, depois de uma semana de carnaval. E já estou triste por antecipação em ter que vivenciar mais um período com sensações que facilmente me levariam matar alguém, mesmo que a mim mesmo. Para nós é normal sermos humilhados por chefes inseguros e carreiristas, ficar 12, 13 horas sentados em uma sala gelada em frente a um computador para ganhar um salário que não paga suas constas. No final das contas, entendi que a proposta de vida oferecida pelos moradores de rua não é tão esdrúxula assim.

Pesquisando na net sobre essas pessoas que negam o modo paulistano de viver, encontrei um projeto francês chamado "The children of Don Quichotte." São voluntários que distribuem barracas para os moradores de rua de Paris, oferecendo uma existência menos dura à essas pessoas. Sem o melancolismo barato da filantropia burra, é ao mesmo tempo dar uma noite menos fria e úmida à pessoas desenganadas, e golpear gente que nunca se deu conta que são tão humanos quanto os mendigos.

homeless2.jpgAs barracas parecem mais agressivas do que os caixotes de papelão em que eles se efiam para dormir. É um produto criado para a classe média desfrutar de suas horas não trabalhadas, em lazer e diversão. Todavia, quando disposta em linha reta, lembram acampamentos de campanhas. É impossível não se incomodar com a visão de centenas de estruturas ovais idênticas alinhadas uma à outra no meio da rua. É menos agressivo do que os restos de papelão e lixão inerente a imagem dos mendigos. Mas não deixa de incomodar o fato de saber que agora os moradores de rua podem ter mais conforto e uma existência mais duradoura. Talvez o lixo em que viviam antes não deixasse-nos lembrar que li havia um ser humano, tal como nós.

FUR1M8PF0VQ3G98.MEDIUM.jpgBem mais barata é a Shell House living portable. pela bagatela de US$ 35,00 e feita de papelão, é a saída menos pesada e mais barata. Dobrável, pode ser levada para qualquer lugar nas costas. O único problema é a durabilidade, que não aguenta uma noite de chuva paulistana. E ela vem com wifii. Pode ser uma brincadeira de mal gosto gastar dinheiro no projeto para incorporar esse conforto, mas é a prova de que basta pensar e agir para que mudanças acontençam no mundo.
E minha mente que não para já começou a visualizar milhões de barracas nas noites das ruas tristes de São Paulo, com o símbolo de algo enígmático estampada na lona. Noite a noite o número de barracas crescendo, ultrapassando os limites do centro, e chegando a lugares asséptico como Higienópolis, Itains, Jardins...

janeiro 15, 2009

Um 129 aqui, um 121 ali...

Sinceramente, a coisa que mais me faz falta é conversar com pessoas iguais ao meu amigo aí embaixo, que respondeu à nossa pesquisa sobre liberdade de expressão com um bom humor filho da puta. Um tipo de riso que só se encontra dentro das delegacias, do lado de cá do balcão de atendimento. Como se a descgraça alheia não fosse motivo para se descontrolar. O mundo é uma merda, e eu sou a mais fedorenta, porque limpo o mundo.

Mas tenho uma arma e um distintivo dado pelo estado. E só. Meu salário sou eu quem faço. A algema, comprei com meu dinheiro, se não ia ter que levar o vagabundo pra jaula amarrado com o cordão do tênis. Valeu pela sinceridade, camarada.

Confira o testemunho do polícia. Só publicado porque ele autorizou. Aproveite para responder também:


Você trabalha no local que sempre desejou na polícia?
Resposta: SIM

Se a resposta foi sim, diga como conseguiu trabalhar no local que hoje ocupa?
Resposta: Entrei na polícia em 1975,

Minha primeira Delegacia foi a da Rua Aricanduva 69, (Ainda não havia o viaduto) mas havia na porta a linha da máquina,O Meu delegado de plantão era o Doutor Sequeira...O Delegado Seccioanal era o Doutor Zenon Baptista Sitrângulo, (Aquele da gravatinha borboleta) gente fina. não roubava...O chefe dos tiras eu não lembro do nome, como muitos colegas também não sabem ou não se lembram do meu nome, mas o fato é que as vezes o apelido e é comum na polícia o apelido se sobrepor ao nome, sei que o chefe era o Índio, chefe do 10 (Décimo), como eu sou conhecido como Ligeirinho. Nomes não vem ao caso, pelo menos não neste em especial, sei que pastei mais que vaca magra pra chegar aonde estou hoje, com 34 anos de srvç prestados no Degran, aonde o chefe era o Laerte São Bernardo.

Fui removido por falta de pessoal para o Derin e fui para a praia na delegacia da linha um, numa avenida chamada Nossa Senhora de Fátima, numa delegacia conhecida como fazendinha, o chefe era o Delegado José Ararari Dias de Mello, o "Arapa". e o investigador chefe da sub chefia, sim, isso mesmo era sub chefia, pois a chefia era na sede do Deral, AV.São Francisco 136, era o Rui Manoel Pereira Sampaio Seabra, assessorado pelo Sebastião Carlos Zanelli e o chefe da fazendinha era o Berther Botana Recart, ali se fazia polícia...Ruas de terra,

Catava-se informações nas esquinas nos butequins, dava-se uma notinha (pequena) pelas dicas e ia se indo....Claro que a chefia repunha tudo os gastos de rua...saia do 15/30.Fui para o DOPS, trabalhei na Delegacia de Ordem Política e Social, com o chefe Norberto Eurico Radec, com os Delegados, Edsel Magnotti, Eduardo Nardi, Alcides Singilo,Luiz Walter Longo, Dr. H.T. (Hélio Tavares)...e outros que me fogem da memória...

Dos tiras me reservo o direito de não cita-los, mesmo porque todos tínhamos outros nomes e outras carteiras...não vem ao caso no momento,dai fui em 1983 com a extinção do Dops, para o terceiro D.P., na Rua Aurora 322, corri tudo quanto que é lado, Norte, Sul, Leste & Oeste, ainda moro na praia, ainda tô na ativa e quem sabe dentro de mais 17 anos, chego a classe especial...Nesta Polícia, já vi (quase) de tudo...menos democracia...Já assinei bronca, mas nada difamante...um 129 aqui, um 121 ali, um desacato acolá....uma 4898 , mas absolvido em todos e ainda de quebra consegui tirar a todas as minhas licenças prêmios, só falta agora umas três férias que foram denegados por absoluta necessidade de serviço, na década de 80...

Eu tenho a publicação do recorte do D.O."

dezembro 13, 2008

Afetada Capitu

Não sei o motivo de tanto auê para deixarem claro, de uma vez por toda, que os advogados têm acesso ao inquérito policial dos clientes.

Será que nunca ouviram falar do prontuário? Ele é a cópia integral do IP que fica guardado na delegacia. As principais peças do procedimento investigativo não vão para o corpo do IP assim, rapidamente. O IP que os advogado têm acesso é aquele que o delegado permite ver. O resto do material, o qual pode realmente ter importância na condenação do malaco, fica escondido no armário do escrivão, até que sua publicização tenha algum interesse. Interesse este, ressalto, normalmente financeiro. Desta forma, pouco importa a concretização do direito do advogado ao acesso integral ao inquérito policial. O que importa, mesmo, é saber todos os passos da polícia. Mas como concretizar essa fiscalização, sem colocar em jogo a persecução criminal?

Quanto ao resto do expediente, quero dizer que o Luis Fernando Carvalho errou a mão na mini-série Capitu. Um teatro afetado e exagerado. Tenho lido muita gente rendendo elogios gratuitos. Meu único se dá à ousadia de buscar linguagens distantes do corriqueiro. Mas no caso de "Capitu', esse passo além despencou em um teatro ruim, com atores insuficientes. Pobre tv pública brasileira.

A coisa emperra, porque não é nova. Um livro como Dom Casmurro é infilmável, tenho pra mim. Brás Cubas, do Júlio Bressane, foi o que mais pŕoximo esteve o cinema nacional das palavras do Bruxo do Cosme Velho. Boa comparação. Será o surrealismo o único diálogo possível com Machado?

Quando se poderá novamente assistir, em opção à medíocre novelas das oito, obras como "Faust" (1.993 - à direita), do maluco Jan Svankmajer? Ou mesmo os telefilmes do Kieslowski, como foi ver, durante uma semana em uma TV National/preto branco, os dez episódio do "O decálogo". A pancada na orelha foi tão forte, que grande parte do que penso hoje em dia se deve ao que vi na TV na infância e adolescência.

Não tô jogando a responsabilidade de minhas incompetências na mídia brasileira, mas acho que "Capitu" poderia ser melhor, se houvesse menos teatro ruim. Aliás, eu primeiro considerei a possibilidade da obra do Luís Fernando Carvalho estar próximo do fime Faust, acima. Mas sinceramente, tá muito, muito parecido mesmo com o clipe da música tema "Elephant Gun" do Beirut, a única coisa que toca na série da Globo. Valeu pela noite mal dormida.

dezembro 7, 2008

Fale conosco

O que acontece com o mundo, quando a coisa mais interessante a se ver são posts antigos de um blog perdido?

Não recomendo ninguém a ter um blog. Depois da paixão, fica o risco de se ver obrigado a encarar, mês a mês, o plano teórico de uma vida.

Cinema dos sonhos

A última boa surpresa com o cinema foi "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Drive - 2001), de David Lynch. Com um incrível atraso de quase sete anos, conheci esse filme, com o espanto de como tivesse a mesma idade de sete anos atrás. Se eu sentisse essa sensação de encantamento ao menos uma vez por mês, tenham certeza, breves leitores, que esse blog seria menos amargurado.

Vocês se lembram qual foi o último filme que lhes fez sair do cinema com orgulho de pertencer a raça humana? Eu também não. Tudo muito preguiçoso, ou muito pretensioso. Não encontro mais o desafio ao telespectador, que o coloca de frente com conflitos de percepção, e o obriga a reorganizar mentalmente o que está vendo, a fim de compreender o mínimo da trama.

Insisto. Mesmo quem não dá a mínima para a fantasia freudiana de um mundo pré-ordenado no caos do sub-inconsciente, a fita vale pela experiência única de uma genial aula de narração e montagem.

mulhollanddrive.jpgOk. Confesso que o tempo que carregamos nas costas nas costas nos deixa mais exigente. Mas não quero acreditar que sou o único cara na face da terra que tá pouco se fodendo pra Flora da novela das oito. Os tempos são tão insanos que me flagro lendo sinopses destas porcarias de folhetins para não ficar sem assunto no almoço do escritório. Alíás, não esperem aqui que eu teça comentários sobre o filme de Lynch. Há pessoas na blogsfera que se dedica a isso com mais empenho e competência.

Em tempo: eu sempre fui contra cenas de sexo no cinema. Mas nesse caso, a tomada da transa entre as atrizes Laura Harring e Naomi Watts é essencial ao filme. Foi a única vez que constatei que, mesmo que elas não fossem duas delícias, a cena teria a mesma tensão.

setembro 29, 2008

São Paulo pra quem?

Alguém ontem ecoou a quintessência de São Paulo. É cidade dormitório de sonhos. Todos daqui são passageiros, que vieram de um interior tranquilo e esperam voltar pra algum lugar feliz. Nesse meio tempo são castigados com a maldição do trabalho. Porque trabalho é castigo, e São Paulo é seu sinônimo mais intenso.

A menina classe média da vila madalena passa pela marginal e vê a favela "que vida triste, meu Deus" - ela diz. Segue o caminhando. Tudo aqui aguarda algo melhor. As amizades são por conveniência. Eu deveria falar mais da polícia, mas sinceramente, o paulistano tem a polícia que merece.

Quando era moleque sonhei que havia morrido e sido mandado para o inferno. Um lugar com prédios altos, de ruas cheias de gente estranha andando sem rumo, e eu só podia dormir na rua. Eu não sabia onde ficava a rodoviária.

Cansado de gente sem coragem de compromisso, na defensiva para manter o lugar na baia mais perto da janela... já até pensei em ser sincero. Aqui não se ama. Se tolera.

O rapaz no topo do morro olha a moça de óculos escuros passando de carro na marginal: "caralho, que peitão!"

setembro 13, 2008

Transporte alternativo para São Paulo

O negócio pode ser calibrado para várias distâncias diferentes. Meu amigo Doni, por exemplo, não teria mais que se preocupar com os horários de ônibus para Embu. Em tempos de lei seca, seria uma saída interessante para aqueles que insistem em dirigir sobre efeito de entorpecentes. Fica a sugestão para que os prédios coloquem fitas adesivas gigantescas em suas paredes, para evitar que o catapultado quique e se esborrache no chão.

agosto 6, 2008

Um Marlboro em Pequim

Eu não vou para as olímpiadas. Não que me ocorresse ir. Afinal, alguém precisa ficar por aqui para manter a lei e a ordem.

O Ricardo, por exemplo, desde terça pasada (incluindo o final de semana), está debruçado sobre o chassi de um Vectra roxo, no pátio do DP. Ele havia abordado o veículo e descobriu que o seu dono era estelionatário. Achou estranho o fato dos documentos estarem em nome de uma mulher coreana, sem registro no cadastro de condutores.

E não é que o carro tinha mesmo rolo!

Ricardo descobriu que aquele carro era parte de um esquema que envolvia negócio de imóveis no litoral. Liberou o dono, com a promessa de que ele voltaria com o valor de dois carros iguais aquele. Ricardo agora passava os dias olhando a lataria, centímetro a centímetro, na tentativa de encontrar qualquer adulteração que onerasse ainda mais o preço do não indiciamento do dono do carro. Já havia feito buscas na PRODESP, no INFOSEG, no RDO, no DETRAN... nada de estranho com o carro... só com a coreana, que ainda não sabia se existia mesmo.

Sua única preocupação era como deixar o caso em silêncio, sem que outras equipes descobrissem a possibilidade de lucro que aquilo poderia oferecer. Se caísse nos ouvidos do delegado do DP, era prejuízo na certa. Ele iria ficar com pelo menos 80% das rendas. Eu ficava feliz em vê-lo entretido com tanto empenho naquilo. Assim, longe de mim, eu não precisava fingir que gostava de tirar grana de bandido, e sobrava tempo para jogar counter strike na minha sala do DP.

Mas na verdade, gostaria sim de ter ido para a China. Sentar na praça da liberdade, almoçar um macarrão engordurado acompanhado de carne de cachorro, e fumar um Marlboro branco enquanto caminhava por aquelas ruas estreitas.

junho 23, 2008

O cavalo

Era cinza, e de algum tio que morava na fazenda. Dormia na cocheira, diziam que não era domado. Eu andei com ele por estradas de terra, e me obedecia com presteza. Voltando pra casa, deixei ele dormindo na varanda. Dei água e comida. Outro tio apareceu:
- Se virem que você tirou esse bicho de lá, vão te bater.

Por precaução, amarrei-o no vaso de samambaias.

novembro 20, 2005

Das coisas que tenho que ouvir.

Na frente do restaurante, após almoçar, uma senhora mendiga sentada no chão em meio a seus trapos pedia dinheiro pra mim.

- Moço, me dá um dinheiro?
- Ih, minha senhora. Hoje to duro.
- Que delícia!

novembro 9, 2005

Plantão na Suécia.

Dupla de alces bêbados cerca idosos na Suécia

da BBC, em Londres

Um asilo para idosos na Suécia foi cercado por dois bêbados pouco comuns.
Uma dupla de alces se "embebedou" comendo maçãs fermentadas do lado de fora da casa em Sibbhult, no sul da Suécia.

A fêmea e seu filhote aparentemente gostaram tanto das frutas que a polícia não conseguiu espantá-los sem ajuda."

outubro 26, 2005

O mundo é sépio.

A Olívia está quase me convencendo de que tenho dificuldade para identificar tons de cores que se situam no espectro entre o verde - marrom - vermelho. Não que isso vá mudar a minha vida ao ponto de não me permitir a fazer coisas cotidianas, mas talvez eu fique mais atento quando for desarmar bombas com fios coloridos.

outubro 20, 2005

O bom cafajeste.

Não é que eu seja esquizofrênico, mas ocorre que as vezes o mundo fala sobre de mim:


"O cafajeste ou é sexy ou é risível. Não há outra saída para este animal, bem soube fazê-lo o velho e bom Ruy Guerra. Ou tem a manha ou torna-se caricato na primeira piscadela. Ou é Paulo Cesar Pereio ou apenas um ensaio de Didi Mocó Sonrisal. Didi é gênio, ora, mas é macaco de outro galho.

O cafajeste amador é uma piada. Quer comer todas as gostosas e a nenhuma se devota. Blefe. Não sabe, nem nunca procurou saber, que no amor e no sexo, não existe mensalão nem milagre. O cafa à vera não é nada óbvio. Sabe, inclusive, que nem só de gostosas vive o homem. É capaz de devotar-se àquela mulher que ninguém dá nada por ela. E de repente descobre que trata-se de uma foda sem precedentes, um vulcão nunca dantes despertado para as artes da alcova.

Para o cafa de verdade, não há feiúra muito menos boniteza. O cafa amador parece vestir-se sob encomenda de uma figurinista. Camisa aberta, corrente, malandragem-fake, essas coisas.

E sempre um pé no metrossexualismo ou na tendência. No cafa sexy, qualquer peça lhe cai bem, pois a ciência da sua pegada está no olho e no drinque caubói, claro. O cafajeste sexy entra no saloon e não atira para todo lado. Não gasta balas à toa. Sempre escolhe um alvo. O caricato e amador gasta as balas do colt até com as mulheres dos amigos, embora não tenha arma para matar sequer uma formiga. O falso cafa é "garganta". Comendo ou não comendo, diz que comeu e espalha a lenda.

Seu caminhãozinho não perde a viagem... Mas areia que é bom de verdade... O cafajeste sexy é discreto. Acredita sobretudo, e caso a caso, na arte da conquista, na devoção pura e simples. Nem que seja por uma noite apenas e nada mais. Diante dele, toda mulher se sente uma deusa,uma Vênus. O canalha amador faz falsas promessas.

O cafa sexy, predador evoluído, sabe que a fêmea moderna pode muito bem estar querendo _estarei gozando, como diria uma profissa do telemarketing!!!_ apenas foder. O cafa caricato se acha. O cafa sexy sabe que hoje está por cima e amanha pode muito bem estar por baixo _mas que seja, pelo menos, de uma bela buceta, claro. No catecismo do cafa sexy, não há nojinhos nem proibições. O amador é asséptico e limpinho.

O cafa sexy enfrenta e atravessa lindamente os mares vermelhos da menstruação da fêmea com vigor. Quando enfia os dedos numa buceta, o cs _cafa-sexy_ passa o dia sem lavar as mãos. Para ficar lembrando ali o tempo todo. Ta numa reunião de trabalho, mas sempre com os dedos a tocar levemente a napa; ta na fila, e os dedos a tocar a napa; ta na missa e não pára de fazer o sinal da cruz... Melhor ainda: o cafa sexy quando se arrisca na cozinha é mestre em comidas sem nenhum requinte e com muita pimenta e alho. Haja alho. Aí, como na receita no meu amigo Joca Reiners Terron, passa o dia com a mão direita cheirando a buceta e a esquerda cheirando a alho.

São realmente os dois melhores cheiros que um homem pode usufruir na face da terra. O cafa sexy, senhores, se pudesse, voltava para o útero por dentro da buceta da mulher mais linda da cidade, como na crônica do amor louco de Bukowsky.

O amador se contenta, muitas vezes, com uma foda virtual no Messenger. Sem cheiros, sem odores, nada visceral.

Ele ainda não sabe que para curar um amor platônico é preciso uma bela trepada homérica."

outubro 15, 2005

Paciência é uma de minhas virtudes.

Sábado à tarde, os dois pelados na cama:
- O que você quer fazer? - perguntei.
- Hmm...sexo!
- De novo?

outubro 4, 2005

Oh, more. Never more.

Quando Othelo casou-se com Desdêmona, Foi enviado à uma guerra nada anêmona. Foi uma penona. Nunca mandou carta nem telefonemoma.

(Silêncio. Sobem as luzes da bambolina vagarosamente. Um miame beat no teclado yamaha começa a percorrer o palco. Othelo bate a bengala na cartola e sai, assobiando seu epitáfio.)

outubro 3, 2005

Prostitutas do México matam 5 clientes ao dopá-los com colírio.

CIDADE DO MÉXICO (Reuters) - Seis prostitutas da Cidade do México foram detidas sob a acusação de usarem um colírio que provoca sono a fim de roubar seus clientes, disse um jornal na segunda-feira. O uso da substância acabou matando cinco homens.

Um bairro da região central da capital registrou 17 casos neste ano, incluindo as cinco mortes provocadas pela ingestão da substância ciclopentolato -- um relaxante muscular usado em exames de olho para dilatar a pupila.

"Depois que eles entram no hotel, parece que a substância é colocada na bebida do cliente. Segundo nossas informações, elas estão usando um tipo de colírio", afirmou ao jornal El Universal o promotor Fernando Lopez.

A mistura do colírio com o álcool pode ser fatal para pessoas com certos tipos de problema cardíaco, dizem os especialistas.

Um homem de 39 anos que sobreviveu ao golpe e acordou dopado e sem a carteira disse que vigiou seu copo o tempo todo. Mas acabou ingerindo a droga depois de a prostituta tê-la colocado, sem ele perceber, nos mamilos .

setembro 24, 2005

tô foda...

Se eu fosse algum rei, fosse teu senhor, eu proclamava a tua boca um reinado meu o teu corpo nu, meu santuário.

Se eu fosse algum rei, teu Imperador. Eu ordenava teu coração a gostar do meu. Cada dia teu meu calendário

Inventava canções de rei, conquistava o teu amor, desobedeceria a lei, revelava quem eu sou.

Te mostrava que só eu sei onde tudo começou. Inventando canções de rei pra enfeitar o nosso amor.

Madrugatina

É preciso parecer.

setembro 20, 2005

Enxofre e carbonato.

Hoje vi morrer um homem. Não simplesmente morrer. Eu vi ele morrer assim, olhando para mim profundamente. Queria saber se todas as mortes são iguais. Na mesa do IML ou jogado em meio a poças de sangue no chão, todos tem o mesmo cheiro e de mim ganham a mesma indiferença.

Num curtume abandonado aqui da cidade existe uma galeria subterrânea onde despejavam resíduos tóxicos. Após seis anos, resolveram reativar a fábrica e limpar a galeria. Colocaram uma bomba de sucção lá dentro e então sugavam o caldo de veneno que estava guardado há tanto tempo. Em certo momento a bomba entopiu, um dos funcionários entrou para arrumar. Não voltou.

Outro entrou para ajudar o amigo. Também ficou. Mais um desceu e não voltou.

Quando cheguei, um bombeiro gordo vestido como astronauta, de máscara, macacão e oxigênio, subia as escadas da galeria com dois operários pintados com uma borra fedorenta e cinza nos ombros e os despejou ao meu lado. Tive dó daquelas massas cinzentas que lembravam homens. Mais dó pela pancada que ambos receberam na cabeça por causa da queda ao solo. Barulho de coco sem água. Quis lavar a boca de um deles com uma mangueira que estava ali, depois que vi o caldo cinza escoar pelas fuças do infeliz.

- Esquece, Steve...esse aí zerou. - PMs gostam de nos chamar de Steve - Os dois aqui estão zerados. Vou descer lá pra ver se tem alguem que nao deu óbito.

E foi mesmo. O prmeiro homem corajoso que vi na vida, mas acho que ele não se deu conta da minha admiração. Trouxe um pelos mesmos ombros e pôs ao meu lado. O outro PM que aguardava na viatura aproximou-se com o tubo de oxigênio, pediu para eu segurar a máscara com o gás na cara do imundo.

Enquanto jogava a água no rosto do rapaz pude notar que seu corpo gelado dava espasmos periódicos com a parte de baixo do ventre. Os olhos ja estavam secos e gelatinosos como eu nunca tinha visto. Parecia que seus pulmões queriam aspirar algo maior que seu nariz. Puxava com insistência. Sei lá porquê, resolvi abri os olhos dele como se fazia com os duelistas mortos nos filmes de bangue-bangue. Ele não a mexia a pupila nem qualquer outra parte que mostrasse vida.

Deveria estar me sentindo um inútil neste instante, já que abri o tubo de oxigênio para permitir que mais gás saisse pela mangueirinha. O carinha piscou os olhos e o preto do globo branco girou em minha direção. Olhou-me de maneira desesperada, talvez se perguntando quem era eu. Respirou, respirou, respirou...e parou.

- Esse aí também zerou, Steve. Esse aí também zerou.

Não tinha ninguém ali por perto com isqueiro para eu acender meu cigarro.

setembro 17, 2005

Cultcoolfreak.

Com a cara que ficou parece panfletário demais. Não sei como tocar nesse assunto sem parecer líder classita. Sei lá como a banca vai receber isso, a turma do Direito sempre tão reacionária...fora as exceções típicas de toda tribo, a turminha de sandalia e roupa indiana. Deu trabalho, poucos advogados escrevem sobre as leis de incentivo... e nenhum do alto clero. E me arrisquei a escrecer um TCC sem citações de Pontes de Miranda, Nelson Nery, Miguel Reale e essa patota toda.

Comecei o mestrado com o pé esquerdo. Mas estou feliz, sim, com o resultado do trabalho. Ficou claro que não tenho o perfil de aluno de Direito, apesar de amar o mundo da construção e aplicação das Leis. Direito é um filosofia aplicada, tal qual uma engenharia das ciências sociais. Não serve de nada, além de garantir o ganho da causa. Não é instrumento de luta política, não a aplicação. Para isso servem os legisladores, que nada tem haver com os fóruns abarrotados de processos. Tampouco é instrumento de transformação social.

É legal, sem trocadilhos infames. Bem visto pelas menininhas, vão te chamar de doutor, vai andar de terninho para lá e para cá, posar de bacana. Heim? Que tal? Parece bom. Um jovem de futuro promissor!! Podem até lhe chamar para ser maçon! Se não fosse esse fúria que me corróe... dinheiro é tão bom. Pena que custa tão caro.

O melhor foi a epígrafe. Cultcoolfreak:

"- Qual é a matéria-prima da criação artística no cinema?

- De l'argent, monsieur. De l'argent.

Orson Welles, respondendo ao primeiro ministro da França, ao receber a medalha da Legion d´Honneur d'France, no início dos anos 80."

setembro 13, 2005

Copa

Janela Norte.

setembro 7, 2005

Introdução da Monografia

A minha família, em especial meus pais, Nilcenei e Natalino, pela dedicação e afeto ao ensinar e a paciência ao aprender.

Aos amigos da graduação, companheiros de amadurecimento, sucessos e frustrações ao longo dos últimos cinco anos.

A Olívia, incompreensível e sempre presente, sem ela esse trabalho não seria realizado com tanta paixão.

Ao mestre e orientador Dr. Elcio Trujillo, que mostrou a satisfação pela pesquisa e o prazer em descobrir novos caminhos.


"-- Como é que um homem afirma seu poder sobre o outro, Wiston?
Wiston refletiu.
-- Fazendo-o sofrer?
-- Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece a tua vontade e não a dele? O Poder reside em infligir dor e humilhação, despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se bem entender."

feriado

Aprendi a melhor piada da minha vida. A mais engraçada, que faz rir até o maior dos incrédulos. É de fazer chorar o padre...

Mas a casa está vazia e não tem ninguem mais para ouvir.

setembro 3, 2005

Nova delegacia.

Chave da porta da sala de casa, chave do portao de casa. Chave da tranca da bicicleta, chave da porta da cozinha; Chave da porta de delegacia, chave da porta da sala dos escrivães, chave da porta da sala da ciretran, chave da porta da sala do cofre, chave do cofre - Chave da sala de armas, chave da porta dos fundos da delegacia, chave da sala do delegado; Chave da sala da investigação, chave do vitrô da investigação, chave do banheiro da investigação. Chave da viatura opala, chave da copa, chave da algema.

agosto 6, 2005

Cabo Bressane.

Mamãe morreu quando eu tinha 7. Não que isso seja importante para o resto da história. Meu pai, Cabo da Polícia Miltar, nunca mais conseguiu um relacionamento duradouro com outra pessoa. Ganhei outros 5 irmãos de mulheres diferentes. Não conheci todas de maneira completa, era protegido do contato por papai, que evitava até mesmo falar em pessoas estranhas a nossa casa que insistiam em dela participar. Quando cheguei na idade de me interessar por cabelos cacheados das meninas da escola, dele só ouvia conselhos de como me manter seguro ante a malicia feminina.

Ele passou 33 anos correndo de mulher em mulher. Quase não parava em casa. A sua casa eram várias. Uma delas morreu e meu meio irmão que ela gerou sumiu com a avó. Desde então ele saia menos, poucas vezes, até que desistiu de sair senão para trabalhar. Os poucos amigos que no início acharam estranho sua reclusãoo deixaram em paz. Homem de decisões irredutíveis. Eu saí de casa querendo estudar em outra cidade. Fui e não voltei. Ele não telefonava, eu abandonei a fraca vontade de com ele manter contato. Até na sexta passada, quando recebi supreso seu telefonema me convidando para ser padrinho de seu novo casamento.

julho 8, 2005

O Cinema fala para meus olhos.

Eu deveria escrever uma monografia genial para a facudalde. Algo novo, revigorante, humano e revolucionário. Bullshit! (Óh, estou pedante que não me aguento, mas eu posso, acabei de ler Moby Dick em inglês, e mastigando a gastricidade hard-boiled de Dashiell Hammet pra saciar minha incompreensão da do jogo do monopólio da força, força esta que me delegaram, com uma PT, algema e g;ás pimenta) Só consegui lembrar daquilo que me afastou da faculdade de cinema:

Descobri que não sou artista, e que aliás, detesto-os eles todos, por todas redundâncias que a gramática consiga expressar. Só sou um técnico, apaixonado por calculadoras HPs, gráficos que trazem premonições futuristas e a exatidão racional, restrita, mas exata na medida das minhas necessidades de raciocínio. Sou um técnico pela intuição, que surge da minha formação moral (se é que tenho alguma), que aceita o incompreensível sem se assutar, afinal, tudo é parte de um plano maior.

Todo esse prelúdio para dizer que minha monografia de conclusão de curso está pronta, faltando concluir e preencher de graficos. O tema? "LEIS DE INCENTIVO A CULTURA, mercado, público e sociedade". Pouco de Direito, muito de sociologia, exageros de idealismo, para acreditar em um mundo no qual cada um pode ser aquilo que sempre quis, cineasta, ator, engenheiro ou advogado, quando bem desejar, em qualquer momento da vida. Liberdade sem oportunidade é mero abismo sem ponte.

E, claro, ainda voarei.

junho 16, 2005

Bronco, porém sensível.

Para não dizerem que sou um brutamontes irracional, as vezes escrevo sobre meus pequenos prazeres, que só no intimo de minha solidão posso saboreá-lo.

E nas horas vagas, e quase não as tenho, minhas respostas vagas...

maio 21, 2005

Processo 0456/2005 - tentativa de homicidio.

Durante uma audiência no fórum local, o garoto relatava a juiza que suas declarações na delegacia eram mentirosas, pois tudo o que ele havia dito fora feito sob coação, ou seja, o investigador Franchini havia levado ele para o mato para que falasse onde estava a arma de fogo (um revólver 38) com o qual tentara matar pessoa que não vem ao caso.

- O investigador Franchini levou o senhor para o mato?
- É...me levou.
- Pra que ele te levou pro mato.
- Ele me obrigou a assinar isso aí que ta escrito, é tudo mentira.
- Por que ele te levou para o mato?
- Não sei. Ele me fez assinar esse papel..
- O senhor leu o que estava escrito antes de assinar?
- Sim, li.
- Por que ele te levou para o mato? Ele te ameaçou?
- Não excelência. Ele só me levou pro mato.

(o oficial de justiça que acompanhava a audiência disse que, neste instante, uma pertubadora frustação preencheu a voz do garoto)

maio 17, 2005

Fim de curso...

Durante a aula de Direito autoral, o professor esforçava-se para tentar explicar sobre o sigilo de correspondência, exemplificando com o caso de um homem que, ao vasculhar o PC da esposa, encontrou mensagens que ela enviava para seu amante. Em uma delas, os adúteros combinaram um encontro secreto em determinado restaurante. O homem então antecipou-se ao casal e foi ao lugar. Chegando os pombinhos, o traído começou um quenra-quebra generalizado, acabando por terminar na delegacia. No final das contas, o marido foi processado por invadir o sigilo da corresponcia alheia.

Alheio estava eu a esta história que faria Nelson Rodrigues bocejar de tédio. Prossegue o professor: "e então, Roger. Como você atuaria nesse caso?"

- O senhor quer saber minha opinião de juiz, advogado ou de marido traído?- O professor, desembargador impossível de sorrir com a sutilieza do xiste, pensou que eu estava levando aquela conversa a sério.
- Como juiz, por favor.
- Bem, com a imparcialidade que me confere o ofício, só poderia opinar após a análise do processo. - um tom de gravidade preencheu sua face.
- E como marido traído?
- Aí dependeria da situação, de quem era a esposa e tal.
- E como advogado?
- A consulta são R$ 200,00.

maio 12, 2005

Ainda voarei.

Ainda voarei, tal qual ver por através de paredes para ver as meninas no banheiro. Sempre quis dormir 23 horas initerruptas e acordar sem culpa ou dores nas costas. Morrer só pra saber antes de todo mundo para onde vai a luz quando o escuro aparece.

Vejam vocês: preciso escrever uma monografia além de 70 páginas até outubro sobre tributação de fomento à industria audiovisual brasileira. Não acredito que exista indústria, fomento, audiovisual e Brasil. Meu orientador está satisfeito com minha maneira impassivel de escrever. Afinal, um ministro do Tribunal de Justiça de São Paulo deve ter coisas mais interessantes para ler à um punhado de linhas impregnadas de romantismo e sonhos.

Eu deveria ler mais coisas obscuras, sem perder a obssesão pelas palavras reluzentes e parnasianas. A ambição que me ajudou a apanhar tijolinhos pelo caminho é a mesma que uso para destruir o pouco que construo. Sempre quis viver 5000 anos para conduzir a humanidade ao um sintetizar de unidades em totalidades organizadas. Voar, manja? - (preciso ver mais a Olivia apertar os olhinhos olhando para o lado enquanto morde o canto dos labios, numa infinita definição de sossego). Há dias do mês em que acordo equinóide. Entre os dia 10 e 15.

Serei mudo um dia. Calarei aos poucos para não chamar demasiada atenção daqueles que percebem minha voz no cotidiano. Julio Bressane me mostrava seu "São Jerônimo", um absurdo de plasticidade. Cheio de perguntas entaladas, suspirei a ele como conseguia fazer-se entender pela equipe responsável pela realização de suas obras. Não imaginava como conseguia se explicar ao fotógrafo, ao captador de som, ao homem do boom, editor, enfim, aquela tropa de anônimos que esperam ansiosamente as orientaçào do diretor para poderem trabalhar em seus ofícios também mudo:

- Quer saber mesmo saber? O silêncio. O silêncio é o melhor do relacionamento. Só no silêncio nós somos realmente humanos. Esqueça esse negócio de linguistica e linguagem. Todo relacionamento só depende disso, compreensão mútua no silêncio.

Ele precisava dizer isso. E eu ouvir.

maio 8, 2005

Plantão de domingo

As vezes esse meu trabalho tem umas coisas interessantes:


maio 5, 2005

Segunda-feira, depois do almoço (café).

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Segunda, antes do almoço (linguiça).

abril 30, 2005

Pereira

- Pereira, seu cretino! Abre essa porra.- A voz grave de Melécio ainda o assutava, não somente no tom a ela imposta, mas também na impressão causada em seu corpo franzino, arrepiado. Abre, caralho! Até quando vai ficar aí? Já são dez e quarenta.

Melécio era seu companheiro no setor de carimbos da prefeitura. Vizinhos de mesa e cúmplices de almofada para tinta de carimbo. Iam juntos para a repartição pela manhã e, ao meio dia, trocavam vogais durante o almoço em fugazes exposições sobre o vencimento mirrado, qualidade da borracha dos carimbos, quantidade de comida nas marmitas, dentre outros assuntos que nem sequer eles mesmos se lembravam ao final do dia. Pereira não gostava de Melécio, eram poucas as pessoas pelas quais sentia algo, e Melécio o incomodava.

- Deixa de ser infantil, Pereira. A gente precisa conversar. Dividimos muita coisa nessa vida pra você fazer isso comigo. Não merecemos estar assim.

A inconveniência de Melécio era assutadora aos olhos de pessoa tão reservada feito Pereira. Achava-o inconveniente, pois tratava de seus problemas com a mesma facilidade com que pressionava seus instrumentos de trabalho sobre selos e papéis. Pereira chegou a considerar que estava sendo por demais ranzinza com outros quando sua esposa Lucia começou a reclamar de tédio comum. Pouco tempo depois, a mesma Lucia, antes desafiadora e insaciável em sua compulsiva vontade de gozar, tornara-se distante, inacessível. Pensou em matá-la quando a presenciou conversando no telefone: "é verdade que ando sem vontade para nada, mas gostaria de transar por horas e horas. É só me ligar, Melécio!"

Pereira não esperou Lucia se despedir de seu interlocutor para sair de casa. Por uma coincidência polar ártica, sua fuga aconteceu na noite em que chovia gelado naquela cidade insistentemente seca e de horizontes vermelhos. Sentia mais frio do que ódio, e já não sabia o que eram lágrimas e o que eram gotas de água em seu rosto.

Entrou no hotel de néon barato sem pensar em dormir há dois dias atrás. Comia na padaria próxima, comprava cigarros na banca de jornal logo em frente. Dois, quatro maços por vez.

- Pereira! Seu cusão. Pensa que vai ficar aí para sempre? Um dia vai sair, desgraçado. E estarei te esperando, tá me ouvindo? Filho da puta!

abril 28, 2005

Técnicas de entrevista e interrogatório.

Quando quiser conseguir obter informações de alguem por meio de questonamentos verbais, comece por conhecer antecipadamente sua entrevistada, sua origem, possiveis reações durante a entrevista, que devem ter propósitos definidos, controladas por quem a reliza.

1) - Não faça perguntas que tenham respostas diretas e monossilábicas - SIM/NÃO. Comece por utilizar um tema que desperte um ineteresse da interessada e que poderia leva-la a falar sobre o objetivo da entrevista, como por exemplo: "como faço para dar um beijo nesse boca linda?"

2) - Atenção ao vocabulário empregado e ao nível cultural e de informação da entrevistada. Quando no decorer do diálogo ela lhe disser que a etrutura maximizante da semântica da modernidde em Proust lhe deixa excitada, simplesmente balance a cabeça com entusiasmo e pergunte algo que reconduza ao seu propósito: "Seus olhos sempre brilham feito estrelas quando está excitada?"

3) - Maximize o fluxo de informações interessantes (tarefa de produção), trocando com a entrevistadas dados referentes ao tamanho da roupa intima que estão usando, inicio da vida sexual, frustações em antigos relacionamentos. Atente para a necessidade de sempre falar nesses assuntos com sorrateiros e acidentais toques em partes inocentes da entrevistada, tais como ombros, parte interna dos antebraços, coxas, etc.

4) - Certas entrevistas podem ocorrer em pé. Nesses casos, a postura adequada consiste em manter o corpo erguido, cabeça postada como prolongamento do corpo, pernas discretamente abertas, mantendo uma proeminência da pélvis à frente, em direção do corpo da entrevistada, para que ela possa, quando desejar, observar no entrevistado aquilo que realmente objetiva do resultado do envento.

5) - Evite preconceitos de cor, raça e credo, mas mantenha seu ódio aparente no que se refere a orientação sexual. Quanto a este último quesito, pode ser desconsiderado pelo agente provocador da entrevista caso a entrevistada lhe ofereça uma noitada na companhia de uma amiga nifomaníaca.

6) - As agressões verbais advindas da entrevistada durante o evento põe a prova a capacidade de autocontrole do entrevistador. Guarde seu repertório de palavrões para quando a mesma estiver em situação frágil, quase em delírio, sem esquecer, claro, dos leves tapinhas em seu bumbum.

Não será somente com estudos de doutrinas e técnicas que o agnte provocador da entrevista aprenderá a obter informações e favores de uma pessoa relutante, insegura, mentirosa ou tendente a menospreza-lo por não possuir carro do ano. É necessário que o interrogador aprimore seus sentidos, poder de persuasão e raciocínio lógico. Na maioria das vezes em que precisar se retirar. lembre-se: suma em meio a multidão e tente encontrar outra entrevistada que esteja desesperada em ceder as informações que precise. Tenha um bom dia.

abril 10, 2005

rocambulias

O amor é filme, eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama, eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manha fica. Da felicidade, da duvida, da dor de barriga. É drama, é aventura, é mentira, é comedia romântica.

Um belo dia a gente acorda e Hummmm...um filme passou por a gente, e parece que já se anunciou o episódio 2. É qdo a gente sente o amor se abuletar na gente, tudo acabou bem e agora é o que vem depois.

É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos, e o mundo todo vira nóis dois, dois corações bandidos. Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento , o zoom dá ré e sobem os creditos.

O amor é filme e Deus espectador!

abril 8, 2005

LAW AND ORDER

Talvez com o meu novo coldre axilar as pessoas me respeitem mais. Se eu conseguir convencer a D. Ana da padaria me dar uma esfirra de graça com ele, já me sinto feliz. Colocarei um espelho de 4x4 m na minha sala, perto do frigobar.

março 17, 2005

The Crime Day.

Tenho medo de dias assim. Quando sopra uma brisa geleda, o sol não acorda e a casa parece mais desarrumada que de costume. Preciso me segurar para não deixar a fúria tomar conta, e fluir a vontade de socar o queixo de alguem.

Daquele jeito gostoso, perfeitamente encaixado, ascendente como um missil certeiro. Agarrar o colarinho da camisa do infeliz com a esquerda, atravessar a fuça com a direita...o sangue chapiscando o ar, pulando da boca desgraçada.Tudo tão simples, quebrar-lhe o joelho enquanto ele olha em meus olhos, de mansinho, vagarosamente....o chefe chato, o parceiro inseguro, o cobrador do onibus que insiste em não em dar os cinco centavos de troco, o idiota que liga pra mimnha namorada a meia noite para perguntar com ela está, o professsor que diz que minha pergunta é inocente...

Um dia, somente um dia para extinguir-se a punibilidade e deixar extravasar o crime espontâneo. O amanhã é depois.

março 12, 2005

Vila do Cachorro

"Você não consegue dar uma resposta concreta?"

Quem começa o diálogo é Fabiana, inconformada com minha dificuldade de verbalizar o absurdo e, por isso, adorá-lo. Voz monocórdia que tende à melancolia quando está sozinha, possuía a face minuciosamente construída, reta quando necessária, abismal na medida do elogio. Não era gorda, tão pouco magra, tinha o corpo sincero e triste, doce e iluminado. Meu avô dizia para ter cuidado com as mulheres. Meu pai para beijá-las. Meu avo morreu de câncer, meu pai de esperá-las. Mesmo assim começamos a nos querer.

Mandei poemas que colava de vários poetas e os fazia serem meus. Conheci seus amigos e sua paixão pelo cinema dinamarquês. Aos poucos, queria viver para ela e fazê-la feliz. Chocólotra, por mais que reclamasse das calorias, eu ficava satisfeito quando via seus olhos brilharem ao receber meus bombons, em uma confusão de culpa e prazer. Tão cafona eu era. Tão desesperado por seu sorriso de desenho japonês. Preocupada com os rumos da política econômica do governo, fui a seminários e eventos que não entendia só para estar perto de seu cheiro de menina assustada.

"Vocês não tem nada a ver um com o outro e, mesmo assim, são apaixonados" - dizia Cristina, sua amiga.

"Ainda bem, nunca me relacionaria com alguém parecido comigo" -respondia, provocando profundas gargalhadas nas duas irmãzinhas.

Durante seis meses nos procurávamos incansavelmente. Depois, lembrávamos as baladas do Belle & Sebastian. Ocorreu-me de sua aparente tristeza. Tentei reconstruir, ligava, ela não estava, mandava e-mails, ela bloqueava. Como já conhecia aquele roteiro, sabia que a separação seria certa. Esfria naturalmente, por falta de tempo e dedicação. Consegui marcar para assistirmos o filme Dogville no sábado. Assistimos, em um angustioso silêncio. Depois da sessão fomos ao encontro de Cristina, combinamos nos divertir. Ainda no carro, com poucas palavras, Fabiana disse que não gostou do filme. Achou escuro.

"De iluminado já basta a vida".

Eu não deveria ter dito isso, foi o suficiente para que sua paciência a ajudasse despejar suas mágoas ocultas."Eu odeio a Nicole Kidman, prefiro as morenas" - e fez tal comentário com um pequenino sorriso no lábio superior -

"Ela fotografa bem".
"Você a acha bonita?"
"Eu me interesso pelas mulheres que desafiam, me descontroem"
"Eu te descontruo?" - outro silêncio com aqueles olhos que doíam feito agulhadas.
"Pense bem - tentei restituir a palavra - casas sem paredes. Que outra maneira de expressar o incômodo do contemporâneo diante da falta de barreira entre o público e o privado, principalmente num universo pequeno como Dogville, se não em um cenário explícito, com casas que parecem vitrines de lojas, expondo os dramas familiares do outro como se fossem meus . O que sinto não importa a ninguém, quer dizer, somente aqueles que são exageradamente cúmplices de minha vida. Não é necessário mais simplesmente 'ter", é preciso demonstrar para o público o que tenho ou sinto. Passou-se do "ter" para o "parecer". Devo ser bom marido, ter carro do ano, ter uma vida sexual ativa e sadia, bom emprego, ser legal, sair e me divertir como todos fazem, caso contrário não me aloco socialmente. Por mais que pareça ser livre, essa ilusão de liberdade causa um mal-estar porque preciso ser eterna mudança, estar preparados para as mudanças. E, se razoar, é humanamente impossível atingir todos esses objetivos. Vive-se de aguardar um momento melhor. Um momento melhor para vencer, amar, encontrar a pessoa certa. A fragmentação da subjetividade do indivíduo por falta de ideologias para perseguir traz uma violência embutida nos relacionamentos, seja nas pequenas e singelas agressões diárias, atitudes autodestrutivas que ..."
"Como você é chato! Tudo o que me diz e escreve parece ser plágio. É difícil ser comum para você? Assistir novelas, jogar futebol, fazer o que todos fazem? Isso me cansa..."

Ponto final. Acho que acabamos aí. Emudeci para o resto da noite. Encontramos Cristina com seu amigo, que depois soube ser namorado. Nos afastamos, não nos ligamos. Depois, pelos amigos, fui informado que nesta história eu era o terceiro. Fabiana era apaixonada por Cristina. Tentou comigo para esquecer sua amiga, a qual achava aquele sentimento sujo e anormal. Enquanto estávamos juntos, Fabiana queria viver com ela, casar ou algo assim. Cristina arrumou um amigo, que depois virou seu namorado. Fabiana, no dia em que Cristina anunciava seu noivado com o moço, rasgou à facadas seus próprios pulsos como se descascasse um mamão papaia.

Meu avo morreu gelado. Meu pai, impaciente. Fabiana Não morreu. E nunca mais a vi.
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Cheiro de Amoníaco...

(...) Sertãozinho estava quente como de costume. Uma cidade imóvel, triste de pesar. Minhas idas aquele lugar eram poucas e rápidas - cada esquina me espreitava, rostos conhecidos que fingiam me ignorar. Mulheres que amei, professores que riram de minhas histórias sem finais felizes...depois que meus pais morreram, nunca mais tive motivos para querer voltar. Apenas algumas vezes quando um QRU começado em Ribeirão terminava em Sertãozinho. Como agora era.

Minha arma suava no coldre atrás de minha cintura. A ponto quarenta é um excelente equipamento, alto poder de impacto, derruba no ato imediato após o encontro com a massa corporal. No interior do corpo, explode como um pequeno míssil, sem transpassar (pelo menos, assim reza a lenda). Arma urbana, para ferir apenas o alvo desejado sem o risco de machucar ninguém que inocentemente esteja atrás do objetivo. Eu ainda não tinha uma cabrita, nunca pensei na hipótese de precisar de uma vela. Por enquanto essa era a única arma que eu possuía.

Deixei o carro distante dos barracos, debaixo de uma sombra fresca. Caminhei até o lugar fedendo esgoto e restos de comida onde morava a namorada de Filé. Ele já tinha combinado com o delegado para voltarmos juntos, minha presença era mera burocracia.

"Filé não tá. Foi na casa de uma amiga. O sr é o moço da polícia?" - Era uma jovem gorda, de cabelos crespos alisados por alguma coisa melada. Uma criança me olhava pela fresta da porta, imundamente nua. O cachorro dormia em seu pequenino colo tísico.

"Sim. Nós já conversamos."
"Ele me falou. Pediu para você esperar uns minutinhos"
"Onde ele está?"
"Foi entregar um bagulho na casa de uma amiga. Faz pouco tempo que está aqui e já arrumou esses cachos."

A moça sabia que o coração de filé não tinha exclusividade. Possuía várias amantes, uma mais viciada que a outra. Nesse mundo, amar significa proteção, garantia de vida com um mínimo de recursos. E pareciam não se importar em dividir . Poderiam aceitar aquilo por não conhecer o carinho terno e descompromissado. Ou por saberem que a rejeição dói menos que a solidão que os acometeriam, já que amar e pezar são sentimentos gêmeos; um é o medo de sermos estranho aos iguais, para tanto, nos tornamos parte deles. O outro é o medo de sermos iguais, por isso nos distanciamos.

Minha paciência não era mais forte que o calor que estava sentindo. Pedi o telefone de Filé.
"O dele não tá recebendo chamada, mas se o sr. quiser eu tenho o da casa da moça. Dá uma ligadinha lá." - Trouxe de dentro do barraco escuro um pedaço de folha de caderno com um número rabiscado. - "Toma, pode ligar. Já deve ter chegado lá. Mas ele vai achar ruim. Filé é tão fogoso, espera uns deiz minutos e liga."

Coincidências podem ser curiosas. Ou trágicas. Os filmes americanos parecem impossíveis de serem realizados sem os fatos que surgem e se encaixam aleatoriamente para ajudar o enredo. Tudo parece ter motivo pré-estabelecido; sempre se descobre algo inimaginável de maneira acidental, o amor distante que aparece em situações improváveis, o encontro casual. Será catastrófico os fatos apenas irem acontecendo e os personagens se manifestarem pelas suas atitudes diante do corriqueiro?
Essas lembranças surgiram quando tomei consciência (após entender a péssima caligrafia da mulata) de que o telefone da atual namorada de filé era o mesmo número da casa da Cláudia. A moça deve ter percebido que algo de errado acontecera comigo.
"O sr. conhece ela?"
"Ela?"
"A Cráudia. Deve conhecer, na polícia todo mundo sabe quem usa pedra, não é? Eu não, tô sossegada com minha cervejinha, meus filhos..."
"A Cláudia usa crack?"
"Crack? Claro. Vive ligando aqui. Ela que vende pras patis do centro. Qualquer dia ainda vô dar uns esporros nela, onde já se viu. Tá certo que o Filé é gostoso, mas porra, que falta de respeito."

Cláudia usa crack. Cláudia viciada em crack. Cláudia namorando com Filé? "A senhora já viu como ela é fisicamente?"

"Não, mas sei que mora no Jardim Azaléia".

A minha Cláudia estava envolvida com essa sujeira. Dessa vez, chorei por dentro. Pela mesma que me fez chorar a primeira. O calor desapareceu, a favela sumiu, a gorda feia, seu cachorro magro e seu filho fedido não existiam mais. Meu queixo tremia, segurei a única lágrima que pensou em despencar.

O carro era difícil de controlar, o mecanismo do cambio endureceu como ferro fundido. O pedal do freio não estava lá, a embreagem não funcionava, o acelerador estava sem pressão, mole como o asfalto. Tudo era estranho, menos a casa de Cláudia.

Do mesmo modo, o portão alto cor de madeira nobre, o muro rachado , verde. Quando Cláudia esquecia a chave, dávamos a volta pela rua de trás, com a qual sua casa fazia fundos. O muro não era tão alto, pulávamos e depois era só atravessar um pequeno pomar para chegar até a casa. Fiz o trajeto com as lembranças de todas as vezes que entramos por lá amargando minha boca, inúmeras, bêbados, enfurecidos com alguma atitude que o outro fazia. Era a primeira vez em 4 anos que nos veríamos. Não me ocorreu a hipótese de estar enganado.

A porta da cozinha, como de costume, estava entreaberta. Parei silenciosamente para ouvir os murmúrios que saiam do final do corredor. Caminhei pequeno, alto entre as paredes. Do quarto de Cláudia, reconheci sua voz. Parecia grunhir sons vazios, intermitentes. Uma voz masculina surgiu. Ninguém que morasse ali seria dono dela. Uma risada de homem, diferente da primeira voz. -"anda logo, vaca".

Uma brisa ardida golpeou meu nariz. Era crack. Cheiro forte, amoniacado. No beiral da porta, ouvia o homem repetir: -"vamo, vai logo que não acabou, depois você fuma mais."

Ao olhar minha mão, uma mancha prateada apontava para a frente. Não lembrara quando havia sacado a arma. Estava lá, leve, destravada.

Suavemente coloquei-me por inteiro na moldura da porta do quarto para observar aquele quadro chocante de cores barrocas: Três pessoas nuas. Cláudia sentada na cama, tinha uma marica enfiada na boca e um isqueiro na mão. Os olhos serrados foram se abrindo diafragmamente. Pode ter me visto, mas não esboçou a atitude esperada por mim. Filé, também na cama, estava quase em seu colo e sentado a sua frente. Outro homem (?), um negro desconhecido, em pé, preparando carreiras de farinha na cômoda ao lado.

O meu primeiro tiro ensurdeceu por causa da reverberação do estampido. Eu ainda estava no corredor de paredes próximas. O projétil atravessou o ambiente e atingiu Filé no topo da nuca. Vi seu sangue tingir Cláudia de um roxo profundo deixando seu cabelo melado como o da negra gorda do barraco. Ela gritava sem sons. Sua boca abria em exagero.

Ela empurrou o corpo pastoso de Filé que havia caído sobre si com a ogiriza que sabia ter de baratas e bichos alados, minúsculos. Meu segundo tiro acertou a testa de Cláudia; desta vez pude ouvir o som metálico da cápsula tilintar no chão. Ví quando suas orelhas cuspiram sangue e pedaços de carne mole saltarem para os lados. O terceiro tiro só ouvi. O preto da farinha na cômoda acertara meu peito.
Achava que a dor seria pior. Algo insuportável. Veio a decepção. Minha garganta saturou de um líquido quente. Uma clarão de luz atordoou meu equilíbrio e caí.

Antes do preto fugir, tomou minha arma que a mão fraca já não mais conseguia segurar. Pude ver seus olhos de mais perto. Eram saltados, talvez pelo efeito do pó; tinha cílios compridos e um lábio enorme. Tive azar dele não me matar neste momento; preferiu correr.

Esperei deitado o segredo da noite eterna se revelar, finalmente. Não tinha forças para ver o estado de Cláudia. Cheguei a agradecer a atitude do preto fujão; eu mesmo não teria coragem de resolver essa situação assim. E me pareceu ser a mais coerente. O tom do vermelho na minha camiseta branca era mais forte do que aquele que escorria pelo chão. Seria difícil reproduzir com fidelidade na película uma paleta para isto. Talvez mel com groselha, água para dissolver. Transparente demais, precisaria de algo celeste. Tem cheiro de carne de frango. Salsicha...será simples morrer? Que pena, sempre esperei epifanias, cordões de prata saindo de meu corpo. Por enquanto é só uma moleza gostosa. Imaginei quantos irão ao meu velório. Talvez meus pais...preciso vê-los com mais frequência... com quantas mulheres eu teria transado? Patrícia na zona, Andréia, Cláudia, Manuela, Amanda...com seis ou sete garotas até hoje. Será impossível localiza-las. Poderia levantar-me e ligar para alguém, para pedir ajuda ou convidar para meu enterro.

O celular no bolso incomodava. Peguei sem saber para quem ligar. Chamou duas vezes - :" tô morrendo, levei tiro...tô na casa da Cláudia. Casa da Cláudia". Lucas, o investigador, ficou desesperado. Meu dedo parecia feito de pano, visto que não consegui desligar o telefone. Pude ouvir o desespero de Lucas na linha. Pedia-me calma.

Agora parecia ser definitivo. O fole esfaziou-se. A festa acabou. Não vieram anjos, nem diabos. Parece que nunca vou morrer. Sou eterno como o tempo. Tudo era regido por uma batuta estranha, sem cadência. Quando nascemos, não sabemos o que é tempo. Único e fungível. Depois vemos que o sol se põe frequencialmente compassado. Fica noite, fica dia. Tomamos esse pêndulo binário como parâmetro único. A sensação de movimento corrobora nossa expectativa cotidiana.

Vital deve ter chegado a essa conclusão quando questionou o tempo da narrativa. Por que devemos sempre ter o mesmo ritmo, se a mensagem possui várias espécies de linguagens? Tempo, espaço e lugar não caminham tão juntos assim, mas como isso aplica-se fora da obra de arte, até então estática? Seria o cinema apenas um teatro filmado?

Tive que parar de pensar sobre isso devido uma intensa dor que sobreveio. Estava leve e agradável; satisfeito, pois sabia que o fim seria breve. Ouvi vozes doces, aveludadas, pude voar.

Quando acordei já estava na Santa Casa; dois tiros no peito e um pulmão perfurado. Morreram Cláudia, Filé e o preto, que depois soube chamar-se Tigudum. Este último não fora eu, e sim a PM, quando o encontrou pelado e armado, escondido dentro de uma casa vizinha.

Fui afastado da polícia por tempo indeterminado até que fosse apurado o que realmente acontecera. Procedimento comum em casos assim. Matei a Cláudia. Eu nunca vou morrer.

"Sinto por Filé ter matado sua ex-namorada." - era meu delegado avisando como a situação ficou resolvida.

janeiro 14, 2005

Do tópico: Adoro meu emprego!

Paulo apareceu aqui querendo autorização de transporte de arma de fogo, pra entregar voluntariamente a arma que tinha em casa. Enquanto eu digitava a autorização, ele disse que previu o tsunami e que sabia que o foguete brasileiro iria explodir.

Diante desses comentarios aleatórios dele, resolvi ir buscar a arma pessoalmente em sua casa. Um homem desses armado por aí não seria legal.

"Deus escolheu cinco pessoas para terem visão: Eu, o Ratinho, a Ana Maria Braga e outas dua que não conheço. Minha piscina fez onde sem vento, avisei pro sargento mas ele não fez conta, que muita gente ia morrer no mar. Que ia ter enchente sem chuva, mas ninguem emd eu bola. Tentei ligar pra Ana Maria Braga pra avisá-la, mas não deu certo. Tentei mandar fax pro Ratinho, mas ele não me retornou..."

Na casa do maluco, uma caixa de marimbondos na porta. Um deles me picou na sobrancelha e meu olho ficou igual de japones. Fora a dor pelo corpo todo. Ele ria...ria deliciosamente.

" - Você não previu isso?
- Tem coisas que a pessoa precisa passar na vida."

Creio que não estávamos falando da mesma coisa.