Um Marlboro em Pequim
Eu não vou para as olímpiadas. Não que me ocorresse ir. Afinal, alguém precisa ficar por aqui para manter a lei e a ordem.
O Ricardo, por exemplo, desde terça pasada (incluindo o final de semana), está debruçado sobre o chassi de um Vectra roxo, no pátio do DP. Ele havia abordado o veículo e descobriu que o seu dono era estelionatário. Achou estranho o fato dos documentos estarem em nome de uma mulher coreana, sem registro no cadastro de condutores.
E não é que o carro tinha mesmo rolo!
Ricardo descobriu que aquele carro era parte de um esquema que envolvia negócio de imóveis no litoral. Liberou o dono, com a promessa de que ele voltaria com o valor de dois carros iguais aquele. Ricardo agora passava os dias olhando a lataria, centímetro a centímetro, na tentativa de encontrar qualquer adulteração que onerasse ainda mais o preço do não indiciamento do dono do carro. Já havia feito buscas na PRODESP, no INFOSEG, no RDO, no DETRAN... nada de estranho com o carro... só com a coreana, que ainda não sabia se existia mesmo.
Sua única preocupação era como deixar o caso em silêncio, sem que outras equipes descobrissem a possibilidade de lucro que aquilo poderia oferecer. Se caísse nos ouvidos do delegado do DP, era prejuízo na certa. Ele iria ficar com pelo menos 80% das rendas. Eu ficava feliz em vê-lo entretido com tanto empenho naquilo. Assim, longe de mim, eu não precisava fingir que gostava de tirar grana de bandido, e sobrava tempo para jogar counter strike na minha sala do DP.
Mas na verdade, gostaria sim de ter ido para a China. Sentar na praça da liberdade, almoçar um macarrão engordurado acompanhado de carne de cachorro, e fumar um Marlboro branco enquanto caminhava por aquelas ruas estreitas.