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junho 22, 2008

Delegado confessa torturas na ditadura

Recomendo a leitura da matéria de capa dessa semana na "Carta Capital". O delegado de Presidente Prudente, Dirceu Gravina, assume que sente culpa dos excessos e cometidos em sua época de investigador, no DOI-Codi. Mas o mea culpa foi em vão. Como bom policial que se vê às vésperas de ser investigado, optou pela rotina: assumir que sua conduta não foi solitária, e os superiores estão envolvidos. Dessa forma, amarra seu rabo com o rabo de políticos poderosos, de forma que, para salvarem e isentarem quem determinou a ação vergonhosa, inevitavelmente terão que salvar o rabo do delegado.


7342_delegado_fleury.jpgA prática do excesso de violência é o berço do sistema de segurança pública atual, e dela indissociável. Duvido que surja alguém com coragem o suficiente de dizer o que fez nos porões da ditadura, sem se importar com a política de compadrismo, que a todos protegem. Fleury (foto à esquerda) foi assassinado, mas morreu em paz e impune. Será essa a única forma de justiça que possa existir para punir torturadores? A verdadeira condenação deveria ser obra de juristas, e não de historiadores. Qual o medo de se apontar quem matou em nome do estado de execeção? As duas partes envolvidas erraram, vergonhosamente. Seja a classe média asséptica, que pegou em armas, alheia a miséria do povo brasileiro, ou a elite militar, fazendo o jogo do geografia política americana da época. Não importa dizer quem errou mais, mas sim, o que se deve fazer para evitar erros infantis como aqueles.

É por isso que cada vez mais sinto vergonha desse país.

março 23, 2008

O monopólio do umbigo

Acho que todos que se dedicam a escrever um blog já passaram por isso. Sabe aquela sensação de asco a esse pessoal pseudo-amador de internet? Que inventa uma vida interessante na frente do computador, com amores, orgasmos sucesso e dinheiro. Pois é.

Cansei desse blog, e cansei de escrever. Antes era para mim, mas comecei a me preocupar quando minha presença aqui estava sendo cobrada demasiadamente. Tenho coisa melhor para fazer. Talvez volte esporadicamente, quando precisar. Mas quando eu precisar, só eu. E não quero mais ouvir falar em delegacias! A partir de hoje só entrarei em uma para registrar um boletim de ocorrência caso roubem meu rolex. Atendo em outro endereço comercial.

Enquanto isso, devo dizer que a melhor coisa da internet são os amigos que fazemos fora dela, e como ela nos aproxima daqueles que valem a pena estarmos perto. Além de achados maravilhosos, como o último CD dos espetáculos "Romeu e Julieta e Rua da Amargura" do Grupo Galpão, de 1994, que comprei no submarino.

Tinha que ser isso para fechar a melhor semana da minha vida.


Deixo um tostão da minha voz para vocês:

"Lisbon Revisited (1923)

"Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas só tenho técnica dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direto a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo. ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?
Queriam o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes a todos a vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem pelo braço!
Não gosto que me peguem pelo braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"

fevereiro 14, 2008

Novas regras para celulares não são retroativas

Ontem entrou em vigor o Regulamento do Serviço Móvel Pessoal. Fiquei animado com a notícia, porque entre outras novidades há a possiblidade de desbloqueio do aparelho celular, a suspensão do plano por até 180 dias e um atendimento com mais eficiência do que o prestado hoje em dia pelas operadoras.

Mas não se enganem. Acabei de entrar em contato com a ANATEL e fui informado de que o regulamento não é retroativo. Ou seja, só valem para os aparelhos adquiridos e contratos assinados depois de 13/02/2008. Parece que a imprensa não sabe disso.

Portanto, todos os clientes pós-pagos da empresa CLARO que compraram seus celulares até ontem ainda estão sujeitos às regras antigas, que os obriga a ficar 15 meses com o mesmo plano e proibidos de desbloquear o aparelho. Paciência.

fevereiro 12, 2008

Polícia Civil e clientelismo

Por Jorge Zaverucha, resenha citada pelo Emanuel Lopes, do Coragem e Transparência:

"Zaverucha evidencia, baseado em informações da imprensa e entrevistas, como a interferência política orienta o trabalho policial; a nomeação de delegados, ou o afastamento destes; o arquivamento de um inquérito policial, ou a omissão na sua construção; o envolvimento de policiais na política eleitoral; a troca favores policiais em troca de votos; e o controle político do sindicato dos policiais civis por um único partido político por uma década. Tudo isso reflete como a polícia contribui para reforçar o Estado clientelista brasileiro."

Há tempo.

fevereiro 7, 2008

Dimenstein: Mortes suspeitas em São Paulo

Quem disse foi o Gilberto Dimenstein, na Folha de São Paulo (07/02/2008):

"[...]enquanto não se informar com clareza sobre essa questão, vamos ter que suspeitar que fomos enganados pelos números de segurança dos governos Alckmin e Serra."

janeiro 30, 2008

Armani na PC-SP

De acordo com a notícia veiculada no jornal nacional de ontem, 29/01/2008, e disponível em seu site, no no Terra Notícias e no G1 alguns policiais do DIRD se rebelaram diante de mais uma história esquisita da PC-SP.

O episódio, para quem acabou de chegar, é o seguinte: alguns polciais que trabalham no DIRD serão obrigados a usar ternos, com todo mundo gostaria que seus policiais usassem, para ficarem bonitinhos como os policiais da televisão. Já que não se tem salário digno, pelos menos deve-se parecer que pertence à mesma classe social daqueles que a polícia civil atente. Para mim isso sempre teve a mesma conotação daqueles uniformes que a classe média sempre quis que as suas empregadas domésticas usassem durante o trabalho, as patroas não se lembrarem de qual camada social essas trabalhadoras vinham.

Pela qualidade dos ternos, me faz lembrar aqueles evangélicos que andam com a bíblia debaixo do braço.

Os policiais foram até lá, pegaram seus terninhos, mas se assustaram quando ficaram sabendo que deveriam assinar um recibo de entrega no valor de R$ 300,00, pois achavam que o terno não valeria nem a metade disso.

Suspeita comprovada! Na mesma loja em que o delegado responsável pelas compras, o diretor do DIRD Pedro Herbella, que também já foi delegado corregedor, o terno é vendido por R$ 143,00. Algum tira insatisfeito denunciou, todo mundo ficou sabendo.

O que mais me chamou a atenção nesta história não foi o ainda não provado superfaturamento, porque isso não é novidade dentro da polícia civil de São Paulo. O que me surpreendeu foi o fato destas denúncias terem partido de policiais do próprio DIRD. O policial deste departamento, breve leitor, é um cara privilegiado, que chegou até lá por meio de contatos políticos e amizades de indicação.

Dentro dos quadros da PC-SP, sua vida é bem mais salubre do que o infeliz DECAPiano que faz plantão nos distritos. É um sonho de consumo para aqueles que querem ter tempo de estudar e ter uma vida produtiva sem se perder na loucura da burrice da nossa segurança pública. O que levaria esse policial a colocar sua cabeça em risco por algo tão corriqueiro?

Suspeito que seja algo muito caro a administração da polícia civil paulista: dignidade! Sim, são muitos o que estão insatisfeitos com a chorda de compadres que comanda essa instituição desde que ela foi fundada, e que os governo PSDB cultivou e manteve ao longo desta última década. Eles, mas do que ninguém, sabem quem exatamente são os responsáveis por toda essa imundicie. Mas por motivos mais imundos ainda, todos estão em seus devidos lugares. O cara que hoje está na corregedoria é o mesmo que, caso faça algo que desagrade o governo, será mandado para o plantão de amanhã, para trabalhar ao lado de quem ele investigava. É esse nosso poder de vigilância sobre os erros da PC. O atual direitor do DIRD, suspeito do superfaturamento, foi diretor da corregedoria durante anos. E trabalhou certinho, como o governo desejou, para ter saído de lá e não tomar uma ripa para o DECAP, trabalhar em distritos.

meus parabéns a todos os policiais do DIRD responsáveis por essa corajosa atitude. Não tenham medo de dizer nas sombras. A imprensa está aí para chupar o sangue de quem pisa fora da linha da legalidade. Só quem já fez parte deste pesadelo que é a polícia civil de São Paulo é que sabe o quanto a palavra vale uma vida. Continuem com a exposição da nossa podridão. Só assim é que restarão aqueles que acreditam que segurança pública é possível de ser feita sem tomar dinheiro de ninguém.

O começo de do fim deste tipo de policial é esse: denúncias. Todos querem ouvir o que guarda os porões da polícia civil de São Paulo.

janeiro 22, 2008

Questão de ordem

O Dr. Roberto Guerra, do genial Blog Flit Paralisante, lembrou-nos e sempre deixa como cartão de visita o comando legal do DECRETO Nº 1.171, DE 22 DE JUNHO DE 1994, o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal, que serve de exemplo a toda a legislação do ramo no Brasil (ignorem a Lei Ogânica da Polícia Civil Paulista, repleta de más intenções e vícios ditatoriais)

"Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação."

Essa é a oração que deveria ser ensinada em toda academia de polícia no Brasil.

janeiro 18, 2008

Crime de opinião na polícia

Quando a sociedade civil toma conhecimento do tipo de legislação a que os funcionários públicos devem responder, acontecem coisas ótimas. Neste momento, está ocorrendo um movimento para revogar o art. 242, I e VI, que torna crime a conduta do servidor público que:

I - referir -se depreciativamente, em informação, parecer ou despacho, ou pela imprensa, ou qualquer meio de divulgação, às autoridades constituídas e aos atos da Administração, podendo, porém, em trabalho devidamente assinado, apreciá-los sob o aspecto doutrinário e da organização e eficiência do serviço;[...]

VI - promover manifestações de apreço ou desapreço dentro da repartição, ou tornar -se solidário com elas;

Se o leitor for um cidadão comum, CLTista, deve estar achando que esta Lei é letra morta. Quem nos dera. Ela é a lei orgânica dos funcionários públicos civis de São Paulo, e até hoje a administração utiliza-se destes artigos para coibir os servidores que estão descontentes com o tratamento, e aqueles que ameaçam trazer essas incoerências isso a público.

Esse movimento, não era de se espantar, não começou nas polícias. Teve início com os professores, classe disciplinarmente sindicalizada e consciente de seus direitos como cidadãos. Felizmente, de quebra, a polícia ganhará com isso também. A lei orgânica das polícias do estado de São Paulo, especificamente, traz em seu artigo 62 a seguinte aberração:

"XXIV _ referir-se de modo depreciativo às autoridades e a atos da Administração
Pública, qualquer que seja o meio empregado para esse fim;"

A ONG Ação Educativa, notando que havia um esvaziamento do movimento sindical dos professores devido ao medo que os profissionais tinham de enfrentar essa lei, organizou um abaixo-assinado para propôr um projeto de lei que revogasse o artigo acima da LOFP-SP. No dia 13/12/2007, o deputado Roberto Felício (PT), apresentou o projeto, com a seguinte justificativa:

"Pasmem! há no Estatuto do Servidor Público do Estado de São Paulo dispositivo que é utilizado costumeiramente para intimidar o servidor público estadual. Este dispositivo, o inciso I do artigo 242 da Lei 10.261/68 afirma que o servidor público não pode se manifestar na imprensa ou em qualquer outro órgão de comunicação, "depreciativamente" às "autoridades constituídas" ou "aos atos da Administração".

Ora, este estatuto, já ancião, foi produzido quando no Brasil estava em vigor o regime de exceção, inaugurado com o Golpe Militar de 1964. Já, naqueles idos tempos, era inaceitável que uma lei se preocupasse em silenciar o servidor público, mas, nos nossos dias, quando vivemos em um verdadeiro estado democrático de direito, isso é intolerável.ditadura1.jpg

O pior é que as autoridades públicas que gerem os serviços públicos usam costumeiramente este artigo para intimidar os servidores públicos que, ainda que assim não o desejem, acabem por se manifestar na imprensa, especialmente quando estes são entrevistados e revelam as mazelas pelas quais passam os serviços públicos e os servidores de nosso Estado. Finalmente, cumpre que se diga que a manutenção deste inciso do artigo 242 do estatuto em questão fere a ordem constitucional vigente, uma vez que a Constituição Federal em seu artigo 5º, garante a liberdade de expressão de todo cidadão brasileiro, inclusive, óbvio, os servidores públicos estaduais."

O projeto está me pauta na assembléia, mas dificilmente será votado, devido a tropa de choque que o governo mantém a sua disposição. O celebrado jurista Dalmo Dallari já expôs as maneiras que o servidor público que sofre investigação de sua corregedoria neste artigo deve fazer para se livrar de problemas: Mandado de Segurança, devido a completa não recepção do diploma com a atual Constituição Federal, significando um atentado ao pacífico liberdade de expressão do indivíduo. Ele comenta que o ideal seria a impetração de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade por parte dos sindicatos das categorias, mas desde a promulgação da CF, nenhum sindicalista se mexeu, sabe-se lá o motivo.

Nem a administração pública pode se sobressair a isso. E Dallari, em entrevista ao site da Ação Educativa, afirma:

"A lei que trata do funcionalismo público civil no Estado de São Paulo é uma regra proibitiva, muito rigorosa, criada em 1968 e que contém elementos que nem o estatuto federal tem". Ele cita o artigo 242 desse texto, que institui que o funcionário público não pode "referir-se depreciativamente (...) pela imprensa (...) às autoridades constituídas e aos atos administrativos".

Por ser um claro exemplo de crime de opinião, um delito político, no caso de nenhuma das ferramentas jurídicas indicadas por Dallari der certo, o policial pode pedir um asilo político para outro país, já que este tipo de perseguição é um dos motivos que dá origem ao asilo.

Bem, fica a lição para aos políciais. O mundo não se restringe as delegacias. O Direito é muito maior do que a vontade de seu superior, colega.