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março 29, 2009

Ponto Quarenta na Rádio Bandeirantes

Marcelo Duarte e Roger FranchiniPassei a semana toda achando que a Rádio Bandeirantes (90,9 em SP) e a Band FM (69,9 em SP) eram a mesma rádio. Só descobri a diferença na última hora, quando o logotipo do estúdio indicava que não se tratavam da mesma empresa.

Fui convidado pelo jornalista Marcelo Duarte para bater um papo sobre o livro "Ponto Quarenta" no sábado, 28/03/2009, no programa "Você é curioso?". O estúdio estava montado dentro da Expo center norte, em uma feira de construção civil chamada Feicom. Foi uma conversa bacana, e a equipe era super símpática. Mais uma vez, o resultado da minha voz de pato não me agradou, mas o conteúdo da entrevista foi bem divertido. Ele quis saber pouco sobre o livro, as perguntas ficaram centradas no cotidiano da polícia civil paulista e seus problemas. Mas o resultado ficou divertido.

Espero que gostem. Já que tenho ficado ausente edsse espaço, esse post me deixará com um sentimento de culpa menor. O áudio está editado, somente com a parte da entrevista.

Divirtam-se

fevereiro 26, 2009

Ponto Quarenta - convite para o lançamento

flyer_cultcoolfreak

Até que enfim, a tão esperada quiabada. O boteco é confortável, cerveja barata e gente bacana. Se caso você tiver problemas com a polícia, recomendo que não apareça. A casa estará cheia de gente armada com vontade prender. Mas se tiver problemas, e mesmo assim quiser dar o ar da graça para ter o livro autografado, não se acanhe. Darei um jeito de arredondar o seu B.O. e passar um pano para meu querido leitor bandido.

Dia 04 de março (quarta-feira). À partir das 18h00, com entrada franca. R$ 16,00, lá na minha mão é mais barato. Policiais da corregedoria pagam mais caro e do DENARC levam de graça, para nunca deixarem de sorrir, já que o livro é uma homenagem à narcótica paulistana.

Corre lá, porque tá acabando. O Canto da Madalena é o melhor lugar para esse tipo de evento. Não pude agendar para uma quinta-feira, porque é dia de MPB. Mas é muito fácil de chegar:

Gostaria que todos os amigos da grande Blogsfera Policial estivessem lá. Seria ótimo conversar ao vivo com essa galera guerreira. Conto, então, com a presença dos paulistanos, nem que seja só para um abraço. O bom tira sabe voar e dar o gato no plantão. Qualqquer coisa, diga que foi buscar o QSA na pizzaria.

Até lá.

fevereiro 15, 2009

Leia no volume máximo

Insistimos no projeto do podcast, para você se divertir com minha voz de pato. A música que ouvem ao fundo é de uma banda finlandesa chamada "Frozen silence". Eles disponibilizam todas as músicas de graça em seu site na Internet, e assim vão ganhando a vida com shows. É a Internet ensinando como se ganha a vida, esnobando as grandes gravadoras.

Por falar em esnobar as grandes, o livro "Ponto Quarenta - a Polícia Civil de São Paulo para leigos" vai de vento em popa. Para um livro que está circulando apenas de boca em boca, de delegacia em delegacia, as vendas não tem decepcionado. Temos recebido vários elogios vindos de blogueiros e também policiais, e blogueiros policiais. Aliás, vivem me perguntando se os polícia não se ofenderam com o livro. Eu sempre respondo: pelo contrário. Acho que a sensação do polícia honesto ao se ver retratado com tanta intimidade toca na individualidade de cada um. Pelos menos até agora não recebi nenhum comentário ofensivo sobre a obra. E se receber, será bem vindo. Tenho vendido muito mais para pessoas que me são estranhas do que para amigos. E isso me deixa mais contente, porque são leitores que chegaram ao livro na base da curiosidade, e não da camaradagem.

A experiência de se vender livros no esquema on demand é bem mais divertida do que com uma grande editora. Aqui eu tenho certeza de quem são meus leitores, onde moram, seus contatos e, principalmente, quantos livros foram realmente vendidos, coisa cara quando se trabalha com uma editora gigante. Faço de questão de enviar um pequeno e-mail a todos eles, agradecendo o interesse, e pedindo seus apontamentos sobre a obra. Diga-me quando uma grande editora possibilitaria isso ao autor.

E segue a política do bonde sem rumo na policia civil de São Paulo. Eu sempre alerto: a remoção compulsória é crime de abuso de direito, caro colega. Qualquer ato administrativo deve ser motivo, e seu único objetivo é o interesse público. Assim, se por um acaso sua chefia te mandou para outro canto do estado, ou mesmo para outro DP sem o mínimo de justificação, meta-lhe um mandado de segurança guela abaixo, e ainda receberá uma indenização por assédio moral. Não deixe isso barato, colega. Já há várias decisões judiciais nesse sentido, e seu caso não é o único. Aprenda: policial vendido só tem medo do judiciário.

fevereiro 14, 2009

Ponto Quarenta, a escritora e o investigador

romance policial

Saiu no Jornal da Tarde de hoje, no caderno "Curiocidade" uma matéria bem legal do Marcelo Duarte sobre nós. A íntegra, com foto, pode ser vista aqui.

Confesso que quando soube da intenção do jornal, fiquei temeroso. Afinal, minha experiência com a imprensa e as coisas que escrevo não são das melhores. Mas gostei do resultado. Conseguiram captar o espirito de nosso processo de criação, e a cara bem humorada que damos aos livros.

Agora aguardo a intimação que certamente ocorrerá, por usurpação de função pública, já que não ficou devidamente esclarecido que hoje sou advogado. Mas tá valendo. Já me vejo no novo depoimento:

- Mas doutor delegado, o jornalista sabia que hoje sou advogado, e dos bons.
- Mas lá tá escrito que você é investigador, porra! Aí não dá pra arredondar.
- Eu gostei do resultado. Apesar de dizer insistentemente ao repórter que não pertenço mais à gloriosa.
- Então põe cinquinha na minha mão, que você saí daqui como entrou, sem algemas. (risada fatal)

E o livro "Ponto Quarenta" tá vendendo como água no deserto. Já estamos na segunda edição. Para um livro que não teve nenhuma referência na mídia, eu diria que é um sucesso de vendas. Sendo mais otimista, quase um best seller. O que mais me chamou a atenção foi que a maioria dos compradores são pessoas de outros estados, gente que nunca tinha ouvido falar. Mandei para todos um e-mail pedindo seus apontamentos sobre a leitura. Não vou ficar rico com o livro, mas certamente farei ótimas amizades.

Desde ja, agradeço a todos pelo interesse na obra, e aguardo as opiniões.

Agora dá para ler o primeiro capítulo aqui. Mas nada se compara à história completa, que se amarra desde a primeira linha.

O lançamento continua marcado para o dia 05 de março, no Canto da Madalena. Quando nos aproximarmos da data, conclamarei os contribuintes de forma mais precisa. Divirtam-se:

"Romance policial - A escritora e o investigador

A história de Olívia Maia, 23 anos, e Roger Franchini, 31, renderia um romance. Ou melhor: um romance policial. Ele morava em Franca (SP), cursava a Faculdade de Direito e trabalhava como investigador da polícia. Ela fazia cursinho e encontrou no amigo virtual uma fonte inspiradora para escrever suas histórias policiais.

O relacionamento que começou pela internet foi transformado em casamento há dois anos e meio. Nesse período, Olívia já publicou dois livros policiais: O Desumano, em 2006, e Operação P2, em 2007. "Eu contava as minhas ideias e ia pedindo detalhes para ele", diz Olívia. "Muitos dos textos que escrevo no meu blog (www.verbeat.org/blogs/forsit) são coisas que ele me contou. Histórias que muita gente acha que saíram da minha imaginação." A paixão da escritora pelo tema começou quando ela ainda era criança. "Sempre gostei daquela literatura infanto-juvenil que tem algo de policial, principalmente Pedro Bandeira", explica Olívia. "Por isso, acabei indo também para esse lado."

O Desumano conta a história de um menino que está sendo acusado de matar a própria mãe. Operação P2 fala sobre a investigação da morte de um professor de jornalismo, envolvido com uma pesquisa sobre a ditadura militar. Olívia começou a escrever agora um livro que tem um personagem inspirado no marido. Ele será um investigador do interior que ajuda o personagem principal numa operação. "Roger é a minha referência... As pessoas pensam até que me casei por interesse", diverte-se a escritora.

Mas quem disse que Roger também não pede ajuda para a esposa? Ele lançou o livro Ponto Quarenta - A Polícia Civil para Leigos, que traz revelações do cotidiano da Polícia Civil pelos olhos de um investigador. "Ele só saiu por causa da Olívia", agradece. "Costumo dizer que escrevo boletins de ocorrência. Foi ela quem me apresentou todas as referências para escrever um romance policial." O lançamento do livro acontecerá no dia 5 de março, no Canto da Madalena, na Vila Madalena. Mas o livro já está à venda no endereço www.verbeat.org/blogs/cultcoolfreak/pontoquarenta. O livro O Desumano pode ser encontrado em qualquer livraria virtual, enquanto Operação P2 está à venda somente no site www.osviralata.com.br."

fevereiro 6, 2009

PONTO QUARENTA - O livro

Acabou de nascer. Foi um parto. Já tínhamos anunciado há muito tempo, e a coisa emperrou na burocracia, entre um processo administrativo aqui, um inquérito policial ali. Logo chegaremos na Corte Interamericana de Direitos Humanos
Acho que o título do livro é melhor do que todo o miolo. Não posso falar da capa, porque el_Rey fez outra de suas genialidades e bolou umas das mais legais que já vi para um romance policial. Aliás, foi a única cousa que restou de mim naquele lugar. Durante os cinco anos, fiquei 24h com essa quadrada enfiada na bunda, no bom sentido. Bocuda, era o nome da criança. Gritava alto sem rebolar.
O livro é um arremedo de pequenas histórias até a metade. Então, há um plot point que o obriga a seguir na linearidade da narrativa. Um assassinato logo na apresentação, para prender o leitor desatento. Um pouquinho de sexo depravado e infantil, palavrões, corrupção e humor inteligente. A fórmula perfeita para um romance policial de sucesso. Descobri que só sei escrever boletins de ocorrências.
Como sou gato escaldado na corregedoria, fiz um disclaimer logo na segunda página, bem didático, quase desenhado, para deixar bem claro que tudo não passa de uma fantasiosa ficção. Tenho certeza que alguns tiras safados e outros delegados lixos vão se identificar com algumas citações. Bem como todo policial honesto e sofredor da linha de frente pode se reconhecer em cada passo que o investigador protagonista dá.

Por via das dúvidas, negarei até desaparecerem comigo. Ficção, ficção, ficção. Ele iria sair pelo selo Vira-Latas, mas o editor disse que não está acostumado a receber ameaças de morte. Por isso tive que ancorá-lo aqui, na nossa casinha mesmo

Podem comprar clicando no botão abaixo. R$ 20,00 para receber no conforto da sua delegacia, em até absurdos 12 vezes (milagres do pagseguro), com entrega em carta registrada. Ou R$ 16,00 na minha mão. Diversão garantida para a família toda. Em um formatinho pocket, para caber nos autos do processo que virá. Fique a vontade para passear pela página de vendas.

Divirtam-se.


janeiro 15, 2009

Um 129 aqui, um 121 ali...

Sinceramente, a coisa que mais me faz falta é conversar com pessoas iguais ao meu amigo aí embaixo, que respondeu à nossa pesquisa sobre liberdade de expressão com um bom humor filho da puta. Um tipo de riso que só se encontra dentro das delegacias, do lado de cá do balcão de atendimento. Como se a descgraça alheia não fosse motivo para se descontrolar. O mundo é uma merda, e eu sou a mais fedorenta, porque limpo o mundo.

Mas tenho uma arma e um distintivo dado pelo estado. E só. Meu salário sou eu quem faço. A algema, comprei com meu dinheiro, se não ia ter que levar o vagabundo pra jaula amarrado com o cordão do tênis. Valeu pela sinceridade, camarada.

Confira o testemunho do polícia. Só publicado porque ele autorizou. Aproveite para responder também:


Você trabalha no local que sempre desejou na polícia?
Resposta: SIM

Se a resposta foi sim, diga como conseguiu trabalhar no local que hoje ocupa?
Resposta: Entrei na polícia em 1975,

Minha primeira Delegacia foi a da Rua Aricanduva 69, (Ainda não havia o viaduto) mas havia na porta a linha da máquina,O Meu delegado de plantão era o Doutor Sequeira...O Delegado Seccioanal era o Doutor Zenon Baptista Sitrângulo, (Aquele da gravatinha borboleta) gente fina. não roubava...O chefe dos tiras eu não lembro do nome, como muitos colegas também não sabem ou não se lembram do meu nome, mas o fato é que as vezes o apelido e é comum na polícia o apelido se sobrepor ao nome, sei que o chefe era o Índio, chefe do 10 (Décimo), como eu sou conhecido como Ligeirinho. Nomes não vem ao caso, pelo menos não neste em especial, sei que pastei mais que vaca magra pra chegar aonde estou hoje, com 34 anos de srvç prestados no Degran, aonde o chefe era o Laerte São Bernardo.

Fui removido por falta de pessoal para o Derin e fui para a praia na delegacia da linha um, numa avenida chamada Nossa Senhora de Fátima, numa delegacia conhecida como fazendinha, o chefe era o Delegado José Ararari Dias de Mello, o "Arapa". e o investigador chefe da sub chefia, sim, isso mesmo era sub chefia, pois a chefia era na sede do Deral, AV.São Francisco 136, era o Rui Manoel Pereira Sampaio Seabra, assessorado pelo Sebastião Carlos Zanelli e o chefe da fazendinha era o Berther Botana Recart, ali se fazia polícia...Ruas de terra,

Catava-se informações nas esquinas nos butequins, dava-se uma notinha (pequena) pelas dicas e ia se indo....Claro que a chefia repunha tudo os gastos de rua...saia do 15/30.Fui para o DOPS, trabalhei na Delegacia de Ordem Política e Social, com o chefe Norberto Eurico Radec, com os Delegados, Edsel Magnotti, Eduardo Nardi, Alcides Singilo,Luiz Walter Longo, Dr. H.T. (Hélio Tavares)...e outros que me fogem da memória...

Dos tiras me reservo o direito de não cita-los, mesmo porque todos tínhamos outros nomes e outras carteiras...não vem ao caso no momento,dai fui em 1983 com a extinção do Dops, para o terceiro D.P., na Rua Aurora 322, corri tudo quanto que é lado, Norte, Sul, Leste & Oeste, ainda moro na praia, ainda tô na ativa e quem sabe dentro de mais 17 anos, chego a classe especial...Nesta Polícia, já vi (quase) de tudo...menos democracia...Já assinei bronca, mas nada difamante...um 129 aqui, um 121 ali, um desacato acolá....uma 4898 , mas absolvido em todos e ainda de quebra consegui tirar a todas as minhas licenças prêmios, só falta agora umas três férias que foram denegados por absoluta necessidade de serviço, na década de 80...

Eu tenho a publicação do recorte do D.O."

setembro 13, 2008

Coming Soon


Já falei para vocês que sou formalmente um criminoso político? A corregedoria da Polícia Civil de São Paulo está me processando por ter emitido opiniões que, segundo eles, denegriram a imagem da instituição, do governador e meus superiores. A delegada que preside processo tinha pedido o arquivamento de todo o procedimento, desde a sindicância. Mas o então diretor da corregedoria foi contra, e agora a mesma delegada que não viu qualquer infração na minha conduta, é obrigada a me processar por ordem de seu superior. Ou seja, para segurar a cadeira comissionada qualquer injustiça é aplicada.

Todos os artigos da lei orgânica da polícia paulista referentes à crimes de opinião não foram recepcionados pela constituição federal de 1988. Confira e veja se tenho razão:


"SEÇÃO II
Das Transgressões Disciplinares

Artigo 63 - São transgressões disciplinares:
XXII - divulgar ou proporcionar a divulgação, sem autorização da autoridade competente, através da imprensa escrita, falada ou televisada, de fato ocorrido na repartição.
XXIII - promover manifestação contra atos da administração ou movimentos de apreço ou desapreço a qualquer autoridade;
XXIV - referir-se de modo depreciativo as autoridades e a atos da administração pública, qualquer que seja o meio empregado para esse fim;"

Não custa falar que tal aberração jurídica foi outorgada em 1.979, e é fruto do regime ditatorial que ainda envergonha a todos, e que o secretário de segurança que impôs tal agressão ao artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos foi o nada saudoso coronel Antonio Erasmo Dias.

O absurdo do processo é tão kafkaniano que o Aldo Galiano Júnior, então delegado direitor do DECAP, caiu do posto por ter proibido os delegados de darem entrevistas, de acordo com esta noticia do jornal "O estado de São Paulo". Ou seja, ele, ao aplicar os artigos da Lei Organica, se deu mal.

Será que algum policia civil já foi processado nesses termos? É vergonhoso para um país saber que ainda há instituições que se utilizam da opressão e da força coercitiva de forma ilegítima para impôr suas diretrizes políticas, e contrária aos princípios republicanos de democracia. Afinal, analisando minhas palavras apenas com o liame jurídco, são todas atípicas. A perseguição é puramente de interesse político. O debate não se debruça sobre leis, mas sobre as diretrizes de manutenção de poder.

Mas e essa é a capa do livro aí em cima. Ela é a medida exata de todo o que sonhei para uma capa de livro. Foto minha, e arte final do nosso grande Tiagón, mestre em transformar palavras soltas em imagens fortes. Será no formato pocket, ao estilo dos livros de banca de jornal da Penguim. Barato, chulo e simples, como cabe aos romances policiais.

Deve sair no final de mês, se tudo der certo. Não esperem nada demais. É uma historinha boba, para agradar quem quer diversão. Sem experimentações estéticas ou coisa parecida. Mas o legal é que um monte de delegado é preso no final. Ops!

Confiram no lançamento.

julho 24, 2008

PONTO QUARENTA


Minha arma suava no coldre atrás de minha cintura. A ponto quarenta é um excelente equipamento, alto poder de impacto, derruba no ato imediato após o encontro com a massa corporal. No interior do corpo, explode como um pequeno míssil, sem transpassar (pelo menos, assim reza a lenda).

Arma urbana, para ferir apenas o alvo desejado sem o risco de machucar ninguém que inocentemente esteja atrás do objetivo. Eu ainda não tinha uma cabrita, nunca pensei na hipótese de precisar de uma vela para jogar ao lado do bandido morto, e assim forjar uma cena de revidação de tiro. Por enquanto essa era a única arma que eu possuía.

A 9 mm, apesar de admirada, tinha o uso proibido. E polícia que a usava era tido como burro. Porque ela era transpassante, e furava tudo o que encontrava na frente. Nem bandido gostava de usá-la. A pessoa atingida pelo projétil de uma arma dessas demorava a cair. Mesmo que o tiro fosse no peito, o pulmão demorava a esvaziar, o que lhe dava alguns importantes segundos de vida para uma possível reação.

Deixei o carro distante dos barracos, debaixo de uma sombra fresca. Caminhei até o lugar fedorento onde esgoto e restos de comida moravam com a namorada de Filé, o traficante que eu precisava capturar.

Normalmente eu não iria sozinho cumprir mandados de prisão, mas Filé já havia combinado com o meu delegado para voltarmos juntos. O filha da puta era tão bom bandido, que sabia que ser preso era parte do jogo que sempre vencia.

O mala era um excelente informante de Ricardo. E por isso precisava de tratamento especial. O próprio Ricardo não poderia fazer a cana para não se desgastar com Filé, já que assim corria o risco de perder tamanha fonte de informação.

"Fica tranquilo, Vital. Já falamos com o Filé, e ele quer puxar essa bronca de boa. Não tem arma e não vai reagir. Pode ir com calma. Ele é tranqüilo. Paga pau de polícia. E você precisa começar a ter contato com esses lixos. São uns lixos, mas necessários".

Minha presença ali era mera burocracia.

"Filé não tá. Foi na casa de uma amiga. O sr é o moço da polícia?" - Era uma jovem gorda de cabelos crespos, alisados por alguma coisa melada. Na frente do barraco tido como casa de Filé. Uma criança me olhava pela fresta da porta, nua. O cachorro dormia em seu pequenino colo tísico.
"Sim. Nós já conversamos."
"Ele me falou".
"Onde ele está?"
"Foi entregar um bagulho na casa de uma amiga. Faz pouco tempo que está aqui e já arrumou esses cachos".

A moça sabia que o coração de filé não tinha exclusividade. Possuía várias amantes, uma mais viciada do que a outra. Em seu mundo de morte iminente, amar significa proteção, garantia de vida com um mínimo de recursos. E a mulher parecia não se importar em dividir.

Poderia aceitar aquilo por não conhecer o carinho terno e descompromissado. Ou por já saberem que a rejeição dói menos que a solidão que os acometeriam, já que amar e pesar são sentimentos gêmeos; um é o medo de sermos estranhos aos iguais, para tanto, nos tornamos parte deles. O outro é o medo de sermos iguais, por isso nos distanciamos.

Minha paciência não era mais forte que o calor que estava sentindo. Pedi o telefone de Filé.

"O dele não tá recebendo chamada, mas se o senhor. quiser eu tenho o da casa da moça. Dá uma ligadinha lá." - Trouxe de dentro do barraco escuro um pedaço de folha de caderno com um número rabiscado. - "Toma, pode ligar. Já deve ter chegado lá. Mas ele vai achar ruim. Filé é tão fogoso, espera uns dez minutos e liga."

Coincidências podem ser curiosas. Ou trágicas. Os filmes americanos parecem impossíveis de serem realizados sem os fatos que surgem e se encaixam aleatoriamente perfeitos para ajudar o enredo, num sincronismo mágico de histórias paralelas. Tudo parece ter motivo pré-estabelecido; sempre se descobre algo inimaginável de maneira acidental, o amor distante que aparece em situações improváveis, o encontro casual.

Serão catastrófico os fatos que apenas acontecem naturalmente, orientando os personagens a se manifestarem pelas suas atitudes diante do corriqueiro?

Essas lembranças surgiram quando tomei consciência (após entender a péssima caligrafia da mulata) de que o telefone da atual namorada de filé era o mesmo número da casa da Michelle, uma namorada que não via há dois anos. A moça deve ter percebido que algo de errado acontecera comigo.

"O sr. conhece ela?"
"Ela?"
"A Michelle. Deve conhecer, na polícia todo mundo sabe quem usa pedra, não é? Eu não, tô sossegada com minha cervejinha, meus filhos..."
"A Michelle usa crack?"
"Crack? Claro. Vive ligando aqui. Ela que vende pras patis. Qualquer dia ainda vô dar uns esporros nela. Onde já se viu? Tá certo que o Filé é gostoso mas, porra! Que falta de respeito."

Michelle usa crack. Michelle viciada em crack. Michelle namorando Filé?

"A senhora já viu como ela é fisicamente?"
"Não, mas sei que mora em Perdizes".

Michelle estava envolvida com essa sujeira? O calor desapareceu, a favela sumiu, a gorda feia, seu cachorro magro e seu filho fedido não existiam mais. Meu queixo tremia.

O carro era difícil de controlar, o mecanismo do cambio endureceu como ferro fundido. O pedal do freio não estava lá, a embreagem não funcionava, o acelerador estava sem pressão, mole como o asfalto quente. Tudo era estranho, menos a casa de Michelle.

Do mesmo modo, o portão alto cor de madeira nobre, o muro rachado, verde. Quando Michelle esquecia a chave, dávamos a volta pela rua de trás, com a qual sua casa fazia fundos. O muro não era tão alto, pulávamos e depois era só atravessar um pequeno pomar para chegar até a casa.

Fiz o mesmo trajeto com as lembranças de todas as vezes, inúmeras, bêbados, que entramos por lá, ora rindo, ora enfurecidos com alguma atitude que o outro fazia. Era a primeira vez em três anos que nos veríamos. Não me ocorreu a hipótese de estar enganado.

A porta da cozinha, como de costume, estava entreaberta. Parei silenciosamente para ouvir os murmúrios que saiam do final do corredor. Caminhei pequeno, alto entre as paredes. Do quarto de Michelle, reconheci sua voz de menina. Parecia grunhir sons vazios, intermitentes. E também uma voz masculina surgiu. Ninguém que morasse ali seria dono dela. Uma risada de homem, diferente da primeira voz. -"anda logo, vaca".

Uma brisa ardida golpeou meu nariz. Era crack. Cheiro forte, amoniacado. No beiral da porta, ouvia o homem repetir: -"vamo, vai logo que não acabou, depois você fuma mais."

Ao olhar minha mão, uma mancha prateada apontava para frente. Não lembrara quando havia sacado a arma. Estava lá, leve, destravada.

Coloquei-me por inteiro na moldura da porta do quarto para observar aquele quadro de cores barrocas: Três pessoas nuas. A primeira era Michelle, sentada na cama, tinha uma marica enfiada na boca e um isqueiro na mão. Os olhos serrados foram se abrindo diafragmamente. Pode ter me visto, mas não esboçou a atitude esperada por mim.

Filé, também pelado na cama, sentado a sua frente e de costas para mim. Outro homem só de cuecas, também preto, mas desconhecido, em pé, preparando carreiras de farinha na cômoda ao lado.

O meu primeiro tiro ensurdeceu por causa da reverberação do estampido. Eu ainda estava no corredor de paredes próximas. O projétil atravessou o ambiente e atingiu Filé no topo da nuca. Vi seu sangue tingir Michelle de um roxo profundo deixando seu cabelo melado como o da negra gorda do barraco. Ela gritava sem sons. Sua boca abria em exagero.

Ela empurrou o corpo pastoso de Filé que havia caído sobre si com a ojeriza que sabia ter de baratas e bichos alados, minúsculos. Meu segundo tiro acertou a testa de Michelle; desta vez pude ouvir o som metálico da cápsula tilintando no chão. Ví quando suas orelhas cuspiram sangue, e pedaços de carne mole saltarem para os lados.

O terceiro tiro só ouvi. O preto da farinha na cômoda acertara meu peito, disparando com uma arma que eu não percebera.

Sempre achei que a dor de um tiro seria pior. Algo insuportável. Mas veio a decepção. Minha garganta saturou-se de um líquido quente. Um clarão de luz atordoou meu equilíbrio e caí.

Antes do preto fugir, tomou minha arma que a mão fraca já não mais conseguia segurar. Pude ver seus olhos de mais perto. Eram saltados, talvez pelo efeito do pó; de cílios compridos e lábios enorme. Tive o azar dele não me matar neste momento; preferiu correr. Cusão.

Esperei deitado o segredo da noite eterna se revelar, finalmente.

Não tinha forças para ver o estado de Michelle. Cheguei a agradecer a atitude do preto fujão; eu mesmo não teria coragem de resolver essa situação assim. E me pareceu ser a mais coerente.

O tom do vermelho na minha camiseta branca era mais forte do que aquele que escorria pelo chão. Seria difícil reproduzir com fidelidade na película uma paleta para isto. Talvez mel com groselha, água para dissolver. Não! Transparente demais, precisaria de algo celeste. Tem cheiro de carne de frango. Salsicha...será simples assim morrer? Nunca deveria ter parado de fumar, se soubesse que morreria assim.

Que bosta. Esperava epifanias, cordões de prata saindo de meu corpo. Por enquanto é só uma moleza gostosa. Imaginei quantos irão ao meu velório. Talvez minha mãe...preciso vê-la com mais freqüência... com quantas mulheres eu teria transado? Patrícia na zona, Andréia, Manuela, Amanda, Michelle... seis ou sete garotas até hoje. Será impossível localizá-las. Poderia levantar-me e ligar para alguma delas, para pedir ajuda ou convidar para meu enterro.

O celular incomodava no bolso da minha calça. Peguei sem saber para quem ligar. Chamou duas vezes - :" tô morrendo, levei tiro...tô na casa da Michelle.". Edgard, o PM, ficou desesperado. Meu dedo parecia feito de pano, visto que não consegui desligar o telefone. Pude ouvir o desespero de Ed na linha. Pedia-me calma.

Agora parecia ser definitivo. O fole esvaziou-se. A festa acabou. Não vieram anjos, nem diabos. Parece que nunca vou morrer. Sou eterno como o tempo. Tudo era regido por uma batuta estranha, sem cadência. Quando nascemos, não sabemos o que é tempo. Único e fungível. Depois vemos que o sol se põe freqüencialmente compassado. Fica noite, fica dia. Tomamos esse pêndulo binário como parâmetro único. A sensação de movimento corrobora nossa expectativa cotidiana.

Queria ter feito um filme. Por que devemos sempre ter o mesmo ritmo, se a mensagem possui várias espécies de linguagens? Tempo, espaço e lugar não caminham tão juntos assim. Seria o cinema apenas um teatro filmado?

Só naquele momento não me envergonhava destas perguntas tolas. Perguntas de que fugi a minha vida toda. Todo mundo sabe tanto. Eu só preciso manter as ruas limpas para todos andarem tranqüilos.

Tive que parar de pensar sobre isso devido uma intensa dor que sobreveio. Estava sim, aguda e insuportável; satisfeito, pois sabia que o fim seria breve. Ouvi vozes, aveludadas, pude voar.

Quando acordei já estava na Santa Casa; dois tiros no peito e um pulmão perfurado. Morreram Michelle, Filé e o preto fujão, que depois soube chamar-se Tigudum. Este último não fora eu, e sim a PM, quando o encontrou pelado e armado, escondido dentro de uma casa vizinha. Pelo menos, assim estava no B.O.

Fui afastado da polícia por tempo indeterminado até que fosse apurado o que realmente acontecera. procedimento comum em casos assim. Matei a Michelle. Eu nunca vou morrer.

"Sinto por Filé ter matado sua ex-namorada.

Era meu delegado avisando como a situação ficou resolvida.

maio 30, 2005

Finalmente resolvi jogar o tal

Finalmente resolvi jogar o tal do paciencia spider. Jogo estranho, mas o campeonato desse jogo na delegacia não me deixava pensar em outra coisa. No plantão de domingo, comecei com um naipe apenas. tantas fileiras, tantas fileiras...

O telefone toca, era o cabo Freitas da PM:
- Franchini, a tropa ta precisando de você lá na Vila Chora Neném.
- Pra que? - quem sabe não desanimava o soldado a desistir de minha presença na operação realizada por eles...
- Eles querem entrar na casa do Tigudum.
- É droga? Flagrante?
- Não. O Tigudum bateu no soldado Edgard. Você acha que eles podem entrar?

Entrar na casa de alguem sem flagrante? Apenas por vaidade de um policial? Perigoso. No mínimo eles esperavam que eu aprovasse a idéia, e sei lá, deferir uma espécie de Mandado de Busca e Espancamento. Acabei por ir, afinal, a gente nunca sabe de quando vamos precisar de uma tropa armada e furiosa para nos ajudar. E o Edgard era um amigo, dos bons.

Quatro viaturas na favela. Três corsas e uma Blaser. Não gosto das Blasers...são grande, bonitas, mas capotavam facilmente em qualquer manobra mais ousada. Corsas eram pequenas, e não causam impacto na chegada da abordagem. O bom mesmo era a Ipanema. Robusta, de arranque poderoso e motor baruhento. 12 policiais olhavem-me com ansiedade - e aí, Franchini...vamos entrar?

- Deixa pra lá, Edgard...olha a sua volta, tá cheio de gente olhando. Acalma esse coração, uma hora o tatu sai da toca, na madrugada...e aí, serão só vocês e ele - Eu deveria ser pastor evangélico. Os policiais se recolheram, as viaturas foram embora. Eu voltei pro spider. Perdi três partidas seguidas.

Na madrugada, aparecem a PM trazendo o Tigudum algemado para a Delegacia. - Aê, Franchini, bem que você falou...o filho da puta tá aqui. Após longa sessão de argumentaçõ ostensiva, o Tigudum desculpou-se pelas agressões cometidads contra o Edgard, saiu agradecendo-o pelo tratamento "não sei onde estava com minha cabeça, foi mal, Ed"

Quem sabe se eu começar a me preocupar com uma só fileira por vez. Assim fica mais facil começar do rei, para a rainha, valete...mas esse maldito nove que nunca aparece!!

abril 30, 2005

Pereira

- Pereira, seu cretino! Abre essa porra.- A voz grave de Melécio ainda o assutava, não somente no tom a ela imposta, mas também na impressão causada em seu corpo franzino, arrepiado. Abre, caralho! Até quando vai ficar aí? Já são dez e quarenta.

Melécio era seu companheiro no setor de carimbos da prefeitura. Vizinhos de mesa e cúmplices de almofada para tinta de carimbo. Iam juntos para a repartição pela manhã e, ao meio dia, trocavam vogais durante o almoço em fugazes exposições sobre o vencimento mirrado, qualidade da borracha dos carimbos, quantidade de comida nas marmitas, dentre outros assuntos que nem sequer eles mesmos se lembravam ao final do dia. Pereira não gostava de Melécio, eram poucas as pessoas pelas quais sentia algo, e Melécio o incomodava.

- Deixa de ser infantil, Pereira. A gente precisa conversar. Dividimos muita coisa nessa vida pra você fazer isso comigo. Não merecemos estar assim.

A inconveniência de Melécio era assutadora aos olhos de pessoa tão reservada feito Pereira. Achava-o inconveniente, pois tratava de seus problemas com a mesma facilidade com que pressionava seus instrumentos de trabalho sobre selos e papéis. Pereira chegou a considerar que estava sendo por demais ranzinza com outros quando sua esposa Lucia começou a reclamar de tédio comum. Pouco tempo depois, a mesma Lucia, antes desafiadora e insaciável em sua compulsiva vontade de gozar, tornara-se distante, inacessível. Pensou em matá-la quando a presenciou conversando no telefone: "é verdade que ando sem vontade para nada, mas gostaria de transar por horas e horas. É só me ligar, Melécio!"

Pereira não esperou Lucia se despedir de seu interlocutor para sair de casa. Por uma coincidência polar ártica, sua fuga aconteceu na noite em que chovia gelado naquela cidade insistentemente seca e de horizontes vermelhos. Sentia mais frio do que ódio, e já não sabia o que eram lágrimas e o que eram gotas de água em seu rosto.

Entrou no hotel de néon barato sem pensar em dormir há dois dias atrás. Comia na padaria próxima, comprava cigarros na banca de jornal logo em frente. Dois, quatro maços por vez.

- Pereira! Seu cusão. Pensa que vai ficar aí para sempre? Um dia vai sair, desgraçado. E estarei te esperando, tá me ouvindo? Filho da puta!

abril 23, 2005

O nascimento de uma nação.

Não acreditava que ele pudesse ser realizado. Definitivamente, sete anos de produção, entre falta de grana, descrédito por parte de patrocinadores, falta de capacitação técnica dos operadores, enfim, tudo parece que começou a andar. Na verdade, já havia abandonado esse filme há pelo menos quatro anos. Eu filmara, no início, após ler uma carta da Olivia (então com treze anos), em super 8, porque era barato e um camarada da faculdade tinha o estudio de revelação.

Captei cerca de 7 horas nessa midia, mas tudo em vão. Guilherme, o dono do estudio, morreu numa bad trip em São Carlos, junto morreu seu estudio. Primeira derrota. Continuei com o digital, mais barato. Perdi meu iluminador num acidente de carro em Ribeirão Preto e meu editor foi preso por corrupção de menores. Consegui juntar mais quatro horas de gravação, e não tinha dinheiro pra edição.

Com o meu salário, era o suficiente para bancar as despesas pequenas do dia durante as gravações (comida, bebida e tal). Somava-se a relação ódio/amor/tsão que comecei a sentir pela Olivia, que a essa altura ja estava com seus 18 anos. Depois que ela largou do namorado, começamos a repensar o roteiro, e acabamos por defini-lo, o que entusiasmou toda a equipe (leia-se eu, olivia e ulisses, o dono do adobe premier).

Depois de uma noite de porre e desanimo, conversando com uma amiga no MSN, amiga esta da Dinamarca, contei toda a historia do filme a ela via audio, com toda a retórica que aprendi na faculdade de Direito. Ela gostou, e disse que iria falar com uns amigos sobre isso. Eu deitei e dormi.

Quinze dias depois recebo um telefonema de um homem na Delegacia com um inglês péssimo, pior que o meu. Dizia ser sócio da Zootrope, produtora dinamarquesa, e estaria interessado no meu projeto. Obviamente, achei ser piada de algum amigo insensivel com minha condição de cineasta atormentado. Só comecei a levar a sério quando, no meu MSN, apareceu uma sala de reunião com tres homens, um deles ninguem menos que Lars Von Trier. Queriam que eu mandasse o roteiro e o que eu ja tinha filmado. Pagaram até o fedex dos CDs.

Um mes depois, desembarco em Copenhague, escolho equipe e volto para o Brazil para acabar de filmar, agora em super-35, o que restou de minha historia. O resto é isso que vocês estão vendo. Ainda não me dei conta do absurdo que é isso tudo. Tive até que arrumar uma secretaria para ficar controlando meus horarios. Meu delegado ja avisou que vai abrir outra sindicancia contra mim se continuar recebendo ligações de L.A.

E eu só quero dormir. O que mais queria agora.

abril 8, 2005

LAW AND ORDER

Talvez com o meu novo coldre axilar as pessoas me respeitem mais. Se eu conseguir convencer a D. Ana da padaria me dar uma esfirra de graça com ele, já me sinto feliz. Colocarei um espelho de 4x4 m na minha sala, perto do frigobar.

março 12, 2005

Vila do Cachorro

"Você não consegue dar uma resposta concreta?"

Quem começa o diálogo é Fabiana, inconformada com minha dificuldade de verbalizar o absurdo e, por isso, adorá-lo. Voz monocórdia que tende à melancolia quando está sozinha, possuía a face minuciosamente construída, reta quando necessária, abismal na medida do elogio. Não era gorda, tão pouco magra, tinha o corpo sincero e triste, doce e iluminado. Meu avô dizia para ter cuidado com as mulheres. Meu pai para beijá-las. Meu avo morreu de câncer, meu pai de esperá-las. Mesmo assim começamos a nos querer.

Mandei poemas que colava de vários poetas e os fazia serem meus. Conheci seus amigos e sua paixão pelo cinema dinamarquês. Aos poucos, queria viver para ela e fazê-la feliz. Chocólotra, por mais que reclamasse das calorias, eu ficava satisfeito quando via seus olhos brilharem ao receber meus bombons, em uma confusão de culpa e prazer. Tão cafona eu era. Tão desesperado por seu sorriso de desenho japonês. Preocupada com os rumos da política econômica do governo, fui a seminários e eventos que não entendia só para estar perto de seu cheiro de menina assustada.

"Vocês não tem nada a ver um com o outro e, mesmo assim, são apaixonados" - dizia Cristina, sua amiga.

"Ainda bem, nunca me relacionaria com alguém parecido comigo" -respondia, provocando profundas gargalhadas nas duas irmãzinhas.

Durante seis meses nos procurávamos incansavelmente. Depois, lembrávamos as baladas do Belle & Sebastian. Ocorreu-me de sua aparente tristeza. Tentei reconstruir, ligava, ela não estava, mandava e-mails, ela bloqueava. Como já conhecia aquele roteiro, sabia que a separação seria certa. Esfria naturalmente, por falta de tempo e dedicação. Consegui marcar para assistirmos o filme Dogville no sábado. Assistimos, em um angustioso silêncio. Depois da sessão fomos ao encontro de Cristina, combinamos nos divertir. Ainda no carro, com poucas palavras, Fabiana disse que não gostou do filme. Achou escuro.

"De iluminado já basta a vida".

Eu não deveria ter dito isso, foi o suficiente para que sua paciência a ajudasse despejar suas mágoas ocultas."Eu odeio a Nicole Kidman, prefiro as morenas" - e fez tal comentário com um pequenino sorriso no lábio superior -

"Ela fotografa bem".
"Você a acha bonita?"
"Eu me interesso pelas mulheres que desafiam, me descontroem"
"Eu te descontruo?" - outro silêncio com aqueles olhos que doíam feito agulhadas.
"Pense bem - tentei restituir a palavra - casas sem paredes. Que outra maneira de expressar o incômodo do contemporâneo diante da falta de barreira entre o público e o privado, principalmente num universo pequeno como Dogville, se não em um cenário explícito, com casas que parecem vitrines de lojas, expondo os dramas familiares do outro como se fossem meus . O que sinto não importa a ninguém, quer dizer, somente aqueles que são exageradamente cúmplices de minha vida. Não é necessário mais simplesmente 'ter", é preciso demonstrar para o público o que tenho ou sinto. Passou-se do "ter" para o "parecer". Devo ser bom marido, ter carro do ano, ter uma vida sexual ativa e sadia, bom emprego, ser legal, sair e me divertir como todos fazem, caso contrário não me aloco socialmente. Por mais que pareça ser livre, essa ilusão de liberdade causa um mal-estar porque preciso ser eterna mudança, estar preparados para as mudanças. E, se razoar, é humanamente impossível atingir todos esses objetivos. Vive-se de aguardar um momento melhor. Um momento melhor para vencer, amar, encontrar a pessoa certa. A fragmentação da subjetividade do indivíduo por falta de ideologias para perseguir traz uma violência embutida nos relacionamentos, seja nas pequenas e singelas agressões diárias, atitudes autodestrutivas que ..."
"Como você é chato! Tudo o que me diz e escreve parece ser plágio. É difícil ser comum para você? Assistir novelas, jogar futebol, fazer o que todos fazem? Isso me cansa..."

Ponto final. Acho que acabamos aí. Emudeci para o resto da noite. Encontramos Cristina com seu amigo, que depois soube ser namorado. Nos afastamos, não nos ligamos. Depois, pelos amigos, fui informado que nesta história eu era o terceiro. Fabiana era apaixonada por Cristina. Tentou comigo para esquecer sua amiga, a qual achava aquele sentimento sujo e anormal. Enquanto estávamos juntos, Fabiana queria viver com ela, casar ou algo assim. Cristina arrumou um amigo, que depois virou seu namorado. Fabiana, no dia em que Cristina anunciava seu noivado com o moço, rasgou à facadas seus próprios pulsos como se descascasse um mamão papaia.

Meu avo morreu gelado. Meu pai, impaciente. Fabiana Não morreu. E nunca mais a vi.
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Cheiro de Amoníaco...

(...) Sertãozinho estava quente como de costume. Uma cidade imóvel, triste de pesar. Minhas idas aquele lugar eram poucas e rápidas - cada esquina me espreitava, rostos conhecidos que fingiam me ignorar. Mulheres que amei, professores que riram de minhas histórias sem finais felizes...depois que meus pais morreram, nunca mais tive motivos para querer voltar. Apenas algumas vezes quando um QRU começado em Ribeirão terminava em Sertãozinho. Como agora era.

Minha arma suava no coldre atrás de minha cintura. A ponto quarenta é um excelente equipamento, alto poder de impacto, derruba no ato imediato após o encontro com a massa corporal. No interior do corpo, explode como um pequeno míssil, sem transpassar (pelo menos, assim reza a lenda). Arma urbana, para ferir apenas o alvo desejado sem o risco de machucar ninguém que inocentemente esteja atrás do objetivo. Eu ainda não tinha uma cabrita, nunca pensei na hipótese de precisar de uma vela. Por enquanto essa era a única arma que eu possuía.

Deixei o carro distante dos barracos, debaixo de uma sombra fresca. Caminhei até o lugar fedendo esgoto e restos de comida onde morava a namorada de Filé. Ele já tinha combinado com o delegado para voltarmos juntos, minha presença era mera burocracia.

"Filé não tá. Foi na casa de uma amiga. O sr é o moço da polícia?" - Era uma jovem gorda, de cabelos crespos alisados por alguma coisa melada. Uma criança me olhava pela fresta da porta, imundamente nua. O cachorro dormia em seu pequenino colo tísico.

"Sim. Nós já conversamos."
"Ele me falou. Pediu para você esperar uns minutinhos"
"Onde ele está?"
"Foi entregar um bagulho na casa de uma amiga. Faz pouco tempo que está aqui e já arrumou esses cachos."

A moça sabia que o coração de filé não tinha exclusividade. Possuía várias amantes, uma mais viciada que a outra. Nesse mundo, amar significa proteção, garantia de vida com um mínimo de recursos. E pareciam não se importar em dividir . Poderiam aceitar aquilo por não conhecer o carinho terno e descompromissado. Ou por saberem que a rejeição dói menos que a solidão que os acometeriam, já que amar e pezar são sentimentos gêmeos; um é o medo de sermos estranho aos iguais, para tanto, nos tornamos parte deles. O outro é o medo de sermos iguais, por isso nos distanciamos.

Minha paciência não era mais forte que o calor que estava sentindo. Pedi o telefone de Filé.
"O dele não tá recebendo chamada, mas se o sr. quiser eu tenho o da casa da moça. Dá uma ligadinha lá." - Trouxe de dentro do barraco escuro um pedaço de folha de caderno com um número rabiscado. - "Toma, pode ligar. Já deve ter chegado lá. Mas ele vai achar ruim. Filé é tão fogoso, espera uns deiz minutos e liga."

Coincidências podem ser curiosas. Ou trágicas. Os filmes americanos parecem impossíveis de serem realizados sem os fatos que surgem e se encaixam aleatoriamente para ajudar o enredo. Tudo parece ter motivo pré-estabelecido; sempre se descobre algo inimaginável de maneira acidental, o amor distante que aparece em situações improváveis, o encontro casual. Será catastrófico os fatos apenas irem acontecendo e os personagens se manifestarem pelas suas atitudes diante do corriqueiro?
Essas lembranças surgiram quando tomei consciência (após entender a péssima caligrafia da mulata) de que o telefone da atual namorada de filé era o mesmo número da casa da Cláudia. A moça deve ter percebido que algo de errado acontecera comigo.
"O sr. conhece ela?"
"Ela?"
"A Cráudia. Deve conhecer, na polícia todo mundo sabe quem usa pedra, não é? Eu não, tô sossegada com minha cervejinha, meus filhos..."
"A Cláudia usa crack?"
"Crack? Claro. Vive ligando aqui. Ela que vende pras patis do centro. Qualquer dia ainda vô dar uns esporros nela, onde já se viu. Tá certo que o Filé é gostoso, mas porra, que falta de respeito."

Cláudia usa crack. Cláudia viciada em crack. Cláudia namorando com Filé? "A senhora já viu como ela é fisicamente?"

"Não, mas sei que mora no Jardim Azaléia".

A minha Cláudia estava envolvida com essa sujeira. Dessa vez, chorei por dentro. Pela mesma que me fez chorar a primeira. O calor desapareceu, a favela sumiu, a gorda feia, seu cachorro magro e seu filho fedido não existiam mais. Meu queixo tremia, segurei a única lágrima que pensou em despencar.

O carro era difícil de controlar, o mecanismo do cambio endureceu como ferro fundido. O pedal do freio não estava lá, a embreagem não funcionava, o acelerador estava sem pressão, mole como o asfalto. Tudo era estranho, menos a casa de Cláudia.

Do mesmo modo, o portão alto cor de madeira nobre, o muro rachado , verde. Quando Cláudia esquecia a chave, dávamos a volta pela rua de trás, com a qual sua casa fazia fundos. O muro não era tão alto, pulávamos e depois era só atravessar um pequeno pomar para chegar até a casa. Fiz o trajeto com as lembranças de todas as vezes que entramos por lá amargando minha boca, inúmeras, bêbados, enfurecidos com alguma atitude que o outro fazia. Era a primeira vez em 4 anos que nos veríamos. Não me ocorreu a hipótese de estar enganado.

A porta da cozinha, como de costume, estava entreaberta. Parei silenciosamente para ouvir os murmúrios que saiam do final do corredor. Caminhei pequeno, alto entre as paredes. Do quarto de Cláudia, reconheci sua voz. Parecia grunhir sons vazios, intermitentes. Uma voz masculina surgiu. Ninguém que morasse ali seria dono dela. Uma risada de homem, diferente da primeira voz. -"anda logo, vaca".

Uma brisa ardida golpeou meu nariz. Era crack. Cheiro forte, amoniacado. No beiral da porta, ouvia o homem repetir: -"vamo, vai logo que não acabou, depois você fuma mais."

Ao olhar minha mão, uma mancha prateada apontava para a frente. Não lembrara quando havia sacado a arma. Estava lá, leve, destravada.

Suavemente coloquei-me por inteiro na moldura da porta do quarto para observar aquele quadro chocante de cores barrocas: Três pessoas nuas. Cláudia sentada na cama, tinha uma marica enfiada na boca e um isqueiro na mão. Os olhos serrados foram se abrindo diafragmamente. Pode ter me visto, mas não esboçou a atitude esperada por mim. Filé, também na cama, estava quase em seu colo e sentado a sua frente. Outro homem (?), um negro desconhecido, em pé, preparando carreiras de farinha na cômoda ao lado.

O meu primeiro tiro ensurdeceu por causa da reverberação do estampido. Eu ainda estava no corredor de paredes próximas. O projétil atravessou o ambiente e atingiu Filé no topo da nuca. Vi seu sangue tingir Cláudia de um roxo profundo deixando seu cabelo melado como o da negra gorda do barraco. Ela gritava sem sons. Sua boca abria em exagero.

Ela empurrou o corpo pastoso de Filé que havia caído sobre si com a ogiriza que sabia ter de baratas e bichos alados, minúsculos. Meu segundo tiro acertou a testa de Cláudia; desta vez pude ouvir o som metálico da cápsula tilintar no chão. Ví quando suas orelhas cuspiram sangue e pedaços de carne mole saltarem para os lados. O terceiro tiro só ouvi. O preto da farinha na cômoda acertara meu peito.
Achava que a dor seria pior. Algo insuportável. Veio a decepção. Minha garganta saturou de um líquido quente. Uma clarão de luz atordoou meu equilíbrio e caí.

Antes do preto fugir, tomou minha arma que a mão fraca já não mais conseguia segurar. Pude ver seus olhos de mais perto. Eram saltados, talvez pelo efeito do pó; tinha cílios compridos e um lábio enorme. Tive azar dele não me matar neste momento; preferiu correr.

Esperei deitado o segredo da noite eterna se revelar, finalmente. Não tinha forças para ver o estado de Cláudia. Cheguei a agradecer a atitude do preto fujão; eu mesmo não teria coragem de resolver essa situação assim. E me pareceu ser a mais coerente. O tom do vermelho na minha camiseta branca era mais forte do que aquele que escorria pelo chão. Seria difícil reproduzir com fidelidade na película uma paleta para isto. Talvez mel com groselha, água para dissolver. Transparente demais, precisaria de algo celeste. Tem cheiro de carne de frango. Salsicha...será simples morrer? Que pena, sempre esperei epifanias, cordões de prata saindo de meu corpo. Por enquanto é só uma moleza gostosa. Imaginei quantos irão ao meu velório. Talvez meus pais...preciso vê-los com mais frequência... com quantas mulheres eu teria transado? Patrícia na zona, Andréia, Cláudia, Manuela, Amanda...com seis ou sete garotas até hoje. Será impossível localiza-las. Poderia levantar-me e ligar para alguém, para pedir ajuda ou convidar para meu enterro.

O celular no bolso incomodava. Peguei sem saber para quem ligar. Chamou duas vezes - :" tô morrendo, levei tiro...tô na casa da Cláudia. Casa da Cláudia". Lucas, o investigador, ficou desesperado. Meu dedo parecia feito de pano, visto que não consegui desligar o telefone. Pude ouvir o desespero de Lucas na linha. Pedia-me calma.

Agora parecia ser definitivo. O fole esfaziou-se. A festa acabou. Não vieram anjos, nem diabos. Parece que nunca vou morrer. Sou eterno como o tempo. Tudo era regido por uma batuta estranha, sem cadência. Quando nascemos, não sabemos o que é tempo. Único e fungível. Depois vemos que o sol se põe frequencialmente compassado. Fica noite, fica dia. Tomamos esse pêndulo binário como parâmetro único. A sensação de movimento corrobora nossa expectativa cotidiana.

Vital deve ter chegado a essa conclusão quando questionou o tempo da narrativa. Por que devemos sempre ter o mesmo ritmo, se a mensagem possui várias espécies de linguagens? Tempo, espaço e lugar não caminham tão juntos assim, mas como isso aplica-se fora da obra de arte, até então estática? Seria o cinema apenas um teatro filmado?

Tive que parar de pensar sobre isso devido uma intensa dor que sobreveio. Estava leve e agradável; satisfeito, pois sabia que o fim seria breve. Ouvi vozes doces, aveludadas, pude voar.

Quando acordei já estava na Santa Casa; dois tiros no peito e um pulmão perfurado. Morreram Cláudia, Filé e o preto, que depois soube chamar-se Tigudum. Este último não fora eu, e sim a PM, quando o encontrou pelado e armado, escondido dentro de uma casa vizinha.

Fui afastado da polícia por tempo indeterminado até que fosse apurado o que realmente acontecera. Procedimento comum em casos assim. Matei a Cláudia. Eu nunca vou morrer.

"Sinto por Filé ter matado sua ex-namorada." - era meu delegado avisando como a situação ficou resolvida.

janeiro 31, 2005

Não se tem trabalho. Se faz trabalho.

Desde ontem venho lendo uma entrevista do Mais!, caderno da folha que consegue ir do sacal ao genial em poucas edições. Aliás, Mais! era uma das mídias que chegavam até a Inocoop 2, em Sertão, e mostrava o quanto esse mundo poderia ser estranho. Soma-se a isso o Festival de Cinema Internacional (na minha TV General Eletric P&B) da Rede Cultura, que me apresentou Kieslowisk (O decálogo).

Voltando. Neste domingo, 30/01/2005, André Gorz (80 velas) - último dos ícones do mesmo grupo da esquerda francesa que Sartre e Simone de Beauvoir - concede entrevista a Vladimir Safatle (filosofia USP), abreviando sua biografia acadêmica e apontando caminhos para os rumos do Capitalismo. Ele traz a tona o que parece ser intransponível na atualidade: a desistência na luta do pleno emprego e o engajamento por algo mais radical, em sua concepção, uma "renda de existência incondicional", ou seja, um salário que não seja mais vinculado ao emprego, e pago diretamente pelo Estado. Uau!

"(...) há mais ou menos 25 anos, em todos os países desenvolvidos, o capital tende a abolir o trabalho assalariado. Em seu lugar, reintroduz relações de trabalho e de remuneração individualizadas, precárias, e que que deixam cada trabalhador diante do poder arbitrário de seu empregador. Essa é uma evolução irreversível. A revolução eletrônica economiza quantidades inimagináveis de trabalho, mas ela é administrada de tal maneira que condena uns a inatividade e outros a uma intensidade de trabalho insuportável, trazendo uma insegurança no trabalhador e uma descontinuidade do trabalho até então desconhecidos (...)

(...)Assim, nos dias de hoje, insistir na luta por um emprego seguro e fixo não é apenas um simples erro, mas uma mentira que faz o jogo do patronato, já que desvia a população de lutar por outra gestão e por outra repartição do trabalho e da riqueza(...) O máximo que ela faz é jogar uns contra os outros na batalha por empregos cada vez mais raros.


(...) Eu começei há 2O anos desenvolver uma idéia de que devemos ganhar uma renda contínua para um trabalho descontínuo. Ou seja, que a descontinuidade do trabalho não fosse imposta a pessoas segundo a conveniência dos empregadores, mas se transformasse em um direito de todos, e todos poderiam variar suas atividades e escolher, sem perder rendas, períodos nos quais fariam coisas que não tem valor mercantil. Essa é a base da sociedade da multiatividade.

(...) A produtividade da força de trabalho pós-fordista não depende mais da rapidez e quantidade com o qual o sujeito produz, ou do número de horas trabalhadas. Agora ela depende de um conjunto de faculdades cognitivas, de saberes intuitivos, da capacidade de julgar e reagir ao imprevisto.

(...)Temos cada vez mais a necessidade de tempo para o desenvolvimento do ser humano. e atividades pessoais. Pagar apenas pelo trabalho imediato é um absurdo! É uma forma de exploração canalha, pois desta maneira o capital pretende apropriar-se gratuitamente das capacidades e dos saberes que as pessoas desenvolvem fora de seu horário de trabalho.

(...) Um conflito decisivo. Este é um capitalismo que pretende dominar as pessoas limitando suas capacidades às exigencias mais imediatas do processo produtivo é incapaz de tirar proveito da revolução da microeletrônica.

(...) nessa nova organização, o dinheiro deixa de ser a medida da riqueza e a auto organização libera os indivíduos da impotência e da dependência. O trabalho então é compreendido como algo que se faz, e não algo que se tem. O trabalho liberado da tirania do emprego é um poder que você toma para si, enquanto o emprego é exclusivamente uma relação de dependência."

E um grande tsunâmi toma conta do hemisfério geo-político norte. Acordo para dormir novamente. Levanto, tomo banho, brinco com meus gatos. Leio o jornal enquanto tomo um leite com café. Pela internet, recebo resenhas e vejo as pessoas que amo sorrirem na tela dizendo que, onde estão, as praias são lindas. Vou nadar na piscina do clube. Ao final, tenho que acabar de traduzir os contos perdidos de Kafka que encontrei em um sebo de Jerusalém.

Aos que não dormiram durante a leitura: André Gorz, O Imaterial (106 p., trad. Celso Azzan Júnior - R$ 25,00) - Misérias do Presente, Riquezas do Possível (162 p., trad. Ana Montóia - R$ 30,00), ed. Annablume

dezembro 24, 2004

-- Covarde. Otávio não esperava

-- Covarde.

Otávio não esperava que o bule de café respondesse, e talvez por esse motivo falava com ele. Colocou um pouco de café na xícara, duas torradas com margarina no prato. Café na cama para a namorada gripada.
-- Covarde-- repetiu, dessa vez falando com o armário mesmo.
Era domingo, e ele odiava os domingos, as corridas de fórmula 1 e os programas de televisão que passavam à tarde. Odiava-os por ser praticamente obrigado a assisti-los, em casa ou na casa dos sogros, comendo a mesma comida há anos. Todos os domingos.
-- Você é um covarde.
Falava consigo. A verdade era que reclamava daquela rotina há muito tempo, e há muito tempo a suportava, sem mexer um dedo sequer para mudar. Estava cansado das suas próprias reclamações silenciosas, uma vez que elas mesmas haviam se tornado rotina. A conclusão, inclusive, era a mesma toda semana. Covardia. Ele era covarde. Não tinha coragem de largar Clarissa, de largar o emprego, de largar aquela cidade. Qualquer mudança implicaria na desistência de uma segurança que ele não sabia se poderia viver sem. Era um covarde.

E talvez ainda gostasse de Clarissa. Importava-se com ela. Tinha medo de magoá-la.
Medo. Era um covarde.
Levou a bandeja até o quarto. Clarissa, sempre tão doce, sorriu e agradeceu, beijando-lhe a mão. Havia dito que se sentia melhor, apesar dos olhos ainda inchados.
-- A Renata vem almoçar aqui. A gente ia sair, mas como eu tô desse jeito, ela disse que vinha pra cá. Tudo bem?
-- Bom-- respondeu Otávio. Espero que ela goste de Rei Leão.

Clarissa deitada inchavam os quadris. As bochechas salientes, ruborentas, carregavam cada duvida de Otávio para um momento futuro no qual ela entenderia sua angústia. Um instante em que estaria, enfim, dentro de uma viatura da Polícia Militar, fardado, abordando qualquer um que lhe olhasse diferente nas madrugas. Abandonar o uniforme azul de mentira, o calibre trinta e oito cinco tiros. Poder usar o colete cinza, brasão e uma PT ponto quarenta. Onze tiros, uau! Preta ou prata, pouco importa. Queria a viatura, a madrugada e colegas de faina. Seria truculento, mas nunca deixaria a impessoalidade do ofício lhe embrutecer, já que filhos ainda queria ter.

Estava preparado para o concurso. O exame físico seria fácil, repete todos os dias os exercícios exigidos. Das três barras, faz nove. Três mil metros em onze minutos e trinta. Perfeito, se não fosse a prova teórica. Matemática, geografia, história e português. Deseja logo fazer o supletivo e conseguir o diploma do segundo grau para preencher o último dos requisitos. O primeiro grau quase não concluiu. Se não fosse a insistência de Clarissa teria ficado com a sétima série em seu currículo para o resto da vida. Ela o convenceu que o primeiro passo para a Polícia ser atingir a graduação necessária. Sete meses estudou para concluir o restante dos anos perdidos. Agora, mistura-se uma vontade de estudar com desalento. Confunde-se com tempos verbais, datas de eventos históricos, nomes de rios.

Por enquanto teria que se contentar com o emprego de segurança no banco, a mesma agência de Clarissa, no centro. Ele entrava mais cedo no expediente, mas saiam juntos.