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fevereiro 26, 2009

Ponto Quarenta - convite para o lançamento

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Até que enfim, a tão esperada quiabada. O boteco é confortável, cerveja barata e gente bacana. Se caso você tiver problemas com a polícia, recomendo que não apareça. A casa estará cheia de gente armada com vontade prender. Mas se tiver problemas, e mesmo assim quiser dar o ar da graça para ter o livro autografado, não se acanhe. Darei um jeito de arredondar o seu B.O. e passar um pano para meu querido leitor bandido.

Dia 04 de março (quarta-feira). À partir das 18h00, com entrada franca. R$ 16,00, lá na minha mão é mais barato. Policiais da corregedoria pagam mais caro e do DENARC levam de graça, para nunca deixarem de sorrir, já que o livro é uma homenagem à narcótica paulistana.

Corre lá, porque tá acabando. O Canto da Madalena é o melhor lugar para esse tipo de evento. Não pude agendar para uma quinta-feira, porque é dia de MPB. Mas é muito fácil de chegar:

Gostaria que todos os amigos da grande Blogsfera Policial estivessem lá. Seria ótimo conversar ao vivo com essa galera guerreira. Conto, então, com a presença dos paulistanos, nem que seja só para um abraço. O bom tira sabe voar e dar o gato no plantão. Qualqquer coisa, diga que foi buscar o QSA na pizzaria.

Até lá.

fevereiro 6, 2009

PONTO QUARENTA - O livro

Acabou de nascer. Foi um parto. Já tínhamos anunciado há muito tempo, e a coisa emperrou na burocracia, entre um processo administrativo aqui, um inquérito policial ali. Logo chegaremos na Corte Interamericana de Direitos Humanos
Acho que o título do livro é melhor do que todo o miolo. Não posso falar da capa, porque el_Rey fez outra de suas genialidades e bolou umas das mais legais que já vi para um romance policial. Aliás, foi a única cousa que restou de mim naquele lugar. Durante os cinco anos, fiquei 24h com essa quadrada enfiada na bunda, no bom sentido. Bocuda, era o nome da criança. Gritava alto sem rebolar.
O livro é um arremedo de pequenas histórias até a metade. Então, há um plot point que o obriga a seguir na linearidade da narrativa. Um assassinato logo na apresentação, para prender o leitor desatento. Um pouquinho de sexo depravado e infantil, palavrões, corrupção e humor inteligente. A fórmula perfeita para um romance policial de sucesso. Descobri que só sei escrever boletins de ocorrências.
Como sou gato escaldado na corregedoria, fiz um disclaimer logo na segunda página, bem didático, quase desenhado, para deixar bem claro que tudo não passa de uma fantasiosa ficção. Tenho certeza que alguns tiras safados e outros delegados lixos vão se identificar com algumas citações. Bem como todo policial honesto e sofredor da linha de frente pode se reconhecer em cada passo que o investigador protagonista dá.

Por via das dúvidas, negarei até desaparecerem comigo. Ficção, ficção, ficção. Ele iria sair pelo selo Vira-Latas, mas o editor disse que não está acostumado a receber ameaças de morte. Por isso tive que ancorá-lo aqui, na nossa casinha mesmo

Podem comprar clicando no botão abaixo. R$ 20,00 para receber no conforto da sua delegacia, em até absurdos 12 vezes (milagres do pagseguro), com entrega em carta registrada. Ou R$ 16,00 na minha mão. Diversão garantida para a família toda. Em um formatinho pocket, para caber nos autos do processo que virá. Fique a vontade para passear pela página de vendas.

Divirtam-se.


agosto 8, 2008

Lesson one.

"Não tem erro, Vital. É pegar o cara e apertar até ele soltar a grana. Estelionatário é tudo cuzão, não há perigo algum."

Ricardo, em certo aspecto, tinha razão. O perfil de estelionatário não condiz com a violência. Normalmente são ótimos de lábia, e negam até o último instante. Não precisam de pancadas. O que gosto neles é que são sensíveis ao ponto de saberem o momento certo de oferecer o acerto. O único problema é não se perder em meio a tanta mentira.

O estelionatário faz da confusão sua ferramenta de trabalho. Temos que mostrar muita convicção para não cair na história sedutora que eles sempre apresentam. E, claro, o dinheiro que conseguem auferir nos golpes é diretamente proporcional à generosidade que eles possuem com os polícias.

Ricardo tinha certeza que o homem que procurávamos estava envolvido em um esquema de fraude de imóveis no litoral. Prendemos seu carro, e descobrimos que ele registrava os automóveis em nomes de pessoas inexistentes. Normalmente os nomes eram de coreanos ou chineses. Pura fantasia. Mas os documentos eram todos quentes, sinal de que havia cooperação de alguém do DETRAN, ou do IRRGD. O que, para nós, era ótimo, porque se desse alguma zica, e precisássemos de ajuda para escapar da justiça, era só ameaçar jogar a responsabilidade no Departamento de Trânsito, e algum delegado diretor se sentiria ameaçado ao ponto de mandar esquecer a história.

Paramos em frente ao prédio de três andares em que morava o sujeito.

"Vital. É entrar, apertar o filha da puta, pegar a grana e sumir"

Dito e feito. O porteiro do prédio se sentiu ameaçado diante das nossas funcionais, e nos deixou subir sem o anúncio de praxe. Já em frente ao apartamento, bastou tocar a campainha e o trouxa abriu uma fresta da porta. Quando notou que éramos nós, tentou fechá-la, sem êxito, porque a chutei com a sola do sapato, que chegou a derrubá-lo de joelhos.

"Zé" - começou o Ricardo enquanto eu fechava a porta - "Tua casa já caiu. Passa o que você tem aí, e vamos embora sem que você assine nada."

"Eu não tenho nada, não, senhor. Poxa, vocês entram na minha casa, me agridem..." Ricardo, com a palma da mão, empurrou o queixo do 171 até sua cabeça tombar para trás, de forma que interrompesse a frase de maneira brusca.

"Quem te bateu? Eu te bati? O rapaz ali de bateu?" - e socava-lha o coco da cabeça.
"Ai. Ai. Bateu não, moço. Desculpa. Olha, eu não tenho dinheiro aqui. Quero dizer, tenho um pouquinho no quarto, dentro do armário. Não é muito, mas podem levar."

Imediatamente fui conferir se era mesmo verdade a grana do armário. O Ricardo ficou na sala, com o homem que chorava no sofá.

"E aí? Alguma coisa" - gritava Ricardo, ansioso para descobrir a grana.
"Nada ainda" - respondi.

Ricardo, demonstrando impaciência, foi até o quarto onde eu estava e olhou pela porta.

"Merda, acho que esse corno ta dando o tombo na gente"
"Achei."
- um caixa de madeira com um bolo de notas de cinqüenta reais. Comecei a contar, sendo seguido pelo olhar curioso do meu parceiro.

Mas nos esquecemos no cara lá na sala, que neste momento abria a janela que dava para a rua, e começou a gritar:

"Polícia!! Socorro!!! Ladrão na minha casa!! To sendo roubado!"

Imediatamente, pegamos todo o dinheiro que conseguimos e tentamos segurar o cara. Por algum motivo, mesmo com nossos socos, ele não parava de gritar por ajuda. Quando notamos que qualquer tentativa de interrompê-lo seria infrutífero, resolvemos sair dali correndo.

Descemos as escadas, e já na porta do prédio, uma aglomeração de pessoas na rua nos observava sair, sob os gritos do homem lá na janela dele. "Polícia! Ladrão. Pega!"

Ninguém sequer ameaçou qualquer atitude para fazer o que o homem pedia. As pessoas que estavam ali pareciam confusa, pois não aparentávamos ser tão bandidos assim. E, na dúvida, apenas olhavam nossa fuga silenciosa. Eu só temia a aparição da PM.

No carro, longe dali, contei dezessete mil reais em notas de cinqüenta. Ficamos contentes, muito mesmos. Eu poderia acabar de pagar o curso de inglês, e depois dar entrada na moto que preciso para ir ás aulas.

Ficamos de repartir no outro dia. Contudo, quando apareceu com a grana, Ricardo estava desolado:

"Esquece, Vital. A grana toda era falsa. O que esperar de um estélio? Só consegui separar essas aqui. Tem duzentos reais pra você."
- e me entregou o outro montinho de notas falsas.

Fiquei triste em ver que não poderia fazer o inglês. Tempos depois, falando com o chefe dos tiras, ele me contou que suspeitava que o Ricardo chuveirava a gente, tirando serviços de bandido sem repartir a graça do lucro com a equipe.

"Menino" - ele me dizia - "Sei que você é íntegro e ético, e não faria isso. Mas no Ricardo eu não confio. Sabia que ele sumiu com nosso estoque de notas falsas? Ta sabendo de algum trampo que ele levantou sem nos avisar?"

"Não. Não sabia."

Entregar o parceiro, por mais sujo que ele seja, não é digno na polícia. E o chefe dos tiras sabia disso. Por isso, na outra semana, para evitar que eu caísse nesse erro, me colocou no plantão para fazer BOs.

agosto 6, 2008

Um Marlboro em Pequim

Eu não vou para as olímpiadas. Não que me ocorresse ir. Afinal, alguém precisa ficar por aqui para manter a lei e a ordem.

O Ricardo, por exemplo, desde terça pasada (incluindo o final de semana), está debruçado sobre o chassi de um Vectra roxo, no pátio do DP. Ele havia abordado o veículo e descobriu que o seu dono era estelionatário. Achou estranho o fato dos documentos estarem em nome de uma mulher coreana, sem registro no cadastro de condutores.

E não é que o carro tinha mesmo rolo!

Ricardo descobriu que aquele carro era parte de um esquema que envolvia negócio de imóveis no litoral. Liberou o dono, com a promessa de que ele voltaria com o valor de dois carros iguais aquele. Ricardo agora passava os dias olhando a lataria, centímetro a centímetro, na tentativa de encontrar qualquer adulteração que onerasse ainda mais o preço do não indiciamento do dono do carro. Já havia feito buscas na PRODESP, no INFOSEG, no RDO, no DETRAN... nada de estranho com o carro... só com a coreana, que ainda não sabia se existia mesmo.

Sua única preocupação era como deixar o caso em silêncio, sem que outras equipes descobrissem a possibilidade de lucro que aquilo poderia oferecer. Se caísse nos ouvidos do delegado do DP, era prejuízo na certa. Ele iria ficar com pelo menos 80% das rendas. Eu ficava feliz em vê-lo entretido com tanto empenho naquilo. Assim, longe de mim, eu não precisava fingir que gostava de tirar grana de bandido, e sobrava tempo para jogar counter strike na minha sala do DP.

Mas na verdade, gostaria sim de ter ido para a China. Sentar na praça da liberdade, almoçar um macarrão engordurado acompanhado de carne de cachorro, e fumar um Marlboro branco enquanto caminhava por aquelas ruas estreitas.

outubro 15, 2005

Paciência é uma de minhas virtudes.

Sábado à tarde, os dois pelados na cama:
- O que você quer fazer? - perguntei.
- Hmm...sexo!
- De novo?

outubro 9, 2005

Pedagogia I

Certa vez minha reclamou que minha sobrinha , Letícia (3 anos), estava apanhando de um garotinho na escola. Ontem soube da notícia de que Letícia havia sido mandada para a Diretoria (?) porque fora encontrada beijando o mesmo garoto atrás da porta da sala de aula. Hoje tive a chance de conversar com essa menininha.
- Lê, o menino te bate sempre?
- Bati sim, tio. Arranha também.
- E você deu um beijo nele?
- Dei sim. Assim, ó - faz o biquinho típico dos beijoqueiros.
- E agora, Lê, o que você vai fazer?
- Vou sentar a mão na cara dele amanhã antes da aula.

Pensei comigo: é a prova contumaz de que as mulheres nascem com essa habilidade de nos assustar e nos fazer apaixonar. Malditas!

outubro 4, 2005

Meu querido parceiro.

Comecei a me indispor com meu parceiro, Vital. Ele quer que me mude para Patrocínio, onde trabalho. Nunca, não mesmo. Morar sozinho em cidade pequena é um dedo no gatilho, na minha orelha. Prefiro ficar viajando como estou agora. São 20 minutos, nada de anormal. Ele alega que não pode fazer diligências à noite sem mim. Baela!

Quando a PM precisa dele nos seus plantões ele se esconde em casa. Ele quer um parceiro que goste de pescar e criar porcos como ele. Acompanhe:
- Bressane, muda pra cá. Vai ser melhor pra todo mundo.
- Esquece, Vital.
- Casa com sua namorada e vem morar aqui.
- Eu morar aqui? E o que vou fazer da vida?
- Ué, vai ser investigador que nem eu. - comecei a rir, ele ficou quieto, percebi que tinha magoado aquele coração acostumado a domar boi bravo - É sério, Bressane. Todo homem precisa de uma fêmea para cozinhar, lavar a roupa...
- Minha namorada não sabe cozinhar nem lavar roupas.
- Não? mas então por que está namorando ela?

maio 30, 2005

Finalmente resolvi jogar o tal

Finalmente resolvi jogar o tal do paciencia spider. Jogo estranho, mas o campeonato desse jogo na delegacia não me deixava pensar em outra coisa. No plantão de domingo, comecei com um naipe apenas. tantas fileiras, tantas fileiras...

O telefone toca, era o cabo Freitas da PM:
- Franchini, a tropa ta precisando de você lá na Vila Chora Neném.
- Pra que? - quem sabe não desanimava o soldado a desistir de minha presença na operação realizada por eles...
- Eles querem entrar na casa do Tigudum.
- É droga? Flagrante?
- Não. O Tigudum bateu no soldado Edgard. Você acha que eles podem entrar?

Entrar na casa de alguem sem flagrante? Apenas por vaidade de um policial? Perigoso. No mínimo eles esperavam que eu aprovasse a idéia, e sei lá, deferir uma espécie de Mandado de Busca e Espancamento. Acabei por ir, afinal, a gente nunca sabe de quando vamos precisar de uma tropa armada e furiosa para nos ajudar. E o Edgard era um amigo, dos bons.

Quatro viaturas na favela. Três corsas e uma Blaser. Não gosto das Blasers...são grande, bonitas, mas capotavam facilmente em qualquer manobra mais ousada. Corsas eram pequenas, e não causam impacto na chegada da abordagem. O bom mesmo era a Ipanema. Robusta, de arranque poderoso e motor baruhento. 12 policiais olhavem-me com ansiedade - e aí, Franchini...vamos entrar?

- Deixa pra lá, Edgard...olha a sua volta, tá cheio de gente olhando. Acalma esse coração, uma hora o tatu sai da toca, na madrugada...e aí, serão só vocês e ele - Eu deveria ser pastor evangélico. Os policiais se recolheram, as viaturas foram embora. Eu voltei pro spider. Perdi três partidas seguidas.

Na madrugada, aparecem a PM trazendo o Tigudum algemado para a Delegacia. - Aê, Franchini, bem que você falou...o filho da puta tá aqui. Após longa sessão de argumentaçõ ostensiva, o Tigudum desculpou-se pelas agressões cometidads contra o Edgard, saiu agradecendo-o pelo tratamento "não sei onde estava com minha cabeça, foi mal, Ed"

Quem sabe se eu começar a me preocupar com uma só fileira por vez. Assim fica mais facil começar do rei, para a rainha, valete...mas esse maldito nove que nunca aparece!!

maio 22, 2005

tem dias que o dia

Tem dias que o dia fodeu...nem sei o que errei...mas queria que ele não tivesse começado. Mas se começasse, faria tudo de outra maneira. Como faria com minha vida...faria tudo de outro jeito...à merda esse negócio de nunca se arrepender, ou se arrepender somente daquilo que deixou de fazer...papo de hipócrita que se envergonha calado.

Quero recomeçar...

maio 21, 2005

Processo 0456/2005 - tentativa de homicidio.

Durante uma audiência no fórum local, o garoto relatava a juiza que suas declarações na delegacia eram mentirosas, pois tudo o que ele havia dito fora feito sob coação, ou seja, o investigador Franchini havia levado ele para o mato para que falasse onde estava a arma de fogo (um revólver 38) com o qual tentara matar pessoa que não vem ao caso.

- O investigador Franchini levou o senhor para o mato?
- É...me levou.
- Pra que ele te levou pro mato.
- Ele me obrigou a assinar isso aí que ta escrito, é tudo mentira.
- Por que ele te levou para o mato?
- Não sei. Ele me fez assinar esse papel..
- O senhor leu o que estava escrito antes de assinar?
- Sim, li.
- Por que ele te levou para o mato? Ele te ameaçou?
- Não excelência. Ele só me levou pro mato.

(o oficial de justiça que acompanhava a audiência disse que, neste instante, uma pertubadora frustação preencheu a voz do garoto)

maio 12, 2005

Ainda voarei.

Ainda voarei, tal qual ver por através de paredes para ver as meninas no banheiro. Sempre quis dormir 23 horas initerruptas e acordar sem culpa ou dores nas costas. Morrer só pra saber antes de todo mundo para onde vai a luz quando o escuro aparece.

Vejam vocês: preciso escrever uma monografia além de 70 páginas até outubro sobre tributação de fomento à industria audiovisual brasileira. Não acredito que exista indústria, fomento, audiovisual e Brasil. Meu orientador está satisfeito com minha maneira impassivel de escrever. Afinal, um ministro do Tribunal de Justiça de São Paulo deve ter coisas mais interessantes para ler à um punhado de linhas impregnadas de romantismo e sonhos.

Eu deveria ler mais coisas obscuras, sem perder a obssesão pelas palavras reluzentes e parnasianas. A ambição que me ajudou a apanhar tijolinhos pelo caminho é a mesma que uso para destruir o pouco que construo. Sempre quis viver 5000 anos para conduzir a humanidade ao um sintetizar de unidades em totalidades organizadas. Voar, manja? - (preciso ver mais a Olivia apertar os olhinhos olhando para o lado enquanto morde o canto dos labios, numa infinita definição de sossego). Há dias do mês em que acordo equinóide. Entre os dia 10 e 15.

Serei mudo um dia. Calarei aos poucos para não chamar demasiada atenção daqueles que percebem minha voz no cotidiano. Julio Bressane me mostrava seu "São Jerônimo", um absurdo de plasticidade. Cheio de perguntas entaladas, suspirei a ele como conseguia fazer-se entender pela equipe responsável pela realização de suas obras. Não imaginava como conseguia se explicar ao fotógrafo, ao captador de som, ao homem do boom, editor, enfim, aquela tropa de anônimos que esperam ansiosamente as orientaçào do diretor para poderem trabalhar em seus ofícios também mudo:

- Quer saber mesmo saber? O silêncio. O silêncio é o melhor do relacionamento. Só no silêncio nós somos realmente humanos. Esqueça esse negócio de linguistica e linguagem. Todo relacionamento só depende disso, compreensão mútua no silêncio.

Ele precisava dizer isso. E eu ouvir.

abril 30, 2005

Pereira

- Pereira, seu cretino! Abre essa porra.- A voz grave de Melécio ainda o assutava, não somente no tom a ela imposta, mas também na impressão causada em seu corpo franzino, arrepiado. Abre, caralho! Até quando vai ficar aí? Já são dez e quarenta.

Melécio era seu companheiro no setor de carimbos da prefeitura. Vizinhos de mesa e cúmplices de almofada para tinta de carimbo. Iam juntos para a repartição pela manhã e, ao meio dia, trocavam vogais durante o almoço em fugazes exposições sobre o vencimento mirrado, qualidade da borracha dos carimbos, quantidade de comida nas marmitas, dentre outros assuntos que nem sequer eles mesmos se lembravam ao final do dia. Pereira não gostava de Melécio, eram poucas as pessoas pelas quais sentia algo, e Melécio o incomodava.

- Deixa de ser infantil, Pereira. A gente precisa conversar. Dividimos muita coisa nessa vida pra você fazer isso comigo. Não merecemos estar assim.

A inconveniência de Melécio era assutadora aos olhos de pessoa tão reservada feito Pereira. Achava-o inconveniente, pois tratava de seus problemas com a mesma facilidade com que pressionava seus instrumentos de trabalho sobre selos e papéis. Pereira chegou a considerar que estava sendo por demais ranzinza com outros quando sua esposa Lucia começou a reclamar de tédio comum. Pouco tempo depois, a mesma Lucia, antes desafiadora e insaciável em sua compulsiva vontade de gozar, tornara-se distante, inacessível. Pensou em matá-la quando a presenciou conversando no telefone: "é verdade que ando sem vontade para nada, mas gostaria de transar por horas e horas. É só me ligar, Melécio!"

Pereira não esperou Lucia se despedir de seu interlocutor para sair de casa. Por uma coincidência polar ártica, sua fuga aconteceu na noite em que chovia gelado naquela cidade insistentemente seca e de horizontes vermelhos. Sentia mais frio do que ódio, e já não sabia o que eram lágrimas e o que eram gotas de água em seu rosto.

Entrou no hotel de néon barato sem pensar em dormir há dois dias atrás. Comia na padaria próxima, comprava cigarros na banca de jornal logo em frente. Dois, quatro maços por vez.

- Pereira! Seu cusão. Pensa que vai ficar aí para sempre? Um dia vai sair, desgraçado. E estarei te esperando, tá me ouvindo? Filho da puta!

abril 23, 2005

O nascimento de uma nação.

Não acreditava que ele pudesse ser realizado. Definitivamente, sete anos de produção, entre falta de grana, descrédito por parte de patrocinadores, falta de capacitação técnica dos operadores, enfim, tudo parece que começou a andar. Na verdade, já havia abandonado esse filme há pelo menos quatro anos. Eu filmara, no início, após ler uma carta da Olivia (então com treze anos), em super 8, porque era barato e um camarada da faculdade tinha o estudio de revelação.

Captei cerca de 7 horas nessa midia, mas tudo em vão. Guilherme, o dono do estudio, morreu numa bad trip em São Carlos, junto morreu seu estudio. Primeira derrota. Continuei com o digital, mais barato. Perdi meu iluminador num acidente de carro em Ribeirão Preto e meu editor foi preso por corrupção de menores. Consegui juntar mais quatro horas de gravação, e não tinha dinheiro pra edição.

Com o meu salário, era o suficiente para bancar as despesas pequenas do dia durante as gravações (comida, bebida e tal). Somava-se a relação ódio/amor/tsão que comecei a sentir pela Olivia, que a essa altura ja estava com seus 18 anos. Depois que ela largou do namorado, começamos a repensar o roteiro, e acabamos por defini-lo, o que entusiasmou toda a equipe (leia-se eu, olivia e ulisses, o dono do adobe premier).

Depois de uma noite de porre e desanimo, conversando com uma amiga no MSN, amiga esta da Dinamarca, contei toda a historia do filme a ela via audio, com toda a retórica que aprendi na faculdade de Direito. Ela gostou, e disse que iria falar com uns amigos sobre isso. Eu deitei e dormi.

Quinze dias depois recebo um telefonema de um homem na Delegacia com um inglês péssimo, pior que o meu. Dizia ser sócio da Zootrope, produtora dinamarquesa, e estaria interessado no meu projeto. Obviamente, achei ser piada de algum amigo insensivel com minha condição de cineasta atormentado. Só comecei a levar a sério quando, no meu MSN, apareceu uma sala de reunião com tres homens, um deles ninguem menos que Lars Von Trier. Queriam que eu mandasse o roteiro e o que eu ja tinha filmado. Pagaram até o fedex dos CDs.

Um mes depois, desembarco em Copenhague, escolho equipe e volto para o Brazil para acabar de filmar, agora em super-35, o que restou de minha historia. O resto é isso que vocês estão vendo. Ainda não me dei conta do absurdo que é isso tudo. Tive até que arrumar uma secretaria para ficar controlando meus horarios. Meu delegado ja avisou que vai abrir outra sindicancia contra mim se continuar recebendo ligações de L.A.

E eu só quero dormir. O que mais queria agora.

março 27, 2005

Kipar!

Há grades altas e rígidas na frente da casa, como barricadas daquelas encontradas em guerras. Não notaria nada de estranho, se não fossem as crianças falando um idioma incompreensível e usarem chapéuzinhos no topo das cabeças. Kipar.

Sempre quis perguntar o que faziam ali naquela casa estranha. Ontem, a porta da garagem estava aberta. No interior, pude ver mesas com vários homens magros, barbas grande e pontudas, vestidos de preto, chapéus estranhos....em volta das mesas, parecem comemorar algo. Sorriem, fuçam em seus cavanhaques pretos e enormes. Tramam algo?

Essa minha mania de trabalhar durante as folgas!!!

março 12, 2005

Vila do Cachorro

"Você não consegue dar uma resposta concreta?"

Quem começa o diálogo é Fabiana, inconformada com minha dificuldade de verbalizar o absurdo e, por isso, adorá-lo. Voz monocórdia que tende à melancolia quando está sozinha, possuía a face minuciosamente construída, reta quando necessária, abismal na medida do elogio. Não era gorda, tão pouco magra, tinha o corpo sincero e triste, doce e iluminado. Meu avô dizia para ter cuidado com as mulheres. Meu pai para beijá-las. Meu avo morreu de câncer, meu pai de esperá-las. Mesmo assim começamos a nos querer.

Mandei poemas que colava de vários poetas e os fazia serem meus. Conheci seus amigos e sua paixão pelo cinema dinamarquês. Aos poucos, queria viver para ela e fazê-la feliz. Chocólotra, por mais que reclamasse das calorias, eu ficava satisfeito quando via seus olhos brilharem ao receber meus bombons, em uma confusão de culpa e prazer. Tão cafona eu era. Tão desesperado por seu sorriso de desenho japonês. Preocupada com os rumos da política econômica do governo, fui a seminários e eventos que não entendia só para estar perto de seu cheiro de menina assustada.

"Vocês não tem nada a ver um com o outro e, mesmo assim, são apaixonados" - dizia Cristina, sua amiga.

"Ainda bem, nunca me relacionaria com alguém parecido comigo" -respondia, provocando profundas gargalhadas nas duas irmãzinhas.

Durante seis meses nos procurávamos incansavelmente. Depois, lembrávamos as baladas do Belle & Sebastian. Ocorreu-me de sua aparente tristeza. Tentei reconstruir, ligava, ela não estava, mandava e-mails, ela bloqueava. Como já conhecia aquele roteiro, sabia que a separação seria certa. Esfria naturalmente, por falta de tempo e dedicação. Consegui marcar para assistirmos o filme Dogville no sábado. Assistimos, em um angustioso silêncio. Depois da sessão fomos ao encontro de Cristina, combinamos nos divertir. Ainda no carro, com poucas palavras, Fabiana disse que não gostou do filme. Achou escuro.

"De iluminado já basta a vida".

Eu não deveria ter dito isso, foi o suficiente para que sua paciência a ajudasse despejar suas mágoas ocultas."Eu odeio a Nicole Kidman, prefiro as morenas" - e fez tal comentário com um pequenino sorriso no lábio superior -

"Ela fotografa bem".
"Você a acha bonita?"
"Eu me interesso pelas mulheres que desafiam, me descontroem"
"Eu te descontruo?" - outro silêncio com aqueles olhos que doíam feito agulhadas.
"Pense bem - tentei restituir a palavra - casas sem paredes. Que outra maneira de expressar o incômodo do contemporâneo diante da falta de barreira entre o público e o privado, principalmente num universo pequeno como Dogville, se não em um cenário explícito, com casas que parecem vitrines de lojas, expondo os dramas familiares do outro como se fossem meus . O que sinto não importa a ninguém, quer dizer, somente aqueles que são exageradamente cúmplices de minha vida. Não é necessário mais simplesmente 'ter", é preciso demonstrar para o público o que tenho ou sinto. Passou-se do "ter" para o "parecer". Devo ser bom marido, ter carro do ano, ter uma vida sexual ativa e sadia, bom emprego, ser legal, sair e me divertir como todos fazem, caso contrário não me aloco socialmente. Por mais que pareça ser livre, essa ilusão de liberdade causa um mal-estar porque preciso ser eterna mudança, estar preparados para as mudanças. E, se razoar, é humanamente impossível atingir todos esses objetivos. Vive-se de aguardar um momento melhor. Um momento melhor para vencer, amar, encontrar a pessoa certa. A fragmentação da subjetividade do indivíduo por falta de ideologias para perseguir traz uma violência embutida nos relacionamentos, seja nas pequenas e singelas agressões diárias, atitudes autodestrutivas que ..."
"Como você é chato! Tudo o que me diz e escreve parece ser plágio. É difícil ser comum para você? Assistir novelas, jogar futebol, fazer o que todos fazem? Isso me cansa..."

Ponto final. Acho que acabamos aí. Emudeci para o resto da noite. Encontramos Cristina com seu amigo, que depois soube ser namorado. Nos afastamos, não nos ligamos. Depois, pelos amigos, fui informado que nesta história eu era o terceiro. Fabiana era apaixonada por Cristina. Tentou comigo para esquecer sua amiga, a qual achava aquele sentimento sujo e anormal. Enquanto estávamos juntos, Fabiana queria viver com ela, casar ou algo assim. Cristina arrumou um amigo, que depois virou seu namorado. Fabiana, no dia em que Cristina anunciava seu noivado com o moço, rasgou à facadas seus próprios pulsos como se descascasse um mamão papaia.

Meu avo morreu gelado. Meu pai, impaciente. Fabiana Não morreu. E nunca mais a vi.
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dezembro 24, 2004

-- Covarde. Otávio não esperava

-- Covarde.

Otávio não esperava que o bule de café respondesse, e talvez por esse motivo falava com ele. Colocou um pouco de café na xícara, duas torradas com margarina no prato. Café na cama para a namorada gripada.
-- Covarde-- repetiu, dessa vez falando com o armário mesmo.
Era domingo, e ele odiava os domingos, as corridas de fórmula 1 e os programas de televisão que passavam à tarde. Odiava-os por ser praticamente obrigado a assisti-los, em casa ou na casa dos sogros, comendo a mesma comida há anos. Todos os domingos.
-- Você é um covarde.
Falava consigo. A verdade era que reclamava daquela rotina há muito tempo, e há muito tempo a suportava, sem mexer um dedo sequer para mudar. Estava cansado das suas próprias reclamações silenciosas, uma vez que elas mesmas haviam se tornado rotina. A conclusão, inclusive, era a mesma toda semana. Covardia. Ele era covarde. Não tinha coragem de largar Clarissa, de largar o emprego, de largar aquela cidade. Qualquer mudança implicaria na desistência de uma segurança que ele não sabia se poderia viver sem. Era um covarde.

E talvez ainda gostasse de Clarissa. Importava-se com ela. Tinha medo de magoá-la.
Medo. Era um covarde.
Levou a bandeja até o quarto. Clarissa, sempre tão doce, sorriu e agradeceu, beijando-lhe a mão. Havia dito que se sentia melhor, apesar dos olhos ainda inchados.
-- A Renata vem almoçar aqui. A gente ia sair, mas como eu tô desse jeito, ela disse que vinha pra cá. Tudo bem?
-- Bom-- respondeu Otávio. Espero que ela goste de Rei Leão.

Clarissa deitada inchavam os quadris. As bochechas salientes, ruborentas, carregavam cada duvida de Otávio para um momento futuro no qual ela entenderia sua angústia. Um instante em que estaria, enfim, dentro de uma viatura da Polícia Militar, fardado, abordando qualquer um que lhe olhasse diferente nas madrugas. Abandonar o uniforme azul de mentira, o calibre trinta e oito cinco tiros. Poder usar o colete cinza, brasão e uma PT ponto quarenta. Onze tiros, uau! Preta ou prata, pouco importa. Queria a viatura, a madrugada e colegas de faina. Seria truculento, mas nunca deixaria a impessoalidade do ofício lhe embrutecer, já que filhos ainda queria ter.

Estava preparado para o concurso. O exame físico seria fácil, repete todos os dias os exercícios exigidos. Das três barras, faz nove. Três mil metros em onze minutos e trinta. Perfeito, se não fosse a prova teórica. Matemática, geografia, história e português. Deseja logo fazer o supletivo e conseguir o diploma do segundo grau para preencher o último dos requisitos. O primeiro grau quase não concluiu. Se não fosse a insistência de Clarissa teria ficado com a sétima série em seu currículo para o resto da vida. Ela o convenceu que o primeiro passo para a Polícia ser atingir a graduação necessária. Sete meses estudou para concluir o restante dos anos perdidos. Agora, mistura-se uma vontade de estudar com desalento. Confunde-se com tempos verbais, datas de eventos históricos, nomes de rios.

Por enquanto teria que se contentar com o emprego de segurança no banco, a mesma agência de Clarissa, no centro. Ele entrava mais cedo no expediente, mas saiam juntos.